Uma das primeiras acções da Joanneida tem como interveniente o Defensor. Falamos, obviamente, do cerco de Lisboa, cuja primeira descrição, sendo feita no poema pelos olhos do Defensor, apresenta de forma crua os sentimentos manifestados por quem nele participa:
Via a chama voraz da guerra ardendo No mesmo coração da pátria amada, Ministrando matéria ao fogo horrendo, Para a própria ruína a Lusa espada. Via a torpe ambição nas mãos rompendo Os laços mais fieis da fé sagrada, Autorizar a força dos insultos Na mesma fé dos desprezados cultos. Via a ímpia vingança indignamente Profanando do trono a Majestade, Fomentar a desordem no indecente Exercício da suma autoridade. Via abonar o estrago infamemente Da mesma nacional barbaridade, E entre tantos objectos de violência
Mais o empenha o valor na resistência. (est. 14 e 15, Canto I)
E perante tal situação, assim apresenta o Poeta o carácter interventivo do Herói, tanto actuando activamente:
[…]
Corre às portas o Herói, onde executa Prodígios de valor, e actividade; De poucos cavaleiros se acompanha,
Mas que fazem tremer a toda Hespanha. (est. 16, Canto I)
Como solicitando o apoio e a reflexão de todos:
Anima o Herói o povo, e com cuidado, A conselho convoca os companheiros, A quem expõem, com gesto sossegado, Toda a força dos riscos verdadeiros: Pondera na cidade o triste estado,
De um longo cerco os danos mostra inteiros, E pede a todos, que com zelo puro,
Discorram no remédio mais seguro. (est. 34, Canto I)
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Não sentia do sono o brando efeito, Nem seu suave alívio aproveitava, Antes nas horas, em que os mais dormiam, Mais agudos desvelos o feriam. (est. 3, Canto III)
e que intervém sempre nos momentos oportunos, dando alento e motivação às suas tropas. Na verdade, em alguns momentos, só a sua acção extraordinária e exemplar,
fundada na razão, pode acalmar uma multidão em pânico, como sucede no final do
Canto II quando a sua mão fecha a porta das muralhas e, mais do que aparentar abandonar os seus à triste sorte da batalha, impede que os Castelhanos entrem na cidade (est. 93, Canto II)164
Para além disso, a exemplaridade do Herói manifesta-se de outras formas, por exemplo, pelo facto de o mesmo estar sempre informado do que se passa em seu redor. Exemplo disso é o facto de as traições que, ao longo do poema, se perpetuam contra si e contra os Portugueses acabarem sempre por ser descobertas, como é o caso da traição de Dom Pedro de Castro e João Lourenço da Cunha (est. 48 a 56, Canto V) ou a traição do Conde de Trastâmara (est. 15 e 16, Canto VIII), esta claramente evocativa da reacção exemplar do Herói, a qual não é pautada pela vingança, mas pela racionalidade e pela bravura:
Também a reacção do Herói após a sua entronização, no Canto X, é um bom exemplo do seu carácter corajoso e do zelo que mantém para com a Pátria. Aqui, o
164 As estrofes 88 a 93 do Canto II permitem, à primeira vista, uma interpretação bastante negativa das
atitudes do Herói, na medida em que o mesmo, ao fechar a porta das muralhas, impede que as suas tropas alcancem a segurança da Cidade. Contudo, e tomando em consideração a construção propositada no poema épico do retrato de um Herói cuja principal característica é a racionalidade, interpretamos este episódio não como uma manifestação de fraqueza ou de desrespeito do Defensor para com os seus, mas, pelo contrário, como um claro sinal da sua valentia e da capacidade de
liderança. O seu gesto não procura deixar os Portugueses entregues à sua sorte, mas antes procura
consciencializá-los da força que neles próprios existe, mas que entretanto se achava escondida. Se atentarmos nas estrofes em causa, apercebemo-nos da existência de um processo gradativo de
consciencialização do Herói, o qual é levado gradualmente a tomar decisões cada vez mais difíceis,
que vão espelhando simultaneamente o seu carácter heróico: primeiro, o Herói avança para socorrer os seus num momento aflitivo (estrofe 88). Segue-se a percepção da confusão e a impossibilidade de acalmar a multidão em pânico, apesar de cada acção sua parecer «um raio irado,/ cada voz um trovão, que horrendo estala» (est. 89 e 90), factos que o levam a manifestar uma vontade imperiosa: «quer sair» para combater, sendo contudo pelos «amigos» impedido de o fazer, não lhe sendo permitido «expor ousado/ Uma vida, de quem depende o Estado» (est. 91). E perante esta situação, só resta ao Herói, na observância do que o rodeia, tomar uma atitude que, verdadeiramente, resolva aquela situação aflitiva: fechar a porta das muralhas, não só impedindo que os Castelhanos entrassem na Cidade, mas forçando os seus a tomarem consciência de que a vitória era possível, como o próprio o afirma: «Vós sereis bons, lhe grita, sem vontade,/ Que o mesmo risco vos dará bondade. (est. 92, Canto II).
