O conceito de narrador, como por exemplo o dado por Jonathan Culler ou Carlos Reis (“ autor textual, entidade fictícia a quem, no cenário da ficção, cabe a tarefa de enunciar o discurso” (Reis, 257), é essencial para a análise dos textos. Cada narrador tem uma relação com o texto que constrói, que depende largamente dos seus conhecimentos, valores, etc, que contudo são influenciados pelos do autor.Os artigos a analisar, se lidos como derivados de fabula comum, são construções situadas no tempo e em tudo dependentes dele para a estrutura que os enforma, nomeadamente para a caracterização de personagens. Os textos nascem num tempo, de um autor que nele vive e do narrador que é criado:
For the study of point of view to make any sense, there must be various contrasting ways of viewing and telling a given story, and this makes ‘story’ an invariant core, a sequence of actions which can be presented in any of various ways. (Onega, 94)
Este será um princípio fundamental para o estudo dos textos – o ponto de vista do narrador, que é situado e identificado como o de um narrador-temporal de textos, “Not only is an author historical, so is the writing of a book” (Miner, 184). Em termos de análise cultural, o reconhecimento dos vínculos de um autor e do seu narrador ao
ambiente cultural e social e as ligações ou rejeições que estabelece, são indicadores preciosos. “(…) for Labov the narrator’s primary concern is not to report a sequence of events but to tell a story that will not be seen as pointless.” (Onega, 101). Em cada momento, cada autor escolhe e ordena pela interposta pessoa do narrador uma história, cuja estrutura reflecte as molduras de pensamento da época, ou a sua eventual rejeição ou modificação.
É justificável, neste ponto, abrir um parêntese de esclarecimento sobre o conceito e estrutura de narrativa:
Devemos agora dizer algo acerca da palavra “narrativa”, que, quando aplicada à ficção, se destina a implicar um contraste com a ficção encenada, isto é, com o drama. (...). Mas a principal estrutura da narrativa é o seu carácter “englobante”: entremeia cenas dialogadas (que poderiam ser representadas) com relatos sumários do que vai acontecendo. (Wellek, 267/8)
O facto de o narrador pretender desenvolver uma história que construa um sentido, fá- lo apresentar os eventos numa determinada estrutura narrativa que não é senão a construção – syuzhet/intriga – por ele estabelecida em determinado momento. O crítico Robert Franzosi acrescenta ainda, baseando-se em Todorov: “In Todorov’s words, ‘The elements [of a story] are related [not] only by succession, (…) they are also related by transformation. Here finally we have the two principles of narratives.’” (Franzosi, 521). Sendo assim a narrativa enforma e transforma: ordena de determinada maneira os elementos narrativos e, ao fazê-lo, transforma-os.
Uma das críticas apontadas ao jornalismo literário consiste numa ligação demasiadamente óbvia ao momento da escrita e, por isso, além de não poderem ter veleidades literárias, os autores cumprirem apenas o ‘contrato’ estabelecido com o leitor do tempo da sua escrita e publicação original. Porém, por esse mesmo motivo, estes artigos são particularmente importantes para uma análise cultural. O autor não se limita a revelar a sua própria voz, não tem, aliás, outra hipótese. Quando o faz, fá-lo propositadamente e sem disfarces; o meio, os objectos, o modo têm uma indisfarçada razão de ser.
O ponto de vista (perspectiva narrativa na terminologia de Carlos Reis) e o narrador são ademais relevantes por outras razões nestes artigos. Tradicionalmente, desde os tempos da Grécia Clássica, o narrador e o autor não eram claramente distinguidos: “It was traditionally assumed that the narrator of verse narrative was more or less identifiable with the poet.” (Miner, 181). Depois de estudiosos como Henry James, o assunto
passou a ser encarado de outra forma e a variedade de pontos de vista a ser estudada e tipificada. Curiosamente, Genette, referido por Miner, regressa de certa forma a uma narrativa verdadeiramente só existente na primeira pessoa: “Initially, openly, or in the end the telling must be referable to a teller whose self-reference can only be ‘I’.” (Miner, 182). Wayne Booth já tinha apontado nessa direcção quando escreveu em The Rhetoric of Fiction:
For that matter, we must object to the reliable statements of any dramatized character, not just the author in his own voice, because the act of narration as performed by even the most highly dramatized narrator is itself the author’s presentation of a prolonged “inside view” of a character. (Booth, 18)
Muitos autores apresentam e desenvolvem o conceito de ponto de vista, o seu relacionamento com o narrador e as implicações destas conjugações nas suas diferentes variedades. Mieke Bal começa por referir no artigo “Focalization”, na colectânea editada por Onega:
Whenever events are presented, they are always presented from within a certain ‘vision’. A point of view is chosen, a certain way of seeing things, a certain angle, whether ‘real’ historical facts are concerned or fictitious events. (…) In a story elements of the fabula are presented in a certain way. We are confronted with a vision of the fabula. What is this vision like and where does it come from? (…) I shall refer to the relations between the elements presented and the vision through which they are presented with the term focalization. (Onega, 115/6)
Este conceito de focalização é importante para a nossa análise, pois permite fundamentar teoricamente o que é aparente numa leitura casual, isto é, que a apresentação da “realidade” é feita de um ponto de vista com uma “focalização”.
