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Surge então no Canto VIII aquele que é, em termos de obstáculos que se apresentam ao Herói, o mais difícil de ultrapassar. Não se trata então de um conflito físico, mas sim de um impasse que ocorre dentro da consciência do próprio Herói.
Tal como fizera nos Cantos VI e VII, o Poeta aproveita a pausa nos conflitos bélicos entre Portugal e Castela e a preparação em Coimbra das Cortes que irão eleger o Defensor como Mestre de Avis para colocar o Herói afastado do seu meio e dos seus pares, sozinho errando «pelos montes mais fragosos/Da Província da Beira» (est. 37, Canto VIII), usufruindo do seu gosto pela caça.
Perdendo-se o Defensor, é um pastor que o Herói acaba por encontrar por aquelas paragens, assumindo esta singular personagem o papel de guia que conduz o Defensor até ao local da revelação: a quinta de Camilo.
O Herói, ficando a par do espaço em que habita Camilo e das razões deste para abandonar a Sociedade e para viver retirado no meio da Natureza, e ainda que inicialmente evidencie alguma relutância em aceitá-las, acaba gradualmente por reconhecer razão a Camilo.
Poderia o Poeta ficar por aqui, reconhecendo às duas personagens a validade das suas posições. Contudo, o Herói regressa a Coimbra pensativo, reflectindo demoradamente sobre todos os seus actos até então:
Contemplando nos sustos, e cuidados, Nos perigos, e riscos furiosos, Nos trabalhos frequentes, e pesados, Nos precipícios vários, e espantosos, A que estavam sujeitos, e obrigados Os seus grandes projectos gloriosos, E na triste inconstância dos sucessos Apesar dos mais prósperos progressos. Um pouco comovido, e vacilante Nas ilustres ideias, que tratava
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Influência da glória lhe inspirava, Consigo mesmo incerto, e a cada instante Mais duvidoso o ponto disputava, Se devia seguir: a fama incerta,
Ou buscar do sossego a porta aberta. (est. 99 e 100, Canto VIII)
O Herói, pela primeira vez, vacila nos seus princípios, naquilo que sempre o guiou, resultado da racionalidade do discurso de Camilo. E só por intermédio de um sonho interposto pelo Génio o Herói ganha consciência, não da falsidade dos argumentos de Camilo, mas tão-só da necessidade de Ele não os respeitar, tendo em conta o lugar
que ocupa e que ocupará: o de Herói. Porque o Herói, ainda que o raciocínio que
lhe seja apresentado seja válido e sincero, não pode deixar de lado o essencial: o
respeito pelos princípios que o regem e pelos objectivos que procura alcançar.
O Herói é assim chamado a raciocinar sobre o lugar e a posição que
ocupa, sendo forçado por um sonho a consciencializar-se de tudo o que ainda falta
fazer para que a Pátria seja enfim liberta:
E suposto que enfim se desengana Ser tudo sonho, tudo fingimento, Nem por isso do susto a dor tirana Em paz lhe deixa o claro pensamento; Já lhe parece, que o valor profana Com brandas ilusões de abatimento, Já se acusa de frouxo; porque dera
Atenção de Camilo à voz sincera. (est. 101, Canto VIII)
A nosso ver, a importância deste raciocínio é notória na obra: se entendermos o discurso de Camilo como a explicitação de algum do pensamento setecentista presente em autores como Montesquieu e Rousseau sobre os direitos e os deveres do Homem e do seu papel activo na construção das sociedades, o que o Poeta parece pretender com este episódio é levar o Herói a consciencializar-se do seu papel na
Sociedade. O Herói ganha essa consciência e é levado a repensar a sua conduta e
todas as suas acções até então, questionando o seu percurso futuro.
Mas não se pense que o Poeta, ao fazer com que o Herói se acuse de ter sido «frouxo», pretenda descredibilizar o pensamento de Camilo; pelo contrário, as palavras deste são, pelo Defensor, encaradas como a «voz sincera», acreditando este existir nelas toda uma sabedoria. O problema é que essas palavras não se podem
aplicar à pessoa do Defensor porque a ele está reservado um outro futuro: ele não
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mundo; na Joanneida, ele é, indiscutivelmente, o único homem que pode garantir a Liberdade de Portugal. Daí não entendermos esta atitude do Herói como um recuo no
seu percurso, mas antes como um passo fulcral no seu crescimento enquanto
personagem heróica, sendo pela superação deste obstáculo que o Herói adquire uma maior consciência do seu papel e das responsabilidades que lhe estão subjacentes.
