Um dos principais aspectos da filosofia mais recente de Öcalan diz respeito à jineologia, uma proposta de abordagem sociológica, em desenvolvimento desde 2011, que seria uma estratégia contra a ciência moderna hegemônica, dominada pelo sexismo (MOREIRA, 2018, p. 308). A jineologia (jineolojî, em curdo) é um termo que deriva da junção entre as palavras “mulher” (jin) ou “vida” (jiyan), e logy, do termo grego logos, que significa “conhecimento”. Seria, portanto, uma “ciência das mulheres” que, partindo de uma crítica ao universalismo positivista, pretende revelar a “verdadeira natureza” da sociedade histórica, marcada pelo protagonismo do corpo feminino (KAYA, 2015, p. 88). Segundo a jornalista e representante do movimento das mulheres curdas Gönül Kaya (2015, p. 91),
Jineology presents a proposal of radical intervention in the patriarchal mindset and - the patriarchal paradigm. In this sense, jineology is an epistemological process. Its aim is to provide women and society direct access within the realm of knowledge and science currently controlled by the rulers. The goal is to pave the way towards the roots and identity of women and society, which have been detached from their truth.
Women should create their own disciplines, reach their own interpretations and meanings, and share these with all of society (KAYA, 2015, p. 91).
A jineologia é uma tentativa de contestação do que Immanuel Wallerstein chama de “universalismo científico”, que identifica como a forma mais forte do universalismo europeu que, desde 1945 assumiu um caráter quase incontestável (WALLERSTEIN, 2007, p. 86). O universalismo científico se assenta nas certezas da ciência ocidental, encarnadas nas premissas newtonianas de linearidade, determinismo e reversibilidade temporal (WALLERSTEIN, 2007, p. 86). Em contraposição, o movimento de mulheres de Rojava enfatiza uma sociedade natural, que teria sido construída por mulheres, e busca superar a visão das mesmas como objeto da história. Nesse sentido, almeja um futuro no qual as mulheres não só estejam livres da opressão masculina mas que assumam para si o comando das relações sociais.
Para o movimento de mulheres curdas, o século XXI é o século das mulheres e dos povos, no qual as questões de igualdade de gênero e igualdade para os povos oprimidos aparece como nunca antes na história. Como consequência, a organização e o desenvolvimento de sistemas alternativos seria inevitável. Nesse contexto, as mulheres curdas propõem a jineologia “tanto como uma solução para os maiores paradoxos do nosso tempo quanto como um método para o desenvolvimento do mundo espiritual das mulheres”34. (KAYA, 2015, p. 91, tradução
minha). Nesse aspecto, a jineologia se opõe ao dualismo, característico do universalismo científico, entre saberes científicos (racionais e verdadeiros) e espirituais (irracionais). Trazendo a espiritualidade para o âmbito da epistemologia, as mulheres curdas desafiam, em última instância, a noção de ciênciaintimamente conectada ao projeto de dominação do universalismo europeu e ocidental. Não obstante, a jineologia ainda é uma ideia em desenvolvimento e o lugar da espiritualidade em suas reflexões ainda não está claro, sendoobjeto de discussão e construção.
Considerada como resultado e continuação das experiências e de esforços feministas, o objetivo da jineologia é “andar sobre os trilhos das experiências dos movimentos de mulheres” e investigar a “colonização histórica” das mesmas para, com isso, reescrever a história da humanidade (KAYA, 2015, p. 92). É interessante notar, no entanto, que, através da jineologia
34 In this context, the Kurdish Women’s Movement posits jineology as both a solution to the greatest
e, de forma mais ampla, das ideias de Öcalan, as mulheres de Rojava são encarregadas da responsabilidade de construção de uma sociedade alternativa com base em características supostamente femininas. Assim como na interpretação histórica de Öcalan, a emancipação buscada pelo feminismo de Rojava traz consigo fortes referências ao que seriam características eminentemente “femininas”. Para Öcalan, por exemplo, “as mulheres, como o elemento principal da ética e da sociedade política, têm de desempenhar um papel crítico na formação de uma ética e de uma estética da vida que reflita a liberdade, a igualdade e a democratização” (ÖCALAN, 2016, p. 72). Nesse sentido, afirma que
A ciência ética e estética é parte integrante da jineolojî. Por causa de suas responsabilidades importantes na vida, não hesitará em fazer as duas coisas: ser a intelectual e também realizar o desenvolvimento de processos e de oportunidades. A ligação das mulheres com a vida é mais completa do que a dos homens, o que lhes assegurou o desenvolvimento de sua inteligência emocional. Portanto, a estética, no sentido de tornar a vida mais bonita, é questão existencial para as mulheres. Eticamente, a mulher é mais responsável do que os homens. O olhar das mulheres no que diz respeito à ética e à sociedade política vai ser mais realista e responsável do que o dos homens (ÖCALAN, 2016, p. 72).
