De “New Journalism” a “New Journalism”...
What inna namea Christ is this?
(Wolfe, 10)
Fizemos até agora, isoladamente, uma análise rápida da evolução do jornalismo nos Estados Unidos e da evolução que o termo “literatura” tem tido ao longo dos tempos e desde um passado distante situado na Grécia Clássica. Os diferentes tipos de análise, exercidos sobre os dois domínios de escrita, devem-se às respectivas características intrínsecas diferenciadas. Os jornais e os seus antecessores, gazetas e folhas são publicações regulares de periodicidade mais ou menos definida, que informam o leitor de algo novo e relevante para a sua experiência; ao longo do tempo, com a concorrência da rádio e da televisão, os jornais tiveram de alterar o estilo de notícias acrescentando- lhes características que não estivessem unicamente relacionadas com a questão do tempo e da rapidez: ”Upon losing their monopoly on timeliness, newspapers found a way to prop themselves up. They made their narratives richer by adding more news analysis.” (Barnhurst, 46)
O próprio conceito de literatura sofreu alterações de monta e o conjunto que é incluído no grupo das obras literárias foi sofrendo a influência de escolas e correntes literárias, da evolução técnica e estética, dos gostos do público e de outras formas de representar o mundo da ficção, como o teatro, o cinema etc.
Os textos considerados como pertencentes ao “género” do jornalismo literário partilham, alterando-as até certo ponto, de características do jornalismo e da literatura: a publicação inicial é feita em jornais ou revistas e, mesmo que depois sejam recolhidos em antologias, o meio, o suporte inicial para a sua publicação é o periódico; as técnicas de escrita são provenientes das da narrativa literária contemporânea ao texto.
Thomas Connery refere que nos Estados Unidos a tradição do jornalismo literário se inicia com Mark Twain, o primeiro autor a escrever textos deste tipo para jornais em Nova Iorque e no Nevada; acrescenta que James Gordon Bennett escreveu, ainda antes de Twain, textos para o New York Herald, que também caberiam nesta designação ou, pelo menos, na de narrativa descritiva. Porém, nenhum outro autor tinha produzido entre os anos de 1840 e de 1890, textos deste tipo em quantidade ou qualidade semelhante aos de Mark Twain. Connery acrescenta:
When William Dean Howells, for instance reviewed Mark Twain’s “Innocents Abroad”, he noted that the book “taught him nothing about the population of the cities and the characters of the rocks in the different localities”, the kind of facts and description common in such accounts. Howells said that, instead, Twain’s book was about “the realities of human life everywhere”. (Connery, 7)
Desde Twain, encontramos nos Estados Unidos uma série de textos que genericamente eram designados de jornalismo, pois eram publicados em jornais. Porém, como Howells notou, o texto de Mark Twain não correspondia aos requisitos e características do artigo de jornal mas nem por isso deixava de ser utilizado por essa forma de edição. Por um lado, o meio de publicação, jornal ou revista, definia a inclusão no jornalismo: por outro lado, a ‘notícia’ que transmitia não obedecia aos conceitos de novidade, característica do jornalismo. Apesar deste aparente paradoxo, o jornalismo literário desenvolveu-se, tendo encontrado campo favorável para o seu crescimento no ambiente cultural e humano do século XX americano. A designação que é utilizada para o referir nesta tese não deixou, porém, de causar controvérsia.
Em 1887, Matthew Arnold nomeia, no artigo “Up to Easter” um novo tipo de jornalismo, que ele designa de New Journalism: Arnold refere que esse é o tipo de jornalismo que se encontra ao serem tratados assuntos sérios de uma forma ligeira (segundo o autor), como a questão de Home Rule para a Irlanda:
But we have to consider the new voters, the democracy, as people are fond of calling them. They have many merits, but among them is not that of being, in general, reasonable persons who think fairly and seriously. We have had opportunities of observing a new journalism which a clever and energetic man has lately invented. It has much to recommend it: it is full of ability, novelty, variety, sensation, sympathy, generous instincts, its one great faut is that it is feather-brained. 18
18The W.T. Stead Resource Site <http://www.attackingthedevil.co.uk; acessível em 3 de Janeiro de
Cerca de 80 anos mais tarde, Tom Wolfe utiliza de novo a expressão New Journalism, empregando-a, porém, para designar o que ele considera como um novo jornalismo, que, porém, não partilhava as características de ligeireza sectorial perante a mudança social e política que Arnold denunciava, algo sobranceiramente, no seu artigo. Entre estes dois momentos, situam-se muitos textos que fogem aos modelos estritos do jornalismo, mas que também não foram aceites como literatura. Entre estes dois marcos situam-se três dos textos a estudar nesta tese.
