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5.4 Quantification of FLU using UHPLC-TUV detector
As criações sintagmáticas encontradas em nosso corpus de análise compreendem as derivações e as composições, evidenciando que a alteração no significante enfatizou o sentido que determinada formação passou a ter no texto / discurso.
Guilbert (1975) esclarece que o princípio da neologia sintagmática reside na combinação de diversos segmentos reconhecidos como signos diferentes, ou seja, na união de um significante e de um significado. Barbosa corrobora essa visão, atentando para o fato de que na criação sintagmática se produz uma nova palavra a partir de elementos mórficos já existentes na língua e que a combinação inédita de signos ou ainda de vocábulos é o que a caracteriza:
Ao contrário do neologismo fonológico ex-nihilo, que faz uma combinatória inédita de fonemas, o neologismo sintagmático resulta da combinação inédita de signos e mesmo de vocábulos, segundo os modelos de estrutura vocabular de uma tipologia de língua. Assim, a definição desse modo de produção neológica consiste em distinguir e caracterizar os diferentes tipos de sintagmática lexical. (1981, p.264)
Alves enfatiza que esse tipo de criação não se limita ao campo lexical, podendo atingir o nível frásico, denomina, então, essa formação de neologismo sintático, evidenciando a importância da combinação dos elementos na frase:
Classificados em derivados, compostos, compostos sintagmáticos e compostos formados por siglas ou acronímicos, são denominados sintáticos porque a combinação de seus membros constituintes não está circunscrita exclusivamente ao âmbito lexical (junção de um afixo a uma base), mas concerne também ao nível frásico; o acréscimo de sufixos pode alterar a classe gramatical da palavra- base; a composição tem caráter coordenativo e subordinativo; os integrantes da composição sintagmática e acronímica constituem
componentes frásicos com o valor de uma unidade lexical. (2002, p.14)
Cardoso explica que a derivação é o processo pelo qual se obtém um neologismo sintagmático e que a natureza dos elementos acrescidos à base e o resultado obtido é que vão constituir uma criação por derivação ou por
composição:
Dependendo da natureza dos elementos acrescentados à base (dependentes, independentes) e do resultado obtido (aproximação do significado da base ou afastamento desse) tem-se a derivação e a composição. (2000, p.77)
• As derivações prefixais e sufixais
Mário de Andrade na obra analisada faz uso da formação por derivação como recurso estilístico, quer registrando um falar popular na época, quer criando uma forma de dizer que sugeriria a aproximação do popular. De uma forma ou de outra, o autor mostra a alteração na norma gramatical, enfatizando, a nosso ver, a concepção de língua como constituição e não apropriação.
Devido ao recorte deste trabalho envolver campos léxico-semânticos de acordo com os temas retratados, apresentamos um número reduzido de derivações prefixais e sufixais, frisando que o valor expressivo dessas construções é mais importante que a quantidade delas.
Cabe, então, dizer que recorremos a alguns estudiosos para compreendermos como se caracteriza o processo de derivação e são nesses teóricos que a nossa análise se pautou.
Segundo Kehdi (2005), a derivação é um processo em que se nota um só radical no vocábulo ao qual se anexam afixos (prefixos e sufixos). Ressaltando a diferença entre prefixos e sufixos, evidencia que os prefixos só se unem a verbos e adjetivos, e não contribuem para a mudança da classe gramatical do radical a que se ligam, ao passo que os sufixos podem alterar a classe gramatical:
A diferença entre prefixos e sufixos, contudo, não é meramente distribucional. Os prefixos, ao contrário dos sufixos, só se agregam a
verbos e a adjetivos, que são uma espécie de vocábulo associado ao verbo. (2005, p.08
A consideração de Kehdi sobre o fato de os prefixos se unirem apenas a verbos eadjetivos, além de contestada por exemplos rotineiros como ex-aluno,
ex-marido, onde se vê o prefixo diante de um substantivo, é contestada pela
criação de Mário de Andrade – pluritonalidade - em que tonalidade é um substantivo.
Pottier e Alvar (1983) caracterizam a prefixação como a presença de um elemento de relação que se antepõe à palavra e permanece integrado a ela, demonstrando que o resultado dessa integração pode ser parafraseado. Quanto à sufixação associam-na à composição afirmando que representam duas soluções distintas a um mesmo problema: o da integração, no plano da palavra, dos elementos de uma construção analítica.
Corroborando a concepção de que as derivações prefixais podem ser parafraseadas, observamos que as criações marioandradianas formadas por prefixação tripingar/ ultra-nacional/ pluritonalidade podem ser desenvolvidas, respectivamente, por: embebede-se de pinga / além do nacional / várias tonalidades.
Parece ser consenso entre os autores estudados que a formação resultante da sufixação frequentemente causa mudança de classe gramatical. Alves (2002) atenta para a produtividade do sufixo -mente, o que se comprova nas criações marioandradianas, já que são sete os neologismos criados a partir da junção do sufixo -mente: maçonariamente / esperiamente / ancestremente /
bandeirantemente / paulistamente / louramente / rapazmente /, num universo
de catorze derivações (prefixais e sufixais). Levando em conta a intenção de “adoção” da língua coloquial brasileira, o autor, possivelmente, registra uma formação recorrente na língua falada, ou seja, o acréscimo de -mente a adjetivos, contribuindo para a construção da língua brasileira. Vale dizer que esse recurso, ou seja, uso do -mente foi utilizado por Dias Gomes em seu famoso personagem Odorico Paraguaçu, um político populista, que se caracterizava por alguém que invariavelmente rompia as normas gramaticais e trabalhava com as analogias da língua.
