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DANS L'APPLICATION DES SANCTIONS PÉNALES EN ITALIE

Figura 25 - Capas do livro “Emmanuela”, primeira e segunda edição, respectivamente

Quando o fazer artístico é mais importante que a mensagem a ser passada, o texto ganha um aspecto diferente. E é até difícil para quem analisa fazer críticas; é mais difícil transformar uma obra de arte num objeto discursivo, em enunciados.

O livro Emmanuela é um caso desses; um livro de extrema sensibilidade: que possui um comprometimento com a arte e o fazer artístico; um livro que toca aquelas pessoas que leem; duma beleza simples e singela: um livro de Literatura Infantil, mas que adultos mesmo sentem o peso do belo condensado em texto e ilustração “para criança”. “Para criança” apenas formalmente, já que algumas obras transcendem as linhas tênues que existem entre uma coisa e outra.

Fazendo o trabalho de transformar esta obra num artefato cultural e analisando-a discursivamente, poderemos dizer que se trata dum livro infantil que traz enunciados característicos, alguns comuns aos outros livros que analisamos até agora: relações familiares; criação dos filhos; chegada de novos membros na família; cuidado com o lar. Enunciados religiosos também estão presente nesse texto: parece ser um tipo de constante quando se fala da família atrelar a ela o divino; o religioso (quase sempre cristão); algo que dá à família um caráter sagrado.

Em adicional esse livro tem um enunciado bem distinto dos outros: a morte de membros da família. Esse enunciado vai dar ao livro um perfil completamente diferenciado dos demais.

O livro conta a história duma família que vai receber uma nova criança: Emmanuela. Narrado pelo ponto de vista de Rafael, um dos filhos dum casal que possui, ainda, um outro filho chamado João – mais novo que o primeiro –. o livro vai começar apresentando a situação da mãe grávida e da expectativa da chegada da menina Emmanuela. Segundo Rafael, os pais, que antes brigavam muito, passam a brigar bem menos, o pai que é artista, desempregado e cuida dos filhos quando a mãe vai ao hospital trabalhar como enfermeira, passa a reclamar menos por não conseguir emprego.

Antes da menina nascer, Rafael conta alguns causos, sempre atrelados à mãe e a seu irmão, da gravidez. Ele conta quando João pergunta sobre como Emmanuela foi parar na barriga da mãe; que João ficava muito em cima da mãe enciumado e duma certa vez que João viu Emmanuela no banheiro antes mesmo dela nascer.

Após nove meses, Rafael conta como foi, na sua visão, o trabalho de parto da mãe, relata a chegada doutros membros da família (a avó, o avô etc.) e como foi a

experiência dele no hospital com a mãe prestes a ter a criança. Depois de três dias a mãe retorna para casa com a menina. Ele diz que a casa ficou muito alegre e que só às vezes brigava com João porque ele corria na frente para fazer as coisas que a mãe pedia afim de ficar mais perto da neném. Ele conta duma canção de ninar criada pela mãe e recitada por eles e do seu espanto do quanto a menina crescia rápido. Tão rápido que ele suspeitava que ela crescia à noite enquanto todos estavam dormindo, então ele, numa certa noite, fica acordado até tarde para checar se isso é verdade. No meio do caminho para o quarto de Emmanuela, ele percebe que a mãe ainda está acordada na cozinha e a vê chorar com um papel na mão. Ele se esconde e, após a mãe ir embora, pega o papel; nele continha as palavras com letra de máquina “Comunicação entre os átrios e defeito nas válvulas atrioventriculares.” Ele não entende o que significa isso, mas percebe que é algo sério, já que sua mãe não é dada a choro.

No outro dia ele indaga a mãe porque ela estava chorando e ela responde que Emmanuela está muito doente. Ele diz que sentiu algo esquisito por dentro e seus olhos encheram de lágrimas. Ela fala que é um problema sério no coração e que se os médicos não conseguirem curá-la, ela vai “ter que voltar pra casa do Papai-do-céu”.

