O século XIX veria, finalmente, a mulher brasileira ganhando novos ares e costumes, dentro e fora de casa, muitas vezes assumindo “sozinha o seu destino e o dos seus filhos, desempenhando assim um papel importante”309
na sociedade baiana do século XIX. Com a mudança de hábitos e costumes ocorrida de forma progressiva na sociedade baiana ao longo do século XIX, sob a influência européia, as mulheres podiam sair “do seu isolamento árabe e estão presentes nas reuniões sociais e bailes”310
, no comércio e no mercado de trabalho. Até então, na Bahia colonial...
[...] o sistema de reclusão das mulheres impedia o florescimento dos salões, desses núcleos de cultura, de espírito, de alegria. A vida social em que figurava o elemento feminino, circunscrevia-se a festas de igreja e procissões, e também à assistência distante, em tribunas, sacadas ou camarotes, a cavalhadas, touradas, espetáculos teatrais. Nas salas e muito menos nas ruas pouco apareciam as damas (PINHO, W., 1970 apud VERGER, 1981, p. 143).
A mulher, portanto, mesmo nas grandes cidades, “o pater familias do sobrado procurou conservar o mais possível trancada na camarinha e entre as mulecas, como nos engenhos; sem que ela saísse nem para fazer as compras”311, e quando o fazia era
“dentro de palanquins, mais tarde de carro fechado”312
, afinal,
[...] onde alguém de compreensão e juízo iria conceber uma senhora ou senhorinha da família e consideração, andando pelos açougues, vendas, armazéns, tulhas, quitandas, padarias ou quejandos, a comprar comida, acotovelando-se com pessoas de outras classes sociais (VIANNA, H., 1979, p. 49)?
309
Ibid., p. 171.
310
PINHO, W., 1970 apud VERGER, 1981, p. 143.
311
FREYRE, 1968, v. 1, p. 34.
312
Trancada em casa, num misto de soberania e escravidão – “soberana dos escravisados e escrava do marido”313,
[...] a boa mãe de família não deveria preocupar-se senão com a administração de sua casa, levantando-se cedo a fim de dar andamento aos serviços, ver se partir a lenha, se fazer o fogo na cozinha, se matar a galinha mais gorda para a canja” (GAMA, 1842 apud FREYRE, 1968, v. 1, p. 109) etc.
No passado colonial, era a imagem da mulher a de um “ser perverso e pervertido por natureza e por isso devia sofrer vigilância todo o tempo: a do sobrado por parte do pai ou do marido, a da rua, a que não devia satisfações a ninguém, por todo mundo”314
. Desta forma,
[...] o padrão da mulher submissa valia sobretudo para famílias bem-postas na sociedade – ou que tinham pretensões a isso -, de comerciantes, funcionários, advogados etc. Para esse pater familias qualquer escândalo originado em sua casa podia arranhar o prestígio ou embaraçar aspirações” (ARAÚJO, E., 1997, p. 195).
A gente humilde, porém,
[...] pouco ou nada tinha a perder, ainda que tivesse a temer [...] a repressão velada e informal da maledicência dos vizinhos e a eventual repressão explícita e formal das leis civis e eclesiásticas. Suas condições de sobrevivência, porém, eram diferentes, e assim a consciência e a apreensão de todos os mecanismos de controle pessoal e social, consoante sua maneira de viver, também diferiam do padrão geral (ARAÚJO, E., 1997, p. 195).
Estas mulheres humildes, no entanto, tinham uma liberdade de movimento e de atuação impensável para a mãe ou a sinhá do sobrado. No comércio de gêneros “molhados”, por exemplo, elas detinham uma participação expressiva:
313
QUERINO, 1955, p. 234.
314
[...] tanto as sinhás dos sobrados, que mandavam as escravas para a rua com caixinhas e tabuleiros, cheios de comidas e doces, como as mulheres do povo que negociavam com miúdos, carne cozida, frutas, e as que amassavam o pão ou tinham vendas” (AZEVEDO, T., 1969, p. 392).
