Após uma subida íngreme até o topo da ilha de Awaji a imagem de um muro alto em pedra e um clássico templo de arquitetura da seita budista Ninnaji Shingon germinam em meio às plantações de arroz e florestas de bambu.
Inscrições budistas e oferta de água revelam o espaço sagrado que es- tamos prestes a adentrar, ao subir as escadas, uma placa indicativa: “Edifício Principal do Templo - Templo da Água” à direita. Ao virar à direita, outra placa indicativa, o que nos faz perceber o agenciamento labiríntico até o templo.
Ao lado direito, cascalho branco e lápides indicam um cemitério budista, em meio a natureza e a céu aberto, o que nos faz perceber que começamos a nos desvencilhar do universo real e seguimos em direção ao mundo espiritual.
A frente avistamos um percurso longo com vários patamares e escadas, aonde não é possível perceber o seu fim, e a esquerda um percurso estreito em meio a vegetação arbustiva e árvores de grande porte. Optamos por seguir por este caminho e nos deparamos com o primeiro espaço Ma, Hashi.
Um percurso de conexão entre dois mundos, a própria transformação do piso em terra batida para o cascalho branco reluzente reflete a mudança de um estágio, uma passagem para outro universo. Ao fundo desse caminho, avistamos parcialmente um portal gerado por um recorte em um extenso muro em concreto.
Ao passar do tempo e avanço do expectador, esse septo vai trazendo maior curiosidade para o que ele deve abrigar. Na passagem por esse portal, um novo septo, agora com formato circular parece esconder a real construção, en- quanto que um mar de cascalho branco surge nesse entre espaço de concreto, o que pode ser compreendido como o espaço Ma, Suki.
Esse espaço se assemelha a uma varanda, engawa, por termos a sensação de estar dentro, após transpassar o portal, ao mesmo tempo que do lado de fora, pelo recinto estar a céu aberto e delimitado pelos três septos em concreto e ao
fundo um jardim natural.
Mais à frente, após o septo circular, visualizamos parte da estrutura em concreto de formato oval surgir em meio a mata existente e ao fundo, o cenário de construções da ilha de Awaji, reforçando a existência do homem, agora distante do expecta- dor.
Nesse espaço, o espelho d´água repleto de lótus, símbolo do budismo, reflete o entorno com a perfeição real de um es- pelho reflexivo, nos levando a crer que esse entre espaço pode ser considerado um Himorogi.
Sem a presença dos quatro pilares como na cerimônia originária do himorogi, o espaço se torna perfeitamente delimi- tado pelo concreto em forma ovalar, o espelho como símbolo do kami, divindade e a presença da areia branca, tal como a rissa, condescendem esse espaço Ma.
Ao caminhar por uma das bordas do espelho d’água logo percebemos a presença do homem ao fundo do lado direito, nas construções que avistamos anteriormente, enquanto que do lado esquerdo, a natureza transborda criando um cenário ainda mais campestre que o anterior. O arquiteto restringiu o acesso a esse percurso, limitando visitantes e fiéis a apenas avistar essa pais- agem mediante o corrimão metálico.
Ao nos debruçarmos para o lado direito, podemos evi- denciar a tríade do homem, céu e terra existente em tantos con- tos japoneses, e perceber em meio a uma abertura na mata que cerca a construção, uma parte do mundo urbano da ilha diante de um mar de lótus, nesse momento sem flores por conta do frio Fig. 401, 402 e 403 - Fotos dos ângulos que contemplam o conceito Ma no Templo da Água. Acervo Pessoal. Fotos tiradas em Dezembro 2014.
da estação.
Voltando os olhares para a borda do espelho d’água evidenciamos o espaço intervalar Sabi. O conceito da efemeri- dade dos materiais, da aceitação e incorporação no partido ar- quitetônico de transitoriedade da construção é comprovado na borda do fino e conspurcado concreto.
Ao descer a escada que corta o espelho d’água, temos a sensação de abandonar um mundo profano, real, do homem e purificarmos a alma para poder adentrar um espaço sagrado. A luz e a natureza agora são deixadas de lado para a escuridão e após a passagem pelo lado esquerdo, a luz vermelha encandeia e envolve o nosso olhar.
Como símbolo do desejo, da criatividade e atividade no budismo, a cor vermelha está presente em todo esse espaço, uma parede circular do lado esquerdo nos faz percorrer esse campo avermelhado em busca do templo.
No espaço intervalar entre os eixos perpendiculares e o volume circular, um painel vasado revela um espaço aberto e nos recorda da existência do maior dos kamis da antiguidade, o sol, em contraste com o entre espaço que nos encontramos, Yami.
Yami, para os japoneses, também significa um lugar de difícil acesso, montanha em japonês é escrita Yama e é o lugar onde residiam os espíritos, também é denominado Oku, oculto e secreto. No caso arquitetônico, consideramos Yami aquilo que construímos um espaço labiríntico antes de alcançar, numa ideia de valorização do espaço mediante a penumbra ou escuridão. Fig. 404, 405 e 406 - Fotos dos ângulos que contemplam o conceito Ma no Templo da Água. Acervo Pessoal. Fotos tiradas em Dezembro 2014.
A sequência do caminho evidência esse espaço labiríntico até chegarmos ao Templo, propriamente. Com um altar repleto de figuras budistas montado ao centro do templo, o espaço parece configurado de forma a controlar a transmis- são de luz e linhas de visão, definindo um espaço de compreensão ambígua, Utsuroi.
À direita, a imagem do Buda Amida, na seita budista o Amida é um dos Cinco Budas da Meditação, buda principal da família de Lótus, direcionado para o Oeste, na cor vermelha, a qual acredita-se purificar o carma do desejo. É conhe- cido como o buda da consciência na passagem da morte, sendo objetivo dos que o cultuam alcançar a iluminação ou renascer na Terra Pura de Amitaba, onde se alcançaria a iluminação.
Saindo do templo e voltando à escadaria, o arquiteto dita o caminho de retorno ao mundo dos homens, espaço Ma nomeado Michiyuki, aonde o processo de deslocamento considera o espaço como um fluxo de tempo em direção a outro universo.
Fig. 407 - Foto do ângulo que con- templa o conceito Ma no Templo da Água. Acervo Pessoal. Fotos ti- radas em Dezembro 2014.
No retorno ao espelho d’água, a perspectiva desde o centro da escadaria, sobre o céu da ilha de Awaji, vislumbrando a paisagem do entorno e as con- struções dos homens ao fundo, o espaço intervalar que justificaria essa tríade é o Susabi. Ma é o vazio onde vários fenômenos aparecem, passam, e desaparecem, aonde ocorre um alinhamento de sinais.
A construção do Templo da Água pode ser considerada como uma releitura de vários símbolos do budismo descritas em meio a uma arquitetura pura, sem a contaminação chinesa na arquitetura tradicional budista.
Nesse projeto, a experiência sensorial se inicia desde a subida da montan- ha até o subsolo do templo, numa espécie de espaço labiríntico. A sensação de estar em um espaço que transcende a vida profana, do homem, onde a harmonia entre a natureza, arquitetura e o espiritual induzem a meditação e ao ascetismo material.
Fig. 408 - Fotos do conceito Ma de Susabi no Templo da Água (Próx- ima página) Acervo Pessoal. Fotos tiradas em Dezembro 2014.