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Herói revela a sua indisponibilidade para a ociosidade e, consciente das muitas dificuldades que o esperam, parte para a luta, procurando nos dias seguintes, «com brevidade» (est. 33, Canto X), «sem demora» (est. 39, Canto X) e «sem mais perda de tempo» (est. 51, Canto X) conquistar para a sua causa as cidades favoráveis a Castela:
Com festivos obséquios de alegria Se desvela Coimbra; mas no peito Do novo grande Rei nada podia Interromper do zelo o nobre efeito: O bravo coração lhe não sofria Viver em ócio alegre, e sem respeito Às corteses lisonjas dos amigos,
Deixa Coimbra, e busca os inimigos. (est. 30, Canto X)
Aliás, esta intencionalidade em defrontar os perigos e em resolver os problemas, tal como é evidenciado pelo Poeta, resulta não só do carácter incansável e destemido do Herói, mas igualmente da necessidade por este sentida em «mostrar que desempenha e que merece/ a distinção da Régia investidura» (est. 89, Canto X).
Ainda no respeitante à caracterização do Herói pelos seus actos, saliente-se a acção de D. João I em plena Batalha de Aljubarrota. Sendo o Herói inicialmente apresentado como aquele «que escurece/ Em valor os presentes, e passados,/ Com mais altas acções se soleniza,/ E nos ecos da fama se eterniza». (est. 119, Canto X), são desde logo evidenciadas pelo Poeta (referindo-se este às acções bélicas do Herói) todas as qualidades que caracterizam e que justificam, em pleno, a sua eleição como Rei de Portugal (est. 120, Canto X).
Para além disso são também bem expressas pelo Poeta, a propósito deste conflito, as qualidades extraordinárias do Herói, qualidades que lhe permitem realizar feitos igualmente extraordinários, como o cortar de cabeças dos inimigos:
[…] o Rei valente,
A quem perigo algum jamais assusta, Com dura mão cabeças inimigas
Abate, e corta com cruéis fadigas. (est. 121, Canto X)
A morte de inúmeros soldados inimigos:
(…)
Mas do Luso Monarca a mão potente, Donde os golpes mortais partem rugindo, Tantas mortes fulmina, em breve espaço,
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E, mais importante do que isso, a sua acção para salvar o «caro amigo» Nuno do grande ajuntamento de soldados castelhanos que ali se via:
Com este aviso o Rei dos Lusitanos Corre pronto a salvar o caro amigo, Sacrificando os louros mais ufanos
À gostosa esperança do castigo; (…) (est. 125, Canto X)
Como vemos, JCM procura incessantemente, ao longo de toda a obra, pôr em relevo as acções e as atitudes de D. João I, colocando em cada uma delas o máximo de brilho e de relevância, para que mais profundamente possamos percepcionar o carácter exemplar e excepcional deste Herói165.