• Aucun résultat trouvé

4. CONCLUSIONS AND UTILITY OF THE CRP DATA

4.2. Utility and application of the CRP data

José Carlos Oliveira de Jesus José Luís Michinel

Teresinha Fróes Bur nham

O mito da Esfinge, parte indissociável da trajetória de autoconhecimento de Édipo, é um dos mais representativos da mitologia grega. Fonte de inspira- ção de Sigmund Freud para a construção de um lugar de interpretação do Complexo de Édipo (FONTENELE, 2002; LONGO, 2006) e da elaboração do conceito de inconsciente, esse mito significa uma leitura singular da alma hu- mana. Aqui, não percorreremos os mesmos caminhos trilhados por Freud. Em vez disso, tentaremos deslocar a Esfinge de sua posição e produzir com ela outros sentidos e significados para o Édipo-Rei. Comecemos por escutá-la.

– Decifra-me ou te devoro!

Essa frase, atribuída à Esfinge da mitologia grega, representa o âmago de um processo de pesquisa, das tramas e dos dramas da escrita, seja de uma tese, de uma dissertação, de um artigo ou de um livro. Ela reflete a potência do material simbólico sobre a constituição dos sujeitos, ou dito de outra for- ma, da transformação do indivíduo (ser biopsicossocial) em sujeito. Somos seres simbólicos, condenados a interpretar em face de qualquer sistema de signos. É essa injunção à interpretação (ORLANDI, 2007b) que remete nos- so dizer, nossa escrita e nossa leitura ao discurso, instituinte de sentidos e de sujeitos, pois, segundo ela, os processos de constituição de sujeitos e de sen- tidos se dão ao mesmo tempo: o indivíduo, para atribuir sentidos, interpre- ta, e, ao interpretar, ocupa uma posição na rede de significações, filiando-se também a uma rede de sentidos, historicamente determinada. Nesse ato de interpretação o indivíduo torna-se sujeito. E isto é também um efeito discur-

sivo, pois ser sujeito é apenas uma posição entre tantas outras e não uma for- ma de subjetividade. (ORLANDI, 2005)

Segundo Georges Hacquard (1996), a Esfinge é um ser mitológico alado, com corpo de leoa, busto de mulher e cabeça de águia, que aterrorizava, nos arredores de Tebas, os viajantes que se dirigiam ao famoso Oráculo de Delfos, erigido em honra ao deus Apolo. Para as pretensões desse trabalho, o mito da Esfinge também abriga (sob o manto do silêncio), em latência, outros sentidos e permite-nos pensar (porque o sentido pode ser sempre outro) na seguinte me- táfora: consultar o Oráculo (ou um oráculo, porque havia muitos, em honra a

outros deuses)2 corresponde à caminhada em busca do (autoeco)conhecimen-

to; (GARCIA, 2009) encontrar a Esfinge seria como defrontar-se com questões viscerais da existência humana, questões profundas e incontornáveis acerca de si mesmo (quando diz “decifra-me”), produzindo ou estimulando reflexões ine- vitáveis (quando diz “ou te devoro”). Longo (2006, p. 12, grifo nosso) já faz uma alusão a esse processo de reflexão, possível na e pela linguagem, quando afirma:

[...] a urgência do sentido tem como corolário a criação de inúmeros sistemas simbólicos, fazendo da linguagem a forma mais humana de apreensão do mundo. [...] Desta forma, o homem pode dar corpo às suas fantasias, sonhos e medos, e se aproxima do conhecimento de si mesmo, para o qual é incessantemente convocado. Portanto, a reflexão sobre a linguagem – e sobre o discurso – que lança luz e redimensio- na continuamente o conhecimento do homem.

Redimensionar, aqui, ajuda-nos a discutir aquilo que introduzimos como

a modificação do sujeito e do objeto, pela interação, pela presença virtual3

em relação a algo.

