A vegetação “inconcebível”211
encontrada na cidade, a levarmos em conta os relatos do século XIX, era realmente abundante em determinados pontos, apesar do grande número de edificações já existente. “A verdura, a floresta, as íngremes bordas, e os campos docemente inclinados, geralmente abrindo-se para o mar ou para a lagoa, atrás da cidade, têm uma frescura e uma amenidade que dificilmente me lembro de ter visto antes”212, lembraria Maria Graham em outubro de 1821. Em Salvador as “enormes
massas de verdura variam a paisagem e descansam a vista”213, valorizando, pois, a sua contemplação. Para alguns estrangeiros, a exuberância da vegetação tropical sobrepujava a própria arquitetura das igrejas e das nobres edificações: “[...] em meio à profusão de objetos notáveis, a exuberância geral da vegetação ganha longe”214.
Ou seja, de acordo com os autores, a vegetação seria responsável, na paisagem de Salvador, pelos elementos “amenos” e “frescos” – idéia, pois, de tranquilidade e conforto. Da mesma forma, a vegetação “descansa a vista”: o balanço hipnótico dos galhos e folhas, condensados em diferentes texturas e tons de verde, chamam a atenção e prendem o olhar. Da mesma forma, os maciços de vegetação interrompem, 206 GRAHAM, 1956, p. 144. 207 TOLLENARE, 1956, p. 280. 208 HABSBURGO, 1982, p. 71. 209 TOLLENARE, 1956, p. 281. 210 HABSBURGO, 1982, p. 71. 211
RIEDEL, [18--] apud AUGEL, p. 58-59.
212
GRAHAM, 1956, p. 146, grifo nosso.
213
TOLLENARE, 1956, p. 297, grifo nosso.
214
aqui e ali, os conjuntos de edificações, variando o panorama e enriquecendo a paisagem.
Algumas espécies, “sobretudo por sua elegância e grandeza”215, destacavam-se das
demais, levando à “admiração dos Europeus ainda não acostumados à natureza das regiões equinociais: são as palmeiras, os fetos arbóreos e as bananeiras”. Maxmiliano de Habsburgo (1860), destacou ainda as “formas opulentas das gigantescas árvores”, agradando-o especialmente as “palmeiras arquitetônicas”216, atribuindo-lhes, pois, um papel tão importante na formação da paisagem da cidade quanto o das próprias edificações em si. De qualquer maneira, para alguns autores, preocupações científicas ou descritivas à parte, “a exuberância da vegetação, as cores, as formas, o brilhante do céu são para serem vistos e não para serem descritos”217
.
O que haveria de diferente, então, no olhar – e na maneira de perceber - desta paisagem exuberante, especialmente para aqueles estrangeiros que, no século XIX, entravam em contato com o mundo tropical pela primeira vez? Como definir tal admiração? Para muitos, era tarefa difícil retratar “todas as formas, todos os tons, todos os contrastes, todas as harmonias”218 da cidade. “Sei gozá-las, mas não sei decrevê-
las”219, disse Tollenare. Ou ainda, citando Ferdinand Dénis: “[...] falecem expressões
para descrever a indizível beleza da vegetação e as grandes linhas da paisagem”220
. Segundo ainda Maximiliano de Habsburgo (1860):
Imagens de formas arquitetônicas, obras de arte ficam gravadas na memória e podem ser descritas mais fielmente. A natureza, contudo, naquilo que ela sozinha impera, pode ser contemplada, em êxtase, por um momento, mas não pode ser fixada nem através da memória, nem através da descrição (HABSBURGO, 1982, p. 69).
Além do caráter meramente paisagístico da vegetação, no entanto, descobrimos que de acordo com estes mesmos autores pesquisados, seria a vegetação de Salvador extremamente rica também em formas, cores, texturas, aromas e sons. Uma profusão 215 DÉNIS, 1955, v. 2, p. 117. 216 HABSBURGO, 1982, p. 70. 217
LAMBERT [188-?] apud AUGEL, 1980, p. 118.
218 TOLLENARE, 1956, p. 296. 219 Ibid., p. 297. 220 DÉNIS, 1955, v. 2, p. 62.
de insetos, por exemplo, produzia um ruído “tão alto que pode ser ouvido até mesmo num navio ancorado a várias centenas de jardas da praia”221. No verão, estação quente,
“o assobio, o chilrear, e o zumbido dos grilos, besouros e gafanhotos não cessam da manhã ao pôr do sol. E durante o dia inteiro as árvores e flores estão cercadas de miríades de brilhantes asas”222
. A própria brisa, ao movimentar a densa folhagem da vegetação tropical, produzia um ruído que “se confunde com o das vagas, que vem se quebrar, espumando sobre os rochedos da praia”223
. Nas escuras noites do início do século XIX, “reinava um silêncio tumular, só interrompido pelos pios agourentos das corujas, que transitavam das torres do Colégio paras as mangueiras que existiam na
encosta da montanha”224
. Por sua vez, em volta das diversas plantações de laranjeiras floridas espalhadas pela cidade, o ar ficava “exepcionalmente impregnado de sua fragrância”225
em determinadas épocas do ano, enquanto das limeiras plantadas nas “linhas divisórias dos subúrbios [...], quando recentemente aparadas, desprende-se uma fragrância toda peculiar”226
. Nos arredores da Vitória, local preferido de muitos dos estrangeiros, “a falsa baunilha, que tem o perfume da verdadeira, [...] embalsama”227
o ar, contribuindo para transformar esta região numa das mais visitadas e apreciadas de Salvador.
Através destes últimos relatos percebe-se que a vegetação, para a cidade, é muito mais do que apenas um elemento visual ou mesmo de importância econômica (no caso das plantações de subsistência e as comerciais). A vegetação implica necessariamente na introdução de novos elementos – sonoros, olfativos – que, a nosso ver, também fazem parte do caráter de uma cidade. Alguns irão lembrar-se do canto dos pássaros ou do zumbido dos insetos; outros guardarão na memória as fragrâncias desprendidas por folhas, flores e frutos ao longo das diferentes estações do ano em Salvador.
Por fim, podemos notar que a presença da vegetação em Salvador, ao final do século XIX, ainda era uma forte realidade. Nas áreas mais afastadas do centro urbano, grande manchas de vegetação ainda dominavam a paisagem, em meio às edificações. O 221 DARWIN, 1996, p. 08. 222 GRAHAM, 1956, p. 212. 223 TOLLENARE, 1956, p. 297. 224 LIMA, 1908, p. 98. 225 LINDLEY, 1969, p. 108. 226 KIDDER, 1980, p. 26. 227 TOLLENARE, 1956, p. 296.
caráter agrícola de Salvador também permaneceria em relevo na virada para o século
XX, numa demonstração da permanência de certos hábitos – ou mesmo necessidades
práticas – em épocas bastante recentes:
Basta mencionar que, em 1897, 100 hectares da área urbana central eram ocupadas por hortas. Se isto se via nos distritos centrais, muito mais nos que ficavam afastados do centro, como Brotas, Santo Antônio e Vitória. Aí, não apenas hortas, mas muitas eram as chácaras, roças e fazendas (SANTOS, M., 1992, p. 257-258).