Depois de um tempo a mãe procura Rafael e explica que os médicos não estão conseguindo curar Emmanuela. O tempo foi passando até o momento decisivo que seria a operação da menina. Eles ficaram com a avó quando a mãe e o pai levaram-na para o hospital; depois dum longo período a notícia: a criança havia morrido.

Rafael pergunta à mãe o que vai acontecer; a mãe responde que será igual a uma sementinha de feijão: eles irão plantá-la na terra e ela vai nascer de novo no jardim de Papai-do-céu. Ele pergunta o que vai acontecer quando ele sentir saudade; ela responde que é fácil: é só olhar para o céu e ver o sol. Quando o raio de sol bater em seu corpo, é Emmanuela brilhando. João, o filho mais novo, corre para fora de casa e grita que sua irmã está lá; quando a mãe e Rafael chegam está ele de braços abertos dançando nos raios do sol e chama Rafa para brincar também com a irmã. Rafa o abraça forte.

Ele conta ainda que certa vez João estava triste porque não havia sol no dia e a mãe, para consolá-lo, diz que Emmanuela era também uma flor. Após cinco anos que a “moça bela se mudou”, Rafael conta que certa vez um colega de João estava

contando que alguém tinha morrido. A sua reação foi rir. O menino estranha e diz que ele não deveria rir; que a morte é coisa séria e tentou ser duro. E pergunta da irmã dele, o indagando se ela também não havia morrido.

João para, olha para ele, para o céu, torna a sorrir e responde com calma: “Não, minha Emmanuela virou luz”

Um texto comovente, singelo e belo. Percebemos que há uma preocupação com o fazer artístico que em nenhum outro texto parece ter existido. O texto tem um enredo mais amarrado, tem personagens cativantes e de certa complexidade; tem comprometimento social.

Enquanto que em todos os outros livros se trabalha com arquétipos, tipos sociais: a mãe, o filho etc.,nesse livro não: os personagens parecem ter uma história por trás; são personagens que possuem um psicológico; são únicos, têm nomes, profissões, atitudes, têm personalidade e respondem de forma específicas aos acontecimentos.

A mãe não é o tipo sensível que chora por qualquer motivo; não é aquela figura apenas maternal “toda feita de colo e de leite” – como no livro “Pra que serve essa barriga tão grande” –, ela é também mãe, mas é também enfermeira, é uma mulher que não chora por qualquer bobagem, é uma mulher que briga com o marido por ele não trabalhar, é uma mulher que, por ser mãe e por ser mulher, parece não perder uma identidade própria em benefício de promover suas outras identidades de mãe e mulher; não é porque ela possui essas duas identidades que ele deixa de ser um personagem com densidade.

O mesmo serve para os outros personagens. A figura do pai, por exemplo, é a única representação, dentro de todos os livros que analisamos, que o homem não faz o arquétipo de provedor do lar: no livro “Amor de Ganso”, o homem é quem alimenta a mulher e os filhos; no livro “Pra que serve essa barriga tão grande”, o pai nem aparece; mas a mãe não trabalha fora de casa, ficando subtendido que ela é sustentada por alguém, situação parecida ocorre no livro “Tem gente”. Já no livro “Menino Nito”, o pai é o único que aparece representado com roupas formais; como de alguém que acaba de voltar do trabalho. Em todos esses livros há uma naturalização tão grande que o homem é que deve trabalhar e sustentar o lar que nunca se é questionado, nas relações entre mãe e filho, uma possível ausência da mãe nos momentos que ela vai ao trabalho.

A própria família possui arranjos diferenciados: a mãe e o pai não vivem na “harmonia” tradicional duma família tradicional: eles brigam, eles têm diferenças e, o mais importante, estão em pé de igualdade. Se observamos a figura 26, veremos como se é representada a família no livro.

Figura 26 - representação da família do livro “Emmanuela”

Fonte: Oliveira(1997, p. 4).

Enquanto que em todos os outros livros analisados o homem sempre aparece como uma figura central, maior, mais imponente, sempre com um semblante sério e imparcial, nessa representação pai e mãe estão no mesmo plano, eles mantém o mesmo semblante, uma posição parecida: ambos parecem se dar de forma igual a uma árvore que representa os filhos; é como se ambos tivessem a mesma responsabilidade, que tivessem cultivado aquela árvore dividindo igualmente suas

tarefas. Ninguém parece ser maior que outro, ninguém parece ter funções mais importantes ou diferentes do outro; eles, nessa imagem parecem ser iguais.