2 Em nossos dias, a internet tem sido uma espécie de oráculo. Todos vão aos sites de busca para saber

alguma coisa: o preço de um bem ou serviço, o significado de um verbete, a localização de uma co- munidade, algum conceito técnico ou científico, um tipo de vinho ou de queijo. O mais popular entre nós é o site GOOGLE™. Lá estão cadastrados milhares de sites comerciais, educacionais e institucionais. Assim, em resposta a uma busca simples como a palavra “vinho”, por exemplo, esse buscador retorna em apenas 0,10 segundos mais de 9 milhões de endereços ou ocorrências. Essa característica, apa- rentemente vantajosa, é na verdade um desastre, pois ninguém consegue ler tantas ocorrências. Isso coloca o Google numa condição muito semelhante à dos oráculos gregos, apesar de um deslocamen- to de sua materialidade: eles respondiam por parábolas, deixando aos consulentes a árdua tarefa de encontrar a interpretação mais adequada às suas caminhadas de auto-ecoformação. Essa tarefa é a própria condição humana: estamos condenados a interpretar.

3 Usamos o termo virtual porque o objeto é construção e como tal, embora tenha alguma correspon-

Como dito acima, a mitologia grega traz o enunciado da Esfinge como a mais pura expressão da alma humana: a eterna busca pelo conhecimento, a injunção à interpretação. Segundo a tradição, a Esfinge propunha a todos os passantes que se dirigiam a Delfos uma questão. Aqueles que não con- seguiram decifrá-la foram comidos vivos pela aterradora Esfinge. Quando Édipo se encontra com a Esfinge, ela lhe propõe o seguinte enigma: “o que é que tem quatro pés pela manhã, dois pés durante o dia e três pés ao anoite- cer?” Édipo consegue resolver o enigma e provoca assim a morte da Esfinge, que se atira de um penhasco, livrando os gregos do rastro de destruição pro- movido pelo monstro. Como prêmio, torna-se rei de Tebas e casa-se com a viúva Jocasta. Ao descobrir que matara seu próprio pai e desposara sua própria mãe, cumprindo uma antiga profecia, ele fura os próprios olhos e sai pelo mundo. Na modernidade esse mito reaparece na obra de Sigmund Freud, onde desempenha um papel explicativo da formação do sujeito psica- nalítico, dando lugar à noção seminal de Complexo de Édipo, uma das ideias fundantes/estruturantes da Psicanálise. Não repetiremos aqui o retorno freudiano a Sófocles, posto que é desnecessário e até indevido. Faremos, con- tudo, uma breve digressão acerca da Esfinge, produzindo outros deslizamen- tos de sentidos.

Antes, porém, faz-se necessário trazer para esse diálogo a noção de for- mação discursiva (FD), conceito próprio do campo da Análise do Discurso (AD), como lugar de encontro do sujeito discursivo com seu processo de au- toecoconhecimento. (GARCIA, 2009) Segundo Eni Orlandi (2007c, p. 43) “a formação discursiva (FD) se define como aquilo que numa formação ideoló- gica dada – ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio- -histórica dada – determina o que pode e deve ser dito.” Ainda que a noção de FD seja “polêmica” (ORLANDI, 2007c, p. 43; SARGENTINI, 2005) sua importância em AD fica evidente quando posta em relação à produção de sentidos e à atribuição de significados pelos sujeitos. Aqui, ainda segundo Orlandi (2007c, p. 44, grifo dos autores):

Os sentidos não estão assim predeterminados por propriedades da língua. Dependem de relações constituídas nas/pelas forma- ções discursivas. No entanto, é preciso não pensar as formações discursivas como blocos homogêneos funcionando automatica- mente. Elas são constituídas pela contradição, são heterogêneas

nelas mesmas e suas fronteiras são fluidas, configurando-se e re- configurando-se continuamente em suas relações.

No contexto dessa escrita pretendemos deslocar apenas um pouco da condição humana (do sujeito psicanalítico) presente tanto em Sófocles quanto na releitura dele feita por Freud, para trazer à discussão aquilo que es- tamos antecipando aqui como o objeto-outro, o objeto de conhecimento transfigura(n)do(-se) em sujeito, aquilo que, pela projeção sobre as diversas FD, característica ineliminável dos (necessários e imperativos) recortes teórico- -epistemológicos, se personifica e dialoga com o autor, desafiando-o a signi- ficar: “decifra-me!”

Recortar é ao mesmo tempo teorizar, ou, melhor dito, é um gesto de teori- zação, por isso atuante sobre o simbólico. Recortar é também ocupar na rede de significações, ainda que temporariamente, um entrelugar (BHABHA, 1998) necessário para significar, para mobilizar sentidos, para interpretar. O mesmo se passa com a citação – também recorte – que faz migrar, de discurso em dis- curso, sentidos e significados, marcando posições (de sujeito) nas FD e entre

elas. Recorte e citação4 são entendidos aqui como os mecanismos de inscrição

do sujeito e do objeto em novas discursividades.

