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3.2 In vitro delivery study .1 TA

Faz-se necessário neste item demonstrar o caminho que nos levou trabalhar a partir dos campos léxico-semânticos.

Partimos do pressuposto de que o léxico é um sistema aberto, permitindo não só a entrada de novas lexias, mas também a ampliação de seu significado. Consideramos que o sentido de uma criação remete ao contexto, ao universo em que o discurso foi realizado e atualizado, revelando a visão de mundo do autor e da época, possibilitando, dessa forma, o estabelecimento de ligações semânticas.

Julgamos que a história da linguística dava suporte a ideia de associação, já que foram muitos autores, de Saussure a Lakoff, apenas para exemplificar, que apontaram, ainda que de maneiras diversas, a existência de ligações oriundas de estruturas linguísticas e mentais.

Cabia determinar que tipo de ligações estabeleceríamos. Optamos, dada a recorrência de temas, pelas associações semânticas subjacentes às criações lexicais.

A época em que a poesia marioandradiana foi produzida era propícia à novidade, quer em relação à criação de lexias, quer em relação à ampliação da significação. A postura de ruptura com o tradicional, durante o Modernismo, além de fazer uso de neologismos criados a partir de alterações formais, dilatava o halo de significação de uma lexia existente, chegando à formação de neologismos semânticos.

Recorremos a Biderman para atestar a importância dos escritores na ampliação do halo de significação de uma palavra, ou seja, o seu campo semântico:

A criatividade artística é capaz de explorar a significação de maneira tão original e desusada, que os escritores normalmente estão sempre ampliando o halo de significação de uma palavra, ou melhor, o seu campo semântico. (2001, p.192)

A autora ao reiterar, essa consideração, mais à frente, faz-nos atentar para o fato de que toda palavra abrange uma rede de significações integrando o campo semântico que está em constante expansão:

Toda palavra abrange uma rede de significações, às vezes muito extensa. Aos vocábulos que integram essa rede damos o nome de campo semântico dessa palavra. (....) Assim a inventividade humana e a dos artistas, em particular, estão criando significações novas e novos significantes num moto- contínuo; essa mutação constante impossibilita a descrição cabal da estrutura de qualquer sistema ou subsistema semântico, fazendo do Léxico uma galáxia em expansão. (2001, p.193)

Para segmentar as criações a partir dos campos semânticos, foi necessário buscar estudiosos que trabalhassem ou se aproximassem desse conceito.

Saussure, em seu Curso de linguística geral (CLG), apresenta a palavra como centro de uma constelação associativa. O seu discípulo, Bally, desenvolve essa ideia através da teoria dos campos associativos, explicando no seu Traité de stylistique française que cada palavra pertence a uma rede:

Chaque mot est, dans notre mémoire, une maille d'un réseau aux fils ténus et innombrables; dans chaque mot viennent aboutir, pour en repartir ensuite, mille associations diverses. Ainsi, d'une parte les mots, s'appelant les uns les autres, se retiennent plus facilement; d'autre part, la variété de ces annonciations nous donne une grande liberté dans leur emploi, parce qu'elles offrent non pas une, mais de nombreuses possibilités dans la reproduction de ces mots. (1951, p.67)

Guiraud ressalta, em sua obra A Semântica, que a noção de campo linguístico, definida por Trier, constituiu a grande revolução da semântica moderna. Ainda que a noção de campos linguísticos de Trier pressuponha compartimentos estanques nas línguas, o autor salienta o fato de um campo semântico poder ser subdividido em subsistemas que se subdividiram novamente, formando campos associativos, como viu Bally ao desenvolver as ideias de Saussure.

