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Em relação à origem dos inconfidentes mineiros, é possível identificar uma realidade bastante diversificada. Como pode ser visto na tabela a seguir, dos 181 homens envolvidos nesse processo devassatório, 70 (38.7%) não nasceram no Brasil. Vejamos:

Tabela 10 (Inconfidência Mineira) – Repartição por origem: homens

Entre os 104 brasileiros, 99% assinam seus testemunhos, havendo somente um homem que não firma sua assinatura após seu depoimento. Entre os estrangeiros, 95.7% são assinantes. Há, porém, entre os não nascidos no Brasil, 03 homens que não assinam os autos após seu depoimento. É possível notar, ainda, que 07 não tiveram sua origem demarcada pelo notário, sendo 06 assinantes e 01 não assinante.

4.7.1 Origem dos Estrangeiros

Quando analisamos a origem dos estrangeiros, levando em consideração o que está transcrito nos autos da insurreição mineira, identificamos uma variedade de

Origem Assinantes Não assinantes Total

Brasil 103 (99%) 1 (1%) 104 (57.5%)

Exterior 67 (95.7%) 3 (4.3%) 70 (38.7%)

Não identificada 6 (85.7%) 1 (14.3%) 7 (3.8%)

localidades, as quais, em relação ao seu quantitativo, não se apresentam de forma simétrica. Com base no quadro a seguir, que arrola todos os estrangeiros identificados, podemos observar a seguinte realidade:

Tabela 11 (Inconfidência Mineira) – Origem dos estrangeiros Origem dos Estrangeiros

Arcebispado de Braga 20 (28.2%) Aveiro 2 (2.8%) Bispado da Guarda 1 (1.4%) Bispado de Angra 1 (1.4%) Bispado de Elvas 2 (2.8%) Bispado de Faro 1 (1.4%) Cidade de Lamego 2 (2.8%) Coimbra 3 (4.3%) Comarca de Barcelos 1 (1.4%) Comarca de Bragança 2 (2.8%) Guimarães 4 (5.6%)

Ilha de São Miguel 1 (1.4%)

Ilha do Faial 1 (1.4%) Ilha Terceira 2 (2.8%) Leiria 3 (4.3%) Lisboa 7 (9.9%) Miranda do Douro 1 (1.4%) Porto 8 (11.3%) Reino do Algarve 1 (1.4%)

Santa Ana Alenquer 1 (1.4%)

Santarém 2 (2.8%)

Santo Estevão de Gerás, Caminho de Póvoa de Lanhoso 1 (1.4%)

Viana do Minho 1 (1.4%)

Cidade de Waterford 1 (1.4%)

Origem Nagô 1 (1.4%)

Total 70 (100%)

Há um enorme número de estrangeiros que são originários de Portugal e/ou de suas possessões. Computando suas cidades, bispados, vilas e comarcas, é possível indicar que há 68 portugueses no rol dos autos do processo da Inconfidência Mineira. Entre estes, há indivíduos oriundos de possessões próximas à metrópole, como os que foram apontados para as Ilhas Terceira, de Faial e de São Miguel, como também há aqueles que são naturais da metrópole portuguesa, cujas fronteiras geográficas são estáveis há séculos, representando 97.1% do total de estrangeiros, com 68 indivíduos. Agrupando-os em macrorregiões, é notório que a grande parte é oriunda da região

norte de Portugal, havendo apenas dois oriundos da região sul e oito da região correspondente a Lisboa, região central administrativa do Reino.

Figura 2 – Mapa das regiões administrativas portuguesas

O grande contingente de portugueses oriundos da região norte pode ser explicado pelo incentivo da Coroa para que estes migrassem para cá devido ao ciclo do ouro no início do século XVIII. Sendo assim, milhares de indivíduos vieram para a colônia e aqui se instalaram, quase esvaziando vilas e cidades inteiras em Portugal, apostando no minério dourado que aqui brotava dos leitos dos rios e das serras gerais. Por isso, foi perceptível uma intensa presença de portugueses nortenhos no Brasil da época, os quais, inclusive, favoreceram um surto de urbanização da região das Minas Gerais, alojando-se em aglomerados populacionais, formando novas vilas e cidades, ou mesmo colaborando para que as já existentes crescessem ainda mais.

Além dos portugueses, encontramos dois indivíduos que são oriundos de outras localidades em nossa amostra: um natural Waterford, uma cidade Irlandesa que estava sob domínio do Reino inglês, e um cuja origem é africana. Sobre o africano, temos um homem de nação nagô, que era escravo de um pároco da região. Sua

presença, no rol dos dados, era obviamente comum, por causa do sistema de escravização de mão de obra africana, que, naquele momento, vivia um grande ciclo de tráfico, trazendo indivíduos de várias partes do continente. Em relação ao irlandês que aparece no rol dos depoimentos da insurreição mineira, é possível pontuar que Nicolau Jorge Gwerck compunha o corpo de funcionários reais da Coroa, pois atuava na Junta da Real Extração, recebendo ordenados para este fim, computando provavelmente os impostos que eram aplicados sobre o ouro extraído das Gerais.

Como foi possível notar, quando trouxemos as tabelas anteriores, aproximadamente 96% dos indivíduos não brasileiros firmaram suas assinaturas após seus testemunhos, havendo somente 03 homens estrangeiros que não assinaram seus depoimentos, sendo estes dois portugueses e um africano, caracterizado como sendo de nação nagô. Sobre este último, como apontamos anteriormente, além de estar numa realidade de uma outra língua, era escravo do Padre José da Silva e Oliveira, condição que, como apontamos, não era favorável para a inserção no universo da escrita. Em relação aos dois portugueses, temos Manuel Moreira, natural de Lamego, que vivia de sua taverna na região mineira, e José Lopes dos Prados, um português mulato, forro, natural do arraial dos Prados, cuja profissão era de minerador.

Esse último dado é extremamente interessante, pois, mesmo sendo português, José Lopes corrobora as características apontados para os mestiços arrolados para o Brasil, principalmente entre aqueles que não eram identificados como pardos. Diz-se isso, porque, como foi possível observar, a condição de forro e de descendente de africanos, quando não é explicitada a cor parda, é desfavorável para que tais sujeitos possam ter acesso à escrita, levando em consideração nosso mote de investigação – a realidade compósita e macroscópica da assinatura. Esse dado pode sustentar ainda mais nossa hipótese, pois a identificação da cor parda é um condicionante positivo para inserção de sujeitos na cultura escrita.

Sobre o outro português que não assinou seu testemunho, uma hipótese que pode ser levantada é a de que alguns portugueses não tiveram acesso à alfabetização em Portugal e vieram para cá sem conhecer a escrita plenamente. Contudo, Manuel Moreira, por possuir uma taverna, não poderia estar completamente fora da realidade da cultura escrita, pois provavelmente precisaria ter um conhecimento básico da

leitura e da contagem para lidar com os trâmites comuns a uma instância comercial, mesmo que esta fosse de pequeno porte. Sendo assim, não ter assinado seu testemunho não indica efetivamente que desconhecia totalmente a escrita e a leitura, mas aponta que ele não tinha desenvolvido a habilidade ativa do ato de escrever.

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