A redução expressa nos recortes é um incontornável. Porém, tão logo es- teja inscrito em uma nova rede de significação – ampliando seu conhecimen- to porque poderá produzir sentidos a partir de um conjunto mais amplo de FD, embora de contornos cada vez menos nítidos – o indivíduo, movido pelo

4 Citação é não somente uma forma de apropriação interpretativa, ressignificante de conceitos e no-

ções de outros autores, mas também um ponto de contato com outros textos e, portanto, também um ponto de fuga daquele texto onde ela se encontra. Ela cumpre o papel de estabelecer relações com o exterior de um texto, seja na relação de reforço, texto a texto, dentro de uma mesma FD – que é uma idealidade, porque as FDs são heterogêneas –, seja na relação entre FDs ou ainda na relação entre discursos. Por isso a citação constitui-se um entrelugar de interpretação, porque coloca o autor em diferentes posições na rede de significações. É como em um processo de abdução. A citação é o lugar de onde se alça voo, é um ponto de fuga, (por isso mesmo, é) oportunidade de produção de outros sentidos. Como ninguém produz sentidos a partir de um único ponto na rede de significações, mas a partir de vários deles, então o autor (e também o leitor) estão sempre em entrelugares, em intersec- ções de FD. O lugar é empírico, mas as posições assumidas pelos sujeitos são ideológico-discursivas. Como o sujeito está sempre se movendo sobre a rede de significações para produzir sentidos, então ele nunca está em um lugar determinado, não é possível dizer exatamente onde ele se encontra, tal como no princípio de incerteza de Heisenberg (1955). E aqui há ainda um elemento que complexifica essa relação: o fato de que há uma incerteza intrínseca da localização do sujeito mesmo se ele não se movesse e que se deve ao fato das FD, por serem heterogêneas, não terem fronteiras definidas. A fronteira de uma FD é como uma praia ao sabor das marés: uma faixa dinâmica de indefinição entre o oceano e o continente, entre uma FD e outra.

desejo (marca de sua incompletude), volta-se para algum novo oráculo, mes- mo sabendo que encontrará no caminho uma ameaçadora Esfinge. Ele preci- sa buscar aquilo que os recortes lhe negam. Essa é a grande angústia humana, esse eterno retorno a si mesmo, essa tarefa condenatória que nos lembra do mito de Sísifo.

Aqui, especificamente, estamos trazendo a ideia de redução como um traço marcante da impossibilidade de apreensão do todo – porque não é pos- sível conhecer a totalidade de relações de um objeto com os sujeitos e todos os outros objetos –, e não como uma perspectiva redutora de abordagem e/ ou análise. Por isso mesmo trabalhamos com a ideia de totalização e não de totalidade, porque, seguindo Morin (2005, p. 15), “uma parte do real é irra- cionalizável.” O sentido mesmo da totalização que se adota nesse texto ins- pira-se em Macedo (2005, p. 39) e se precipita em duas posições que marcam uma tomada de consciência da incompletude do sujeito e do conhecimento. Segundo ele:

[...] a primeira vai expressar os limites, o inacabamento, a incom- pletude, a biodegradabilidade das objetivações humanas e a resis- tência da realidade ao conhecimento reduzido ao nomotético; a segunda se refere à necessidade de nos esforçarmos para apren- der totalizações em constantes retotalizações.

No processo de pesquisa uma das questões mais inquietantes e importantes para o investigador é a construção ou delimitação do objeto (de conheci- mento). Esse objeto tem sido descrito de maneira distinta, de acordo com a tradição a que se filia o pesquisador.

Para as correntes positivistas há uma separação sujeito-objeto que resulta – pela via do desejo de objetividade – no apagamento do sujeito (do conhe- cimento). Até o final do século XIX, a Ciência que mais avançou nessa con- cepção disjuntiva foi a Física. Segundo Prigogine e Stengers (1997, p. 61, grifo nosso), “a forma sistemática que a física clássica tomou, a sua pretensão de constituir uma descrição do mundo fechada, coerente, completa, expulsa o homem do mundo que ele descreve enquanto habitante, mas também, [...], en-

quanto o descreve.”

