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3.2 Plotting a Function

Tal como em todos os registos anteriores conhecidos, Nuno Álvares Pereira é, indubitavelmente, o braço direito do Mestre de Avis, a personagem que o auxilia de forma determinante no plano militar. Na Joanneida, assim é Nuno caracterizado pelo Defensor, já no final das narrações ao cavaleiro Monferro:

Só Nuno, o grande Nuno, em meu conceito Era capaz de tanto: o seu cuidado,

A fé nobre, o valor daquele peito Era no Reino todo acreditado; Deste fiz eleição, do seu respeito O socorro fiei de todo o Estado, E partidas as forças da Coroa,

Ele anima as Províncias, eu Lisboa. (est. 141, Canto IV)

Mas a familiaridade e o reconhecimento com que aqui é referenciada a personagem de Nuno Álvares não esconde, efectivamente, a notória secundarização a que esta personagem é votada na Joanneida. Aliás, a leitura do Poema e a estrutura narrativa que lhe está subjacente não deixa qualquer margem para dúvidas: o Herói na Joanneida é D. João I; é a sua heroicidade e a manifestação da mesma que se procura aqui evidenciar e esse objectivo não permite que seja conferido a Nuno

português contaria com uma força bélica de 9000 homens. Já FL, no seu célebre capítulo em que critica o exagero dos números, tanto do lado português como do lado castelhano (CDJ2, cap. XXXVI), afirma ser a força dos portugueses próxima das 7000, enquanto Luís Miguel Duarte, na sua obra dedicada à Batalha de Aljubarrota faz referência a um estudo de João Gouveia Monteiro que propõe, após uma cuidada análise de diversas fontes, o seguinte: «É possível que, no fim de contas, os exércitos que realmente lutaram em Aljubarrota tivessem uma dimensão semelhante.» (Duarte, 2007: 110).

Sejam quais forem os números correctos (e não nos esqueçamos que as fontes também divergem relativamente às forças castelhanas que estiveram em confronto), o que é certo é que JCM respeitou e realçou a diferença numérica de forças que sempre havia sido considerada como característica desta batalha, o que servia os seus propósitos de glorificação (como é próprio do poema épico) da vitória dos Portugueses.

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Álvares o protagonismo que os registos históricos e também alguns épicos (como o poema de Francisco Rodrigues Lobo, Condestabre, de 1609) lhe haviam conferido.

E é até interessante verificar como no próprio elogio aos feitos de Nuno, aquando da narração a Monferro, o Herói não olvida referir-se aos penosos trabalhos pelos quais ele próprio tem passado, tantos e tão fortes como os de Nuno Álvares:

Nuno tem derrotado em campo aberto Os inimigos por diversas vezes, E de louros, e palmas já coberto, Faz respeitar os brios Portugueses; Eu tenho sustentado em duro aperto Um assédio cruel de quatro meses, E não creio ter tido maior dano,

Do que tem recebido o Rei tirano. (est. 141, Canto IV)

Contrariamente ao que possa parecer, não interpretamos esta intervenção do Herói como uma tentativa de suplantar, pelas suas acções, os feitos de Nuno Álvares; vemo- la antes como uma referência clara e inequívoca à necessidade de combater os Castelhanos em duas frentes bem distintas, em que nenhum dos dois intervenientes (D. João I e Nuno Álvares) está acima do outro e em que a cada um compete um papel de relevo. Segundo Teresa Amado, a narrativa de FL vem evidenciar precisamente o facto de os dois serem duas faces da mesma moeda da governação: D. João I, face da política e Nun’Álvares, face da guerra e da acção. Como refere a autora, «o entendimento das suas vidas como uma empresa partilhada em que para sempre seriam mútuos devedores e em que um foi ao outro “mui notavell e maravilhoso companheiro” (CDF: 429) constituem a moldura de que Fernão Lopes rodeou as suas duas personagens» (Amado, 1997: 62). Todavia, o que a Joanneida procura evidenciar é o facto de D. João I também ter tido um papel activo na luta contra os Castelhanos, procurando assim JCM, pelo reforço da importância de D. João I em determinados acontecimentos, reforçar a imagem positiva e heróica do Herói construída ao longo do Poema.

