Certamente percorremos caminhos pouco usuais no diálogo com a ecologia e a gestão ambiental, mas estes necessitam ser mais explorados e analisados pelos pesquisadores e gestores no intuito de esclarecer os pontos que fundamentam a atual crise ambiental que presenciamos. A simples presença na existência configura a inserção em determinados sistemas culturais que muitas vezes passam despercebidos pela nossa vida. Um processo educativo transformador requer que no mínimo entendamos que pertencemos a uma certa sociedade e concebemos o mundo através do olhar deste grupo. É esta conexão com os demais que é permeada de símbolos que define o agir social e por isto é fundamental analisarmos a prorrogação do mito no tempo e no espaço. Sem o entendimento desta referência básica que nos orienta a agir socialmente, que nos constrange ou que nos lança atrás dos nossos objetivos não teremos uma consciência adequada sobre as nossas atitudes, o que se traduzirá na nossa responsabilidade política diante da vida.
Pensar em trazer a filosofia enquanto elemento que pode esclarecer a problemática ambiental nos fez perceber a importância de assumir um posicionamento existencial que seja coerente com as nossas exigências de sobrevivência no planeta. A dicotomia estabelecida, que por vezes é negligenciada do debate se torna foco central para uma boa argumentação e lapidação filosófica que responde com maior clareza acerca dos desafios que precisamos enfrentar neste momento. Para tal, defendemos neste trabalho que uma mudança de perspectiva metafísica caminha junto com uma mudança nas nossas atitudes frente a toda problemática ambiental enfrentada, e é a partir dela que poderemos avançar na direção de uma ecologia mais efetiva.
Sabemos por vezes que confrontar a cosmovisão predominante na cultura Ocidental é questionar a própria existência diante do mundo, o que torna este processo árduo e requer um exercício meditativo constante. Porém é um processo
95 necessário, trata-se de um desafio que precisa ser assumido assim como a atenção à própria urgência planetária.
De certo modo a transformação da sociedade se faz através de uma transformação no pensamento. É neste sentido que devemos reconsiderar nossos mitos, reposicionando o ser humano diante da totalidade, fazendo-o dialogar ativamente com as demais partes na intenção de cooperar para ampliação da capacidade de sustentação da vida. Neste sentido, uma transformação subjetiva é requerida o que não exclui transformações objetivas nas condições do meio. Agregando assim, um posicionamento metafísico a uma tomada de decisão política que institua diretrizes contentoras da destruição ambiental em andamento.
Doravante não podemos esperar passivamente soluções tecnocratas nem subestimar a capacidade humana de engendrar em conjunto uma reversão do processo destruidor, assumindo novos posicionamentos e valores que convergem para uma postura ética.
A intenção principal que permeou esta pesquisa foi a indicar a necessidade de uma ética que interconecte as partes se distanciando de polarizações como o antropocentrismo ou o biocentrismo, no sentido estrito dos termos. Procuramos assim contribuir com a investigação no campo da filosofia ambiental, sem esgotar ou limitar o assunto, deixamos em aberto alguns pontos que podem ser melhor aprofundados em novos trabalhos. Como por exemplo, uma melhor elaboração da proposta de uma ecologia da imanência na sua dimensão ética e transformadora no sentido político. E também, uma aproximação entre a metafísica monista e o conceito de ecossistemas no qual encontramos fortes vinculações e interações entre as partes da mesma maneira em que observamos a unidade enquanto estabilizador do todo.
Assim como Espinosa, encontramos na unidade um bem maior e a beatitude de pertencer e ser pertencido pela Natureza.
96 CONCLUSÕES
Com a realização desta pesquisa concluímos que a perspectiva mítico- religiosa está intrinsecamente associada às atitudes culturais para com o ambiente. Sendo a partir da nossa concepção de mundo que poderemos nos entender como seres que coexistem ou transitam pelo mundo. As perguntas quem eu sou, de onde vim e para onde vou, devem ser respondidas dentro das diferentes perspectivas metafísicas e daí concluídas as coerências ou incoerências ecológicas.
É neste sentido que concluímos que a inserção em perspectivas metafísicas dualistas que colocam em oposição a humanidade e a Natureza, são base originária para uma apropriação desmedida dos bens ambientais, dada a dicotomia entre espírito e matéria, seres perfeitos e imperfeitos, puros e impuros, mundo e Deus.
Afirmamos então que é a cosmovisão monista mais convergente com a ecologia e com a noção de integração ao ecossistema, situando o ser humano dentro da natureza. Tendo assim no mundo como representação do próprio divino permanente, perene e não transitório. A união do ser humano com a natureza, como vista no pensamento espinosano, contribui para uma crítica ecológica mais efetiva ao romper com a dualidade mente-corpo e unificar a substância.
Assim, no Ocidente que predomina o dualismo encontramos que o caminho para uma sociedade humana em harmonia com o meio ambiente tem como pressuposto uma mudança metafísica. É também neste sentido que concluímos que as pesquisas de enfoque teórico-filosófico devem ser incentivadas como forma de ampliar as reflexões que antecedem a construção de programas e políticas ambientais.
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