Uma questão importante no trabalho de interpretação dos símbolos é para onde isto pode levar o pensamento. É necessário distanciar-se de uma filosofia reflexiva que incorpore o sentido do símbolo de forma alegorizante, assim como não permanecer no campo restrito de uma fenomenologia dos símbolos (descritiva e classificatória). Ricoeur pretende que a filosofia se deixe interpelar pelos símbolos.
A última etapa de sua obra A Simbólica do Mal tem o título tão caro a ele42:
o símbolo da que pensar. É nesta etapa que encontraremos com mais força o
exercício de elucidar a aproximação do mito ao discurso filosófico configurando, como também expressa Maria Luísa Portocarrero, uma constituição simbólica da existência humana, que poderá, em última instância, preparar sua obra para uma hermenêutica da existência (PORTOCARRERO, 2013).
O símbolo, enquanto índice antropológico, será encontrado por Ricoeur e a última etapa de seu trabalho de enxerto da hermenêutica na filosofia será uma evidente distensão do símbolo como possibilidade fundamental da existência.
No fim da Simbólica do Mal Ricoeur fala de um hiato entre a reflexão pura sobre a falibilidade e a confissão dos “pecados”. Vê, portanto, em seu segundo volume da Filosofia da Vontade - Finitude et culpabilité - uma separação entre a reflexão filosófica de L’homme failibile e a linguagem simbólica da confissão em
A Simbólica do Mal.
A reflexão pura não apela aos mitos e símbolos; no entanto, a compreensão do mal está velada para ela. O absurdo do mal na experiência humana não pode ser compreendido pela razão solitária.
A consciência religiosa, por sua vez, recorre à linguagem simbólica para expressar a falta em seus múltiplos sentidos de mancha, pecado e culpa, porém, nesta confissão carregada de símbolos está colocada uma ruptura metodológica com a reflexão filosófica.
A tarefa de mover o pensamento filosófico sobre o mal regressando a uma
reflexão pura enriquecida pelos símbolos não é ausente de riscos. Dois perigos evidenciados por Ricoeur dizem respeito à tentativa de justapor simplesmente a reflexão à confissão perdendo a riqueza de ambas ou separar a reflexão da linguagem simbólica através de uma tradução alegorizante que retiraria toda a carga de sentido dos símbolos que interpelam diretamente o pensamento.
A via proposta por Ricoeur é uma outra, a da interpretação criadora de sentido: “Via de uma interpretação criadora de sentido, fiel ao impulso, à doação de sentido do símbolo e, simultaneamente, fiel ao juramento de compreensão do filósofo” (RICOEUR, 2013, p. 366).
Nesta via reencontramos o aforisma de Ricoeur: O símbolo dá que pensar. Com ele encontramos duas ideias: o símbolo dá; e o que ele dá é o que pensar.
É preciso acessar o símbolo, conforme a criteriologia estabelecida por Ricoeur em suas características arcaicas, noturnas e oníricas.
Neste ponto, Ricoeur evidencia sua crítica à filosofia reflexiva, que busca um começo radical na filosofia (cartesiana e husserliana43). Para ele, o acesso
aos símbolos pode levar o pensamento a escapar das dificuldades do começo radical.
Conhece-se a cansativa fuga por trás do pensamento em busca da primeira verdade, e, mais fundamentalmente ainda, da procura de um ponto de partida radical que poderia não ser de modo nenhum uma primeira verdade.
É preciso talvez ter experimentado a decepção que se prende à ideia de filosofia sem pressuposição para ter acesso à problemática que vamos evocar. Ao contrário, das filosofias do ponto de partida, uma meditação sobre os símbolos parte do pleno da linguagem e do sentido sempre já aí; ela parte do meio da linguagem que já aconteceu e onde tudo já foi dito de um certo modo. Ela quer ser o pensamento, de modo nenhum sem pressuposições, mas em e com todas as suas pressuposições. Para ela, a primeira tarefa não é começar, é, do meio da fala, relembrar-se (RICOEUR, 1988, p. 282-283).