No fundo, pensamos que JCM procura com esta intervenção, ao contrário do que os registos históricos evidenciam, dar maior relevo ao papel que D. João I teve na luta contra os Castelhanos e na defesa da cidade de Lisboa, igualando os seus actos aos actos de Nuno Álvares na Província, uma vez que, nas crónicas lopesianas, os feitos heróicos são globalmente identificados com os feitos militares, é sobretudo a

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personagem de Nuno Álvares quem sai glorificada, sendo conferida à actuação do Mestre de Avis, por contraste, um papel algo dúbio, pelo menos até à sua eleição como Rei173.

Ainda relativamente à relação entre D. João I e Nuno Álvares, destaque-se o papel que o Poeta confere ao Herói, logo no início do Canto VI, quando é descrita uma situação algo caricata em que Nuno, chegando a terra, se ajoelha para beijar a mão do Mestre, em sinal de respeito. E perante este gesto, assim reage o Defensor:

Que pretendes, lhe diz enternecido O Príncipe modesto? Um Varão forte De tais palmas, e louros revestido Se abate assim vendido desta sorte? A mim, que nestes muros recolhido

Não tenho obrado acção, que à Pátria importe? Esperavas que fosse tão ingrato,

Que te sofresse tão humilde trato. (est. 9, Canto VI)

Por intermédio destas interrogações, o Poeta como que reafirma o respeito característico do Herói, mostrando que este tem uma grande consideração por Nuno e por todas as suas acções, vendo-o de certa forma como um seu semelhante.

Mas a evidência no Poema da heroicidade de D. João I e do consequente apagamento da mesma em Nuno Álvares revela-se em mais dois momentos na obra: no Canto IX (est. 83 a 93), aquando do discurso do Defensor de repúdio perante a hipótese de assassinar Martim Vasques, proposta por Nuno Álvares174 e no Canto X (est. 124-125) em que é o próprio D. João I quem, vendo Nuno e as suas tropas em apuros, corre para o salvar.

Desta forma, e no que respeita a Nuno Álvares, que imagem podemos dizer que a Joanneida constrói da sua pessoa? Atendendo aos diversos momentos em que esta personagem intervém, poderíamos dizer que o Poeta cria uma imagem dupla de Nuno Álvares. Por um lado, realça as suas grandes qualidades enquanto chefe militar, que a História havia eternizado (ele é o «grande aluno de Marte» (est. 7, Canto VI), o grande guerreiro e uma das grandes esperanças dos Portugueses, em relação aos quais

173 A este propósito, cf. Amado (op. cit.: 59-66).

174 O que nos parece ser digno de assinalar neste episódio é o facto de a intervenção fundamentada de

D. João I pretender, a nosso ver, não a descredibilização da personagem de Nuno pela proposta que faz (personagem que ele, aliás, elogia ao longo do seu discurso), mas antes a reafirmação do repúdio pela falta de valor que essa proposta acarreta do ponto de vista do comportamento heróico. E deste ponto de vista, e no que toca ao respeito pelos comportamentos e pelos princípios que devem reger o herói, D. João I sai claramente a ganhar m comparação com Nuno Álvares.

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«sempre se mostrara o mais fiel» - est. 90 e 91, Canto X); o homem que sempre teve como princípio o zelo para com a Pátria (est. 100, Canto VI); aquele que o Poeta chega mesmo a comparar com Aquiles (est. 112, Canto X).

Mas por outro lado, ele é também o homem caracterizado movido por

instintos primários, quando, por exemplo, se propõe assassinar Martim Vasques, no

Canto IX, embora aqui a verdadeira culpada da posição de Nuno seja a Discórdia (que também faz de Nuno Álvares o elemento mais susceptível de ser influenciado por ela), incitando-o a manifestar tais sentimentos:

Ou seja, sendo evidente que a Nuno Álvares não é concedida, nesta epopeia, a mesma relevância e o mesmo protagonismo que o mesmo teve noutros registos, tal se deve essencialmente ao facto de a apologia que se pretende fazer neste Poema só poder ter um sentido: a glorificação de um herói individual, e esse só podia ser D.

João I.

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