Como argumenta David Graeber (2007, p. 11), comunidades de caráter igualitário têm existido ao longo de toda a história humana e, embora muitas delas sejam mais igualitárias que a Atenas do século V – o modelo ocidental de democracia –, de alguma forma os seus procedimentos de tomada de decisão nunca são reconhecidos como propriamente democráticos. A democracia é, na visão da modernidade ocidental, um valor que só pode existir sob a sua autorização. Assim, a despeito da existência de diversas comunidades indígenas auto organizadas espalhadas pelo mundo26, somente o ocidental pode ser verdadeiramente
democrático. Nesse sentido, gostaria de ressaltar duas experiências histórias que oferecem paralelos interessantes para pensar a luta pela autonomia democrática. A primeira é a Revolução Espanhola e a segunda é a luta dos zapatistas, que inspira diretamente o movimento de Rojava até os dias de hoje.
Apesar da filosofia de Öcalan ter raízes no norte-americano Bookchin, o paralelo histórico bem-sucedido mais próximo das suas ideias é provavelmente a experiência dos coletivos anarquistas que surgiram na Catalunha durante a guerra civil espanhola (1936-1939) (SHEPPARD, 2016) 27. Embora o anarquismo espanhol seja muito anterior à guerra civil, tendo sido forjado na Idade Média, a autoproclamada Revolução Espanhola pode ser considerada a primeira experiência histórica anarquista bem-sucedida. É, para muitos, um exemplo de revolução social libertária que marcou a história revolucionária, apesar de ser frequentemente ofuscada pelos relatos da guerra civil (DOLGOFF, 1974, p. 5).
Et pourtant, en Espagne, pendant près de trois ans, malgré une guerre civile qui causa un million de morts, malgré l’opposition des partis politiques (républicains de diverses tendances, socialistes, communistes, catalanistes de droite et de gauche, régionalistes basques et valenciens, petite bourgeoisie, etc.) cet idéal est entré dans l’histoire vécue des hommes et devenu chair de la réalité. Très vite, plus de 60 % des terres ont été cultivées sans patrons. ni propriétaires, sans «terratenientes», sans administrateurs tout-puissants, sans que l’intérêt privé et la concurrence soient nécessaires pour stimuler les efforts et les initiatives; dans la plus grande partie des industries, des usines, des fabriques, des ateliers, des services publics, les ouvriers, leurs comités d’entreprise et leurs syndicats ont fait assurer la production en l’absence du contrôle et de la présence des patrons, des capitalistes, et de l’autorité de l’Etat. (LEVAL, 1971, p. 2).
Assim como acontece em Rojava, a Revolução Espanhola contou com uma expressiva participação de mulheres, que foram essenciais para o desenvolvimento do movimento, apesar de serem frequentemente obscurecidas por narrativas que não valorizam a dimensão do gênero (RAGO, 2005, p. 132). Em 1936, três mulheres criaram o grupo Mujeres Libres, dedicado à luta pela emancipação feminina no mundo do trabalho (RAGO, 2005, p. 135). Em pouco tempo, novos grupos locais foram criados por toda a Espanha e inúmeras mulheres aderiam à organização em busca de uma mudança para as condições de existência das mulheres pobres
27 A guerra civil espanhola, que durou de 1936 a 1939, foi um conflito sangrento fruto da polarização entre
duas ideologias opostas: a dos Republicanos – grupo composto por alguns setores da classe média, trabalhadores rurais e urbanos –, e a dos Nacionalistas –grupo composto por militares, detentores de terra e empresários. Ela é considerada por muitos historiadores como uma prévia da Segunda Guerra Mundial, visto que foi um campo de teste para as forças que, mais tarde, entrariam em guerra.
do país, capacitando-as para o trabalho e para a vida pública, retirando-as do confinamento doméstico e do obscurantismo religioso, e proporcionando-lhes meios práticos para a participação na vida social, política e cultural (RAGO, 2005, p. 136-137). Mais do que isso, entretanto, a mudança que essas militantes visavam enquanto anarco-feministas apontava para a criação de novos estilos de vida, com uma nova forma de sociabilidade e a produção de subjetividades mais libertárias (RAGO, 2005, p. 137).
