• Aucun résultat trouvé

Chapitre 2. Cheminement et modélisation théoriques

2.1 Emprunts en analyse des pratiques et des usages

2.1.2 État de la recherche en analyse des usages

Por sua concepção de physis torna-se compreensível que a posição de Demócrito resultasse numa ética determinista. O que se trata de indagar é: como um determinista pode defender uma ética normativa (por convenção) que pretende descrever o dever ser da conduta?

E esse foi um dos pontos – mesmo se ressalvando que Marx potencializou a oposição entre ambos ao limite – em que a ética democriteana se chocaria com a de Epicuro ao este introduzir o elemento do arbítrio para dar conta da complexidade das escolhas individuais.

No determinismo democriteano o “desvio” na conduta não pode ser explicado. Disto decorre que sua ética é coerente com a sua física, pressupondo valores norteadores da conduta.

Em outras palavras: o cientista físico e racional é também um moralista rígido, que traças normas para conduta com o fim de refrear o relativismo e o individualismo que permeavam a sociedade grega de sua época. 152

E, ao examinar as formulações sobre casualidade e causalidade, em um e outro, Marx o faz para mostrar que o único ponto comum entre aqueles dois era a identidade materialística – e esta decorria da formulação similar para a teoria do átomo.

Mas ressalta o simplismo de ver a segunda filosofia como plágio da primeira dado as diferenças completas quanto aos fundamentos e pontos de partida, fato que o levaria, obrigatoriamente a conclusões opostas.

152 PESSANHA, José Américo Motta. Os pré-socráticos: vida e obra. In: Os pré-socráticos – Fragmentos, doxografia e comentários. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 30-32.

Embora ambos defendam a mesma doutrina, pela qual o substrato de tudo são átomos que se movem no vazio, um (Demócrito) é cético quanto às possibilidades do conhecimento – o homem deve reconhecer que está afastado da verdade – e empírico no que diz respeito à valorização do mundo físico. Já o outro (Epicuro), para Marx, é dogmático e filosófico;

O cético e empírico afirma que o mundo sensível é mera aparência subjetiva – e, no entanto, não se pode chegar ao pleno conhecimento do que a coisa realmente é153 -, ao passo que o dogmático e filosófico afirma que o mundo sensível, isto é, dos fenômenos, é real e objetivo;

O cético valoriza o conhecimento positivo e representa a tensão, a inquietude do observador da natureza, o outro (Epicuro) despreza o empirismo, vai para o Jardim e se entrega à filosofia, expressando assim o ideal filosófico da ataraxia e da autonomia que cria o saber a partir do autodesenvolvimento;

E, por fim, na contradição mais gritante, quanto à forma de reflexão, isto é, as relações entre pensamento e ser, o cético e empírico vê a natureza do ponto de vista da necessidade e usa-a para buscar explicar e compreender a existência real das coisas; já o filósofo e dogmático valoriza totalmente o acaso.

Para ele, a necessidade, convertida por alguns em dominadora absoluta, não existe154, e o seu modo de explicação, por abstrato e filosófico, não se fundamenta na observação da realidade objetiva.

153 BORNHEIM, Gerd (org). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 2002, p.107. Fragmentos 6 e 8.

154 MARX, Karl. Diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro. São Paulo: Global, s/data, p. 26.

Ou seja, Marx se vale da extensão das idéias físicas de Epicuro ao mundo social (átomo = indivíduo), valorizando a idéia de autonomia e acentuando o potencial da reflexão epicurista pela via da exacerbação das diferenças com Demócrito.

Com isso o próprio Marx dá o primeiro passo do que viria a ser sua atitude perante a filosofia: vinculá-la sempre e ao máximo com a realidade, procurando dar conta de seu papel transformador. Esta é, pois, a conclusão que se defende ao longo da reflexão aqui encetada e que se procura sistematizar na próxima parte do presente capítulo, recenseando os resultados do confronto entre o pré-socrático Demócrito e o helenista Epicuro.

3.6. OS RESULTADOS, EM MARX, DO CONFRONTO ENTRE UM PRÉ- SOCRÁTICO E UM HELENISTA

Marx, fixando-se no pressuposto metodológico supracitado e cujo objetivo era o de levar aos limites o contraponto a que se propunha, acentua as diferenças entre Demócrito e Epicuro, mas reconhece, desde o início, os elementos comuns entre eles.

