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Um dos tópicos relativos à construção do retrato épico de D. João I que merece a nossa atenção é, sem dúvida, a auto-caracterização do Herói. No caso da

Joanneida, constatamos que este poema é rico em exemplos de auto-caracterização que, desde logo, conferem uma maior autenticidade ao carácter heróico de D. João I, na medida em que as palavras se associam em pleno aos seus actos. Vejamos então alguns desses exemplos.

A coragem do Herói, por exemplo, é demonstrada pelas suas palavras aquando da tomada de uma decisão sobre o ataque castelhano à cidade de Lisboa:

(…)

Eu serei o primeiro em qualquer parte,

165 A propósito da caracterização do Herói pelos seus actos, refira-se que ao Poeta, fruto das inúmeras

leituras que efectuou para a elaboração da Joanneida, não escaparam algumas das características mais particulares de D. João I (ainda que sobre elas pouco desenvolvimento tenha sido feito, talvez porque não se tratam de aspectos fulcrais no evidenciar do carácter heróico de D. João I). Uma dessas características, brevemente resumida nas estrofes 36 e 37 do Canto VIII, é o seu gosto pela caça, desenvolvido pelo próprio D. João no seu Livro de Montaria e sobre o qual refere Maria Helena da Cruz Coelho: «o Livro de Montaria […] carreava toda a experiência do rei caçador. […] Nele perpassa sobretudo o seu profundo conhecimento empírico e mesmo o seu deleite de percorrer montes, olhar e amar a Mãe Natureza, ou perscrutar os trilhos e as manhas dos animais. A D. João nada se afigurava melhor, para compensar os duros e penosos trabalhos da governação, que o desenfado da caça, jogo de vigor, mas ou em simultâneo «prazenteiro», que restabelecia as forças físicas e anímicas.» (Coelho, op.

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Que a frente insulte do soberbo Marte. (est. 89, Canto V)

Ou no seu discurso de desafio ao Conde de Trastâmara, após a descoberta da traição:

Aqui me tendes só; dai cumprimento À vingança, que tendes prometido;

Que um homem, como vós, para instrumento De um golpe oculto foi mal escolhido: Isto dizendo com brioso alento, Da cinta arranca o ferro esclarecido, E com ele na mão espera ousado

A resposta do Conde rebelado. (est. 23, Canto VIII)

À coragem alia-se o seu sempre característico zelo para com a Pátria, sendo a esse zelo que o Defensor se refere quando dialoga com Camilo:

(…) a honra ensina,

Que a Pátria, que nos deu o nascimento,

Pede de nós um zelo mais atento. (est. 77, Canto VIII)

Para além destes atributos, é notória, sobretudo pelas suas palavras, a existência no Herói de uma apurada consciência: consciência da realidade, consciência do que o rodeia, consciência do que está para vir. A este modo consciente de encarar os factos não é estranho o facto de ao Herói, e logo no Canto I, terem sido feitas profecias do que lhe estava destinado, as quais funcionam como a “pedra de toque” que lhe dá alento e que lhe permite actuar com determinação.

Já vimos o exemplo das palavras e do acto do Defensor em fechar as portas das muralhas no Canto II, mas há outros exemplos que mostram bem o seu carácter

consciente. Atente-se, por exemplo, nas suas palavras no Canto V, dirigidas aos mais

ilustres Varões, perante a perspectiva de derrota dos sitiados pela fome. Iniciando o seu discurso pela enunciação da situação trágica que se vive, o Defensor acaba por exprimir a sua opinião: a de que, antes que morrer numa «frouxa inacção injuriosa», é preferível «Uma morte por armas gloriosa» (est. 84, Canto V). E no seguimento, o Herói reforça a sua opinião, colocando em cada palavra uma força extraordinária:

(…) E se o rigor cruel dos tristes fados, A que poder humano não resiste, Precisa faz a perda da Cidade, Perca-se a vida com a liberdade. Decida de uma vez o ferro agudo A disputa cruel, dite a fortuna A sentença fatal, perca-se tudo, Ou tudo se restaure; […]

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Provemos o que pode a força dura Da desesperação; rompa-se o laço De uma triste cautela mal segura, Que já agora só serve de embaraço; Ou vencer, ou morrer com glória pura Seja enfim permitido ao Luso braço; Com as armas na mão se acabe a guerra,

Ou se morra, ou se salve a pátria terra. (est. 86, 87 e 88, Canto V)

O discurso inflamado do Herói não é, ao contrário do que à partida pode parecer, um discurso irracional, movido por emoções. É um discurso claro que pretende mostrar aos presentes não só a consciência sentida pelo Herói da realidade que o rodeia, mas também que o mesmo Herói se encontra determinado em dar a sua vida pela liberdade.