Podemos talvez dizer que este é, em toda a obra, o momento crucial na
construção do retrato heróico de D. João I: o Herói que se constrói chegou a um
momento em que só vê duas alternativas: abandonar tudo e seguir uma vida de paz e sossego consigo próprio ou entregar-se em absoluto à causa de Portugal.
E é de novo um sonho, enviado pelo Génio Tutelar dos Portugueses, que vai ajudar o Herói a tomar uma decisão, sendo o mais interessante neste sonho o facto de ele se centrar não num dos futuros filhos de D. João I e de Filipa de Lencastre, mas no seu filho Afonso, o futuro primeiro Duque de Bragança, fruto da relação com Inês
Pires.
A aparição de D. Afonso na obra por intermédio de um sonho, de novo fabricado pelo Génio:
[…] que trata dos aumentos
Da Glória Portuguesa, e sempre os passos Observa do Varão, a quem presente
Acompanha, e socorre diligente. (est. 91, Canto VIII)
ganha maior relevância na medida em que a ameaça que sobre o próprio é colocada, em particular, simboliza, efectivamente, uma ameaça muito maior e muito mais alargada que o Poeta procura evidenciar: a ameaça sobre a Casa de Bragança e, no seguimento desta, sobre a própria Dinastia de Bragança, da qual o Príncipe D.
José, a quem é dedicada a obra, descende.
Aliás, podemos encontrar essa mesma relevância da Casa de Bragança na referência feita no sonho a uma das figuras históricas de relevo dessa mesma Casa. Falamos de Constantino de Bragança186, a cujos feitos o Poeta alude no final do Canto VIII:
Constantino, por quem o Indo espera, Damão se assusta, treme o reino injusto De Jafanapatão, por quem se altera O Gentio feroz, o Mouro adusto;
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A cega geração, a gente fera,
Que os Altares consagra a torpe busto, A quem há-de ensinar no desperdício
A pia execração do sacrifício. (est. 97, Canto VIII)
Daí que este sonho em que o «Descuido» do Herói se salienta como um perigo a combater, mais do que prever a morte de um Infante profetiza, isso sim, a morte
de toda uma descendência, a qual vai ser determinante para salvar futuramente os
destinos de Portugal:
Com ele [Afonso] o fado liberal se ostenta, Se tu mesmo não frustras as bonanças; Pois que nele, e seus filhos acrescenta A firmeza das Lusas seguranças; Na sua descendência o Céu sustenta A Portugal segundas esperanças De liberdade contra o vão projecto
Do poder Hespanhol já mais completo (est. 94, Canto VIII)
Desta forma, é somente o perigo que o seu filho Afonso corre (e, consequentemente, o perigo que o futuro do país irá correr no futuro), que impele o
Herói a agir, que o faz finalmente pôr de parte os seus próprios interesses e as suas
próprias vontades para abraçar o projecto comum de salvar Portugal e os Portugueses. E quando o Herói desperta, as conclusões que retira do sonho são óbvias e esclarecedoras:
E suposto que enfim se desengana Ser tudo sonho, tudo fingimento, Nem por isso do susto a dor tirana Em paz lhe deixa o claro pensamento; Já lhe parece, que o valor profana Com brandas ilusões de abatimento, Já se acusa de frouxo; porque dera Atenção de Camilo à voz sincera. E de novo nas chamas abrasado Do desejo de glória, e fama eterna, Que é quem sempre no risco mais pesado Os pensamentos dos Heróis governa, Não sofrendo demoras no cuidado, Que lhe acrescenta inspiração superna, Monta a cavalo, e cheio de ousadia
À risonha Coimbra os passos guia. (est. 101 e 102, canto VII)
O Herói ganha assim consciência de que tudo foi um sonho, mas de que ele próprio, apesar de ser sincero o discurso de Camilo, tem de tomar um rumo diferente do deste: ele é um Herói e por ser um Herói está-lhe reservado um caminho do qual
177 depende o futuro de todos os Portugueses. É aqui que o Herói ganha a última e
decisiva consciência do seu papel, da necessidade de actuar e de não ser influenciado por outras ideias que, ainda que verdadeiras e por si partilhadas, vão contra o
objectivo primeiro: defender a Liberdade de Portugal.
Desta forma, JCM, ao colocar o Herói a escolher defender Portugal e os Portugueses no final do Canto VIII, acaba por indirectamente fazê-lo estar a defender a futura Liberdade e Independência de Portugal, 400 anos depois. E esse propósito, aliado ao conjunto diversificado de obstáculos que o Poeta evidencia no percurso ascensional de D. João I, permitem que esta epopeia contribua de facto para a
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