Aspect dynamique
4.2 Éléments communs aux expérimentations de l’aspect dynamique
4.3.2 Matériel et méthode
4.4.3.3 Variabilité intra-individuelle
No início dos anos 2000 o historiador brasileiro Ronald Raminelli constatou, em um artigo, que “A viagem ainda não teve a merecida atenção da historiografia brasileira” e que, “O grande desafio da temática, por certo, é a definição de viagem e de viajante” (RAMINELLI, 2000, p. 29). Transcorridos alguns anos, percebemos um exponencial aumento na produção historiográfica sobre viagens e viajantes, especialmente, no que se refere às discussões acerca do uso metodológico das narrativas e sobre como podemos compreender este corpus documental. Contudo, poucos autores somaram-se ao esforço empreendido por Raminelli em sua reflexão sobre uma possível definição de viagens e viajantes.
Uma primeira questão que se impõe é quanto a possibilidade de uma definição que sustente as várias especificidades que caracterizaram a viagem em uma perspectiva de longa duração; afinal o ato de viajar é comum à existência humana. Possivelmente, uma definição nesses termos implicaria em um grau excessivo de generalização, o que nos faz sugerir a adoção de uma noção que respeite o contexto histórico e cultural em que se situa a viagem em questão nesta dissertação, a viagem realizada por Johann Rengger no século XIX.
Uma tentativa de aproximação ao entendimento de viagem para os sujeitos do início do Oitocentos, provenientes de um ambiente cultural diversificado, como no caso da Suíça, é possível na consulta a dicionários do período.69 Com relação à definição de viagem, percebe- se uma diferença pontual entre os idiomas, destacando-se, especialmente, as noções de deslocamento físico que implica. Um deslocamento frequente, como salientado no vocábulo alemão Raise, ou mesmo pela sua larga extensão, como enfatizado no francês Voyage. Já no português, Viágem é definida como o caminho ou jornada que se faz pelo mar, sendo que a mesma definição, acrescida da possibilidade do deslocamento ocorrer por terra é indicado na língua espanhola, a partir da palavra Viaje.
Nesse sentido, as definições apresentadas evidenciam uma insuficiência que vários estudos já se ocuparam em destacar. A viagem não é tão somente o deslocamento físico, mas também epistemológico. Como salienta Sérgio Cardoso, o deslocamento, gera um “[...] sentimento de estranheza, de ‘alheamento’ e distância, [porém] seu mundo não se estreita, se abre; não se bloqueia, mas experimenta a vertigem da desestruturação [...] que lhe impõem as alterações do tempo” (CARDOSO, 1988, p. 359). E, aqui, talvez seja possível apontar essa característica como sendo comum a todas as viagens sem uma preocupação com o aspecto temporal. Pois, o sentimento de estranheza é intrínseco ao ato de viajar, enquanto um movimento de saída do próprio em direção ao desconhecido, independentemente das razões da viagem e do arcabouço cultural do viajante.
Quem viaja tem o que narrar. Deve-se, portanto, observar que a viagem e o relato constituem-se em duas faces complementares. O segundo só existe como produto da primeira. Como observa Ilka Boaventura Leite (1996, p. 80): “Os autores produziram suas obras em decorrência das viagens, através de suas descrições, buscando transmitir informações que só poderiam ser obtidas pela experiência da viagem. A viagem foi que tornou possível esse tipo de relato”. E, é em virtude dessa relação, que Ronald Raminelli postula que a viagem é um deslocamento e uma exploração do espaço, cujos produtos – mapas, narrativas, cartas, espécimes e objetos – operam como testemunhos da sua realização, impedindo o seu esquecimento e fornecendo inventários do espaço, dos costumes e da natureza observada (RAMINNELI, 2000).
