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Un accès direct au flux de conscience sans experience sampling ?

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Quelles données subjectives pour l’étude

3. Un accès direct au flux de conscience sans experience sampling ?

A criação de associações de pacientes faz parte de um contexto cultural marcado pelo o que o sociólogo Nikolas Rose (2013) descreve como o surgimento de uma nova política

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produção econômica e subjetiva das sociedades ocidentais. O cuidado com a saúde e a reconstrução pessoal através da influência sobre o corpo são bastante difundidas, e os indivíduos passam a compreender frequentemente a si mesmos em termos biológicos. Além disso, as tecnologias confeccionadas por pesquisadores de áreas como a biologia molecular têm produzido alterações radicais na forma como podemos compreender a própria vida. Essas transformações ocorrem ao longo da primeira metade do século XX e são caracterizadas principalmente por mutações em cinco domínios.

Primeiramente, o olhar clínico da biomedicina que passa a compreender e intervir sobre o corpo em um nível molecular. As entidades biológicas deixam de ser pensadas em nível molar (coração, estômago, membros etc.) para serem visualizados em um linguajar moleculares, como em termos de ―propriedades dos códigos de sequência das bases de nucleotídeos e suas variações, dos mecanismos que regulam a expressão gênica e a transcrição, [...] da função dos componentes intracelulares [...] com os seus mecanismos particulares e propriedades biológicas‖ (ROSE, 2013, p.26). A segunda mutação é denominada por Rose de otimização e, nesse caso, as nossas capacidades vitais não são delimitadas apenas pelos polos de saúde e doença, mas passam a ser administradas, modeladas e projetadas visando um estado excelente de saúde (ROSE, 2013). Além disso, as quartas e quintas mutações tratam respectivamente do surgimento de uma expertise somática e de economias da vitalidade.

A terceira mutação teorizada por Rose, central para as reflexões desenvolvidas nessa dissertação, é denominada por ele de subjetificação e trata de novas formas de autocompreensão dos sujeitos e de expectativas em relação às condições corporais que passam a ser mais constantes nessa nova política vital. Valores, que orientam a conduta dos indivíduos, centrados na existência corporal passam a ser dominantes, constituem os chamados ―indivíduos somáticos‖ e incitam concepções de ―cidadania biológica‖. Portanto, as políticas da vida recentes contribuíram para fazer de nós as pessoas que nos tornamos. Ainda, de acordo com Rose: ―Exercício, vitaminas, tatuagens, piercing corporal, drogas, cirurgia plástica, redesignação sexual, transplante de órgão: a existência corpórea e a vitalidade do si- mesmo tornaram-se o lugar privilegiado de experimentos do si-mesmo‖. (ROSE, 2007, p.44)

O antropólogo estadunidense Paul Rabinow, com forte influência de Michel Focault, também pesquisa como essas relações de saber têm tomado forma com as mudanças

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contemporâneas nas relações de poder. De acordo com Rabinow (1999), projetos científicos da biotecnologia, como o sequenciamento do genoma, são característicos de um período marcado pelo que esse autor chama de biossocialidade. Esse conceito exprime o fato de que na atualidade, em diversas situações, a natureza será conhecida e refeita na técnica, tornando- se artificial. Nesse contexto de desenvolvimento das tecnologias biológicas, há uma forte influência sobre as dinâmicas socioculturais e a autopercepção dos indivíduos. Essas considerações teóricas são demonstradas empiricamente pelo antropólogo, através das associações de portadores de doença, que se organizam politicamente em torno de uma condição biológica.

Rabinow desenvolve essas análises a partir de uma pesquisa realizada na primeira metade dos anos noventa na França com pacientes e familiares que se organizaram politicamente na Associação Francesa contra as Miopatias (AFM). Essa associação se engajou no cenário público francês com a intenção de encontrar um tratamento e cura para algumas doenças através da contribuição para pesquisas científicas, provendo amostras de DNA e levantando fundos. Essa pesquisa o levou a identificar novas formas de identidades coletivas que estavam vindo à tona em torno das pesquisas sobre genética. Posteriormente, ele abrangeu o alcance do conceito de biossocialidade para tocar em outras identidades clínicas que não estão diretamente relacionadas à genética (RABINOW, 2008).

Atualmente, associações como estas não se restringem às pesquisadas por Rabinow ou aos portadores de TDAH, apresentando uma ampla diversidade de grupos, cada um com suas especificidades. Embora façam parte desse contexto de difusão da biossocialidade e sejam marcadas pelo contexto cultural das políticas vitais pesquisadas por Rose, as associações produzem críticas a esse mesmo cenário exterior que as constitui. Os grupos formados por autistas são um caso que ilustra bem essa criticidade que pode existir nessas coletividades (ORTEGA, 2009). Alguns indivíduos com autismo produziram teses que confrontam o discurso do saber médico e psiquiátrico sobre essa condição. Para essas pessoas, o que eles apresentam não se configura em um transtorno ou anormalidade que deve ser tratada, mas sim uma diferença social como qualquer outra. Procurar uma cura para o autismo ou desenvolver algum tratamento é visto como algo semelhante a propor um tratamento para pessoas canhotas, negras ou homossexuais. O conceito de neurodiversidade foi cunhado pela socióloga Judy Singer (1999), portadora de uma versão leve de autismo, justamente para

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explicar essa diferença. De acordo com ela, as conexões neurológicas atípicas (ou neurodivergentes) não devem ser tratadas, mas sim respeitadas como qualquer diferença humana.