De certa forma, a jineologia, pode ser vista como um rompimento em relação ao feminismo curdo que se desenvolveu a partir do feminismo turco, nos anos 1980. A antiga crítica à ênfase das feministas turcas na diferença sexual – e consequentemente, na universalidade da experiência feminina – deu lugar à defesa de uma mulher que, no singular, está conectada à natureza e, por isso, é encarregada de um papel histórico específico. Se, por um lado, essa lógica remete ao feminino ocidental, também o tensiona pois é baseado em uma concepção histórica localizada na experiência curda.
Segundo Mohanty (1991, p. 71-72), a aplicação da premissa ocidental das mulheres como um grupo homogêneo e oprimido ao Terceiro Mundo coloniza e apropria as pluralidades das diferentes experiências femininas, o que, em última instância, captura sua agência política e histórica. Ou seja, ao tomar as mulheres como um grupo coerente previamente constituído, o discurso feminista ocidental define as mulheres do Terceiro Mundo como sujeitos fora das relações sociais, em vez de prestar atenção à forma como elas, assim como as mulheres do Primeiro Mundo, são constituídas através dessas mesmas estruturas (MOHANTY, 1991, p. 72). Se, no pensamento feminista do Primeiro Mundo, as mulheres ocidentais se constroem como referencial normativo implícito, no caso da jineologia e do pensamento feminista curdo, o referencial implícito são as mulheres curdas e seu excepcionalismo, que lhes permite alcançar
“a verdadeira interpretação da sociedade história” (KAYA, 2015, p. 88). Assim, o objetivo do movimento das mulheres curdas, através da jineologia, é proporcionar uma interpretação eminentemente feminina da história, da sociedade e acerca de si mesmas (KAYA, 2015, p. 91). E, em última instância, recuperar os estágios de desenvolvimento “normal” do “sistema da sociedade natural”, que seriam “a verdade” buscada (KAYA, 2015, p. 94).
É dentro da lógica da jineologia que o PKK exige que suas guerrilheiras participem em aulas exclusivas para mulheres que tratam de assuntos como constructos de gênero, sexualidade, identidade, diversidade e desigualdade (HANER; CULLEN; BENSON, 2019, p. 12). Nessas aulas, as mulheres são apresentadas a histórias de mulheres revolucionárias e de figuras-chave na luta feminista, com o objetivo de se familiarizarem com narrativas de liderança feminina (HANER; CULLEN; BENSON, 2019, p. 12).
É também dentro da tentativa de recriação do socialismo primitivo que o movimento de mulheres criou, em Rojava, uma vila exclusivamente feminina, chamada Jinwar. A poucos quilômetros da cidade de Qamishli, na região curda do nordeste da Síria, Jinwar é uma comuna de mulheres que pretende ser um espaço para que suas habitantes vivam “livres das restrições das estruturas de poder opressivas do patriarcado e do capitalismo” (HALL, 2018). Para suas fundadoras, a vila é uma continuação da “revolução das mulheres” que levou as mulheres de Rojava a deixar suas famílias e ir à guerra. Ela está sendo construída como um refúgio da guerra e dos papéis de gênero que a sociedade patriarcal lhes atribuiu (HALL, 2018).