Stephan Kudyba
VALUE OF DATA AND ANALYTICS
O Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba foi fundado no dia 07 de Setembro de 1905, ―octagesimo terceiro da independência do Brasil, décimo sexto da proclamação da república (...)‖ (RIHGP, 1909, grifos nossos). Ressaltando essas datas se inicia seu termo de fundação. Sintomaticamente, ressaltar esses dois momentos da vida da nação explicitam o tipo de memória que tal Instituto tem por intenção construir e proteger.
Se, com o processo de independência do Brasil, os institutos históricos iriam se esforçar para produzirem uma identidade nacional, criando um passado comum a todos os brasileiros e reforçando o regime monárquico, com a queda deste e o advento da República, estes mesmos institutos se reordenam para a criação de um universo simbólico que legitima o novo regime.
A necessidade de se formular uma identidade para essa nova nação, fez surgir um esforço historiográfico com a tarefa de escrever uma história oficial do Brasil (GUIMARÃES, M., 1988). Se ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro coube a formulação de uma história que incorporasse todos os brasileiros, e que contribuísse para criar um sentimento de união nacional, aos institutos regionais (provinciais e, depois, estaduais), coube a tarefa de criar as especificidades locais, sem perder de vista as elaborações do IHGB. Ao longo do Período Imperial, alguns institutos regionais foram fundados. Conforme estabelecido pelo órgão nacional, sediado na Corte, àqueles institutos ficaria a incumbência de coletar documentos, e de fomentar uma produção intelectual de forma a colaborar com as diretrizes deste último. De fato, os institutos regionais fomentaram uma produção que reforçaria a do centro do poder, mas isso não ocorreu de forma passiva, como podemos perceber em alguns deles. Houve, na realidade, uma tensão entre o poder central e as oligarquias locais. Os
institutos regionais, tendo seus quadros ocupados por membros das elites locais, utilizariam essas agremiações como espaços privilegiados e legitimadores de seus discursos para se firmarem politicamente, tanto no âmbito local quanto no nacional.
Através da demonstração da relevância de suas respectivas regiões para o contexto nacional os membros de tais institutos, ou os grupos a eles vinculados, galgavam espaços políticos. Alguns fatores conjunturais, tais como a ascensão ou decadência econômica, levam- nos a formular sua produção no intuito de se impor politicamente para conquistar novos espaços ou manter a hegemonia de grupos locais.
Os institutos regionais surgiam praticamente de uma mesma necessidade: a emergência de tornarem suas regiões visíveis nacionalmente. É assim, por exemplo, com Pernambuco e a ênfase dada à restauração pernambucana, demonstrando e evidenciando a importância daquela província para a unidade da nação com a expulsão dos holandeses (GUIMARÃES, 1996).
Outra agremiação regional que surgiu ainda no Império foi o Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará. Almir Leal de Oliveira, em sua tese de doutoramento, na qual estuda as formulações historiográficas deste instituto e como elas contribuíram para a constituição de uma ―memória cearense‖, demonstra, entre outras coisas, que ele também surge com o intuito de criar uma história local, com suas especificidades, para inserir o Ceará no contexto nacional.
Para a história do Ceará a criação do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará marcou a definição de um métier (campo profissional e intelectual) que regulamentaria os caminhos de singularização da trajetória cearense. Essas regulamentações se efetivariam em uma tematização da história local, na definição e datação de suas origens, no estabelecimento de suas fronteiras geográficas e culturais, de seus tipos, cronologias, cartografias, enfim, do lugar e da imagem do Ceará para a nacionalidade (OLIVEIRA, 2001, p. 12).
Este instituto surgiu em um contexto de reorganização das estruturas sociais e produtivas do Ceará. Oliveira aponta que a grande seca ocorrida entre 1877 a 1880, naquela região, acabou por desestruturar sua vida econômica e social. Aquela seca, ―associada às epidemias, dizimou o gado, arrasou a agricultura, estabeleceu uma fratura demográfica e redefiniu a organização econômica, social e cultural da província‖ (OLIVEIRA, 2001, p. 47). Isso criou um ambiente que proporcionou a emergência de um discurso historiográfico de caráter ideológico e articulado ―com grupos emergentes em Fortaleza de políticos e comerciantes com fortes aspirações burguesas‖ (2001, p. 53).