Mais ainda: “We can then indicate by means of the term external focalization that an anonymous agent, situated outside the fabula, is functioning as focalizor.” (Onega, 119) Verificamos assim que os focalizors (focalizadores) dos textos a analisar na tese podem ser considerados exteriores; pelo contrário, “When focalization lies with one character which participates in the fabula as an actor, we could refer to internal focalization.” (ibid., 119). Bal adianta ainda que há diferentes níveis de focalização que reforçam esta noção pois, nestes termos, não faz sentido falar em diferença de narração entre a primeira e a terceira pessoa. “In a so-called ‘first-person narrative’ too an external focalizor, usually the ‘I’ grown older, gives its vision of a fabula in which it participated earlier as an actor, from the outside.” (ibid., 126)
A utilização de conceitos de narratologia, como o de focalização e dos seus níveis, permite, numa análise que não se pretende literária mas cultural, realçar a importância dos pontos de vista dos autores que, separados no tempo, são focalizadores condicionados por um momento histórico e pelo seu trabalho de pesquisa.
No seu artigo que estuda a obra de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, a autora, Ria Lemaire, utiliza conceitos operatórios de Narratologia, afirmando o seguinte:
Podemos concluir que a aplicação de métodos de análise e de elementos teóricos da ciência da literatura, sobretudo da narratologia a esta obra híbrida e multidimensional, permitiu detectar nela relações particularmente diversificadas e complexas entre vários discursos históricos e o seu discurso literário. ( ...) A distinção entre esses vários discursos históricos, nos levou a distinguir vários tipos de narradores, de autores, de leitores, no sentido narratológico do termo, e a analisar os seus posicionamentos históricos perante as realidades históricas presentes e representadas em Casa Grande e Senzala. (Leenhardt, 267)
À semelhança da análise feita por Lemaire e atendendo ao preceito de Bal que afirma que a focalização é manipulativa (Onega, 124), poderão detectar-se nos quatro textos focalizações intencionais e construídas não só pelos autores, como pelos seus tempos. Essa manipulação exprime-se tanto pelo que é dito, como pelo não-dito, pelo que está presente, pelo que está representado de uma determinada forma e por tudo o que não é referido, pressupondo assim um juízo valorativo do autor que presidiu à exclusão de determinados aspectos e não de outros.
As quatro focalizações são, assim, a primeira característica textual a ter em conta para poder fazer uma leitura cultural dos textos:
• A primeira focalização é de certa forma ‘moralista’ e educativa, na medida em que dá a conhecer a cidadãos americanos a realidade nova de um grupo de imigrantes – no momento em que estes expulsam o elemento ‘sujo’, num ritual judeu (será de acrescentar que a abordagem da Antropologia Social de Mary Douglas neste domínio poderá vir a ser importante);
• A segunda é normativa, dentro de regras rígidas: aceita o elemento diferente, mas este sabe que o é, sendo a sua forma de subsistência prova desse facto; • A terceira é uma focalização analítica do que se situa fora da norma, refere uma
determinada realidade que existe com uma sobreposição parcial à cultura dominante: é uma focalização indubitavelemnte interventiva, ambicionando uma transformação de limites do ‘normal’;
• A quarta é ‘inclusiva’, pelo menos do mérito, que funciona como elemento de aceitação no domínio do próprio.
