Os curdos são um dos povos endógenos do Oriente Médio e o quarto maior grupo étnico da região (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017). São um grupo etnicamente não-
árabe e predominantemente muçulmano sunita. Apesar de não terem uma língua comum (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 1), têm cultura, indumentária e feriados próprios (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017). Atualmente, existem aproximadamente 30 milhões de curdos vivendo em regiões montanhosas espalhados por Turquia (14,7 mi), Síria (1,7 mi), Irã (8,1 mi) e Iraque (5,5 mi) (CIA, 2014 apud COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017). Pela etnicidade e pela língua, os curdos se aproximam mais dos persas do que de outros povos da região (CSRPC, 2016, p. 14). Ademais, a Europa abriga uma diáspora curda de aproximadamente dois milhões de pessoas (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017).
Os curdos constituem um dos maiores povos sem um Estado, porém, não são uma etnia monolítica; muitas vezes, identidades tribais e interesses políticos substituem uma fidelidade nacional única (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017). Alguns curdos, particularmente aqueles que migraram para centros urbanos, como Istambul, Damasco e Teerã, se integraram e foram assimilados às culturas locais, enquanto muitos que permanecem em suas terras ancestrais mantêm um forte senso de uma identidade curda (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017). Em sua demanda por reconhecimento do Curdistão como uma nação, os argumentos dos curdos se fundamentam no assentamento territorial, visto que não há consenso13 acerca de sua ascendência sanguínea (FISCHER-TAHIR, 2003, p. 55 apud KNAPP;
FLACH; AYBOGA, 2016, p. 2).
O nome Curdistão (“terra dos curdos”) apareceu pela primeira vez na escrita histórica arábica no século XII, referindo-se a região onde as colinas do leste dos Montes Taurus (no sul da Turquia atual) encontram o norte da Cordilheira de Zagros (oeste do Irã e leste do Iraque) (MINORSKY, 1927 apud KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 1). Historicamente, os curdos se identificaram através de referências geográficas, como rios e montanhas – utilizadas de forma estratégica tanto para exercer influência sobre potências na região como para se refugiar delas. Essa situação os levou a encarar sua situação geográfica e seu papel como zona-tampão entre potências tanto como uma ferramenta estratégica quanto como estilo de vida (ÜNVER, 2016, p. 67).
13 Apesar da falta de consenso acerca de suas origens étnicas, muitos curdos se consideram descendentes
dos medos, povo indo-europeu que migrou para a região no primeiro milênio a.C. (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 2).
Por conta do terreno acidentado, os curdos foram obrigados a se organizar em tribos isoladas, originando diferentes dialetos (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 1) e principados e emirados que, ao longo da história, foram controlados ou se tornaram parte da rivalidade entre grandes potências das planícies ao redor (ÜNVER, 2016, p. 68). Nesse contexto, a história política dos curdos foi moldada pelo seu status de tampão entre impérios, imposto pela geografia da região. Tal geografia, por sua vez, contribuiu para a fragmentação da organização política desse povo e pela competição entre unidades administrativas (ÜNVER, 2016, p. 68). Além disso, o Curdistão não tem acesso ao mar e, portanto, depende de governos que se opõem à sua independência (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017).
Tradicionalmente, os curdos se organizam em tribos que se relacionam livremente entre si e cujos líderes são instituídos segundo critérios não baseados na hereditariedade. Esporadicamente, podem se reunir em organizações maiores e formar confederações temporárias de tribos para organizar levantes e ações militares. Apesar disso, partidos políticos nunca lograram angariar o monopólio político que é visto em outras partes do mundo (CSRPC, 2016, p. 28). As relações entre os diferentes grupos curdos são complexas e variaram ao longo da história. Por vezes, grupos curdos barganharam com seus governos ou de países vizinhos, e, em alguns casos, às custas de suas relações com seus irmãos curdos (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017).
No século XVI, o Curdistão foi dividido entre os impérios Otomano e Safávida que, durante mais de dois séculos, competiram pelo domínio sobre as tribos e os emirados curdos (ÜNVER, 2016, p. 68). Até então, os curdos desfrutavam de certa autonomia através de uma série de principados independentes que se estendiam desde a Síria até o Iraque (CSRPC, 2016, p. 14-15). Os otomanos não fizeram intervenções no território do Curdistão até o século XIX, quando ocorreram várias batalhas para assegurar a independência dessas áreas em relação a Constantinopla. A primeira grande revolta curda, chamada de Badr Jhan Beg, ocorreu em 1847 e foi reprimida pelos otomanos, que fariam o mesmo com as revoltas subsequentes (CSRPC, 2016, p. 15). A demanda pela independência curda, entretanto, se manteve pelo resto do século XIX e continua até hoje.
Após a derrota do Império Otomano, o Curdistão foi dividido entre a Grã-Bretanha e a França e, depois, entre Turquia, Irã, Síria e Iraque. Essas divisões são geralmente vistas como a principal razão para a dificuldade da resolução da questão curda atualmente (ÜNVER, 2016, p. 70). Segundo Edward Said (2007, p. 299), apesar de suas diferenças os britânicos e os
franceses viam o Oriente como uma entidade geográfica sobre cujo destino eles acreditavam possuir um direito tradicional. O Oriente não era para eles nenhum acaso histórico, mas uma área a leste da Europa cujo valor era definido, de maneira uniforme, em termos da Europa (SAID, 2007, p. 299).
Em maio de 1916, a Grã-Bretanha e a França concluíram em segredo o Acordo Sykes- Picot, que definiu as suas respectivas esferas de interesse colonial (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 11). Apesar de ser frequentemente apontado como causador de maior parte das instabilidades do Oriente Médios nos séculos XX e XXI, o Acordo Sykes-Picot não foi o primeiro e nem o último que dividiu as terras otomanas entre aliados após a Primeira Guerra Mundial (GELVIN, 2015)14. Em maio de 1920, os derrotados otomanos tiveram que assinar o Tratado de Sèvres, que dividiu o império otomano em diversos estados não-turcos, incluindo um Curdistão independente (CSRPC, 2016, p. 15). Em 1923, entretanto, após a vitória do movimento nacional turco na Guerra de Independência da Turquia, o Tratado de Sèvres foi abolido e um novo acordo foi firmado. O Tratado de Lausanne devolveu o Curdistão independente à Turquia, garantindo-lhe as fronteiras que tem hoje.
Desde as divisões das terras otomanas, os curdos, dispersos em quatro Estados, têm buscado reconhecimento de sua nacionalidade, direitos políticos, autonomia e independência. Ao longo deste período, foram perseguidos, tiveram sua identidade negada e sofreram milhares de perdas. Em cada uma das quatro nações, tiveram relações difíceis com as autoridades, por vezes reduzindo os negócios com os governos ou se rebelando (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2017).
14 Além disso, a despeito da divisão oficial feita pela Europa, diversos episódios de contestação dos novos
Estados e de criação de regiões autônomas ocorreram ao longo dos anos. A Região Autônoma do Curdistão, no Iraque, por exemplo, é uma das mais bem-sucedidas experiências de construção de um Estado de facto dentro de um Estado oficial (AHRAM, 2017, p. 350).
Mapa 1 – Regiões historicamente curdas, Curdistão iraquiano (em amarelo) e fronteiras do
Curdistão segundo proposta em 1919 (em vermelho)
Fonte: Özoğlu (2014, p. 1)