Nessa tradição, acreditava-se que é plenamente possível atingir uma ver- dade objetiva, independente, portanto, de qualquer “contaminação” de sub-

jetividade. Com isso, o rigor metodológico decorrente dessa “assepsia” seria suficiente para dar ao conhecimento assim produzido o estatuto de verdade e o caráter de universalidade. Para fazer sentido, a relação sujeito-objeto do po- sitivismo ergue-se sobre a clássica oposição cartesiana entre res cogitans e res

extensa. Curiosamente, mesmo nas ciências empírico-analíticas, a exemplo da Física, já há sinais de mudanças de compreensão do alcance do conheci- mento produzido, ou seja: mesmo quando fala de seu objeto tendo em mente a res extensa, o pesquisador tem consciência de que as teorias são construções humanas, representações dos fenômenos (inapreensíveis em sua totalidade, porque não se conhece o universo de relações de um objeto, sejam elas inter- nas ou externas) a partir de modelos mentais da natureza. É ilustrativo dessa afirmação o excerto abaixo, retirado de um livro de Física muito usado por alunos do primeiro ano de graduação na área de ciências exatas no Brasil:

O primeiro passo no estudo de um fenômeno natural consiste em fazer abstração de grande número de fatores inessenciais, concen- trando a atenção apenas nos aspectos mais importantes. O julga- mento sobre o que é ou não importante já envolve a formulação de modelos e conceitos teóricos, que representam, segundo Einstein, uma ‘livre criação da mente humana’. (NUSSENZVEIG, 1996, p. 3)

Nota-se de imediato o caráter prescritivo do enunciado (“O primeiro pas- so... consiste em”), à guisa de metodologia, passando ao epistemológico (abs- traindo de) e à teorização (modelos), o que ressalta também a dificuldade tácita de separá-los. Esse enunciado revela ainda a assunção da complexidade ineren- te aos fenômenos naturais, mas esbarra na necessidade teórico-metodológica de redução do número de fatores (relações) que intervêm no fenômeno a fim de capturá-lo. Isso dá ao conhecimento assim produzido a característica de in- completude. E duplamente. Primeiro, porque não é possível conhecer, listar, enumerar a totalidade e a natureza das relações que cercam um dado objeto. Segundo, porque além dessa ignorância essencial e inamovível, a necessidade teórico-metodológica impõe uma redução ainda maior do número de relações do objeto de estudo com os demais objetos admitidos na tentativa de apreen- são/compreensão do fenômeno, mutilando seu poder explicativo/preditivo, caráter tão caro às ciências empírico-analíticas. O que se explica, portanto, não

é o real ou o fenômeno natural que motiva o estudo, mas, antes, a construção humana daí derivada.

Ainda sobre essa ignorância essencial, Werner Heisenberg (1955) em seu livro A imagem da natureza na Física moderna, enuncia a importância do princí- pio de complementaridade e o expõe a partir da exemplificação de três mo- delos de átomo: o planetário de Niels Bohr, o ondulatório e o químico. Ele diz que esses modelos, quando usados nos contextos pertinentes, são ver- dadeiros, mas não são compatíveis entre si. Essa incompatibilidade os torna

descrições complementares de átomo.5 E é justamente a complementaridade

que nos dá uma ideia da impossibilidade de uma descrição total de um objeto qualquer e, portanto, da natureza. Na literatura, a expressão mais divulgada, porém menos difundida porque não compreendida, desse princípio é a dua-

lidade6 onda-partícula.

Os modelos de átomo supracitados descrevem imagens da natureza a partir de diferentes formações discursivas: o mecanicismo newtoniano, as ondas de matéria de Louis de Broglie e Erwin Schrödinger, e a tradição empírico-analítica da química. Elas ajudam o sujeito cognoscente a cons- truir aquilo que Bachelard (1996) chamou de perfil epistemológico de áto- mo. Sobre os modelos de átomo e sua relação com a complementaridade, Heisenberg (1955, p. 30, grifo do autor) assim se expressa:

[...] Estes diferentes modelos são verdadeiros quando se utilizam no momento próprio, mas são incompatíveis uns com os outros e chamam-se, por isso, reciprocamente complementares. A inde- terminação intrínseca a cada uma destas imagens, e que se exprime mediante a relação de indeterminação, basta para evitar contra- dições lógicas entre as diferentes imagens. Estas indicações per- mitem, mesmo sem penetrar no formalismo matemático da teoria dos quantos, compreender que o conhecimento incompleto de um sistema

deve ser um componente essencial de toda a formulação da teoria quântica.

