Wayne Thompson
DATA MINING METHODS
Antes de iniciarmos essa pesquisa, pelo maior contato que tínhamos com os comentadores do que com a obra de Maximiano Lopes Machado, estávamos convictos de que ela se constituíra realmente, junto com as de Irineu Ferreira Pinto e Irineu Joffily, em um dos pilares da historiografia paraibana produzida pelo Instituto Histórico e Geográfico Paraibano desde sua fundação. Aliás, como tivemos a oportunidade de discutir nesta dissertação, tal condição sempre foi exaltada pelo próprio IHGP e frequentemente reafirmada, ao longo do tempo, por seus comentadores. Contudo, ao analisarmos mais detidamente aquilo que Machado escreveu em História da Província da Parahyba e as produções do IHGP publicadas nos primeiros números da sua Revista, nos deparamos com uma certa divergência de perspectivas acerca da história da Paraíba. Tal divergência nos fez repensar os limites da influência que aquele autor teria para a historiografia daquele instituto e da paraibana de um modo geral.
Como buscamos demonstrar, Maximiano Machado construiu uma história da Paraíba com base na teoria do evolucionismo social, muito influente na época em que escreveu o livro. Na obra, procurou demonstrar o processo evolutivo daquela província, apresentando os percalços que impediam o andamento do seu progresso e as marchas e contras-marchas pelas quais a mesma passou através do tempo. Procurava evidenciar, sobretudo, a colaboração da mesma para o desenvolvimento da civilização do Brasil. Nesse sentido, destacou os momentos em que o desenvolvimento da Paraíba esteve ameaçado. O primeiro percalço a ser vencido pela civilização seria justamente a conquista do território. Para Machado, um dos fatores que levou ao atraso do início do processo civilizatório da Paraíba foi o descaso da Coroa portuguesa em tomar, para si, a obrigação de civilizar o Brasil. Esta, segundo o autor, estaria mais interessada no ouro das Índias do que em garantir a possessão da nova descoberta. Desta forma, concedeu a particulares o direito de explorarem o novo território. Este teria sido o primeiro pecado da Coroa portuguesa, deixar que particulares, movidos pela cobiça e pela busca do lucro, ficassem com a incumbência de conquistar as novas terras. Para Machado, isto trouxe apenas prejuízos para a civilização, e o maior deles foi ter afastado os indígenas do ―grêmio da sociedade‖.
Os indígenas, sendo molestados pelos colonos, que os matavam e os cativavam, criaram uma rejeição à civilização, à sociedade e seus agentes. A conquista da Paraíba foi a síntese desse confronto entre indígenas e os agentes colonizadores. O território da Paraíba apenas foi conquistado depois que os indígenas cessaram seus ataques e se submeteram à
Coroa. Primeiro, os Tabajara que acordaram aliança com os portugueses, atitude interpretada pela historiografia do IHGP como acordo de paz. Depois os Potiguara, que, segundo Machado, pela falta de trato dos portugueses e pela influência dos franceses, resistiram mais para aderirem à colonização. Para Machado, a Coroa poderia ter evitado muitos conflitos e muito sangue indígena se, antes, tivesse enviado sacerdotes para catequizá-los do que colonos ávidos por lucros para explorá-los. Tanto isso era correto que os momentos em que as missões religiosas se ampliaram, foram justamente aqueles em que a terra alcançou maior tranqüilidade e desenvolvimento econômico ou social.
O segundo percalço do processo civilizatório da Paraíba se deu no século XVII quando da invasão dos holandeses (1634-1654). A capitania, após a conquista portuguesa, passara a se desenvolver econômica e socialmente; a catequização dos indígenas avançava consideravelmente dando resultados consistentes, sendo D. Antônio Felipe Camarão – o índio que entrou para o panteão dos ―heróis nacionais‖ - caso exemplar deste sucesso. Para Machado, a invasão holandesa interrompeu esse momento de desenvolvimento. Não apenas estava ameaçada a civilização na Paraíba, mas em todo o Brasil. Machado buscou demonstrar, em sua narrativa, como a Paraíba, junto com Pernambuco, resistiu às invasões e conseguiu expulsar os holandeses. Sua intenção foi evidenciar a participação da Paraíba naquela guerra. Para ele, o papel desta teria sido tão importante quanto o de Pernambuco e prova disso foi a liderança militar do ―paraibano‖ André Vidal de Negreiros. Este, a frente dos outros líderes – Henrique Dias, João Fernandes Vieira e Felipe Camarão –, restauraram a nação, pondo-a novamente em rumo ao progresso.