Se, em um primeiro momento, o registro do contato com a alteridade e o seu espaço por meio da viagem pautou-se pela descrição do exótico e do maravilhoso, o que se observa é
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O interesse, aqui, destacado na consulta aos dicionários de época não objetiva uma pesquisa em termos etimológicos, mas, sim, as suas definições. Para tanto, utilizaremos dicionários da língua francesa e alemã – duas línguas da formação de Rengger – e dos idiomas espanhol e português, como contraponto às primeiras definições. As referências completas dos verbetes analisados encontram-se citados ao final do presente trabalho.
um processo de secularização (RAMINNELI, 2000), em que o código religioso de forma paulatina e desuniforme cede espaço para as descrições pautadas pela ciência, pela razão e pela técnica (DIOGO; AMARAL, 2012), próprias do contexto do Iluminismo. E é nesse processo que se insere a viagem – e consequentemente o relato – de Johann Rengger. Conforme Manoel Luiz Salgado Guimarães:
Herdeiros da cultura iluminista, os viajantes do final do século XVIII e começos do século XIX lançam-se às regiões desconhecidas ou pouco conhecidas do globo com a finalidade de realizar a partir de bases seguras o sonho enciclopedista. Diferentemente das viagens exploratórias anteriores, os viajantes do século XIX o fazem com o intuito de produzir conhecimento científico seguro, esquadrinhando cuidadosamente as regiões para construir um painel que abrigasse desde as características físico-geográficas das áreas visitadas, até as características sociais e políticas dos povos que as habitavam. Um olhar cuidadoso vai anotando, classificando, ordenando segundo princípios, constituindo, em suma, um saber sobre estes povos distantes e desconhecidos [...]. (GUIMARÃES, 2000, p. 395).
Portanto, a viagem e a narrativa de Rengger respondem a questões e problemas tributários da cultura iluminista, cujos objetivos visavam à construção de um saber amplo, organizado e seguro o que implicou em “[...] uma experiência nova de viagem, que da viagem vivida como descoberta dá lugar à viagem como atividade de pesquisa”, devendo “[...] integrar num conjunto vasto a multiplicidade de fenômenos observados, como forma de constituir uma totalidade dotada de significado” (GUIMARÃES, 2000, p. 398). Se o ápice do entendimento da viagem como fonte de saber pode ser identificado no período da Ilustração, por outro lado, essa não é uma construção própria do Setecentos, podendo ser localizada em contextos históricos mais remotos. Raminelli (2000), por exemplo, cita Theodore de Bry, no século XVI, quem já destacava o potencial das viagens para o aprimoramento do conhecimento científico, filosófico e teológico.70 Independentemente dos diversos sentidos que a noção de viagem possa ter assumido para determinados grupos sociais ao longo da história, torna-se claro que há um núcleo permanente: a ideia da viagem como formação. A antropóloga Fernanda Arêas Peixoto, em seu estudo sobre intelectuais do século XX, defende uma conceituação alargada de viagem, que no seu entendimento,
[...] remete ao Romantismo para o qual viagem associa conhecimento e escrita, revestindo-se também de caráter iniciático: viajar para os românticos é também, e sobretudo, renascer outro pelo mergulho nas profundezas da alma. Entendida como
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Johann Theodorus de Bry (1528 – 1598) foi um ourives, que se destacou por suas atividades como editor e ilustrador, especialmente, de títulos e gravuras referentes ao descobrimento da América.
aventura do corpo e do espírito, peregrinação renovadora e busca de fontes para a criação culta [...] (PEIXOTO, 2015, p. 12).71
A partir desse entendimento, a autora explora características fundamentais das viagens: a formação e a transformação, a circulação de saberes e de práticas, as relações sociais e as parcerias estabelecidas e, fundamentalmente, “[...] os nexos estreitos entre regimes de deslocamentos e formação de saberes sobre o mundo [...]” (PEIXOTO, 2015, p. 13).
Ainda que a cultura da Ilustração tenha impulsionado de maneira decisiva as viagens e as suas narrativas, a ponto de o viajante e de o leitor assíduo serem considerados cidadãos cosmopolitas,72 a viagem não chegou a ser uma exigência impreterível entre os homens de ciência do período. Lorelai Kury (2001a) aponta uma espécie de divisão do trabalho científico, que resultava do entendimento por parte de alguns naturalistas de que a viagem era apenas uma importante parte do trabalho, mas que o fundamental, a verdadeira ciência, se fazia dentro dos gabinetes, imersos nas coleções e respaldados por uma ampla bibliografia e instrumental. Condições essas, que, dificilmente, o viajante conseguiria dispor ao longo da viagem, razão pela qual, afirma a autora, era visto por muitos como apenas um coletor (KURY, 2001a).
Para Rengger e outros viajantes contemporâneos seus, a viagem era associada à pesquisa, ao conhecimento e à edificação pessoal. Contudo, exigia o deslocamento, o retorno e a escrita. Completado este percurso, a viagem transcendia o detalhe biográfico e narrativo: ela era cenário e protagonista na escrita do relato e, seu autor era denominado viajante.
