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4.3 Résultats expérimentaux

5.1.3 Une autre application : Filtre directif vertical (ou filtre “add-drop”)

137 Neste capítulo analisaremos como é no contexto de uma real tradução cultural que Antero de Quental se apropria de uma visão budista da realidade, a qual é por si utilizada na sua actividade enquanto pensador e sobretudo como poeta. Além disso, é através do mesmo aparelho conceptual que Manuel da Silva Mendes realiza através da sua escrita um verdadeiro acto (culturalmente) translatório, quando apresenta, racionaliza e comenta aspectos que lhe parecem significativos da tradição da sabedoria e da filosofia orientais, nomeadamente budista e taoista.

O conceito de tradução cultural será por nós usado, pois, como um conceito funcional e operativo em que nos apoiaremos para tentar esclarecer de que modo estes dois autores na sua vida intelectual contactaram, interpretaram e se apropriaram de elementos centrais da sabedoria oriental das tradições budista e taoista, e como é que os incorporaram na sua visão da realidade e do homem e, no caso de Antero, na sua experiência estético-literária.263

Vários são os autores que centram a sua atenção no aspecto cultural de que se reveste o acto de tradução. Eugène Nida264 chama a atenção para o seu aspecto transcultural, apontando directamente para o facto de o tradutor na sua actividade ser sempre e inevitavelmente afectado pela sua cultura. No contexto da análise das traduções dos textos bíblicos, faz a distinção entre a tradução linguística e a tradução cultural. Considera a tradução como uma passagem transcultural, na medida em que a cultura afecta tanto o tradutor no processo de tradução como a leitura que se fará do elemento traduzido. Por isso, abre ao tradutor a possibilidade de conformação do conteúdo da tradução até com a inclusão de elementos novos, a fim de encontrar correspondências e poder transportar desejavelmente para o texto de chegada o que encontra implícito no texto de partida, e para activar sentidos que sejam relevantes no contexto cultural de

263 Cf. Friedrich Schleiermacher, [1813], “On the Different Methods of Translating”, in André Lefevere (ed.),

Translation, History, Culture, London, Routledge, 1992, pp. 141-165.

Vários são os autores que trabalharam e afinaram o conceito de “tradução cultural”, mas parece-nos que é num dos primeiros textos não prescritivos de reflexão sobre o acto de traduzir, como é o texto de Scheleirmacher, em que podemos encontrar um alargamento do entendimento da tradução além dos limites da relação inter-linguística, e onde se ensaiam os contornos culturais que qualquer acto translatório acarreta, e, além disso se tenta uma caracterização da tradução nos seus aspectos culturais, ou quando efectivamente o acto de tradução incide sobre conteúdos eminentemente culturais; veja-se o uso alargado e a exploração conceptual analítica que é feita da tradução por autores como Herder e A. Schlegel).

Vidé a propósito R. Schulte, J. Biguenet, Theories of translation: an anthology of essays from Dryden to Derrida, University of Chicago Press, 1992.

264

Eugène Nida, Toward a Science of Translating: with special reference to principles and procedures involved in Bible translating, E. J. Brill, Leiden, 1964.

138 chegada e que, existindo, não estavam explícitos no de partida. Adverte portanto, para a necessidade de o tradutor dever dar ao texto traduzido a necessária tonalidade da cultura de chegada, com vista a torná-la activa e relevante no novo polissistema cultural em que é incluído. É importante destacarmos portanto que o acto de tradução tem um carácter cultural que deve ser descrito e estudado na sua implicação e na sua activação de um quadro axiológico-cultural muito próprio, pois que a prática discursiva e o entendimento de determinados conteúdos de uma cultura podem vir a ter seguramente valorações bastante diferentes noutra265.

Ao entendermos cultura como “the deposit of knowledge, experience, beliefs, values, attitudes, meanings, hierarchies, religion, notions of time, roles, spatial relations, concepts of the universe, and material objects and possessions acquired by a group of people in the course of generations through individual and group striving”266

, interessa-nos realçar o facto de o acto de tradução ocorrer sempre num contexto cultural particular, e chamar igualmente a atenção para o facto de o mesmo dever ser entendido segundo estes aspectos que lhe são essenciais. A tradução está inextrincavelmente relacionada com a cultura e é no seu contexto e através dela que deve ser entendida.