Claro que ainda se constrói identidade de gênero para a mulher e o homem: o homem veste azul e macacão, enquanto a mulher veste amarelo e rosa. Porém, apesar dessa determinação de gênero, eles são iguais. Outra figura importante é a 27:

Figura 27 - representação da família no livro “Emmanuela”

Fonte: Oliveira(1997, p. 4).

Mais uma vez observamos outra representação que destoa das demais analisadas nos outros livros: aqui a mulher se encontra no centro, ao redor dela estão os filhos e o marido. Vale perceber que ao centro estão as duas mulheres da casa: o marido abraça a mulher com um braço e com o outro ele ajuda a carregar a menina “Emmanuela”; o homem é representado pela primeira vez, dentro dos livros que analisamos, com uma aparente preocupação de auxiliar a mulher, em dar

suporte. O homem nunca aparece nessa posição: aquele que dá suporte; nos livros que analisamos ele é sempre o centro; e todos os outros membros parecem depender dele para (sub)existir.

Enquanto os outros livros seguiam uma constante de sempre representar o pai em maior plano, com a mulher em menor plano à sua esquerda e o primogênito à direita do pai quase no mesmo plano da mãe e, quando existia uma menina, ela está sempre em menor plano e nem ao lado do pai, aqui não se aplica essa regra: a mulher está ao centro com a filha: todos se voltam para elas para ajudar e cuidar; o primogênito (Rafael) é o que está mais afastado; todos parecem ter uma cumplicidade na criação da menina e parecem ajudar a segurá-la e criá-la.

Um ponto importante na história é que a mãe é quem sai para trabalhar e sustentar a casa e o pai é quem fica em casa cuidando dos filhos. Em todos os outros livros esse tipo de arranjo familiar não era apresentado: sempre a mãe parece ser responsável pela criação dos filhos enquanto o pai, quando retratado, parece ser o responsável pelo sustento. Esse tipo de representação construída por Emmanuela contribui para a construção de identidades de gêneros mais subversivas, identidades que quebram com um discurso patriarcalista e machista.

Porém é importante observarmos como é colocada a questão do pai ficar em casa para trabalhar:

Sabia que as coisas estavam ainda difíceis. Tinha oito anos, mas via a mãe sair pra trabalhar no hospital e o pai ficar triste em casa pintando quadros e cuidando de tudo. Difícil para artista arranjar emprego no país (OLIVEIRA, 2003, p. 8-9).

Apesar do pai ficar em casa cuidando dos filhos, parece que ele fracassa como homem ao fazer isso: ele fica triste e tem diversas brigas com a mulher. Enquanto que nas outras histórias não há tristeza quando a mulher escolhe ficar em casa para cuidar dos filhos e não trabalhar ou não conseguir emprego. E em nenhum momento parece gerar conflitos familiares; no livro Emmanuela aparece, ainda, como um tipo de anormalidade e como um motivo para o homem ficar triste e gerar brigas com a mulher: parece não ser normal, nem ideal o homem ficar em casa para trabalhar. Ele ainda justifica que a sua falta de emprego é dado a dificuldade de se conseguir empregos para artistas. A mulher não precisa, nos outros textos, justificar em momento algum a sua falta com o trabalho, ao menos se é mencionado que elas poderiam trabalhar; parece completamente naturalizada a

escolha da mulher em ficar em casa para cuidar dos filhos. O homem quando faz isso é motivo para brigas, é motivo para tristeza e desequilíbrio na família.

Figura 28 - Representação do cotidiano familiar na edição mais nova de “Emmanuela”

Fonte: Oliveira(2003, p. 6).

Na edição mais nova, as imagens foram completamente mudadas e na figura 28 vemos uma imagem que destoa completamente das apresentadas na edição mais antiga.

