1990. No âmbito interno, a prisão de seu líder e a ausência de um sucessor de mesmo peso provocaram uma crise no comitê central do partido, que já vinha enfrentando o fracasso das táticas militantes de bombardeios, emboscadas e homens-bomba (CSRPC, 2016, p. 78). No
início da década, quando se intensificou a guerra curda, o aumento da repressão por parte do exército turco aterrorizou a população civil e provocou deslocamentos forçados, desaparecimentos e assassinatos extrajudiciais. Nesse contexto, o grupo guerrilheiro PKK sofreu porque não havia organizado os moradores ideológica e militarmente em unidades sustentáveis de autodefesa, o que os colocou em risco e transformou alguns líderes guerrilheiros em figuras caudilhescas com soberanias parciais (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 134-5).
Outro aspecto se refere ao protagonismo feminino dentro do partido. Por conta de sua movimentação, as mulheres do PKK formavam organizações independentes desde 1987 e, desde 1993, já tinham uma unidade de guerrilha exclusiva (CSRPC, 2016, p. 78), incentivadas por Öcalan (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 134). Essa organização, aliada ao florescimento de um movimento feminista curdo, propiciou que as mulheres do partido se sentissem confiantes para tomar suas próprias decisões (GÜNEŞER, 2015). Nesse contexto, muitas mulheres curdas passaram a se organizar dentro e ao redor do partido, gerando um grande conflito interno entre antigas lideranças e as novas ideias femininas que conquistavam espaço no movimento (CSRPC, 2016, p. 79). Não obstante as resistências dentro do partido, as mulheres lograram manter suas pautas, que se tornaram uma das novas bases do movimento (CSRPC, 2016, p. 79). Segundo Nazan Üstündağ (2016, p. 134), ao desafiar as estruturas patriarcais do PKK, as mulheres foram responsáveis por manter sob controle o risco da organização guerrilheira se transformar em esquadrões paramilitares e de gângsteres no início dos anos 1990.
A suposta derrota do PKK que as autoridades turcas acreditaram alcançar através de meu sequestro tornou-se uma razão para analisar de uma maneira crítica e aberta as razões que haviam impedido até então um maior sucesso de nosso movimento. Esta ruptura ideológica e política do PKK transformou uma aparente derrota numa porta aberta a novos horizontes (ÖCALAN, 2008, p. 32).
Não se pode dissociar a mudança ideológica do PKK ao contexto histórico mais amplo. Durante a Guerra Fria, o comunismo empurrava demandas políticas por canais distributivos, emudecendo as questões de reconhecimento, descartadas como questões secundárias dos problemas econômicos “reais” (FRASER, 2007, p. 298). Com o fim do comunismo, no entanto, o igualitarismo econômico foi deslegitimado e novas lutas por reconhecimento – especialmente em relação à nacionalidade e à religião – ganharam espaço (FRASER, 2007, p. 298).
No contexto internacional, o colapso do socialismo real na Europa Oriental e na Rússia enfraqueceram a ideologia comunista ao redor do mundo. Além disso, o crescimento de ataques jihadistas no Oriente Médio e no Ocidente faziam com que o PKK pudesse ser confundido com outra organização terrorista islâmica, a despeito de sua ideologia comunista. Por fim, a ascensão do movimento zapatista em 1994, no México, inspirou Öcalan, que já andava desacreditado do potencial da doutrina marxista de contribuir para a luta curda (CSRPC, 2016, p. 28).
Quando o Socialismo Real, a democracia social e os movimentos de libertação nacional tentaram desenvolver alternativas ao capitalismo, as mesmas não puderam livrar-se das constrições ideológicas do sistema capitalista. Assim, tais alternativas transformaram-se rapidamente em reforços do sistema capitalista, procurando poder político institucionalizado em lugar de concentrar-se na democratização da sociedade (ÖCALAN, 2008, p. 29).
Para Öcalan, a crise do socialismo real foi resultado de um entendimento equivocado sobre as contradições entre o poder e do Estado, postas em evidência pela questão curda. Seguindo uma linha marxista, ele defende que, historicamente, o Estado-nação tem sido a principal ferramenta da hegemonia capitalista e, portanto, nenhuma sociedade verdadeiramente anticapitalista pode ser estabelecida dentro desse modelo de organização.