Vários são os autores que vincam a “viragem cultural” nos Estudos de Tradução e a par de Robinson267 e de Venuti268, Mary Snell-Hornby269 faz passar a tónica da tradução do texto para a da cultura, pela admissão de que um texto admite reescritas e leituras variadas e diferentes, alertando para o facto de a dimensão cultural ser o objecto central da actividade de tradução. Além disso, colocando a ênfase na vertente antropológica, sublinha o facto de a tradução se dar sempre entre duas culturas e não somente entre duas línguas, pelo que é imperioso que o tradutor, para além de ser bilingue, seja também bicultural. Nesta linha, também Mona Baker270 afirma que a consideração do contexto é essencial para o entendimento dos processos activados na tradução, a fim de que a compreensão de como se traduzem e se recebem textos não fique incompleta. Por seu lado, também Gideon Toury refere que a tradução “is a kind of activity which inevitably involves at least two languages and two cultural traditions, i.e. at

265 Francisco Castro-Paniagua, English-Spanish Translation, Through a Cross-Cultural Interpretation Approach, Lanham, University Press of America, New York, 2000.

266 L. A. Samovar, R. E. Porter (eds.), Intercultural Communication, Wadsworth Publishing Company, New York, 1997, pp. 12,13.

267 Douglas Robinson, The Translator’s Turn, The Johns Hopkins University Press, 1991.

268 Lawrence Venuti, The Translator's Invisibility: a History of Translation, London, New York, Routledge, 1995. 269

Mary Snell-Hornby, Translation Studies – An Integrated Approach, John Benjamins Publishing Company, Philadelphia, 2006, p. 46.

Cf. Cap. 2: “Translation as a cross-cultural event”, pp. 39-64.

139 least two sets of norm-systems on each level”271, daí que seja essencial a ponderação (e a descrição) da experiência cultural que as contextualiza.

A tradução cultural é entendida por nós como o lugar em que se desenrola o contacto e o diálogo entre duas culturas, através das transferências que se concretizam e que são operadas nos textos; o diálogo em que se redefinem as diferenças entre os dois universos culturais em presença e se limita (desejavelmente) a diferença. Este diálogo é para nós paradigmaticamente representado pela tradução cultural na consideração da multiplicidade de formas do contacto intercultural e das também múltiplas (re)configurações do Outro e do Próprio.

Considerando a “viragem cultural” na análise da tradução acentua-se como os elementos culturais traduzidos são integrados no polissistema cultural de chegada pela implementação de estratégias de familiarização/domesticação e/ou de distanciamento/estrangeirização272, através das quais se traz à consciência a diferença e a necessidade de redesenhar em termos dinâmicos a relação entre o Eu e o Outro. Portanto, interessa-nos levar em linha de conta outros factores (mais do que só os linguísticos) que desempenham um papel importante na análise e compreensão da tradução: conceitos como norma, sistema, estrangeirização, familiarização, integração/absorção, manipulação. Todos eles possuem uma evidente espessura cultural e transportam para os estudos de tradução uma análise mais alargada e abrangente, tendente a fazer sobressair os aspectos culturais dos textos, a traduzir e a permitir o estabelecimento de relações com outras áreas do saber.

Certo é então que a consideração dos elementos culturais é conveniente e essencial para a inteligibilidade da tradução e das suas consequências, no sentido de que o texto traduzido deve necessariamente aos aspectos culturais que envolvem a sua produção (tradução) e compreensão273. Neste aspecto, a tradução cultural é um conceito que em certa medida se radica na confluência dos Estudos de Tradução e dos Estudos Culturais, e o tradutor cultural é “uma personagem fronteiriça”274

que cruza as diferenças e que interpreta e se apropria do Outro, descodificando-o e tornando-o inteligível no que tem de diferente e estrangeiro.275

271Gideon Toury, Descriptive Translation Studies and Beyond, John Benjamins B.V., Amsterdam, Philadelphia, 1995, p. 56.

272

Lawrence Venuti, The Translator's Invisibility: a History of Translation, London, New York, Routledge, 1995. 273 Ovidio Carbonell, “The Exotic Space of Cultural Translation”, in Transaltion, Power, Subvertion, Román Alvarez and M. Carmen Africa-Vidal (eds), Multilingual Matters, 1996, pp. 79-98.