Mas, o que vem a ser um viajante? Se utilizamos o mesmo procedimento que adotamos na busca por uma definição de viagem, logo percebemos que, na maioria das línguas, há a presença de um sufixo junto ao radical da palavra que exprime a ideia de um agente da ação: Raisen, em alemão, Voyager, em francês, Viájante, em português e Viajante
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Destacando as viagens realizadas pelos intelectuais Roger Bastide, Gilberto Freyre, Pierre Verger e Michel Leiris, Fernanda Peixoto identifica uma variedade de objetivos e motivações que os levaram a empreendê-las e que dificultam a sua tipificação. Segundo a autora, “São ainda viagens projetadas pelas leituras e aquelas realizadas por meio de amigos que, ao viajarem, contam o que veem. Menos do que tipos excludentes, as experiências analisadas ensinam que as viagens tendem a combinar lazer e estudo; profissão, pesquisa e turismo; descoberta e reconhecimento; deslocamento geográfico, recuo temporal e transformação de si. Nesse sentido, todo o esforço de tipificação das viagens carrega consigo o risco de sua redução a categorias unívocas, quando a matéria vivida sugere a permanente combinação de formas” (PEIXOTO, 2015, p. 13-14).
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De acordo com Juan Pimentel (2003), as narrativas de viagens não foram fundamentais apenas para o desenvolvimento científico, seu conteúdo também foi apropriado pelos estamentos altos e médios da sociedade, francesa, caso de seu estudo. Segundo o autor, “La mundialización del conocimiento del globo y sus habitantes discurría en paralelo y estaba aderezada por una moda muy extendida por la ciencias naturales. A principios del siglo, Locke había afirmado que cualquier caballero, para poder entablar conversación, debía tener nociones de filosofía natural” (PIMENTEL, 2003, p. 229). A difusão dos relatos de viagens e a sua recepção serão temas aprofundados no capítulo seguinte.
em espanhol. Trata-se de uma definição comum em todos os dicionários da época: viajante é aquele que fez ou faz viagens. Por outro lado, é evidente que tal definição apenas converge no sentido do deslocamento físico da viagem. Mas, se a viagem é tão importante a ponto de definir aquele que a realiza, em que medida ser viajante expressa também o deslocamento epistemológico da viagem? Aqui, novamente, a língua espanhola reserva especificidades. Para referir-se aos viajantes é usual neste idioma o uso da palavra Viajero, que não possuiu uma correspondência nas demais línguas aqui consideradas. Este vocábulo refere-se tanto à condição do sujeito que realiza ou realizou uma viagem, quanto ao ato de registrar e de refletir sobre sua experiência.73 Portanto, deslocamento físico e epistemológico.
O bibliófilo José Mindlin (1991), por sua vez, também destaca que a noção de viajantes é imprecisa. Questiona-se o autor se:
Serão só os estrangeiros, ou os brasileiros que percorreram o Brasil também se incluem nessa categoria? De meu lado, consideraria um absurdo excluir os brasileiros. Quanto aos estrangeiros, há muita variedade: alguns vieram ao Brasil por curiosidade, ou a negócio, descrevendo depois, em seus países de origem, o que encontraram de notável ou de exótico; há os que aqui viveram períodos mais ou menos longos - são viajantes, ou não? Há os cientistas, os piratas, os aventureiros, os artistas, os missionários, os políticos, os militares, os que apenas passaram pelo Brasil, a caminho do Oriente ou da, África. Gente, como se vê; de todo tipo, o que complica bastante o tratamento do tema (MINDLIN, 1991, p. 35).
