Em nosso capítulo sobre o nível discursivo havíamos tratado da prisão a que são submetidos os actantes integrantes da trupe quando são capturados pelos wood elves. A seguir trataremos da fuga desse cárcere subterrâneo.
No capítulo 9, nomeado Barris Soltos, Bilbo, enquanto actante do nível narrativo, deve encontrar meio de libertar os integrantes da trupe de seu cárcere sem alertar este actante coletivo, os wood elves, de sua presença. Como isso seria possível? É nesse momento que nos deparamos com o objeto mágico de que Propp tratou em seus trabalhos. Esse objeto não é outro senão o anel que dá a Bilbo o poder da invisibilidade.
No nível narrativo, quando pensamos nas relações com o campo de presença, quando temos o sujeito in praesentia em meio a um actante coletivo, poderíamos dizer que a reação da mistura homogênea seria das mais turbulentas, afinal temos novamente o /dever-fazer/ estabelecido sob a forma de um contrato no agrupamento de sujeitos na
dark wood. No entanto, o objeto que Bilbo tem em mãos no momento em que se
encontra dentro do espaço lhe fornece um /poder-fazer/ sem que entre no campo de percepção dos demais actantes agrupados naquele mesmo espaço. Tudo funciona como se sua presença fosse atualizante, ou seja, não se realiza nem se virtualiza completamente, mas permanece em um estado latente, intermediário. Seja como for, a sobreposição das modalizações é novamente observada: o /dever-fazer/ tem um funcionamento próximo ao do shire nesse actante coletivo em particular, no entanto, o /poder-fazer/ de Bilbo, e posteriormente o /fazer/, que são da ordem do exógeno, corrobora com o /querer/ endógeno, e possibilita ao actante manter a continuidade dos programas.
É por meio de uma cautelosa observação do funcionamento daquele espaço que, ao longo dos dias, Bilbo desenvolve um /saber/ que leva a um /fazer/ atualizado:
Escondendo-se atrás de um dos maiores barris, Bilbo descobriu os alçapões e sua utilidade, e, espreitando ali, ouvindo a conversa dos servidores do rei, ficou sabendo como o Vinho e as outras mercadorias chegavam, por terra ou
por água, até o Lago Comprido. (TOLKIEN, 2009, p. 171).
É a constituição de um saber amplo que leva a um /poder-fazer/ com que todos entrem em conjunção com o objeto valor a que visam, figurativizado pela libertação no nível discursivo. Encontramos um pico das modalidades endógenas nesse ponto, em que a extensão dos /saberes/ leva a um /fazer/ libertador. Quando consegue observar os aspectos do ambiente, finalmente traça a rota de fuga que levará todos em direção ao objeto valor, dá início à performance, e realiza tudo com sucesso:
— Muito bem — disse, rindo, o chefe dos guardas. — Vou experimentá-lo com você, e ver se o vinho é digno da mesa do rei. Há um banquete esta noite, e não seria bom mandar bebida ruim lá para cima! Ao ouvir isso Bilbo ficou todo alvoroçado, pois viu que a sorte estava ao seu lado e que tinha uma oportunidade imediata de tentar pôr em prática seu plano desesperado. Seguiu os dois elfos, até que eles entraram numa pequena adega e sentaram- se a uma mesa onde haviam sido colocados dois grandes jarros. Logo
começaram a beber e a rir alegremente. Uma sorte extraordinária estava ao lado de Bilbo. Um vinho tem de ser forte para deixar zonzo um elfo da floresta, mas este vinho, ao que parecia, era da safra inebriante dos grandes jardins de Dorwinion, destinado não aos soldados ou servidores, mas apenas aos banquetes do rei, e a pequenas vasilhas, não aos grandes jarros do
mordomo (TOLKIEN, 2009, p. 172-73).
Quando os antissujeitos encontram-se adormecidos, Bilbo dá início a seu plano, roubando as chaves dos guardas, e libertando os integrantes da trupe. Podemos pensar em um /não-poder-fazer/ dos integrantes da trupe que provém das condições estipuladas pelos wood-elves, no entanto, a extensão do /saber/ de Bilbo leva ao /poder-fazer/ que o distingue dos demais, isto, é claro, levando em consideração o /querer-fazer/, com o cruzamento de modalidades novamente.
Ao final do percurso, ainda recebe uma sanção positiva:
— Palavra de honra! — disse Thorin, quando Bilbo cochichou para que saísse e se juntasse aos amigos. — Gandalf disse a verdade, como de costume! Você é um ótimo ladrão, ao que parece, quando a ocasião se apresenta. Tenho certeza de que estaremos para sempre ao seu dispor, não
importa o que aconteça depois disto. Mas o que faremos agora? (TOLKIEN,
2009, p.174).
A sanção positiva da performance de Bilbo encerra mais um ciclo. O que vem a seguir é uma fuga pelos barris rio abaixo, mas não antes de uma amostra de virtudes:
Haveria uma expressão diferente no rosto do chefe da guarda no dia seguinte, embora Bilbo, antes de avançarem, tenha entrado na adega sorrateiramente e,
num gesto de bondade, prendido novamente as chaves ao cinto dele. — Isso
vai poupá-lo de alguns problemas — disse o Sr. Bolseiro consigo mesmo. — Ele não era um mau sujeito, e foi bastante decente com os prisioneiros. Além disso, todos ficarão confusos (TOLKIEN, 2009, p. 175).
Novamente pensamos nas paixões que emergem da instância semionarrativa presente no romance do professor de Oxford. Evidentemente, um /poder-fazer/ emerge, afinal houve um aprisionamento, uma expropriação de um objeto dos demais actantes, mas, apesar disso, um /não-fazer/, que é tematizado sob a forma de benevolência. Novamente, esse traço distintivo faz com que o actante se diferencie dos vilões, configurados disforicamente por modalizações e paixões avessas, como a crueldade e o ódio (vide o extremo oposto em Gollum). Caso quiséssemos contemplar esse último episódio por meio de algum de nossos gráficos, poderíamos novamente usar o gráfico que diz respeito à benevolência (fig. 5): quanto maior a agressão ou a calúnia, maior o perdão oferecido aos sujeitos que impõem os obstáculos.
Em uma ocasião em que o /não-poder-fazer/ aparece, um /saber/ gradativo se constrói pela observação no interior do actante coletivo, um /saber/ que permite a elaboração de um /fazer/ libertador de todos e uma conjunção com o objeto valor. Mais
uma vez nos deparamos com um desdobramento em que mais de uma modalidade é ativada e acaba por exigir que o sujeito exerça ações, /fazeres/ de diferentes ordens. Poderíamos dizer com alguma propriedade que, ao final de algumas experiências, como pudemos observar em nosso gráfico sobre a competência do sujeito, o /poder/ e o /saber/ aumentam na medida em que as experiências são acumuladas: poderíamos dizer que Bilbo, nesse ponto, se encontra próximo das configurações do sujeito apto, atualizado, que realiza a ação libertadora ao final.