Nesse sentido, criaram cursos de capacitação de operárias, de alfabetização e profissionalizantes, centro de assistência média e de educação sexual, creches e liberatórios de
la prostituición, ou seja, casas destinadas às mulheres que desejassem sair da prostituição
(RAGO, 2005, p. 137). No entanto, na tentativa de se diferenciar das feministas liberais da época, que lutavam pelo direito do voto e o acesso à esfera pública, as Mujeres Libres chegaram, às vezes, a se declarar não-feministas, propondo um outro tipo de feminismo, centrado na expressão da “natureza feminina”, mesmo que fossem críticas ao modelo hegemônico de feminilidade (RAGO, 2005, p. 142-143).
De forma geral, as revolucionárias e revolucionários espanhóis esperavam criar uma versão de sociedade livre que o mundo inteiro pudesse seguir (GRAEBER, 2014, p. 1). No entanto, as potências mundiais da época declararam uma política de “não intervenção” e mantiveram um rigoroso bloqueio à república, mesmo após Hitler e Mussolini iniciarem o seu apoio ao lado fascista do conflito. Como resultado, se seguiram anos de uma guerra civil que culminaram na supressão da revolução e em sangrentos massacres (GRAEBER, 2014, p. 1).
Quase sessenta anos depois do início da Revolução Espanhola, do outro lado do mundo, um outro experimento de autonomia democrática surgiu. Em 1 de janeiro de 1994, data de assinatura do tratado do NAFTA, no estado de Chiapas, no México, um movimento de camponeses indígenas autodenominados Exército Zapatista de Liberação Nacional (Ejército
Zapatista de Liberación Nacional, EZLN) se insurgiu contra o Estado mexicano com gorros e
escopetas de madeira. Em nome da democracia, libertou prisioneiros, incendiaram postos militares e ocuparam latifúndios em oposição à opressão que sofriam do governo e dos latifundiários (VIDAL, 2018, p. 1-2). Ao longo dos anos, os zapatistas desenvolveram um elaborado sistema de assembleias comunais que operam na base do consenso e são suplementadas por grupos de mulheres e jovens para contrabalancear a dominância tradicional de homens adultos. Assim como Öcalan, que se baseia em um passado comunal na região do
Curdistão, os zapatistas reivindicam se fundamentar em uma radicalização do estilo de vida de comunidades maias que governaram a região por milhares de anos (GRAEBER, 2007, p. 28).
Assim como acontece em Rojava, o zapatismo atrai a curiosidade de pessoas de todo o mundo, que visitam o local para conhecer o seu projeto de vida comunitária autônoma. Seu governo é estruturado em torno de centros administrativos chamados caracoles e a maior parte das vilas se encontra nas montanhas ou na selva de Lacandona, onde desenvolveu seus próprios sistemas de educação, saúde, justiça, governo e segurança, sendo, na maioria das vezes, ignorados pelo governo mexicano (VIDAL, 2018, p. 2). No zapatismo, as mulheres têm um papel fundamental e sua luta é vista como predecessora do movimento mais amplo (MOREL, 2017, p. 102). Elas participam de todos os níveis do governo autônomo e têm suas próprias cooperativas. Além disso, como acontece na luta em Rojava, as mulheres historicamente formaram – e ainda formam – uma grande parte das guerrilhas de autodefesa e enfatizam a importância da terra como o espírito feminino da natureza (MOREL, 2017).
Atualmente, os zapatistas, que nunca abdicaram de suas armas, reivindicam o controle sobre a maior parte do estado de Chiapas – cerca de 300 mil pessoas espalhadas por 55 municipalidades (VIDAL, 2018, p. 2). Eles se recusam a dialogar com o Estado mexicano e, mesmo diante da eleição do político de esquerda López Obrador, em 2018, mantiveram sua posição de distanciamento por considerarem sua eleição apenas uma continuidade do sistema capitalista, não uma ruptura (GARCÍA, 2018, p. 4).