É possível igualmente encontrar exemplos de um comportamento consciente do Herói no discurso que D. João I, já rei, faz às tropas antes da Batalha de Aljubarrota. Desde logo apresentado pelo Poeta como alguém «que efeitos importantes/ Sabe tirar das coisas mais insanas» (est. 103, Canto X), e aproveitando a turbulência de sentimentos que agita os soldados, D. João I dirige-se a estes, caracterizando-os com notoriedade como «Valentes Portugueses, companheiros/ Da minha sorte, dignos camaradas/ Dos meus trabalhos, filhos verdadeiros/ Da Pátria» (est. 104, Canto X). E de entre as suas curtas palavras, ressaltam dois pormenores: primeiro, o sentimento de coragem e de confiança que o mesmo transmite aos soldados: coragem para ultrapassar a multidão de inimigos e confiança em que a vitória é possível, pois a Justiça está do lado dos Portugueses (est. 106, Canto X); e, por outro lado, o carácter exemplar que é característico de D. João I, como o próprio o afirma:

Eu não quero de vós mais sacrifício, Que o mesmo, que eu preparo à glória pura Do nome Português, em benefício

Da pátria liberdade mal segura; Todos vós já das armas no exercício Tendes usada ao ferro a dextra dura, Todos bravos, e fortes vos contemplo,

Mas siga cada qual o meu exemplo. (est. 107, Canto X)

Este é, na obra, um dos melhores exemplos desse carácter exemplar que caracteriza o Herói, embora aqui o mais importante seja a confirmação de que o Herói está

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que, para todos os que o rodeiam, ele deve ser sempre o primeiro a actuar, o primeiro a dar o exemplo. Assim o confirma D. João I, solicitando apenas a quem o segue que actue tal como ele.

E a resposta dos soldados, tal como a dos ilustres Varões perante a proposta de lutar em campo aberto contra os Castelhanos no Canto V, é notória:

Disse; e logo por todos os soldados, Um pequeno sussurro precedendo, Respondido lhe foi com altos brados, Que se morresse, a Pátria defendendo; E sem perder instante, os alentados Alvoroços da tropa conhecendo, Faz sinal de investir o Rei valente,

E conduz à batalha a brava gente. (est. 108, Canto X)

Prosseguindo na caracterização do Herói pelas suas palavras, centremo-nos agora nos discursos do Defensor que, mais do que evidenciar a sua heroicidade, põem a nu a sua humanidade.

Uma dessas características humanas do Herói é, como já referimos, a não

cedência ao sentimento indigno que é a vingança, quando o Defensor se dirige a

Esteves, pai de Inês Pires, e o ajuda a levantar-se (cf. cap. 5.3.2.1.2.). Da mesma forma actua o Herói, quando dialoga com o Conde de Trastâmara, dando-lhe a possibilidade de fuga:

(…) se o temor vos faz tão circunspecto, Que as vossas iras em pesares troca, O Campo é livre agora, a estrada aquela, Que vos pode guiar para Castela. […]

Eu não quero vingança mais luzida;

Salvai-vos, se quereis, com brevidade. (est. 26 e 27, Canto VII)

Atendendo nestes exemplos, sobretudo neste último, poderíamos ficar com a sensação de estarmos precisamente perante um «anti-herói», alguém que evidencia alguma cobardia e não consegue matar quem intenta o mesmo contra si166. Mas a leitura que fazemos da construção do retrato heróico de D. João I ao longo de todo o poema é exactamente a oposta: em mais do que um momento, o Herói demonstra a

166 Tal como defende Maria Lúcia Perrone de Faro Passos. A este propósito, cf Passos, op. cit.: 147-

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sua bravura e a sua coragem, ultrapassando os obstáculos que lhe vão surgindo. O que é um facto é que, se na construção do Herói que qualquer poema épico se propõe fazer existe um tempo para a demonstração das capacidades físicas do Herói, também deve existir um momento em que o Herói demonstra todas as suas qualidades éticas que, efectivamente, também moldam o seu carácter. Ora é precisamente isso que os exemplos atrás referidos demonstram: um respeito do Herói pelos valores que melhor caracterizam o ser humano como a sua benignidade e o respeito para com os restantes seres humanos.

Se atentarmos na reacção do Defensor à proposta de Nuno Álvares de assassinar Martim Vasques, líder da “oposição” à eleição do Defensor como Rei (Canto IX), constatamos como é primordial para o Herói a defesa dos valores da

honra e da dignidade. Diz o Herói:

[…] nunca esperei, que vos pudesse O zelo alucinar de tal maneira, Que em matéria tão grave vos fizesse Incauto discorrer com tal cegueira; Um homem, como vós tanto se esquece Da virtude, e da glória verdadeira, Que pretende abonar o seu partido

Por meio de um delito aborrecido. (est. 89, Canto IX)

Acrescentando:

Eu não pretendo com acções atrozes Tiranizar da Pátria a liberdade; Empresa só de espíritos ferozes Inimigos cruéis da humanidade; Da bárbara ambição as torpes vozes Não me iludem jamais; se a dignidade De ser Rei, um delito infame custa,

Seja Rei, quem do crime não se assusta. (est. 93, Canto IX)

Por este discurso, vemos como o Herói é não só quem comete actos e acções valorosas, mas também quem dentro de si mesmo respeita os valores da honra e da dignidade humanas, quem não cede impunemente à vingança e respeitosamente aceita a divergência de opiniões.