274

João Ferreira Duarte (ed.), “A Tradução enquanto metáfora e modelo”, in Estudos literários / estudos culturais, actas do IV Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, vol. 2, Organização de Carlos J. F. Jorge e Christine Zurbach, É vora, 2004, p. 8 e segs. (destaques no original).

140 Numa prespectiva intercultural que nos interessa aqui destacar, entendemos a tradução cultural como um acto em que se utilizam meios culturalmente relevantes para transpor para a cultura própria, elementos pertencentes a uma cultura diferente, os quais passam a ganhar uma importância e a desempenhar um papel específico no sistema cultural de chegada, muitas vezes inexistentes na cultura de partida276; uma importância e um papel certamente diversos dos que aí possuíam, mas essenciais para a compreensão do acto de tradução (cultural), e para a verificação do seu impacto e consequências.

Além disso, importa igualmente referir como o tradutor passa a ser visto como um verdadeiro mediador cultural entre as línguas e as culturas: o tradutor é aquele que possui um saber específico a nível linguístico posto ao serviço da comunicação intercultural.277

Tomando portanto em sentido lato e em linhas gerais de entendimento uma cultura como um texto278, o conceito de tradução cultural passa a ser usado na investigação das ciências sociais, como a etnografia, a antropologia cultural e os estudos culturais, no sentido de dar uma expressão teórica à passagem de modelos e de paradigmas culturais de natureza e importância variadas de uma cultura para outra.

Na linha dos estudos sobre as bases teóricas e as possibilidades de análise de culturas diferentes, e dos estudos dos teóricos alemães acerca das “genealogias culturais” e da crítica das estruturas e dos paradigmas culturais, tendentes a perscrutar a relevância das culturas orientais, desenvolvem-se as potencialidades de análise da tradução. A tradução com autores como Herder e A. Schelegel metaforiza-se e, se por um lado aquele vê nela uma forma de pensamento, este considera-a como o essencial da actividade da mente.279 O âmbito de aplicação do paradigma da tradução alarga-se e esta é usada a fim de poder explicar múltiplas figuras do pensamento, que permitem sobretudo colocar em contacto e estabelecer paralelos entre universos culturais diferentes em geral e objectos culturais em particular.

O modelo da tradução é usado para dar conta de uma pluralidade de actos com densidade, pressupostos e implicações culturais e para lhes dar uma expressão e compreensão teóricas; no dizer de João Ferreira Duarte, de certa forma, esta alteração sublinha como a tradução “se torna

276 “Para Ovidio Carbonell (…) o processo de tradução cultural descreve uma reescrita em que o texto de partida é ‘manipulado ou até subvertido ao ser incorporado na cultura de chegada’ ”. (João Ferreira Duarte, op. cit., p. 8). 277 Mary Snell-Hornby, Zuzana Jettmarová, Klaus Kaindl (eds.), Translation as Intercultural Communication, John Benjamins B. V., 1997.

Cf. “Translation as Intercultural Communication”, pp. 325-338. 278

James Clifford, George E. Marcus, Writing Culture: The poetics and politics of ethnography, University of California Press, 1986.

141 de objecto representado em meio de representação”280. A tradução alarga-se a várias áreas do saber como o modelo através do qual, em disciplinas diferentes, a passagem e o tratamento de elementos culturais desempenham um papel relevante e estabelece-se como um metaconceito que permite dar inteligibilidade a processos de cariz diverso.

A tradução passa a poder dar forma teórica a actos de transferência cultural que cruzam culturas diversas, e este processo de explicitação dos actos teóricos que esclarecem as passagens de conteúdos culturais tem um duplo efeito sobre as áreas do saber a que se vai aplicando: por um lado, favorece a compreensão de processos entendíveis só em estudos multidisciplinares e, por outro, reforça o caráter auto-reflexivo dessas áreas do saber.281.

A tradução cultural, como refere Talal Asad282, visa tornar visíveis as estruturas implícitas dos objectos culturais que transitam de uma cultura para outra, pois que o seu sentido na cultura de acolhimento poderá ser tão mais produtivo quanto a sua compreensão as levar em linha de conta. Aquilo que numa cultura é essencial e nuclear não necessita, por definição, aí, de explicitação. Porém, qualquer elemento que traduzido seja colocado num ambiente cultural diverso, terá a ganhar em termos de impacto e de aceitabilidade, se for esclarecido nos seus pressupostos e implicaturas.