New Journalism foi e é, assim, designação dada a realidades diferentes consoante o momento e o país em que são utilizadas. O mesmo acontece com a designação jornalismo literário, que, noutros países, como a Grã-Bretanha, designa a longa e fecunda tradição de jornalismo crítico acerca de literatura e não aquele que é objecto da investigação da presente tese.
Um dos autores constantes do corpus, Abraham Cahan, desenvolveu a sua actividade em três línguas diferentes: inicialmente em russo, quando ainda ligado à sua origem e educação nesse país ou posteriormente como forma de atingir os seus conterrâneos nos Estados Unidos; ulteriormente em iídiche, com os textos destinados aos judeus falantes dessa língua e nela alfabetizados; e, finalmente em língua inglesa quando, já residente no país de acolhimento, se sentiu capaz de a utilizar nos seus escritos. O autor descreve na autobiografia os primórdios da sua actividade jornalística nesta língua, na década de 1880, poucos anos depois de se ter instalado nos Estados Unidos:
My dream was to write for the Sun in New York. It was then at the peak of its reputation and influence; newspapermen all over the country read it and studied it and considered it as their model. Now I felt ready. I resolved to try. I wrote an article which presented a set of vignettes of life in the Jewish quarter. (…) He introduced himself as Erasmus Darwin Beach, chief manuscript reader for the Sunday Sun. He did the work of today’s Sunday editors. He seated himself on the edge of the table and in a pleasant manner asked me who I was and what work I did.
“We’ll print this next Sunday”, he said. “Bring us more such copy.” (Cahan, c, 354/5)
O sonho de Cahan foi realizado com a publicação de um artigo na edição dominical do Sun. Darwin Beach reconheceu e apreciou um artigo que Cahan descreve como uma séries de vignettes sobre a vida no bairro judeu. Cahan acrescenta, páginas depois: “My pieces would sometimes be postponed in order to make room for more important or more timely articles” (op.cit., 358). O carácter de novidade nestes artigos não era o mais relevante e, por isso, a sua publicação podia ser adiada para outras edições. O tipo
de notícia interessava, todavia, um número grande de leitores por diferentes razões: os que se viam retratados nos artigos, os judeus recém-imigrados ou há mais tempo no país que se reviam naquelas personagens e situações e assim confirmavam o seu estatuto público de elementos constituintes da sociedade nova-iorquina. Para os restantes leitores, americanos de origem ou pertencentes a outros grupos de imigrantes, os artigos eram informativos e apresentavam novas realidades culturais com as quais a sociedade se confrontava: “Culture lends significance to human experience by selecting form and organizing it. It refers broadly to the forms through which people make sense of their lives (…)” (Rosaldo, a, 26). Estas formas novas eram visíveis no quotidiano das ruas; porém, o facto de se tornarem motivo de um artigo de jornal, apresentava-as numa forma definida e organizada para os leitores, enquadrava-as e dava-lhes o valor institucional que elas não teriam enquanto fossem consideradas só uma manifestação estranha – não ordenada – de uma cultura, de um povo, de uma religião diferentes:
The rational individual is not a solipsist, but rather a zoon politikon: a being whose needs are not determined in isolation, but only in society. Accountability is written into his make-up. The rational individual has to be conceived as one who expects to be held accountable, who therefore seeks approval, and who gives out praise and blame to others. This individual has to be re-defined as incorporated in a community of one sort or another. (…) Each individual who enters a social relation is drawn at the same time into a debate about what the relation is and how it ought to be conducted. This is the normative debate on which cultural analysis fastens attention. (Douglas, 133)
Recorrendo à explanação, dada pela cientista social, Mary Douglas, acerca da vida do indivíduo na sociedade, poderemos compreender melhor a obra de um autor como Cahan. Este, com os seus textos, contribuía para um debate normativo procurando a aprovação e incorporação dos indivíduos e do seu grupo na sociedade em geral. Douglas usa o termo accountability, termo recheado de significado para a cultura norte americana, pois originalmente era utilizado pelos protestantes calvinistas que o investiam da importância da sua responsabilidade perante Deus e uma vida no Além, mas também face a si próprios, quando apreciavam introspectivamente as realizações dos seus dias. Esta moral e ética individuais eram também da sociedade e reflectiam-se no relacionamento com os outros, em todas as actividades e naturalmente também com o trabalho.