Após esse período de guerra, a Paraíba retoma o seu processo de desenvolvimento que, contudo era lento, não mais devido a ameaças externas e sim por problemas internos, tais como a conquista do sertão e a guerra contra os índios dessa região e, concomitantemente, a anexação da capitania à Pernambuco, ocorrida em 1755. Infelizmente, como já mencionamos, com a demora em se publicar o livro uma parte dele se perdeu, o que nos impossibilita saber quais outros momentos teriam, conforme Machado, interrompido a evolução da Paraíba rumo ao progresso e à civilização.
O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, ao ser criado em 1905, já no século XX, alguns anos após a conclusão da obra de Machado, teve como objetivo construir uma história da Paraíba escrita por paraibanos. Esta deveria primar pelos feitos dos homens notáveis em prol da Paraíba, especialmente aqueles que se destacaram nos momentos eleitos, por essa historiografia, como decisivos na trajetória entre a conquista e o advento da República. Buscou, assim, construir uma memória da República. Nesse sentido, o IHGP buscou
estabelecer os marcos temporais e espaciais dos eventos nos quais os paraibanos demonstraram seu ―patriotismo‖, defendendo a nação, sua união e liberdade – esta proporcionada pelo novo regime republicano.
Desta forma, de que maneira o estudo de Maximiano Lopes Machado, História da
Província da Parahyba, colaboraria com os cânones daquela historiografia oficial, haja vista
que seu estudo somente foi publicado em 1912, sete anos após a fundação do instituto, e, principalmente, por que ela é tida como a obra fundadora da historiografia paraibana?
Após analisarmos biografias sobre o autor e compararmos a sua História da Paraíba com a construída pelo IHGP nos primeiros tempos de sua existência, percebemos que Maximiano Lopes Machado havia sido mais importante como político do que como historiador nesta construção. O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano buscou construir a imagem de Machado enquanto um dos baluartes da República. Tal perspectiva corroborava com intuito de se construir uma memória republicana da Paraíba. Machado comporia, então, o
hall de paraibanos que colaboraram para o seu advento. Contudo, como buscamos demonstrar
ao longo do texto, esta seria uma leitura forjada pelo instituto com o objetivo de fomentar sua perspectiva histórica de que a Paraíba sempre teve tendência para o republicanismo. Além disso, erigir uma imagem de Maximiano Machado, enquanto baluarte da República, ajudava a reforçar e justificar o poder da oligarquia Machado que, durante boa parte da primeira república, desde 1892, ocupava os principais cargos político-administrativos daquela unidade da Federação. Em 1912, último ano da administração de Álvaro Machado, sobrinho do autor, como Presidente do Estado, foi, enfim, publicada a História da Provincia da Parahyba.
É nesse sentido que, ao biografarem Maximiano Machado, tais intelectuais iriam se reportar à sua vinculação ao Partido Liberal e ao episódio da revolta Praieira da qual participou. Para essa historiografia, foi naquele episódio que o futuro historiador demonstrou seu valor patriótico ao se unir aos demais rebeldes e defender a causa da liberdade. Na realidade, como Machado expressa no seu livro Quadro da Revolta Praieira na Província da
Parahyba, fruto dessa sua experiência naquele movimento, estava lutando para que o Brasil
não se tornasse uma monarquia absolutista, com os poderes concentrados nas mãos do imperador. Mas em nenhum momento defendera abertamente os ideais republicanos. Contudo, a leitura do instituto a respeito de Maximiano Machado fora a dele como um defensor da república, um liberal rebelde e revolucionário. Sua imagem seria, assim, atrelada a tais características políticas e, dessa forma, seria representada pelas gerações seguintes de historiadores vinculados ao IHGP. Com efeito, esta perspectiva iria interferir até mesmo na
interpretação que se faria da História da Província da Paraíba, entendida como um estudo realizado por um político liberal maduro.