A tradução cultural desempenha o papel de deixar visível a raiz cultural dos elementos que, no dizer de Robyns283, migram entre culturas, pondo a descoberto o implícito (da cultura de origem) e levando, por via dos meios usados para a sua aceitação, à reflexão sobre o que lhes é implícito para além dos meios usados para lhes permitir a transição e a aceitação (na cultura de chegada). Ao esclarecer os pressupostos culturais, diz Carbonell, “autoriza-se”284

os objectos culturais na cultura nova e dá-se-lhes inteligibilidade numa experiência cultural da novidade.

De referir contudo, que a mencionada perspectiva da tradução como migração285 e do entendimento da tradução cultural como a transposição e explicitação dos níveis implícitos da

280 Ibidem (destaques no original). 281

Theo Hermans, “Paradoxes and aporias in translation and translation studies”, in Alessandra Riccardi (ed.), Translation Studies, Perspectives on an Emerging Discipline, Cambridge University Press, 2002, pp. 10-23.

282 Talal Asad, “The Concept of Cultural Translation in British Social Anthropology”, in James Clifford, George E Marcus (ed.), Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, University of California Press, 1986, pp. 141-164.

283

Clem Robyns, “Translation and Discourse Identity”, in Poetics Today, vol. 15, n.3, pp. 405-427, 1994.

284 Ovídio Carbonell, “The Exotic Space of Cultural Translation”, in Translation, Power, Subvertion, Multilingual Matters, Román Alvarez and M. Carmen Africa-Vidal (eds), 1996, pp. 79-98.

285

Cf. Clem Robyns, “Translation and Discourse Identity”, in Poetics Today, vol. 15, n.3, pp. 405-427,1994. A perspectivação da tradução cultural como uma migração discursivo-cultural estabelece um paralelo entre a tradução e a metáfora da viagem, que lhe imprime um sentido dinâmico (não-fixo) e dialéctico nos pólos e também nos elementos que nela intervêm, nomeadamente Eu/Outro, partida/ chegada.

142 cultura de origem se dá em contextos de exercício de forças de poder diferenciado. Na passagem do texto para a cultura de chegada, o tradutor desempenha o papel do intérprete que, apesar de tornar disponível ao seu público determinado texto cultural, não deixa de limitar, por essa mesma acção, outras interpretações, associações e leituras possíveis que sobre ele se poderiam fazer. A leitura dos níveis implícitos de uma cultura, implica sempre uma atribuição de sentido conveniente àquele que a realiza e que na relação da tradução cultural está em posição impositiva. Aquando da colocação dos novos elementos culturais na cultura de chegada, e aquando da textualização dos conteúdos entrevistos pela sua interpretação, o tradutor cultural exerce sobre o texto traduzido um acto de profundo exercício de poder. A migração e a correspondente atribuição de sentido dá-se sempre numa relação em que os dois pólos possuem uma desigual capacidade de exercício de poder286, o que, além disso, se realiza solitariamente; ou seja, a interpretação realizada pelo tradutor é efectuada por este quando sabe que, na relação entre as duas culturas, ele é o único que possui a capacidade de atravessar as fronteiras que as distanciam e de estabelecer o contacto entre elas. O sentido lido e explicitado pelo texto do tradutor na cultura de chegada não deve por isso ser ingenuamente visto como a clarificação do sentido original mas, por um lado, como aquilo que a perspectiva do tradutor lhe permite analisar, e por outro, como uma atribuição de sentido através dos parâmetros da língua e da cultura de chegada.287

Daí que certos autores sejam críticos desta perspectiva, chegando mesmo a identificar este abusivo uso (solitário) do poder por parte do tradutor cultural como podendo incorrer em “violação”.288

Parece claro porém que o exercício da tradução cultural, e as aproximações que realiza, potencia a tolerância intercultural na medida em que o contacto e a passagem interculturais implicam a alteração e a aceitação da diferença a vários níveis, tanto a nível linguístico, como também de formas de vida e de modos diversos de criação, e até mesmo a nível da atitude gnoseológica face aos mesmos. A realização da tradução cultural e a leitura e acompanhamento da mesma potenciam e dão espessura cultural ao atravessamento de fronteiras linguísticas, epistemológicas, culturais e (até) nacionais. Os procedimentos da passagem e da tradução dos

286

“…a recuperação dos sentidos implícitos na leitura antroplológica das culturas de partida constitui um acto de apropriação sempre já inscrito em relações de poder extremamente desiguais…” (João Ferreira Duarte, op. cit., p. 8). 287

Ovidio Carbonell, op. cit., p. 84.