Sandmann (1980) caracteriza a derivação como um processo aditivo (adição de morfemas), em que um elemento não ocorre livremente e é utilizado
para a formação de palavras em série. Alerta para o fato de que a diferença fundamental entre a prefixação e a sufixação é a função exercida pelo produto da derivação e não simplesmente a disposição dos morfemas em relação à base (antes = prefixo / depois = sufixo). Apresenta os prefixos como determinantes da palavra complexa e afirma que a prefixação não muda a classe da palavra de base enquanto a sufixação o faz, dividindo, assim, a sufixação, de acordo com a classe de palavras do produto, em formações: substantivas, adjetivas, verbais e adverbiais. O autor atenta para a importância da formação de palavras como um ato de criação, onde se notam objetivos “expressionais especiais”, foi assim, em busca desses objetivos expressionais que se pautou a nossa análise.
• As composições por justaposição
As composições por justaposição, ligadas ou não por hífen, são recorrentes nas obras analisadas. Muitas vezes, elas se confundem com metáforas, pois são oriundas de analogia. Assim, para a seleção das composições considerou-se a existência de uma base metafórica. As criações
ancas ventre, manhã sol, vida carnaval, dentre outras, parecem ser mais do
que simples unidades lexicais justapostas; houve, então, necessidade de entendermos essa formação para além do significante. Buscamos interpretar essas composições nos autores que viram nesse tipo de formação a presença de uma relação sintática e semântica.
Assim, ao considerarmos, como Alves, que o processo de composição se dá pela justaposição de bases autônomas ou não-autônomas, verificamos o caráter sintático das formações, as quais podem resultar de relações subordinativas ou coordenativas:
A unidade léxica composta, que funciona morfológica e semanticamente como um único elemento, não costuma manifestar formas recorrentes, o que a distingue da unidade constituída por derivação. Revela um caráter sintático, subordinativo ou coordenativo. (2002, p.41)
Basílio explicita que esse processo utiliza estruturas sintáticas para fins lexicais:
Ou seja, mecanismos ou estruturas que são normalmente utilizados na formação de enunciados passam a ser utilizados na função de denominar e / ou caracterizar seres, que é uma função do léxico.(2004, p.30)
Cardoso atenta não só para a relação sintática dos compostos, mas também para a relação semântica que pode acentuar a expressividade:
A relação sintática entre as partes e o todo permite verificar como são formados os compostos e qual o tipo de relação que existe entre suas partes. Já a relação semântica, ao nível do significado, pode trazer ao contexto grande força expressiva. (2000, p.207)
Seguindo essa concepção, notamos, como já dissemos, que a composição por justaposição é um dos processos mais expressivos na obra poética analisada. Foi empregada para criticar – homem-nádegas (substantivo+substantivo), burguês-mensal (substantivo+adjetivo) –; para especificar – almoços mayonnaises (substantivo+substantivo) –; para enfatizar a ação – chora-chorando (redobro: verbo+verbo) –; para enaltecer – manhã Sol (substantivo+substantivo) –, dentre outros usos.
Insistimos que muitos desses compostos têm base metafórica, uma vez que partem de relações estabelecidas por semelhança. Basílio afirma que em muitas dessas formações (compostos descritivos) o significado é transparente, mas em outros, isso não acontece:
Mais frequentemente, a forma composta descreve as características do objeto de nomeação, que passa então a ser o referente da forma composta, embora nesta possam deixar de figurar elementos essenciais. (2004, p.31)
Mais adiante a autora considera que nesse tipo de composto não é possível compreender o sentido pela forma:
Nas denominações metafóricas por composição, podemos conhecer a metáfora, uma vez conhecido o significado. Mas não podemos inferir o significado através da simples observação das formas. Essa é uma diferença fundamental entre compostos descritivos e compostos metafóricos. (2004, p.32)
Ainda que não acreditemos na transparência no texto literário, a composição Ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica pode ser, seguindo Basílio,
uma composição transparente, descritiva: apresenta vários adjetivos ligados por uma relação coordenativa, que acentua a ideia de que a costureirinha é o resultado de diversas nacionalidades, ou seja, ela é italiana e francesa e portuguesa e brasileira e alemã.
Já a composição relógio-diadema é metafórica, na medida em que o poeta estabeleceu, a partir da localização do relógio no centro da fachada do prédio dos Correios, uma analogia com a joia usada na cabeça por reis e rainhas. O sentido só pode ser inferido a partir do contexto, o que faz com que percebamos que o inusitado da relação semântica estabelecida é que aumenta a expressividade. Essa formação comprova a fala de Alves (2002, p.64) ao afirmar que em toda criação sintagmática está implícita uma criação semântica. Destacamos ainda que as composições presentes no corpus estudado são, em sua maioria, resultantes da combinação de substantivos, o que pode ser uma influência de algumas vanguardas do início do século XX, notadamente do Futurismo, que pregava o uso duplo dos substantivos.