A profissão do sujeito, os objetivos, o tempo da viagem e se esta resulta de um desejo ou não do indivíduo e a condição de estrangeiro, com certeza, são aspectos a serem considerados em toda a investigação sobre viagens e viajantes. Em especial, sobre a condição de estrangeiro do viajante, a historiografia tem reiterado que este ver de fora potencializa a sua capacidade de observação. Contudo, o viajante, dificilmente, será um sujeito plenamente integrado à sociedade que observa, tampouco lhe será possível abandonar o estatuto de estrangeiro. O encontro proporcionado pela viagem necessita de um espaço geográfico externo a um dos elementos, mas a marca desse encontro é sempre cultural. Como afirma Todorov (1991, p. 108), “[...] só se é estrangeiro aos olhos dos autóctones; ser estrangeiro não é uma qualidade intrínseca. Dizer de alguém que é estrangeiro é, evidentemente, dizer muito pouco”. Está claro, portanto, que o estatuto de estrangeiro não pode ser limitado a uma dimensão territorial. Ao mesmo tempo, as diversas nuances culturais que se encontram dentro de uma unidade política, por exemplo, indicam a impossibilidade de uma definição de estrangeiro em termos de nacionalidade. A ideia de uma observação aguçada pelo fato do
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De acordo com a definição do Dicionário da Real Academia Espanhola, de 1832, a palavra viajero é utilizada para referir-se a “El que hace algun viaje, especialmente largo ó por varias partes. Aplicase con singularidad á los que escriben las cosas especiales que han observado en él”.
viajante ver de fora só pode ser refletida em termos de diferenças entre culturas, pois como afirma Todorov (1991, p. 116), “[...] o contacto com as outras culturas não desempenha o mesmo papel que aquele que tem com a sua própria cultura. Este último é construtivo, enquanto o outro é crítico”.
No entanto, esses aspectos destacados anteriormente por Mindlin não nos parecem ser fundamentais para uma definição de viajante. Aliás, possivelmente, são evocados em razão da forma genérica que assume essa noção. Uma breve análise da historiografia que trata do tema evidencia que a palavra geralmente é associada à formação do sujeito, como por exemplo, naturalista-viajante e médico-viajante. Tal estratégia nos parece uma forma de complexificar a noção genérica de viajantes. Essa associação, não é fortuita, pois muito diz a respeito do conteúdo do relato escrito e do olhar que orientou o sujeito em suas observações sobre a alteridade e o seu espaço. Concordamos nesse sentido com João Pacheco de Oliveira Filho (1987), para quem a categoria de viajantes dá forma a uma unidade duvidosa e que acaba por condensar uma série de características e situações que são fundamentais na trajetória de quem escreveu.74
Desse modo, uma definição de viajante nos remete novamente à noção de viagem, evidenciando as frágeis fronteiras que as delimitam. Para Mindlin (1991, p. 35), “[...] todos os relatos que deram à Europa uma visão do Novo Mundo através de uma experiência própria fazem parte dos livros de viagens”. Portanto, refletindo sobre a sua definição e representação, podemos concluir que, alegoricamente, na forma de um triângulo, viagens e viajantes formam um par sustentado, em sua base, pelo deslocamento físico e epistemológico.
Foi na sexta-feira 1º de maio de 1818, ao içar da âncora de uma embarcação mercante no porto francês de La Havre, que teve início a longa jornada por entre mares, rios e terras, cujo primeiro ato ocorreu em 1º de julho do mesmo ano, quando os amigos e médicos suíços Johann Rengger e Marcel Longchamp desembarcaram na cidade de Buenos Aires. Idealizada nos tempos universitários de Tübingen e acalentada em Paris, Rengger afirma que “El objeto de este viagem era reconocer nuevos hechos en la historia natural de aquellas comarcas”,
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Cabe a ressalva que não discordamos da utilização do termo viajantes, mas há que se ter no horizonte de leitura essa série de situações que, no nosso entendimento, foram muito bem colocadas por João Pacheco de Oliveira Filho. Segundo o autor: “A preocupação central desse trabalho é, portanto, discutir a validade analítica da utilização da categoria genérica de ‘viajantes’ para um universo bem diferenciado de produtores intelectuais, onde existem diferentes tipos de bens simbólicos envolvidos, cada um deles ligado a mecanismos bem distintos de produção e de circulação, bem como a instâncias variadas de legitimação e consagração. No correr da análise, a unidade dos viajantes é questionada, sendo minha intenção a de explicar que aí estão envolvidos diferentes tipos de atores sociais, com funções intelectuais e posições sociais altamente diferenciadas, com esquemas diversos de financiamento, mecanismos distintos para a divulgação de seus resultados e ocupando em termos de legitimidade, diferentes esferas na cultura de época” (OLIVEIRA FILHO, 1987, p. 92).
sendo que “El ejercicio de la medicina debia facilitarnos los médios de realizarlo”. (RENGGER; LOMPCHAMP, 1828, p. V).75 Como se percebe, o objetivo da viagem de Rengger contemplava o estudo e a pesquisa da História Natural – termo que abrangia uma diversidade de disciplinas científicas, como por exemplo, a Botânica, a Geologia, a Biologia, entre outros, e que passaram por um processo de especialização ao longo do século XIX. Ainda que interessado em partes específicas da História Natural, o seu relato, como veremos no próximo capítulo, evidencia uma opção por um amplo panorama descritivo, conforme destacado por Guimarães (2000).