288 Cf. Gayatri Chakravorty Spivak, “Imperialism and Sexual Difference”, in Oxford Literary Review, vol. 8, n. 1, 1986, pp. 225-244.

143 elementos culturais a transferir passam em conjunto por processos múltiplos combinados e/ou alternativos que vão da adequação289, à domesticação e à estrangeirização290, mas que reconduzem à auto-reflexão e ao auto-conhecimento de quem, individual e socialmente, opera a tradução cultural, gerando um impacto e consistindo numa mais-valia sobretudo para a cultura de chegada.

Além disso, o valor cultural dos elementos traduzidos e o significado que ganham na cultura de chegada serão somente identificáveis se, para tal, se utilizarem instrumentos de análise também eles culturais, isto é, instrumentos que permitam explicitar as estruturas de profundidade do texto cultural em geral e permitam abarcar as suas razões e consequências. É de acordo com estes múltiplos aspectos que entendemos a tradução cultural, por ser a estes vários níveis que poderemos compreender como o acto de tradução não se esgota nos seus aspectos meramente técnicos, nem unicamente linguístico-discursivos, mas sim ganha importância por se tornar um fenómeno cultural necessariamente multifacetado que se impõe na cultura de chegada, pelas razões da sua realização e pelo seu impacto.

Assim, a tradução cultural é trazida para o nosso estudo como base e modelo teórico de formas várias de contacto entre culturas diversas, que permite a reflexão consciente sobre a alteridade e que concomitantemente conduz à ponderação da mesmidade, numa relação que redesenha as distinções e os limites das várias culturas291.

Nesta perspectiva, a tradução cultural aparece, no âmbito deste trabalho, não como o fito da nossa investigação, mas como o instrumento pelo qual nos parece que se poderão mais contundente e claramente patentear e realçar os aspectos da “leitura orientalizante” que propomos para os textos de Antero e de Silva Mendes. O nosso intuito é o de fazer ressaltar aspectos que poderão não ser convenientemente apercebidos nos textos anterianos e de Manuel da Silva Mendes e que, através do aparato conceptual que utilizamos neste trabalho, aparecerão com maior clareza e destacar-se-ão pela importância que têm na obra de reflexão literário- filosófica de ambos os autores.

289

Gideon Toury, Descriptive Translation Studies and Beyond, John Benjamins B.V., Amsterdam, Philadelphia, 1995.

290 Lawrence Venuti, The Translator's Invisibility: a History of Translation, London, New York, Routledge, 1995. 291 Ovídio Carbonell, op. cit., pp. 79-98.

144 Na perspectiva da sua visão ocidental sobre aspectos sapienciais das culturas orientais, e no cruzamento dos registos de escrita poética e ensaística, tentam ambos os autores reescrever e apropriar-se do Oriente que lhes suscita admiração e crítica.292

É por esta razão que, em estreita consonância com o conceito de tradução cultural, utilizamos aqui também o conceito de reescrita, cuja centralidade nos Estudos de Tradução deve ser também ela reconhecida. Consideramos que, com o conceito de reescrita, encontramos um instrumento operatório que nos permite olhar para os nossos autores como trabalhando, ambos, no sentido de tornar o elemento traduzido como pertencente à sua nova situação (cultural) na cultura de chegada. Pela reescrita os novos conteúdos culturais, que são a matéria da actividade translatória, ganham também uma nova expressão e encontram o seu lugar no sistema cultural de chegada.

O conceito de tradução cultural é, por um lado, um conceito funcional que nos permite de forma consistente analisar os textos de ambos os autores que seleccionámos do ponto de vista das suas leituras orientais, mas também, por outro lado, é complexo, pois que é composto de um feixe de aspectos que na sua inter-relação sublinham o aspecto cultural (que no fundo é o cerne) de qualquer discurso. A tradução cultural é um acto comum que até mesmo um indivíduo de si e para si realiza, quando quer assegurar e/ou bem fundamentar o seu próprio discurso acerca de qualquer aspecto da realidade, especialmente quando a despoletar esse discurso sobre a realidade está a presença de um Outro. Este é, aliás, percebido como tal, por o seu discurso se colocar além