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Presente nas seleções sub 15 e sub 17, titular do clube carioca e posteriormente negociado por um valor considerável (R$ 750 mil) com o Clube Atlético Paranaense, o rápido e técnico centroavante Valdir também provocava algumas dúvidas nas cabeças daqueles que o acompanhavam – sobretudo dirigentes e funcionários do clube. Tais dúvidas pairavam sobre sua idade verdadeira. Valdir destacava-se entre os demais pela velocidade de raciocínio, técnica avançada e maturidade no trato com a bola e com os demais companheiros. Era como um líder dentro de campo. Trago um relato de meus cadernos de campo, quando observei o atleta em treinamentos e jogos-treino defendendo a seleção brasileira sub 17, em preparação para o Mundial da categoria:
“Outro detalhe que trago aqui é com relação ao jogar do atacante Valdir, que foi dos melhores da seleção no primeiro tempo daquele amistoso [Seleção Brasileira sub 17 1 x 1 Desportivo Brasil sub 20] e também durante toda aquela semana de treinamentos. Se abordarmos questões técnicas, Valdir parece sobrar frente aos rivais em diversos lances ainda que durante todo o primeiro tempo não tenha feito gol. Aí está a dificuldade deste esporte: o futebol é coletivo, no qual jogam juntos onze atletas que com os pés tentam guardar a bola dentro da meta e que, mesmo sendo detentores de qualidades técnicas e controle de bola extraordinários, por vezes são pouco efetivos no andamento do jogo por completo. Mesmo assim, em alguns lances Valdir faz muito bem seu papel: domínios de bola quando pressionado por até dois zagueiros; toques de cabeça que clareiam a jogada para o companheiro, estando de costas para a jogada recebendo bolas que geralmente vem de chutões da defesa e quase sempre muito ríspidas; e tomadas de corpo à frente do zagueiro mesmo quando a jogada parecia estar definida em prol do adversário. Há muito equilíbrio no futebol de base e uma simples jogada como as que cito acima, se bem realizada, pode fazer a diferença no resultado final da partida”.
Mais do que este destaque notado em campo, Valdir comprovava sua qualidade desde a categoria infantil: foi seguidamente artilheiro quando atuava em competições no estado do Rio de Janeiro defendendo seu primeiro clube, o Vasco. Em 2011 foi o máximo goleador e melhor jogador do Campeonato Sul-Americano sub 15, disputado no Uruguai. Após um litígio – ele e seu staff fizeram uma pedida considerada muito alta pelo Vasco, quando da tentativa de assinar o primeiro contrato profissional – transferiu- se para o Atlético Paranaense mediante pagamento de multa rescisória, onde alcançou o profissionalismo (em 2014 atuou por diversas vezes pela equipe profissional) e seguiu figurando na seleção brasileira, então juvenil (disputou o Sul-Americano e Mundial sub 17, ambos em 2013).
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Diante de minha pergunta sobre suspeitas que também recaíam sobre o então atacante do Atlético PR, confessaram: “O Valdir também é gato. Mas é gato oficial, de dois anos. Ele é 94”. “Mas o que seria um gato oficial?”, perguntei a Valinhos. Contou- me, então, o peculiar caso do atacante. Valdir morava numa favela do Rio de Janeiro e o pai era traficante de drogas. A mãe vivia pelas ruas e o garoto foi, em boa parte do tempo, criado pela avó. Valinhos contou que houve uma situação na qual a polícia só não matou o pai porque ele estava com o filho no colo. Foi, então, preso. Após um dilúvio que destruiu boa parte das precárias moradias da favela onde Valdir vivia, quase tudo foi perdido, inclusive documentos pessoais. Quando a administração municipal do Rio de Janeiro, num plano de cidadania para atender famílias atingidas pelas chuvas propôs medidas emergenciais de atendimento à população, Valdir pôde reaver seus documentos. Estimou-se, então, uma idade para o garoto, que de nascido em 1994 passou a ser nascido em 1996, definindo assim, os caminhos que o atacante trilharia nos gramados do futebol.
Isso foi comprovado, segundo contam Valinhos e Caio, por exames laboratoriais pelos quais passam futebolistas quando defendem as seleções brasileiras de base. Eles chamaram de “maturação129”. Valinhos disse que o exame de maturação de Baiano e Valdir já indicavam alterações para a idade apresentada: biologicamente não era possível que aqueles atletas tivessem a idade que seus documentos apresentavam. Assim como no caso de Baiano, ninguém no Vasco comentava sobre esta possível fraude. Tampouco no Atlético Paranaense, quando visitei o CT do clube em janeiro de 2014. Isso se deve ao fato de que os documentos do jovem futebolista eram “rigorosamente” legais. A tal falha ao atribuir idade ao garoto no momento em que reavia seus documentos era, segundo confidenciaram-me Caio e seu pai, a chave para entender a situação de certa maturidade do qualificado atacante.
Aqui temos mais um claro exemplo de como os deslocamentos pelo universo do futebol de base podem escapar às amarras dos controles impostos pelo Estado, que, em princípio, coordena e rege as leis deste esporte. Como dissemos no início deste trabalho,
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Exame que analisa material ósseo (principalmente de mãos e punhos) para medir a idade biológica ou nível de maturação biológica apresentada pelo jogador de futebol. Normalmente são medidos durante os estágios iniciais da adolescência e também durante o chamado “estirão do crescimento”. Dentro de um mesmo grupo de jovens é possível encontrar aqueles que apresentam desenvolvimento biologicamente mais avançado, ou seja, precoce, e outros que apresentam um quadro mais atrasado, caracterizado por um desenvolvimento tardio. Estudos apontam, inclusive, que pode haver diferença significativa entre jogadores que, embora nascidos no mesmo ano, apresentam-se em estágios diferentes se considerados aqueles que nasceram no primeiro ou no segundo semestre.
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parece-nos claro que é preciso analisar a formação de jogadores de futebol de modo a seguir seus atores e verificar que na prática estão sujeitos a mais de uma lógica, que hora os aprisiona e regula suas movimentações, mas que também definem e indicam os caminhos a serem percorridos. No caso específico de Valdir, vemos que o próprio Estado tratou de alterar e definir seu futuro: foi o regimento da esfera legal que definiu, ou melhor, redefiniu sua verdadeira idade. Como o futebol de base é, em parte, regido por tais pressupostos, os caminhos que ele percorreu no decorrer de sua vida neste universo dependeram desta lógica, em boa medida.