Terminada a travessura com o alfaiate, os dois meninos voltam as suas atenções para o professor. Sendo também um homem respeitado, e tendo uma profissão altamente valorizada, o professor ainda encanta os demais moradores do vilarejo por atuar na igreja local, mais especificamente acompanhando as músicas ao órgão.
Este cidadão tem um pequeno defeito, um vício, que não é tido como muito grave, pois no texto sugere-se que ele pode ser perdoável a um senhor de puro e bom coração49. Ele é usuário de cachimbo, o qual os dois meninos enchem de pólvora. Ao ser aceso, ele explode, causando alguns danos físicos e materiais.
A princípio, uma observação deve ser dada com relação ao nome (sobrenome) do professor Lämpel. O uso do trema causa uma variação do sobrenome Lampel, que já era conhecido na época. Deriva da veneração ao Santo Lambertus, bispo de Maastricht, que originou os sobrenomes Lambrecht ou Lambert, que no alemão antigo seria lant +
beraht (terra ou região + brilhante ou honorário). A palavra então pode
nos levar a um significado como “lâmpada”, “lamparina”, numa clara alusão a quem transmite luz, sabedoria, claridade, sendo brilhante no que faz. Como tal significado é importante para a compreensão de seu sobrenome (KLINBERG, 1986: 45; PASCUA-FEBLES, 2006: 116), havia duas estratégias possíveis: deixar o nome no original e explicar o seu significado em nota de rodapé; ou traduzir o nome para realçar o seu significado. Neste caso, como a minha escolha da categoria tradutória proposta por Torop é a transposição sintética, a importância da língua alvo não pode ser ignorada. Eis a razão de optar, neste caso, pelo conhecido sobrenome Luz. Outra facilidade que o nome Luz traz é a terminação útil para rimas (aliás, não há rima adequada em português para Lämpel) e a brevidade da palavra (é um monossílabo tônico).
No decorrer dessa aventura, chega-se ao “Flop!”, onomatopeia que segue as mesmas descrições já efetuadas ao longo deste trabalho. O original traz “stopf”, que em alemão produz o verbo “stopfen” (encher, enfiar, meter), sendo de fácil entendimento. No caso do português, a associação não é tão óbvia assim. Mais adiante tem “bum”, que não carece de mais explicações.
Seguindo o texto, houve a aliteração “Vai feliz o seu caminho, / Vai pra casa bem calminho”, em que o “vai” se repete. Tal repetição acaba fazendo um jogo sonoro interessante, bem ao gosto infantil, pois a
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repetição é eficaz na aquisição do conhecimento e da estrutura de uma língua.
Após a explosão do cachimbo, os objetos mencionados que voaram pelos ares são sete: “Kaffeetopf und Wasserglas, Tobaksdose, Tintenfaß, Ofen, Tisch und Sorgensitz”. Em ordem, temos: bule de café (ou cafeteira), jarra (ou copo) d’água, recipiente do tabaco (fumo, pois na época não havia o cigarro industrializado, sendo mais comum o uso do cachimbo), tinteiro (recipiente em que ficava a tinta que se usava para escrever com pena – de preferência, de ganso), fogão (sem dúvida um fogão à lenha), mesa e cadeira (não uma cadeira qualquer, mas a “Sorgensitz”, literalmente, “assento da preocupação”, uma espécie de poltrona do papai). Duas palavras ofereceram preocupação na tradução, devido ao seu desaparecimento como ferramentas de uso: a frasqueira de tabaco e o tinteiro. Para captar todo o significado, é necessário que o conhecimento de mundo do leitor tenha noção desses objetos históricos que os antepassados usaram.
Logo após a explosão, o professor Luz ficou ali caído. Cogitei em fazer um jogo de palavras, como “Luz se apagou” ou algo parecido, mas abortei tal ideia, pois poderia dar a impressão de que ele tivesse morrido.
Outra preocupação foi a versão de “Sind so schwarz als wie die Mohren”, pois há uma clara referência a um povo, dizendo “estão tão pretos como os mouros”. Para evitar qualquer alusão de preconceito por motivo de cor, preferi evitar essa comparação e dizer que estava “tudo preto, chamuscado”, que é próprio de algo que se queima. Ali também introduzi a palavra “detonado”. A gramática normativa não aprecia muito esta palavra com a conotação apresentada, embora o povo a use de modo informal.
6.6. Quinta travessura
Prosseguindo a farra de maldades, os dois guris agora voltam o seu foco para o tio Fritz (ou Fritze). Para provocá-lo, eles catam muitos besouros e os aprisionam em cartuchos feitos de papel. A seguir, eles os colocam na cama do tio, debaixo da coberta. Quando ele vai dormir, remexe os pacotes e os insetos se soltam da prisão, iniciando a sua jornada por toda a cama, beliscando o homem. Para livrar-se deles, ele teve de recorrer à violência, promovendo uma chacina em seu quarto.
De início, a palavra “Fidibus” trouxe um grande problema tradutório. Não havia referência em dicionários mais simples e nem mesmo os dicionários online da internet conseguiram trazer uma
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explicação convincente. Após inúmeras tentativas, tudo levava a crer que se tratava do acendedor de cachimbos, uma espécie de isqueiro. Havia a referência em Olavo Bilac, que dizia “fogo”, mas Bilac acrescentou elementos não presentes no original, como “o chocolate” “o leite, o café e o mais”. Na minha versão, optei pelo fogo no lugar do isqueiro, e por coincidência a rima foi a mesma de Bilac (logo / fogo). De um modo geral, procurei não ter a influência da tradução dele, e a partir da segunda travessura, abandonei as consultas ao material bilaquiano, só o fazendo em raros casos, como neste aqui.
A seguir, introduzi um diálogo, também imaginado por Busch no original: quando alguém espirra, é educado desejar-lhe “saúde”, ao que a outra pessoa responde “obrigado”, cabendo a quem iniciou a interlocução completar com “de nada”. Tudo isso foi indicado através das aspas, uma vez que a pouca opção de rimas e métricas impede a identificação de quem está falando através dos verbos próprios de interlocução. Busch usou expediente idêntico, sem os verbos indicativos de diálogo.
Quanto ao nome do tio, mantive-o como no original. No Sul do Brasil, o nome não causa tanto estranhamento, e por seu turno ele ajuda a identificar a cultura geradora da história em questão. Existe inclusive um refrigerante à base de cola com o nome “Fritz-Kola”, criado por dois alemães, que vem ganhando espaço no mercado europeu. A explicação do nome escolhido para o refrigerante é a simplicidade ou vulgaridade (popularidade) do nome Fritz. Este nome, associado aos outros nomes mantidos no original, fará a criança leitora ter uma boa representação da cultura. O único risco a correr nessas escolhas alternadas de às vezes manter o nome, às vezes traduzi-lo, seria de a criança não entender como lá no exterior, mais especificamente na Alemanha, haveria alguém de sobrenome Luz ou Carneiro, por exemplo.
Mais adiante, quando os besouros começam a sair do papel, Busch apresenta uma onomatopeia (kritze, kratze), a qual eu omiti, devido à pouca oferta de rimas, tanto com “kratze” como com “besouros”.
Uma vez fora, os besouros atacam o tio Fritz. E pelo desenho, o que ele pega por primeiro em sua mão parece enorme. Assim surgiu a versão do “besouro troglodita”. O termo troglodita designa o homem das cavernas, o rude, o que se impõe pela força. Aqui na tradução, a minha intenção é fazer com que o tamanho do besouro fique em evidência e justifique o extermínio de todos eles, pois causam perigo ao beliscarem.