O Instituto Histórico do Ceará se, ao buscar reconstituir seu passado demarcando suas origens, e nisso suas especificidades diante da nação, corroborava com o modelo do IHGB de construção de uma identidade nacional. Ao mesmo tempo, a partir de um discurso produzido dentro de um espaço privilegiado de saber, firmava, no contexto local e nacional, o grupo político ao qual pertenciam ou representavam. Vamos perceber que, ao buscarem as origens da história do Ceará, tinham um compromisso de incluí-lo no processo civilizatório (OLIVEIRA, 2001, p. 86) mostrando como a região teria contribuído para o avanço da civilização. Desta forma, o Ceará se firmava e conquistava destaque político frente à nação.
Nesse ponto, Machado parece se alinhar com essa perspectiva do Instituto cearense. Como já enfatizamos anteriormente, aquele historiador busca construir uma história da Paraíba no intuito de inseri-la em um contexto mais amplo de civilização, colocando-a entre as demais províncias e destacando sua importância no processo que levou o Brasil a figurar entre as demais nações do mundo. Sua intenção era a de demonstrar a evolução da Paraíba e como esta contribuiu para o desenvolvimento da ―civilização humana‖.
Assim, a demanda nos institutos que atuaram durante o Império, foi a de construir histórias locais em harmonia com a nacional, demonstrando suas especificidades, contribuições e relevância para a formação da nação. Consequentemente, firmava-se sua presença na vida política nacional a partir de espaços conquistados e legitimados em seus discursos. Com o advento da República, outra demanda intelectual se apresentou. Se durante o Império, o mote era a unidade nacional em torno da Corte, no novo regime, o tema seria a sua legitimação.
O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano surgiu no contexto republicano. Diferentemente de outros institutos que nasceram ainda no Império e com o advento da República tiveram que se reformular suas diretrizes para atender àquela nova demanda, o IHGP começou a desenvolver sua produção intelectual envolvida no novo contexto político. Sua orientação também passa a ser a de demonstrar como a Paraíba contribuiu para aquela nova conjuntura. É nesse sentido que, como bem aponta Dias (1996), este instituto irá demonstrar, através do seu discurso historiográfico, como a Paraíba evoluiu, desde a conquista até o momento republicano. Seu intuito é o de criar uma ―memória republicana‖ daquela antiga capitania, depois província, agora, estado da federação. Assim, é emblemático que no termo de fundação deste instituto, se façam menções às principais datas cívicas nacionais, o 7 de setembro e o 15 de novembro.
O IHGP surgiu, como vimos, da necessidade de se fazer a história da Paraíba conhecida, tanto pelos outros brasileiros, quanto pelos próprios paraibanos. Segundo Dias, o
objetivo maior de se escrever uma história da Paraíba era o de torná-la conhecida demonstrando a sua grandeza (1996, p. 36).
Desse ideal de grandeza, surge a proposta de um homem paraibano; com ele, uma identidade, a paraibanidade. Essa construção de uma identidade paraibana, pautada em características que marcam aqueles que nascem no território da Paraíba, serve para destacar no meio nacional as especificidades dessa terra, a proeminência de seus filhos, firmando-a politicamente no cenário do país.
Este Instituto, ao nascer sob a égide da República, busca atender a demanda de legitimação do novo regime, construindo uma história oficial alinhada aos ideais republicanos. Mais ainda, demonstrando a evolução da Paraíba desde a conquista (1585), passando pelo período holandês (1634-1654), daí saltando para a colaboração da Paraíba à Revolução Pernambucana (1817), à Confederação do Equador (1824), à Revolução Praieira (1849) até aquele novo estágio político (1889).
Nesse sentido, de que forma, então, Maximiano Lopes Machado teria sido importante para esta historiografia? Como sabemos, ele escreve sua obra ainda no Império deixando-a pronta ainda em 1885, quatro anos antes da proclamação da República. Machado buscou responder às demandas do seu tempo a partir das tensões entre o local e o nacional, tal como vivenciava. Momento distinto das demandas à época da fundação do IHGP em 1905, assim como no período em que este instituto efetivamente publica a obra, em 1912. Nesse sentido, se o IHGP busca elaborar uma memória da República na Paraíba, buscando legitimar o regime, como, então, Machado seria útil, já que ele escreve antes do advento do mesmo?