Como parte do percurso rumo ao interior do continente, Buenos Aires foi apenas uma passagem para Rengger e Longchamp. Segundo Albrecht ([1835] 2010), os viajantes permaneceram durante um mês em terras portenhas, período em que Johann iniciou uma amizade, que manteria por meio de uma frequente troca epistolar, com Aimé Bonpland, o antigo companheiro de viagens de Alexander von Humboldt pela América, entre 1799 e 1804. Bonpland retornou às terras americanas em 1817, um ano antes da chegada de Rengger, e estabeleceu-se em Buenos Aires, onde se dedicou às Ciências Naturais com considerável apoio dos governantes portenhos. Apesar dos contatos mantidos, Rengger e Bonpland não mais voltariam a se encontrar pessoalmente, ainda que tenham circulado pela mesma região, e, inclusive, vivenciado experiências semelhantes em suas passagens pela América meridional. O interesse do naturalista francês pela erva-mate o levou a realizar uma viagem até a Província de Corrientes e a de Misiones, em outubro de 1820.76 Ali, no povoado de Santa Ana de los Guácaras, fronteiriço ao povoado paraguaio de Itapúa, Bonpland organizou uma pequena estância dedicada ao cultivo da erva-mate, que, no entanto, foi destruída por uma tropa paraguaia, sendo o próprio viajante francês levado como prisioneiro. Nesse momento, se encontrando há pouco mais de um ano no Paraguai, Rengger relata em sua obra
Ensayo Historico, que, ficou sabendo do aprisionamento de seu amigo em uma reunião com
Francia, em que o próprio ditador confirmou a prisão de Bonpland, justificando a ação, como uma medida de proteção à economia e à segurança do país, pois a produção e venda da erva-
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Segundo o elogio fúnebre escrito em homenagem a Rengger, “O jovem cheio de vida sempre teve uma tendência, e, especialmente quando ele se familiarizou com a pesquisa científica, a viagens para descobertas científicas, e aproveitou uma oportunidade no navio para viajar a América do Sul para satisfazer a si mesmo” (NECROLÓGIO Johann Rudolf Rengger, 1833, p. 149). Essa afirmação parece ser compatível com a informação do historiador Max Oetli-Porta para quem Rengger não tinha o aval de sua família para realizar a viagem, segundo o autor: “Juntamente com seu amigo do Cantão de Vaud, Dr. Longchamp, sem conhecimento prévio, ou mesmo contra a vontade de seu pai adotivo, ele foi ao Paraguai em 1818, com o objetivo de explorar a natureza em um país distante” (OETTLI-PORTA, 1953, p. 266).
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A erva-mate (Ilex paraguariensis) é uma árvore originária da América do Sul, cujo nome científico foi atribuído por Saint-Hilaire. Tradicionalmente consumida como chá nos países da região meridional da América do Sul, seu processo de produção consiste no corte, secagem e moagem das folhas da árvore.
mate eram fundamentais para as finanças paraguaias, além de citar possíveis contatos do naturalista com antigos aliados de Artigas na região.77 Ainda segundo Rengger, Francia permitiu a Bonpland que vivesse em um povoado chamado Cerrito, entre Santa María e Santa Rosa, onde permaneceu até 1831, não obstante, a autorização de Francia para sua saída date de 1829. Nesse ínterim, várias tentativas para libertar Bonpland do seu cativeiro no Paraguai foram feitas, inclusive, por Rengger, que arbitrou pessoalmente em favor do seu amigo junto a Francia. Posteriormente, ações dos governos da França e da Inglaterra, esta por meio do seu embaixador em Buenos Aires, Woodibine Parish (1796 – 1882), também não obtiveram êxito, o que levou Rengger, logo do seu retorno à Europa, a fazer “[…] una propuesta al gobierno [da França], que tenía por fin la liberación del señor Bonpland y que estaba fundada en el conocimiento del carácter y de las relaciones del autócrata de Paraguay”, como informa seu