Travaux sur la dynamique du prion
3.3 Vers la découverte des micelles chez les prions
3.3.2 Une collaboration interdisciplinaire fructueuse
As razões para o declínio desse Império, que adquirira tantos poderes, permanecem ainda incertas, dado, entre outras coisas, os estudiosos dependerem de fontes provenientes da Babilônia, que são por si demasiado concisas. No entanto, é certo que esses motivos são múltiplos e envolvem problemas de administração, tanto internos quanto externos, e que advinham da sua formação.
Em prol de entender esse declínio assírio e, por conseguinte, compreender quais eram os papéis desenvolvidos por eunucos nesse período, vale a pena retroceder ao fim do reinado do rei elamita Urtak-Inshushinak (664-653 a.C.), no qual Assurbanípal se proclama lesado e injustiçado, ao ver-se surpreendido com o rompimento do acordo de paz existente desde o início do reinado de Urtak-Inshushinak entre a Assíria e o Elam.231
Essa atitude do rei elamita de quebrar o contrato apanhou Assurbanípal de surpresa, pois as relações entre os dois reinos seguiam uma longa tradição amistosa, nas quais Assurbanípal esperava gratidão por parte do Elam. Desde o tempo do reinado de seu pai, Assaradão (681-669 a.C.) a Assíria teria oferecido comida e abrigo, quando o Elam passara por períodos de penúria. Assim, Assurbanípal viu-se despreparado aquando dessa traição, o que acabou por custar caro não só a ele, mas também à Assíria.232
Ctésias, entretanto, tem uma opinião interessante a respeito dessa intriga que pode nos ajudar a entender melhor o pensamento ocidental sobre os acontecimentos do oriente, pois este
viveu dezessete anos na corte de Artaxerxes II. Durante esse período, então, Ctésias pôde escrever para os seus conterrâneos gregos a história dos persas, além de comentar aspectos e acontecimentos de outras regiões.233
231 WATERS. 2017, p. 28 ; ALTMAN. 2012, p. 170. 232 WATERS. 2017, p. 28
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Embora não saibamos exatamente o que se passou, é essencial trazer à tona o que Ctésias pensava, pois os Persica são uma das principais, chegando inclusive a ser a única, fonte que possuímos relativas ao Império Aquemênida (550-330 a.C.), principalmente para o intervalo de 465 a 420 a.C. Por conta disso, sua leitura é de extrema importância para capturarmos, se não os factos acurados, a percepção correspondente aos eventos históricos do Oriente como um todo. Em outras palavras, analisar como o acesso direto de Ctesias a costumes do Próximo Oriente e a fontes contendo títulos administrativos específicos da região, como anais Assírios e peças literárias, o fizeram criar seu próprio estereótipo do eunuco perfídio e conivente.234
A interpretação dos eunucos pela bibliografia teve orientação muito particular, sobretudo em dois domínios específicos de investigação:
1. A noção de bárbaro, marcada desde os anos 1980 pela polaridade identidade/alteridade. O caso mais flagrante é o de Edith Hall235, autora de um famoso estudo sobre a representação dos bárbaros na tragédia ateniense e para além: ela não hesita em afirmar que “os eunucos apavoravam e fascinavam os gregos falocêntricos” e que “os eunucos no palácio da imaginação dos gregos se resumem à feminização sistemática da Ásia: emotivo, astuto, servil, voluptuoso e castrado, ele encarna ao mesmo tempo todas as diversos ‘fios’ usados para fazer o seu discurso orientalista”. Em um artigo posterior236, no qual ela aprofunda a ideia de que os atenienses da época clássica representavam a Ásia de maneira negativa através da atribuição de atributos femininos, ela afirma que “o homem oriental castrado (...) foi co paradigma de todos os homens orientais”. Em outros termos, de acordo com Edith Hall237, o eunuco foi uma figura que conotava feminilidade e fraqueza desprezíveis e simbolizava o asiático, ou melhor “o oriental”, tal como os viam os gregos.238 234 WATERS. 2017, p. 28. 235 HALL. 1989, p. 157 in LENFANT. 2014, p. 424. 236 Id. 1993, p. 116 in LENFANT. 2014, p. 424. 237 HALL. 1996, p. 106. in LENFANT. 2014, p. 424. 238 LENFANT. 2014, p. 424.
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2. A figura dos eunucos evocada pelos gregos: a história do Império Aquemênida tal como se desenvolveu na década de 1980. Em seu desejo de liderar uma análise crítica de suas fontes gregas, historiadores passaram a denunciar na imagem grega dos eunucos uma imagem sem grande fundamento histórico por alguns de seus aspectos, uma representação ideológica sustentada por uma intenção grega de denegrir os persas. Assim, Heleen Sancisi-Weerdenburg, uma das fundadoras do Achaemenid Workshops, escreveu, à mesma época que Edith Hall, que os eunucos são um dos ingredientes da imagem depreciativa de um Oriente efeminado que Ctesias quis introduzir na historiografia grega.239
Assim, ao invés de Ctesias julgar o rei Urtak-Inshushinak como culpado pela traição ingrata que rompeu com as relações amigáveis entre os dois territórios, deparamo-nos com orientalismo característico da sua narrativa. Nela, ele afirma que a decisão de quebrar o pacto somente foi tomada por influência de um pérfido ša rēši chamado Marduk-šum-ibni, que haveria, então, persuadido o rei com suas mentiras, junto a seus cortesãos, para o fazer, assim, atacar a Assíria.240
Encontramos aqui um eunuco bastante prestigiado, desempenhando papel de próprio conselheiro do rei. Ou seja, embora a Assíria aparentemente tenha começado a tomar cuidado com a influência que os eunucos poderiam supostamente adquirir, diminuindo assim o alcance dos seus poderes, o mesmo não parece ter ocorrido com seu vizinho, o Elam.
Somando a esses problemas, pelos quais a Assíria estava passando, o nomeado de Assurbanípal na Babilônia, Kandalanu, morre no ano de 627 a.C., o que acabou por gerar conflito também nessa região. Em consequência disso, surge Nabopalasar, ex-oficial de Uruk, o qual se auto-proclama fundador de uma nova dinastia nativa, a dos Caldeus.241
239 LENFANT. 2014, p. 424. 240 WATERS. 2017, p. 28.
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Essa proclamação, por sua vez, gerou ainda mais problemas, na medida em que Nabopolasar não obteve o apoio de muitas cidades babilônicas que, ao invés, se aliaram a outros reclamantes assírios ao trono. Até 616 a.C., Nabopolasar conseguiu consolidar seus poderes, mesmo enfrentando muitas barreiras, ao ponto de poder invadir a Assíria.242
Simultaneamente, no Irão ocidental, os Medos aproveitaram o vácuo no poder, criado a partir da derrota assíria pelo Elam, para fortalecer seu exército e, logo em 615 a.C., começaram a atacar cidades assírias, formando aliança com Nabopolasar. Todos esses ataques, que surgiram quando a Assíria já se encontrava enfraquecida, acabaram por acelerar o processo de decadência do Império Neo-Assírio.243
Na concepção de Ctésias, entrementes, Assurbanípal e, portanto, o Império Assírio como um todo, ruíram precisamente por conta de como ele levara o seu estilo de vida, para ele excessivamente efeminado e regado ao luxo.244