Não obstante, como pudemos observar ao longo deste estudo, aquela obra, publicada por incentivo do IHGP e com recursos do estado, fora recepcionada com várias críticas a respeito da sua estrutura e método de narrativa, do uso que faz das fontes e de algumas de suas interpretações. As críticas já estão presentes no texto de João de Lyra Tavares que constitui o prefácio da primeira edição. Já de partida contesta o destaque que Machado daria às ações de Fructuoso Barbosa na conquista da Paraíba. Para Lyra Tavares, o verdadeiro fundador seria João Tavares e não, como atestou Machado, Fructuoso Barbosa. Em relação ao Período Holandês, enfatizaria os equívocos na ortografia dos nomes dos oficiais holandeses e, principalmente, contestaria a imagem negativa que Maximiano construíra sobre Maurício de Nassau. O único ponto de convergência seria em relação a André Vidal de Negreiros, pois, para ambos, este paraibano seria o grande vulto da restauração pernambucana e exemplo de patriotismo dos paraibanos naquele conflito luso-holandês.
Nas primeiras revistas do Instituto Histórico, a divergência de interpretação a respeito da história da Paraíba seria ainda mais evidente. Como vimos anteriormente, os personagens, as datas e os locais consagrados por Machado como importantes para a história da Paraíba foram ignorados pelo IHGP. Exemplo mais manifesto seria o episódio da fundação da Paraíba. Enquanto, para ele, o fundador seria Fructuoso Barbosa, e o estabelecimento da povoação se daria aos fins de 1585, depois que a ameaça dos Potiguara havia sido controlada, para o instituto a fundação se deu a 5 de agosto de 1585, tendo a frente João Tavares, que supostamente teria arquitetado um acordo de paz com os Tabajara. Nascia, então, a Paraíba sob os auspícios da paz. Esta versão permaneceria no imaginário da sociedade paraibana, tendo o 05 de agosto como a sua principal data comemorativa.
Pensamos que seja importante o desenvolvimento de estudos mais aprofundados a respeito dessa influência de Maximiano Lopes Machado na historiografia paraibana no século XX. Costuma-se repetir que Machado, junto com Irineu Pinto e Irineu Joffily, por terem construído a base daquela historiografia, por terem sido os primeiros a escreverem sobre a história da Paraíba, estariam presentes ainda hoje na sociedade paraibana. Até onde os limites desse trabalho nos permitiram observar, entendemos que Maximiano Lopes Machado teve pouca influência na construção da história oficial da Paraíba encetada pelo Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, especialmente no que tange à participação dos indígenas como um dos elementos que fizeram parte da construção histórica e social da Paraíba, assim como os europeus e negros.
Para Machado, os indígenas Tabajara e Potiguara colaborariam com a civilização ao aderirem a ela. Era imprescindível, para o desenvolvimento da Paraíba, a incorporação daqueles indígenas à sociedade. Para o IHGP, a colaboração dos indígenas fora a aliança de paz dos Tabajara. Estes contribuíram para que a Paraíba pudesse nascer. Contudo, ao dar relevo a este acordo de paz, este instituto encobre, na realidade, a aliança entre portugueses e Tabajara para a eliminação dos indígenas resistentes à civilização, os Potiguara. Os Tabajara, então, seriam exaltados por aquela historiografia, lembrados e homenageados como colaboradores. Aos Potiguara restaria o esquecimento. A convergência dessas duas interpretações estaria no fato de que os indígenas teriam uma participação limitada na história da Paraíba, estando fadados a serem absorvidos e imiscuídos entre os outros elementos sociais. Em outras palavras, o destino destes povos seria a civilização.
É essa perspectiva historiográfica que pode nos indicar um caminho para a compreensão da forma como a sociedade paraibana enxerga o indígena na sua formação identitária. Aquela historiografia colaborou para a construção de uma cultura histórica que implicava perceber o indígena como um personagem pertencente ao passado, vítima passiva da colonização, que, se não foi exterminado, foi incorporado à sociedade.
6. Referências