A forma jornalística era particularmente eficiente para este objectivo de aprovação e de ‘prestar contas’, pois atingia com regularidade uma audiência vasta, junto da qual estes
imigrantes procuravam ser reconhecidos, entabular um “debate normativo”. Este é um dos exemplos dos textos e autores a estudar, de entre os muitos que existem no universo textual do jornalismo literário; naturalmente os temas que abordam não têm só a ver com imigração mas com muitos aspectos da vida de uma sociedade e de uma cultura. Será então de tentar compreender como se começou a escrever desta forma e como ela foi sendo divulgada.
Antes ainda de avançarmos com caracterização mais detalhada deste jornalismo literário, regressemos à questão da escolha desta designação em desfavor de outras. A nossa tradição cultural exige que tudo tenha um nome, uma designação: o conhecimento científico exige-o também. Desde o início que utilizamos jornalismo literário. Vejamos, então, as razões da escolha.
Ronald Weber, em 1980, refere alguns nomes para o que ele descreve como, “nonfiction with a literary purpose” – literature of fact, art-journalism, nonfiction novel, essay fiction, factual fiction, journalit. Em 1992, Thomas B. Connery acrescenta: literary nonfiction, artistic nonfiction, the nonfiction story e new reportage. Hartsock, em 2000, viria a recolher e acrescentar: creative nonfiction, narrative nonfiction, lyrics in prose, the confession, the nature meditation, non-imaginative literature. Pode citar- se ainda W. Ross Winterowd que, perdido no meio de tantas designações, encontra ainda outra “the ‘other’ literature”, parte do título que escolheu para a obra que escreveu sobre o tema (Winterowd, 1990).
A denominação de jornalismo literário nesta tese segue as razões apontadas por Connery, para a adequação da utilização do termo. Este autor baseia-se, ele próprio, em outros autores como, por exemplo, Edwin Ford, que em 1937 escreveu: “If the news reporter writes a record of reality, the literary journalist may be said to give a pattern to reality through the medium of his imagination” (Connery, 5) ou em Alan Trachtenberg que caracterizou esta prosa como “a rendering of felt detail” (ibid., ibid.) É este felt detail, que permite que Connery reivindique que “Literary journalism deals with both the “look” and the “feel” of the world.” (op.cit., 11)
Além destas características, Connery invoca a manutenção da designação ao longo dos últimos cem anos como particularmente adequada, pois essa manutenção contribui para uma noção de estabilidade do género, independentemente de outras actualizações entre as quais se pode destacar a de Tom Wolfe com o “seu” New Journalism.
On the one hand the term has occasionally been used over time to identify this form of writing. Hutchins Hapgood used the term early in the century, and Ford used it in the 1930’s. But Wolfe also used “literary journalist” in his discussion of new journalism (Wolfe, 1973, 8), and Charles C. Flippen, one of the early commentators on the new journalism, identified the writing of Wolfe, Talese, and others as literary journalism. (…) Norman Sims gave the term greater prominence with the publication of The Literary Journalists in 1984, and Sims’s 1990 collection of essays also uses the term. (Connery, 14)
O uso do termo é ainda justificado pelo autor quanto às suas partes constituintes: (...) much of the contents of the works come from traditional means of news gathering or reporting, including interviews, document review, and observation. Finally, journalism implies an immediacy, as well as a sense that what is being written about has a relevance peculiar to its time and place. (…)
“Literary” is used because it says that while the work considered is journalistic, for the reasons just cited, its purpose is not just informational. A purely journalistic work is structured to convey information, primarily facts and authoritative viewpoints, clearly and efficiently. In a literary work, and in literary journalism, style becomes part of the meaning conveyed; the structure and organization of language interpret and inform. (ibid., 15)
Mark Kramer corrobora as afirmações de T. Connery, acrescentando:
As a practitioner, I find the “literary” part self-congratulating and the “journalism” part masking the form’s inventiveness. But “literary journalism” is roughly accurate. The paired words cancel each other’s vices and describe the sort of nonfiction in which arts of style and narrative construction long associated with fiction help pierce to the quick of what’s happening – the essence of journalism. (Sims, 21)
O uso do termo não estará, porém, a incorrer em falta de precisão pois, ao longo dos tempos, em muitos campos da actividade humana, e portanto também no da escrita, existem alterações semânticas e polissemismos; passados mais de dois séculos, o jornalismo literário americano que é o nosso objecto de estudo exerce também uma actividade crítica mais de índole ‘geertziana’, utilizando um procedimento que tem a ver com a metodologia antropológica de thick description deste antropólogo.