Vale lembrar que na história o homem não trabalha; ele é artista e não consegue boas oportunidades de emprego; a mulher é que sustenta a casa; ela é enfermeira. Assim, fica subtendido no texto que é o homem que cuida dos afazeres doméstico, já que ele teria mais tempo livre que a mulher: ela passa o dia trabalhando. Até aí muito interessante: houve uma inversão dos papéis que normalmente são atribuídos à figura feminina e masculina em nossa sociedade: a

mulher sai para trabalhar e o homem fica em casa cuidando dos filhos e dos afazeres domésticos.

Porém na figura 4 vemos algo curioso: a mulher, mesmo grávida (e muito grávida: ela precisa apoiar a panela em sua barriga que está demasiada crescida), serve a comida enquanto o homem pinta. Apesar da mulher estar grávida, apesar de ter que passar o dia trabalhando, é ela que serve a comida, deixando, ainda subtendido que é ela também que cozinhou a comida. E o homem? Pinta. É curioso que no texto não fica claro que a mulher faz os afazeres domésticos; na primeira edição não há qualquer imagem que suscite que a mulher faça as coisas na casa: fica subtendido que quem faz é o homem: ele conversa com os filhos, leva eles para o hospital: parece participar efetivamente da criação e dos cuidados com o lar; é mencionado no texto que é o pai que fica em casa e cuida de tudo enquanto a mãe vai para o hospital trabalhar como enfermeira.

Outro ponto que nos chama a atenção é quando o filho mais novo, João, pergunta à mãe como Emmanuela foi parar dentro da barriga da mãe; ela responde que “Emmanuela tinha saído da casa de Papai-do-céu para morar na barriga dela e que lá morava um monte de crianças que vinham nascer na barriga das mães” (OLIVEIRA, 2003, p. 9). Rafael reprime mentalmente João por fazer essa pergunta, diz que João é fogo e que dá sorte da mãe ser carinhosa com as perguntas dos dois. Ele ainda diz que teve vontade de contar a história da “semente que o pai coloca na mãe pra fazer a gente nascer” (OLIVEIRA, 2003, p. 9), mas resolveu não falar nada. Vemos aqui, primeiramente, um enunciado construído através do discurso religioso para justificar o ato da criação. Em muitos dos outros livros parece que sempre há uma ligação religiosa (católico-cristã) com as questões familiares: a família parece sempre uma dádiva; algo divino. Nesse livro não é diferente: para se resolver várias questões se recorre a Deus e à religião. Segundo ponto: não se explica nem de longe como é a concepção das crianças; criam-se metáforas que são dadas de acordo com a faixa etária da pessoa que vai receber a informação: Rafael por ser mais velho já havia escutado a história da “sementinha”;o irmão por ser mais novo escuta uma história ainda mais inverossímil. Porém, em todos os outros livros que analisamos, que têm por temática a chegada de novos membros na família (“Tem gente” e “Pra que serve essa barriga tão grande”), simplesmente é desconsiderada essa questão, como se uma criança não tivesse essa curiosidade. Nesse livro se coloca essa questão e ainda usa a metáfora da sementinha, que,

apesar de inverossímil, explica melhor como é a concepção do que simplesmente se omitir e fingir que as crianças não possuem essa curiosidade.

E mesmo que se utilizem metáforas para responder a tais questões, devemos levar em consideração que é uma prática interessante o como é colocada a questão da concepção: mesmo não dizendo como de fato acontece, se dá margem para que a criança que lê e tenha escutado essas histórias, possa perguntar e sentir curiosidade sobre o assunto; já que o narrador parece descredibilizar as informações que são dados sobre a concepção.

O livro Emmanuela seria, dentro de todos que analisamos, o livro que mais quebra com os discursos tradicionais de gênero e sexualidade; é o livro mais subversivo, que traz arranjos familiares com mais flexibilidade, que traz representações da mulher e do homem, da mãe e do pai menos encaixotadas naquelas clássicas representações em que a mãe cuida dos filhos e o pai trabalha, em que a mãe é boa e chorosa e o pai forte e imparcial. É um livro belo e com certo comprometimento nas questões sociais. Um livro de belas imagens (nos referindo à primeira edição) e com belas metáforas.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: COM A DELICADEZA NECESSÁRIA E AS