5 Coerente com a noção bachelardiana de perfil epistemológico. (BACHELARD, 1996)

6 Dualidade como compreendida na física refere-se à incongruência essencial entre localização e des-

localização, que marcam a descrição de objetos materiais, finitos, localizáveis, por meio de ondas, que são construções teóricas ontologicamente deslocalizadas. Todavia, essa incongruência somente se jus- tifica em uma leitura (perspectiva) não quântica da ideia de localização. Sabe-se da literatura que para os elétrons na superfície de um corpo sólido há uma probabilidade de encontrá-los a certa distância do arranjo mais externo de átomos que formam o sólido. Assim, a noção de fronteira rígida fica virtu- almente redefinida em nível atômico.

As correntes marxistas e neomarxistas encaram o objeto do conhecimen- to e sua relação com o sujeito a partir da noção de dialética. Ao contrário dos positivistas, essas correntes tomam como critério de verdade – de validação do conhecimento, portanto – o conceito de práxis.

Entre os fenomenologistas, segundo Ferrater-Mora (1964a, p. 340), pela fidelidade à ideia de fenomenologia como “pura descripción de lo que apare- ce” (aspas no original), a situação é um pouco diferente porque a centralidade está na descrição do processo mesmo de conhecer, ou seja, da apreensão do objeto pelo sujeito. Aqui aparece o primeiro deslocamento necessário à nos- sa análise: essa descrição pressupõe a presença ou copresença do sujeito e do objeto. E essa é uma condição ineliminável no processo de conhecimento do humano pelo humano.

Estamos incorrendo, a partir de nossa análise de um possível objeto-ou- tro, num caso de dupla implicação: uma com o nosso objeto (de quem somos também objeto), outra com o processo de pesquisa, a delimitação, a cons- trução do objeto, a escolha e ressignificação dos referenciais e as tradições metodológica e teórico-epistemológica. Em um artigo recente, De Lavergne (2007, p. 38, tradução nossa) põe em relevo processos dessa natureza:

O caso limite extremo, aquele da constituição como caso de pes- quisa, pelo cientista, das atividades nas quais ele está implicado. Essa escolha está ligada a uma exigência epistemológica: a análise de sua própria implicação é uma energia importante da pesqui- sa. O prático-pesquisador se expõe e se lança o desafio de condu- zir uma análise científica sobre sua própria atividade profissional, sem remeter-se ao discurso profissional ou reflexivo. 7

Esse recorte evidencia a necessidade de uma ressignificação do conheci- mento: a tomada de consciência de (si) que se reflete aqui na compreensão do processo e do estado da própria implicação.

A caminho dessa análise, partimos de uma noção bastante plástica da peça de Sófocles. Imaginamos nosso objeto de conhecimento fitando-nos

7 Le cas limite extrême, c’est celui de la constitution comme cas de recherche, par le chercheur, des ac-

tivités dans lesquelles il est impliqué. Ce choix est lié à une exigence épistémologique: l’analyse de sa propre implication est un ressort important de la recherche. Le praticien-chercheur s’expose, et se lan- ce le défi de mener une analyse scientifique sur sa propre activité professionnelle, sans verser dans le discours professionnel ou réflexif.

nos olhos, desafiando-nos (às vezes até assustadoramente), a dizer-nos em tom provocativo: “Decifra-me ou te devoro!”

Mesmo assim, o objeto de estudo – que nós construímos, desconstruímos e reconstruímos diariamente, mas que exerce sobre nós um forte poder instituinte – também se serve de todo um arsenal simbólico para poder dialogar conosco (deslocando sentidos e significados, produzindo outros sentidos e sujeitos), desde as noções semiológicas às noções da AD. E é justamente por conta des- se intenso diálogo que o objeto precisa ser reconfigurado, porque é assim que ele incessantemente institui e se institui tal qual o sujeito.

Na busca do que estamos chamando de personificação do objeto, des- se objeto tornado sujeito, é preciso mobilizar noções ontológicas, epistemo- lógicas e de Análise do Discurso. A discussão acerca da natureza do obje- to-outro passa por pensar na distinção entre real e virtual. Em verdade, há

Documents relatifs