O começo não é aquilo que vem em primeiro lugar, isto é, partindo de uma linguagem estabelecida nos símbolos é possível aceder, conquistar o ponto de partida, mas habitando a plenitude da linguagem. Sobre isto, atesta Ricoeur: “(...)
43 “(...) ao opor a problemática do símbolo à procura cartesiana e husserliana do ponto de partida,
nós ligamos demasiado estreitamente esta meditação a uma etapa bem precisa do discurso filosófico” (RICOEUR, 1988, p.283).
Não há filosofia sem pressupostos; uma meditação sobre os símbolos parte da linguagem que já teve lugar, e na qual já tudo foi dito de alguma forma; ela quer ser o pensamento com os seus pressupostos” (RICOEUR, 2013, p. 366).
A primeira tarefa da filosofia como meditação sobre os símbolos é relembrar-se (nos acessos às diferentes camadas simbólicas) com vistas a começar (acessando os símbolos mais primários).
Ricoeur enquadrou seu problema no contexto de um momento histórico da filosofia onde é possível verificar o esquecimento das hierofanias (manifestações do sagrado) e o desenvolvimento de uma linguagem unívoca (técnica). A intenção de Ricoeur é a de recarregar a linguagem e para isso ele vê a filologia, a exegese, a fenomenologia da religião e a psicanálise como caminhos da hermenêutica para a possibilidade de preenchimento da linguagem.
O teor do texto que analisamos é inflamado quando Ricoeur atesta fortemente: “Não é, portanto, o lamento das Atlântidas afundadas que nos anima, mas a esperança de uma recriação da linguagem; para lá do deserto da crítica, queremos ser interpelados de novo” (RICOEUR, 2013, p. 367).
Se é na plenitude da linguagem que o símbolo dá e dá o que pensar, uma tensão ainda se coloca: tensão fundamental entre a doação do pensamento doado a si mesmo no reino do símbolo (tudo foi dito e tudo está para ser reencontrado) e a posição do pensamento que põe e pensa.
A interpretação proposta por Ricoeur deve ser um triplo percurso: respeitar o enigma original do símbolo; deixar-se instruir por ele e promover o sentido através de um pensamento autônomo.
Ricoeur já esclareceu inúmeras vezes que o símbolo está na palavra, uma vez que arranca o sentimento e o medo do silêncio e da confusão, em outras palavras, o símbolo providencia uma linguagem à confissão.
Ora, para Ricoeur, onde existe o símbolo existe uma hermenêutica, pois a palavra foi interpretada, a hermenêutica dos modernos somente “(...) prolonga as interpretações espontâneas que nunca faltaram aos símbolos” (RICOEUR, 2013, p. 368).
reconhece o mito enquanto mito e não se deixa interpelar diretamente por ele, mas, ao mesmo tempo, esta hermenêutica tem a função de apropriar-se do símbolo, reavivar a filosofia através do contato com os símbolos fundamentais da consciência.
A dissolução do mito feita pela explicação caminha para a restauração do mito feita pelo contato com o símbolo. Se a imediaticidade da crença está irremediavelmente perdida, a filosofia do símbolo tende para uma segunda inocência na e pela crítica, onde a interpretação leva a entender novamente.
A hermenêutica, para Ricoeur, se encontra no nó entre a doação de sentido pelo símbolo e a iniciativa crítica da decifração. Este é o conceito de círculo hermenêutico utilizado por Ricoeur: É preciso compreender para crer,
mas é preciso crer para compreender.
Ricoeur distende o significado deste círculo: Crer compreender equivale a viver na aura do sentido interrogado; toda interpretação é dirigida, de alguma forma, por uma pré-compreensão daquilo que trata o texto; e, ainda, existe uma aproximação entre o pensamento e a própria coisa que visa o texto.