O Herói da Joanneida é, também, alguém perfeitamente consciente do que o rodeia, alguém que, sendo proposta a sua eleição como Rei dos Portugueses, tem

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consciência de que só com a vontade, o esforço e a determinação de todos é possível, enquanto Rei, governar em defesa do bem comum. Assim o afirma o próprio167:

Vós não me servireis; vós juntamente Comigo servireis à glória pura, À doce liberdade, à permanente Justiça da Nação, contra a perjura Sacrílega ambição; vós propriamente Sereis filhos regidos com ternura: Assim disse o Varão, e no seu gesto

Se via o grande zelo manifesto. (est. 24, Canto X)

O Herói revela igualmente um outro nível de consciência num dos últimos episódios da obra, o respeitante à sua aclamação. Seguindo no essencial a mesma estrutura narrativa que FL empregou aquando da referência a este episódio (CDJ1, cap. CXCI e CXCII), a epopeia evidencia um D. João I algo aturdido com tantas mostras de atenção e que, agradecendo a Deus a sua eleição, discursa perante o «Congresso», salientando por mais do que uma vez não se sentir capaz de corresponder às expectativas sobre si colocadas168:

167 Maria Helena da Cruz Coelho reforça esta ideia a propósito das palavras do próprio D. João I no

Livro de Montaria: livro I, caps. VII e V: «afirmação inequívoca de que o rei recebe o poder de Deus, é o seu vigário, e lhe deve prestar contas do seu exercício. Governa, como bom pastor, todos os súbditos do seu reino, […] tendo a missão de «bem reger», logo de promover o bem comum (Coelho,

op. cit.: 210).

168 Veja-se como o Poeta na narração deste episódio quis, primeiro, realçar o facto de a primeira

ovação de D. João I como rei não ser unânime, mas pautar-se por manifestações diferenciadas:

Viva, responde em grito lisonjeiro A turba popular, […]

Viva, viva repete o Corpo inteiro

Do Congresso, com termos mais corteses, Emendando dos cultos na observância

O dezar [sic] da passada repugnância. (est. 13, Canto X) Evidenciando posteriormente a aclamação absoluta por todos os presentes:

(…) Todos clamam, que é força, que exercite O poder conferido, e que obrigado

Pelo zelo da Pátria liberdade, Deve aceitar a Régia dignidade. Mil vozes variamente articuladas, Mas acordes no mesmo sentimento, Com razões pelo zelo ministradas,

Combatem do Varão o pensamento (…) (est. 19 e 20, Canto X)

Refira-se, a título de curiosidade, que já Manuel de Faria e Sousa na sua Europa Portuguesa, ao referir-se à atitude de D. João I, questiona-se sobre se seria verdadeira ou dissimulada a modéstia manifestada pelo rei. Para mais informações, cf. Sousa, 1679: 267.

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Eu me obrigo de mostras tão brilhantes De amor, de confiança, e de respeito, Que existirão seguras, e constantes Eternamente impressas no meu peito; Mas tão pesados são, tão importantes Os encargos de um Rei no meu conceito, Que não julgo meus ombros competentes

À grandeza de pesos tão valentes. (est. 18, Canto X)

E este discurso, por muitos considerado como um discurso estratégico visando tão- somente um reconhecimento absoluto de D. João I como Rei de Portugal por todas as classes sociais, acaba por ser, ele mesmo, estrategicamente aproveitado por JCM com um propósito mais conforme a realidade setecentista: o de reafirmar a eleição de um governante que governará com todos e para todos. É o próprio D. João, já Rei, que o confirma:

Serei Rei, se convém à dignidade Da Nação ter um Rei de sangue Luso; Serei Rei, mas do Trono a Majestade Gozarei livre do vulgar abuso; Todos vós apesar da autoridade Do supremo Poder, que não recuso, Me achareis sempre o mesmo sem mudança Na amizade, no zelo, e confiança.

Vós não me servireis; vós juntamente Comigo servireis à glória pura, À doce liberdade, à permanente Justiça da Nação, contra a perjura Sacrílega ambição; vós propriamente Sereis filhos regidos com ternura: Assim disse o Varão, e no seu gesto

Se via o grande zelo manifesto. (est. 23 e 24, Canto X)

E como vamos ver já de seguida, o Herói desta epopeia só alcança esse estatuto de Herói porque há um princípio que rege todos os seus actos: o princípio

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