Parecem assim, ser focalizações ‘politicamente correctas’ no seu tempo e no “meio” a que pertencem, ordenando narrativas para serem consumidas pelo grande público e que traduzem as condições do momento. São exemplos da afirmação de Philip Sydney em epígrafe no início – “the poet is the food for the tenderest stomachs, the poet is indeed, the right popular philosopher”, se ousarmos alargar o conceito de forma a podermos incluir estes autores na designação de poets.
2.2.3. Enredo
Society is the walls of our imprisonment in history. Peter Berger
Outro dos conceitos relevantes para a análise a empreender é o de enredo. Para esclarecermos a linha conceptual a ser seguida, poderemos atentar na definição de Peter Brooks – “Plot, (...), is the logic and dynamic of narrative, and narrative itself a form of understanding and explanation.”(Onega, 254) O autor recua no tempo, a Aristóteles, traçando um paralelo entre a sua definição de mythos com a actual definição de enredo : “the combination of the incidents, or things done in the story”(ibid., 254): “(…) o enredo é a imitação da acção, entendendo aqui por enredo a estruturação dos acontecimentos (…)” (Aristóteles, a, 48).
O enredo tem sido, na opinião de Brooks, relegado para segundo plano em termos de estudos literários: “Plot has been disdained as the element of narrative that least sets off and defines high art – indeed, plot is that which specially characterizes mass consumption literature.” (Onega, 252). Esse facto não retira ao enredo a sua importância na construção de sequências inteligíveis e a necessidade da construção de ‘enredos’ é, segundo este autor, particularmente importante a partir do século XVIII até à primeira metade do século XX. Os três princípios que regem o enredo, segundo Aristóteles – tem que ser um todo autónomo, tem que construir um princípio, meio e fim e ainda “caber na memória” – são essenciais para os artigos que iremos analisar. “Plots are not simply organizing structures, they are also intentional structures, goal- oriented and forward-moving.” (ibid., 255).
As estruturas, que os enredos estabelecem, permitem ‘ler’ dois planos nos textos – o da organização e o da intenção. As formas organizacionais e intencionais dos diferentes enredos em tempos diversos poderão ser estudadas à luz dos conceitos de Peter Berger sobre modernidade e self – que conduz a um estado de homelessness, referido na obra Homeless Mind de Berger, apud Wuthnow:
The correlate of the migratory character of his experience of society and self has been what might be called a metaphysical loss of ‘home’. It goes without saying that this condition is psychologically hard to bear. It has therefore engendered its own nostalgias – nostalgias, that is, for a condition of ‘being at home’ in society, with oneself and, ultimately, in the universe. (Wuthnow, 67)
Os enredos dos quatro artigos lidam, afinal, com a forma como todas as personagens procuram um local a que pertençam, que seja também deles e que possam partilhar com outros. Peter Berger escreve em Invitation to Sociology: “The horizons of the world, as the grown-ups define it, are determined by the coordinates of remote map-makers. (…) The normal adult is the one who lives within his assigned coordinates.” (Berger, a, 81/2). Essas coordenadas são apriorísticas ao indivíduo, estão de certa forma predefinidas pela sociedade em si. Daí advêm os problemas de adaptação para quem chega de outras paragens, para quem é diferente, ou para quem se encontra numa sociedade em grande mudança e, assim, sem coordenadas fixas.
O contrário da homeless mind é aquela mente firmemente inserida dentro da sociedade em que existe: “In sum, society is the walls of our imprisonment in history.” (ibid., a, 109). Os limites que a sociedade impõe não se encontram só no espaço mas também no tempo e ambas delineiam a existência dos homens. O homem internaliza essas regras, torna-as suas depois de elas o terem precedido. Este processo de internalização de regras de uma sociedade é notório nos textos em apreciação, tanto na forma como ele se desenrola, como na forma narrativa dos diferentes textos.
Segundo o OED, a palavra “literatura” assumiu o seu significado actual no século XVIII. Foi nesse mesmo período, conforme vimos anteriormente, que se publicou o primeiro jornal nos Estados Unidos. Sendo assim, literatura e jornalismo têm crescido lado a lado naquele país. Estas formas de escrita têm partilhado autores e esses autores, num momento ou noutro, cruzaram na sua escrita as experiências que tinham das diferentes formas que praticavam. Esse cruzamento leva por vezes a textos num campo frequentemente designado como jornalismo literário. O objectivo da segunda parte
deste capítulo será o de seguir um pouco do trajecto diacrónico desta escrita transgenérica e transgressora nos Estados Unidos.