Ullmann acredita que Bally reduziu, um pouco arbitrariamente, os campos às associações puramente semânticas, ao afirmar que o campo associativo é um halo que circunda o signo e cujas bordas exteriores se confundem com a sua ambiência:

Le champ associatif est un halo qui entoure le signe et dont les franges extérieures se confondent avec leur ambiance... Le mot boeuf fait penser: 1)à “vache, taureau,veau, cornes, ruminer, beugler”,etc.;2)

à “labour, charrue, joug”, etc.; enfin 3) il peut dégager, et dégage en français, des idées de force, d‟endurance, de travail patient, mais aussi de lenteur, de lourdeur, de passivité. (1964, p.499-500)

Guiraud afirma ainda que Trier considera as palavras em relação ao setor conceitual do entendimento, mostrando que elas constituem um conjunto estruturado, dentro do qual cada uma delas está sob a dependência das outras, caracterizando um campo linguístico. Mais adiante o linguista cita ainda os campos nocionais de Matoré, que partem do estudo do vocabulário para estudar a sociedade.

Tamba-Mecz, no seu sobrevoo histórico sobre a semântica, aponta para a grande modificação pós-Saussure em relação à oposição entre significação e sentido, mostrando que este último está vinculado a uma rede relacional:

Em vez de considerar que a significação é uma propriedade inerente às palavras e a seus ajuntamentos, mas cuja origem e finalidade se encontram na atividade intelectual dos homens, identificou-se o sentido das relações internas a um sistema que liga os diferentes elementos. Desse modo se opõe a significação (por vezes, chamada também de denotação) ou ligação entre a palavra e o conceito de coisa ou a coisa, ao sentido, ou conjunto de valores que fixam a posição respectiva de cada termo no interior de uma rede relacional.(2006, p.26)

A autora discorre sobre a teoria dos campos de Trier, cujo conceito está ligado às relações de sentido, evidenciando-se a articulação entre o campo conceitual e o campo lexical:

Para Trier e seus discípulos, o campo corresponde a uma unidade conceitual ou área nocional que permite definir as relações de sentido entre os vocábulos que a recobrem.Trata-se de articular um campo conceitual (Sinnfeld) a um campo lexical (Wortfeld). (2006, p.29-30)

A semanticista destacará ainda os avanços tecnológicos e científicos que levaram à teoria cognitivista e à teoria conexionista. A primeira demonstra a existência de um nível conceitual abstrato de cálculo simbólico de sentido; e a segunda mostra o sentido emergindo da interação distribuída em várias redes:

O formidável avanço no conhecimento dos mecanismos cerebrais, devido aos progressos tecnológicos e ao desenvolvimento das neurociências, levou os linguistas a fundar sua semântica,

inicialmente sobre a hipótese cognitivista, que empresta ao cérebro uma linguagem, “o mentalês¨ de Fodor (1975) e supõe a existência de um nível conceitual abstrato de cálculo simbólico do sentido; e, mais recentemente sobre a hipótese conexionista, que explica o sentido como emergindo da interação distribuída em várias redes subsimbólicas, assimiladas a “neurônios artificiais”. De onde as tentativas de construir teorias semânticas que expliquem a partir de pressões perceptivas (especialmente visuais), as expressões espaciais (“arquétipos dinâmicos”, de J. – P. Desclès [1990], esquemas “ceptivos” de Talmy [1988] etc.). as derivações metafóricas (G. Lakoff, 1988) ou as categorias gramaticais (Langacker, 1986- 1988). (2006, p.44)

Entendemos pelo exposto que o estudo do sentido está ligado efetivamente a temas, a campos, a redes. É claro que essa rede na qual a palavra está inserida varia de extensão de acordo com a opção teórica do analista. No nosso caso, como o foco é linguístico e estilístico, pareceu-nos sensato fundamentar a nossa análise em campos léxico-semânticos, uma forma de garantir que a criação lexical só adquire sentido a partir do momento em que está inserida na rede que liga palavras (o léxico) e ideias ( o sentido; o semântico). Foi percebendo, como já dissemos, a recorrência de temas, que decidimos caminhar na direção da constelação de sentidos, da associação de ideias, do campo semântico das criações.