A relação das mulheres com a categoria sócio-ocupacional, no universo da
Inconfidência Mineira, apresenta dados extremamente interessantes. Diferentemente do
que ocorre nas outras insurreições que serão analisadas, há mulheres, neste contexto, que apresentam ocupações profissionais. Vejamos:
Tabela 16 (Inconfidência Mineira) – Repartição por categoria sócio-ocupacional:
mulheres
Como é possível observar, nenhuma mulher foi identificada como pertencente à Categoria 1. Contudo, há mulheres incluídas nas categorias 2 e 3.
Faixa Etária Assinantes Não assinantes Total
Faixa I 2 (100%) 0 (0%) 2 (25%)
Faixa II 3 (50%) 3 (50%) 6 (75%)
Total 5 (100%) 3 (100%) 8 (100%)
Categorias Assinantes Não assinantes Total
Categoria 2 0 (0%) 1 (100%) 1 (12.5%)
Categoria 3 3 (75%) 1 (25%) 4 (50%)
Categoria 4 0 (0%) 0 (0%) 0 (0%)
Não identificada 2 (66,7%) 1 (33,3%) 3 (37.5%)
Na categoria 2, temos somente uma mulher, a qual não assina seu depoimento. Esta era Elena Maria da Silva Gonzaga, natural da freguesia da Candelária na cidade do Rio de Janeiro, crioula, forra, com 60 anos de idade, e que vivia de sua agência. Apesar de ser uma comerciante, provavelmente, o perfil de crioula – ou seja, filha de africanos – e a condição de ex-escravizada poderiam ter desfavorecido a aquisição da escrita. Contudo, justamente por ser comerciante, esta não saberia ler e contar minimamente? Supomos que, apesar de não ter firmado sua assinatura após seu testemunho, Elena Gonzaga não teria total desconhecimento da escrita justamente por lidar diariamente com atividades que pressupunham o uso, direto ou indireto, dessa tecnologia.
Contudo, é a Categoria 3 que possui o maior número de mulheres. Entre estas, três assinam seus testemunhos e somente uma não o faz. As assinantes são Simplícia Maria de Moura, de 21 anos e natural do Arraial de Paracatu, Caetana Francisca de Moura, de 20 anos e natural da Barra do Rio das Velhas, Comarca do Serro, e Ana Maria da Silva, de 40 anos e natural desta Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. Somente esta última teve sua cor explicitada, sendo identificada como parda disfarçada. Essas três mulheres, segundo os dados transcritos pelo notário do processo da Inconfidência Mineira, são demarcadas como costureiras, ocupação profissional esta que garantia sua sobrevivência. Como nenhuma delas teve seu estatuto civil registrado nos autos, é possível dizer que se tratava de mulheres solteiras, que dependiam, como supomos, exclusivamente de suas ocupações para angariar fundos para seu sustento. Esse dado é extremamente importante, pois não foram encontrados dados similares para a Conspiração dos Alfaiates, por exemplo, dando a essa conjuntura uma peculiaridade. Além disso, talvez, o fato de possuírem uma profissão poderia ser um aspecto favorecedor para que tais mulheres adquirissem, pelo menos no cosmos compósito da assinatura, as habilidades mínimas para o uso da tecnologia da escrita. Para duas delas, não foram demarcados dados sobre cor e estatuto social. Isso poderia nos levar a interpretar que estas, por ser o aspecto não marcado, seriam mulheres brancas e livres, elementos estes que seriam mais um dado favorecedor para que elas pudessem ter adquirido a escrita numa conjuntura tão desfavorável para o contingente feminino. Contudo, temos o caso de Ana Maria da Silva que, como parda disfarçada –
marca de um contingente que tentava estar fora do espectro da escravização, mas, ao mesmo tempo, não atingia as marcas dos favorecimentos dos ditos brancos –, assina seu testemunho. Como vimos, o contingente pardo, em muitos momentos, aproxima- se, no que diz respeito ao acesso à tecnologia da escrita, ao contingente branco.
Somente uma mulher não assina seu testemunho na Categoria 3. Esta era Josefa Teixeira, natural de Vila Rica, que tinha aproximadamente 40 anos, identificada como uma mulher parda alforriada. Ela era uma pequena comerciante, pois vivia de uma pequena venda que possuía. Consideramos que a condição de ex-escravizada e a demarcação social de sua cor poderiam ter desfavorecido a aquisição da escrita. Contudo, não podemos deixar de pontuar que, num espaço de comércio, relações de leitura e contagem são constantes. Poderia, apesar de não saber assinar seu nome, ser Josefa Teixeira uma mulher que saberia minimamente ler e contar para manter os trâmites corriqueiros de seu comércio? Não temos essa informação efetivamente, mas não podemos deixar de registrar essa hipótese, pois, como é sabido, principalmente para o caso das mulheres, nem sempre a aprendizagem da leitura, da escrita e da contagem coincidem, principalmente em contextos em que o ensino formal não se faz presente.
Na Categoria 4, não possuímos nenhuma mulher demarcada.
Há três mulheres que não tiveram suas ocupações profissionais explicitadas, duas são assinantes e uma não assinante. As mulheres que firmaram seus nomes perante o notário foram Mônica Antônia do Sacramento, uma viúva de 36 anos, natural da cidade de Ouro Preto, e Inácia Gertrudes de Almeida, viúva de Francisco da Silva Braga, que foi porteiro da Casa da Moeda desta mesma cidade, de idade de 57 anos. Somente temos notícia do esposo falecido desta última, o qual atuou em um cargo ligado ao funcionalismo público daquela cidade. Poderia ter sido este um fator favorecedor para Inácia Gertrudes tenha apreendido o uso funcional da tecnologia da escrita, pois poderia ter convivido diariamente com ela? Essa hipótese poderia melhor ser sustentada se tivéssemos maiores informações sobre Mônica Antônia, mas, como não é o caso, deixamos esse aspecto em aberto.
A única mulher não assinante que não teve sua ocupação explicitada foi Antônia da Costa, uma africana alforriada da nação mina, com idade de
aproximadamente 50 anos. Como pontuamos em vários momentos, consideramos que escravizados e ex-escravizados de origem africana têm um enorme desfavorecimento no processo de acesso ao código escrito, principalmente porque se trata de uma aquisição da escrita de uma segunda língua. Quando avaliamos o caso de africanos ex- escravizados que possuem alguma ocupação, encontramos raros dados, contudo, este não é o caso, pois essa mulher não teve nenhuma função ocupacional demarcada. Não podemos deixar de pontuar também que, apesar de os nossos dados serem intrigantes, a historiografia tem nos revelado que mulheres, principalmente de origem não branca, no caso do Brasil, foram desfavorecidas por um maior tempo no que diz respeito à aquisição da escrita, levando em conta, é claro, os dados levantados por diversos pesquisadores.