Durante a reformulação de seu pensamento, Öcalan se inspirou, curiosamente, em pensadores Ocidentais – em especial, em autores como Michel Foucault e Immanuel Wallerstein –, na mitologia e na teologia. Seu objetivo geral era desenvolver uma teoria contra- hegemônica gramsciana e um vocabulário que pudesse explicar o descontentamento histórico e contemporâneo na região do Curdistão, a fundação dos Estados-nação e o aprofundamento do capitalismo (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 131).
A teoria de Öcalan é uma proposta de sociedade “política e moral” em oposição ao que chama de “modernidade capitalista”, ou seja, o conjunto do Estado-nação, do capitalismo e do patriarcado (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 131). A modernidade capitalista seria definida pela destruição ambiental – causada pelo industrialismo –, pela opressão das mulheres pela família nuclear e pela opressão do conhecimento dos povos e das sociedades pelo pensamento positivista (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 132). Em contraposição a ela, Öcalan defende uma “modernidade democrática”, pautada em uma economia política ecológica e antimonopolista. Como reconhece, a ideia modernidade democrática não é uma proposta inédita, mas tem existido desde os primórdios da civilização humana, se relacionando de forma dicotômica e dialética com a sua contraparte hegemônica. Öcalan define a modernidade democrática como
“o sistema de história universal que está fora das forças de tirania e exploração” (ÖCALAN, 2017, p. 17). E, enquanto a modernidade capitalista estaria politicamente organizada na forma do Estado-nação capitalista, a modernidade democrática seria organizada na forma do
Confederalismo Democrático.
Inspirado no ecoanarquismo do filósofo americano Murray Bookchin, Öcalan defende um modelo de democracia radical, conferindo destaque especial ao combate ao patriarcado e defesa do meio ambiente. Öcalan foi particularmente influenciado pela defesa de Bookchin do “municipalismo libertário”: a proposição de que, para combater governos capitalistas opressores, os cidadãos devem criar confederações ou assembleias populares que funcionem como um sistema paralelo dentro dos Estados (MOGELSON, 2017). Segundo Öcalan, “o Confederalismo Democrático é aberto a outros grupos e facções políticas. Ele é flexível, multicultural, antimonopolístico e orientado para o consenso. Ecologia e feminismo são pilares centrais” (ÖCALAN, 2015, p. 122). Sobre seu projeto de modernidade democrática, Öcalan argumenta que:
[...] é concebido como um projeto alternativo à modernidade como nós a conhecemos. Ele baseia-se no Confederalismo Democrático como um paradigma político fundamental. A modernidade democrática é a morada da sociedade política de base ética. Enquanto nós cometermos o erro de acreditar que as sociedades precisam ser entidades homogêneas monolíticas, será difícil compreender o confederalismo. A história da modernidade é também a história de quatro séculos de genocídio cultural e físico em nome de uma sociedade unitária imaginada. O Confederalismo Democrático, como categoria sociológica, é a contraparte dessa história e se baseia na determinação de combater, se necessário, do mesmo modo pela diversidade pela diversidade étnica, cultural e política (ÖCALAN, 2015, p. 124).
A mudança no pensamento de Öcalan e a subsequente ênfase nas ideias de autogoverno local não foram moldadas só por suas leituras, mas também por suas experiências positivas e negativas na luta armada do PKK (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 134). Por um lado, Öcalan critica as práticas autoritárias entre as unidades de guerrilha no contexto das perdas militares sofridas pelo PKK nos anos 1990, que acabaram por enfraquecer a sua liderança ideológica. Por outro, considerou como lição positiva a estratégia militar de autonomia parcial de cada unidade de guerrilha, que deve depender de si mesma para a garantir sua sobrevivência, sendo responsável por absorver novos recrutas, construir abrigos, treinar-se militar e ideologicamente e defender- se de ataques pesados (ÜSTÜNDAĞ, 2016, p. 135). Assim, a experiência de organização
autônoma das unidades de guerrilha tornou-se um exemplo da possibilidade das pessoas de se autogovernarem e de viverem sem um Estado.