Compreender para crer equivale à tarefa hermenêutica da interpretação
que reconduz à segunda inocência que se espera, isto é, a de deixar-se interpelar pelos símbolos; a hermenêutica é, nas palavras de Ricoeur, a modalidade moderna da crença nos símbolos.
Para Ricoeur, a hermenêutica procede da pré-compreensão daquilo mesmo que ela tenta compreender quando interpreta, dando sequência ao movimento circular engendrado.
O processo de desmitologização da crítica levou a hermenêutica a revivificar a filosofia no contato com os símbolos: uma recarga do pensamento pelos símbolos. A consciência do círculo hermenêutico é uma etapa entre a repetição sem crença e o pensamento autônomo.
Ricoeur pretende superar uma etapa (considerada necessária) de discernimento do símbolo no símbolo (comparação, classificação). A hermenêutica filosófica é representada aqui como uma passagem da estática para a dinâmica dos símbolos míticos.
Um conceito utilizado no final de seu livro para atestar este caminho proposto por ele para a hermenêutica filosófica dos símbolos é o da aposta. Superar o círculo hermenêutico, transformando-o em aposta.
Eu aposto que compreenderei melhor o homem e a ligação entre o ser do homem e o ser de todos os entes se seguir a indicação do
pensamento simbólico. Esta aposta torna-se então na tarefa de verificação da minha aposta e de saturá-la, de uma certa forma, de
inteligibilidade; em contrapartida, essa tarefa transforma a minha aposta; apostando na significação do mundo simbólico, eu aposto ao mesmo tempo que a minha aposta me trará dividendos na forma de capacidade de reflexão, no elemento do discurso coerente. Abre-se, assim, diante de mim, o campo da hermenêutica propriamente filosófica (...) é uma filosofia a partir dos símbolos que se dá a si mesma a tarefa de promover, de formar o sentido, mediante uma interpretação criadora (RICOEUR, 2013, p.372).
A filosofia do símbolo transforma qualitativamente a consciência reflexiva, na medida em que o símbolo é um apelo a posicionar-se melhor no ser. O símbolo não é somente reflexivo mas opera um aumento da consciência do ser: “Finalmente, é então como índice da situação do homem no coração do ser no qual se move, existe e quer que o símbolo nos fala” (RICOEUR, 2013, p. 374).
O exercício hermenêutico que encontra a condição da existência através do símbolo (linguagem já aí) representa um rompimento com o encanto da consciência de si e atenua o privilégio de uma filosofia reflexiva. É neste sentido que podemos falar, com Ricoeur, de uma segunda revolução copernicana, onde “(...) o ser que se põe a si mesmo no cogito tem ainda de descobrir que o próprio ato pelo qual ele se arranca à totalidade não deixa de participar no ser que o interpela em cada símbolo” (RICOEUR, 2013, p. 374).
Como culminância deste caminho percorrido por Ricoeur ele pode falar de estruturas da existência, onde símbolos podem ser elevados a conceitos existenciais como ser do homem e a sua finitude.
O percurso de Ricoeur foi aquele de explicitar os pressupostos da filosofia diante dos símbolos, enunciá-los como crença no círculo hermenêutico, elaborar a crença como aposta e, por fim, recuperar a aposta como compreensão.
(...) uma filosofia iniciada pelo símbolo (...) encontra o homem já instalado a título preliminar no interior do seu fundamento; essa inserção pode parecer contingente e estreita: por que símbolos? Por que esses símbolos? No entanto, a partir dessa contingência e dessa estreiteza de uma cultura que reencontrou esses símbolos e não outros, a filosofia encarrega-se, usando a reflexão e a especulação, de descobrir a racionalidade do seu fundamento.
Apenas uma filosofia alimentada, antes de mais nada, na plenitude da linguagem, pode, em seguida, ser indiferente aos acessos da sua própria problemática e às condições do seu exercício, e permanecer constantemente preocupada em tematizar a estrutura universal e racional da sua adesão (RICOEUR, 2013, p. 375).