Parecendo confirmar esta ligação ao método de Clifford Geertz, Kramer lista uma série de “regras”, que ele próprio denomina de “breakable”, para os jornalistas literários, grupo no qual ele próprio está inserido. Assim os jornalistas literários deverão:
• Fazer uma imersão no mundo dos seus objectos, englobada na pesquisa de background;
• Celebrar acordos de exactidão e franqueza com os leitores e com as suas fontes; • Escrever principalmente acerca de acontecimentos rotineiros;
• Usar uma “voz íntima”, informal, franca, humana e irónica;
• Ter em atenção que o estilo é importante, devendo ser simples e despojado; • Escrever desde uma postura descomprometida e móvel, a partir da qual contam
histórias mas da qual também se dirigem ao leitor directamente;
• Realçar a estrutura do texto, misturando narrativa primária com histórias e digressões para ampliar e re-estruturar acontecimentos;
• Fazer fluir o texto, construindo-o de uma forma que antecipa e se adequa à sequência de reacções do público.
Kramer estima que a diversidade crescente de experiência social a partir do início do século XX, o desaparecimento de formas de autoridade totais nos mais variados campos (social, político, literário...) não redundou ainda in universal despair. A justificação que dá para essa subsistência da esperança tem a ver com o facto de que a diversidade motiva sede de conhecimento de outras realidades e imaginações. Para satisfazer esse encontro com o “outro”, cada público recorre a diversos meios ao seu alcance: nessas variadas estratégias reside grande parte da importância deste tipo de jornalismo, segundo este autor:
Literary journalism helps sort out this new complexity. (..) Literary journalism couples cold fact and personal event, in the author’s humane company. And that broadens readers’ scan, allows them to behold others’ lives, often set within far clearer contexts than we can bring to our own. (Sims, 34)
“Others’ lives” são assim apercebidas através de textos, que podem ser como os de Cahan anteriormente referidos, publicados pelo New York Sun dominical. Pode traçar- se um certo paralelo entre este tipo de artigos e uma literatura de viagens, todavia sem deixar o próprio país ou a própria cidade. É a ‘literatura’ que possibilita a visita às outras realidades do mesmo local, um tanto semelhante a naturalistas americanos do virar inicial do século XX, como Theodore Dreiser ou outros. Esses mútuos ‘reconhecimentos’ são constituivos de todos os elementos em presença, como realça Mary Douglas: “At a second level of elaboration, community and self are reciprocal notions. The thesis is that the cultural project to make the city makes the selves at the same time.” (Douglas, 103).
Esta imagem do ‘estrangeiro’, no caso da presente tese, referirá o “outro”, genericamente – diferente devido a características como nacionalidade, género, religião, profissão, etc. A elaboração e apresentação por escrito desta imagem mostra
não só muito sobre as personagens que versa mas, também, como escreve a autora, sobre o grupo que a elaborou. Este grupo, ele próprio variado, revela e revela-se ao longo dos tempos.
Segundo Kramer, o jornalismo literário estaria então particularmente bem adaptado à realidade social existente a partir dos meados do século XIX nos Estados Unidos. R. Thomas Berner acrescenta ainda outras particularidades do jornalismo deste tipo:
The context, the social circumstances in which a piece was written and the way it was received, tells us something about society and the state of journalism then. More recent reactions to the work can tell us something about journalism now. (Berner, 3)
As descodificações diversas que se vão fazendo são denunciadoras, dos textos em si, mas também de quem as faz e da contemporaneidade crítica. A reflexão existente sobre estes textos ultrapassa a variedade imensa de nomenclatura para este tipo de escrita ou as suas características, pois existem autores que discordam por diferentes motivos da possibilidade de existência de um ‘género’ jornalismo literário autónomo. Phyllis Frus, por exemplo, contesta a expressão jornalismo literário, não só no seu todo, mas também a própria associação dos dois termos, enquanto oposição que se faça entre os dois tipos de escrita. Em 1994, a autora discordava da existência de algo que se possa chamar jornalismo literário: “I do not use the term “literary journalism”, because I cannot accept the valuation that results from separating some examples of journalistic narrative from general coverage of current events and issues.” (Frus, x). Frus não concorda com a separação feita entre textos de cobertura jornalística de acontecimentos e os de narrativa jornalística. Na mesma obra refere Robert Scholes para justificar o seu conceito de leitura reflexiva19 ela sim, constitutiva do texto a designar de literário:
As Robert Scholes says, “The interpretation of any single literary text, if pushed seriously, will lead us not to some uniquely precious exegetical act but to cultural history itself. Under this contextual framework, then, literature is the result of reflexive reading, and we can enlarge the category to contain all the texts we choose to read in this manner. (Frus, 32)
Outros autores – como Ericson – são igualmente da opinião de que não existe jornalismo literário, apresentando, porém, este autor, razões de índole diversa:
19 ’reflexive reading’ – “In brief, I will argue that as readers we produce what we call “literature” when
we read to discover how a text, through its style, “makes” reality, that is, when we read its content