As associações de portadores de TDAH, embora apresentem também as suas diferenças internas, não desenvolvem um distanciamento tão nítido do saber médico. Pelo contrário, como apresentamos, muitos desses grupos têm médicos e outros profissionais da saúde em sua diretoria e reproduzem as teses da psiquiatria biológica. A ABDA, então, é um exemplo disso, onde praticamente não existem portadores do transtorno nas funções burocráticas e conselho da associação. Isso poderia sugerir que, no fórum da ABDA, se confirmaria a descrição estereotipada dos sujeitos TDAH como vítimas do controle médico, imagem está veiculada com frequência pela mídia e pelos críticos. Porém, não foi exatamente isso que foi observado nas interações entre os membros desse espaço. Embora exista essa forte presença dos profissionais da saúde na composição da ABDA, no espaço do fórum as pessoas fazem declarações que não necessariamente estão restritas ao que dita esse saber.

A partir de certa perspectiva das ciências humanas e em particular dos críticos do TDAH, seria possível pensar que a prescrição dos psicofármacos responde a um processo de medicalização social, em uma concepção estritamente negativa, ou que se trata de uma forma de controle para um comportamento desviante, como o de pessoas que não conseguem atingir um desempenho adequado na escola, trabalho ou nas relações interpessoais. Então, esse discurso parece sugerir que os indivíduos diagnosticados pela classificação psiquiátrica são vítimas do discurso ideológico dos médicos, e que é necessário desvelar esse falseamento em busca da verdadeira causa do que é pensado enquanto um transtorno. Essa abordagem teórica está presente em alguns pensadores da antipsiquiatria (SZASZ, 1974) ou nas primeiras acepções do conceito de medicalização (ZOLA, 1972; ILICH, 1976).

Porém, para ser utilizado de forma adequada com o material empírico aqui analisado, o conceito de medicalização necessitaria de uma inflexão a partir da concepção de poder foucaultiana (2013). Os processos de expansão da medicina para os mais múltiplos âmbitos da existência humana não podem ser considerados simplesmente como uma força que diz não, que reprime e produz controle social. Pelo contrário, há um caráter positivo atuando nesses processos que induz determinada forma de estar no mundo e depende significativamente da agência dos sujeitos. É necessário atentar não apenas para o que a medicalização proíbe ou

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dificulta, mas também para o que esses processos induzem a fazer. Dessa forma, é possível encontrar ferramentas teóricas baseadas nessas reflexões em estudiosos dessas temáticas como os próprios Nikolas Rose e Paul Rabinow.

O que pode ser observado na rede de apoio entre sujeitos TDAH, no fórum da ABDA, não são pessoas passivas que foram dominadas e coagidas a consumir um psicoestimulante. Não relatam nenhuma situação em que apresentaram dependência química dos medicamentos, muito menos sintomas de abstinência quando deixam de tomá-los. O que não significa que não ocorra, mas nem uma menção no fórum, durante o período de avaliação desta pesquisa, sinaliza uma escassa ocorrência desses efeitos. Da mesma forma, não mencionam o efeito colateral de zoombie like, bastante presente em notícias que criticam a Ritalina, em que o usuário da droga fica quimicamente contido em si mesmo. São apresentadas relações complexas e variadas com os fármacos, desde pessoas que não se dão bem com o tratamento medicamentoso a outras que identificam nessas substâncias uma ferramenta de suma importância para as suas vidas. Como já discorremos, são também feitas avaliações dos efeitos obtidos, repensada a quantidade dos comprimidos, os horários mais adequados, compartilhadas táticas para lidar com as reações adversas e, se for o caso, o medicamento é substituído em diálogo com o médico. Além de o próprio médico não ser considerado uma autoridade que não pode ser questionada, mas sim um dos atores que fazem parte da vida das pessoas com o transtorno que, se não atender às expectativas do paciente, pode ser substituído por outro que forneça mais confiança. Em geral, as dificuldades cotidianas daqueles que se identificam como TDAH são pensados em termos de sintomas e nomeados de acordo com a linguagem médica, mas a utilização desses discursos carrega um grau importante de ação autônoma por parte dos indivíduos. Isso está de acordo com o que teóricos contemporâneos dos estudos sobre medicalização reivindicam: uma maior atenção ao papel ativo dos indivíduos nesses processos.

Portanto, para além de produzir apenas resignação e obediência, o diagnóstico e uso de medicamentos como a Ritalina tornam possível o exercício de bioidentidades. Os sujeitos que frequentam o fórum não são pessoas apáticas e com a criatividade obstruída pela ação dos medicamentos. São indivíduos que possuem dificuldades semelhantes na cognição, que encontram na nomenclatura do diagnóstico uma fonte de explicação para seus problemas, e que utilizam os psicofármacos como uma ferramenta para viver sem tanto desconforto.

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CAPÍTULO 3 – O USO DE RITALINA COMO “DROGA DA

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