E, desde o início da tese, acentua propositadamente – como já se disse – um contraste, um paradoxo na relação entre os sistemas dos dois filósofos:

a) A filosofia de Epicuro tinha todos os lineamentos de uma concepção objetivamente centrada na realidade, entretanto como na ética buscasse preservar a liberdade, negou o mundo como governado por leis imutáveis, o que soava como uma rejeição à objetividade da natureza;

b) Já a filosofia de Demócrito era céptica quanto à realidade do que aparecia ao sujeito, mas, no entanto, sustentava a causalidade e era determinista.

Marx criticava esse determinismo de Demócrito e mostra – ao longo de sua tese – uma clara identidade com a ética epicúrea da liberdade. E foi, para alguns doxógrafos, a visão de ética de liberdade de Epicuro que pesou na preferência visto que, como filósofo e cientista, Demócrito parecia mais qualificado e original. 155

E ainda que, mesmo aparentemente, estivesse – do ponto de vista do materialismo – mais próximo de Demócrito, seria, ao ver do autor da presente tese, pouco crível que Marx deixasse de levar em conta a situação da Alemanha, caracterizada pela inexistência de uma vida pública democrática, e o potencial crítico que inevitavelmente existiria num filósofo que, além de solapar o misticismo religioso, defendia também uma ética de liberdade expressa na autonomia do átomo / indivíduo.

Ele “opta” por Epicuro fundamentalmente por dois motivos:

a) A ênfase que Epicuro dava sobre a absoluta autonomia do espírito humano contribuía para a libertação da superstição acerca do transcendental. Para ele, “é estupidez pedir a deus coisas que não se é capaz de encontrar em si mesmo”. 156 Ora, numa Alemanha onde a crítica da religião era base de toda crítica157, é de se supor, ao ver do jovem Marx, o potencial explosivo de tal posicionamento,

b) Também a ênfase com que Marx trata, em Epicuro, a questão da autoconsciência individual livre apontava para um caminho no sentido de se ir além, de superar o sistema de uma forma de reflexão total (no caso, a filosofia de Hegel).

Ou seja, já estava ficando claro para o advogado recém-formado que a reflexão não se poderia fazer de costas para o mundo: se Marx concluiu, corretamente, que a física de

155 Ver, por exemplo: MC LELLAN, David. Marx – vida e obra. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 50. 156 Ver: Sentencias Vaticanas. In: EPICURO. Obras completas. Madrid: Cátedra, 1995, p. 104, s. 65. 157 MARX, Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do direito de Hegel. In: Manuscritos econômico- filosóficos e outros escritos. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 45. Marx abre o texto exatamente com essa afirmação.

Epicuro era apenas uma parte de sua compreensão ética, esta sim, o centro de seu sistema, não deixou também de perceber que foi pela recepção crítica das concepções de Demócrito que Epicuro formulou sua física e sua moral.

Foi por não se dar conta dessas diferenças que parte da tradição posterior, como se apontou anteriormente, viu em Epicuro apenas um plagiador de Demócrito.

Por fim, diga-se que a admiração por Epicuro não se prendeu tão só ao filósofo que acabou por se tornar objeto da tese doutoral: Na Ideologia Alemã ele aponta Epicuro como a mente mais radicalmente esclarecida da Antigüidade.

E mais, não devemos subestimar que, ao tratar das diferenças entre as concepções de Demócrito e de Epicuro o que Marx objetivava abordar era um tema caro ao contexto do debate de então e que tinha rebatimentos na política – através e por meio da filosofia – e na compreensão da situação da Alemanha de então: a questão de como coadunar num sistema determinista – e aí Hegel era apenas o motivo para a discussão – a coexistência de uma consciência livre.

Por isso a “consciência de si” (ou autoconsciência) se constituía em conceito-chave nas reflexões dos chamados “jovens hegelianos de esquerda”. Sua tarefa – e a da crítica filosófica – era desnudar todas as formas e forças que se opunham ao seu livre desenvolvimento.

O fato de Marx ter logrado desvencilhar-se de tal tarefa com êxito e dado um passo adiante em relação ao sistema hegeliano deve, em grande parte, ao fato de ter tomado contato com a filosofia epicúrea.

Se Marx conseguiu ser fiel ao projeto daquele que, junto a Aristóteles, foi sua principal influência filosófica, já é motivo para o desenvolvimento do próximo capítulo desta tese que trata da relação entre fatores subjetivos e escolha moral.

CAPÍTULO 4

O MARXISMO E O PAPEL DOS FATORES SUBJETIVOS NA ESCOLHA MORAL