A própria legislação metropolitana assegurava, aliás, exclusividade da mão-de-obra feminina no comércio ambulante de “toda sorte de comestíveis pelo miúdo, como também vinhos a aguardentes”315, além de “alféloas, obreias, jarfelim, melaço e
azeitonas”, atividade destinada ao “exercício honesto e precisa sustentação de muitas mulheres pobres, naturais destes reinos, que se ajudavam a vender, e com efeito viviam desses pequenos tráficos”316
, formando, muitas delas, núcleos familiares estáveis.
Segundo Kátia Mattoso, ao longo de suas pesquisas sobre a Bahia do Século XIX, “cerca de 42,2% dos grupos domésticos em Salvador eram chefiados por mulheres, das quais 71% eram solteiras, e muitas com filhos”317
. No século XIX, portanto, não seria estranho encontrar casas lideradas por mulheres, muitas delas ex-escravas - ou filhas destas -, que exerciam pequenas atividades econômicas, às vezes mesmo apenas a nível de subsistência, mas que sempre podiam representar formas alternativas de fortalecer o orçamento doméstico. Ao seu alcance estavam ainda certas opções de ganhar dinheiro praticamente impensáveis para as sinhás dos sobrados. Por exemplo, podiam elas tornar-se mães voluntárias de crianças órfãs ou abandonadas, deixadas sob a responsabilidade da Santa Casa de Misericórdia. Por um pequeno valor mensal
pago a estas mulheres “durante três anos pela alimentação e vestuário da criança”318
, os pequenos enjeitados encontravam, desta forma, um lar provisório, ao mesmo tempo que novos laços afetivos eram criados entre pessoas de diferentes origens, “mas de futuro provavelmente igual”319
.
Os estrangeiros invariavelmente estranhavam – e reprovavam – esta reclusão das mulheres brasileiras, principalmente as pertencentes às famílias mais tradicionais e
315
Ibid., p. 197.
316
Lei de 19.11.1757 em FIGUEIREDO, L., 1993 apud ARAÚJO, E., 1997, p. 197.
317 MATTOSO, 1992, p. 171. 318 ARAÚJO, E., 1997, p. 177. 319 Ibid., p. 177-178.
bem-postas, mantidas quase sempre longe dos olhos dos outros homens, especialmente dos forasteiros. Os ingleses, particularmente afeitos a passeios pelos arredores da cidade, percebiam o estranhamento dos brasileiros diante destes novos costumes. Desta forma, espantava-se o o britânico Lindley com os olhares curiosos dos brasileiros, ao sair a passear com a sua própria mulher à luz do dia: “[...] vimo-nos expostos à curiosidade impertinente de pessoas que nesse dia [...], haviam saído para suas casas de campo e nos encaravam com espanto ao ver uma mulher sem o apêndice de uma cadeirinha”320
. Tal era...
[...] a restrição a que estão sujeitas as mulheres deste país, por não poderem passear pelas ruas sem estar hermeticamente fechadas numa cadeirinha, ou segregadas em cabriolé; mas, tal é a força do costume que nenhuma delas jamais é vista com liberdade, exceto no recesso de suas casas (LINDLEY, 1969, p. 179).
Efetivamente, poucos tempo depois (1815-1817), também o Príncipe Maximiliano de
Wied-Nieuwied observava que “durante o dia não se vê nenhuma mulher nas ruas”321
. Em 1860 repetia a mesma informação o Príncipe Maximiliano de Habsburgo: “Quase não se vêem mulheres brancas nas ruas; apenas, em raríssimos casos, elas separam- se das sacadas ou da cadeira de palha de suas varandas. A brasileira, nas cidades, é um objeto indolente e sem graça”322. Oscar Canstatt (1868) “observa que não teve
oportunidade de conhecer as mulheres residentes na cidade, uma vez que elas nunca se apresentam na rua, [...], mostrando-se no máximo e excepcionalmente, na varanda de sua casa”323
.
Para o visitante estrangeiro, “homem civilizado”, não deixava de surpreender...
[...] a grande diferença que nota entre os hábitos domésticos e os praticados em público. Em casa, uma relativa promiscuidade, tanto entre sexos, como entre as classes sociais. Mas pelas ruas, a maior reserva. Não é vista nenhuma mulher branca de categoria, o uso da cadeirinha é severamente observado, as saídas
320 LINDLEY, 1969, p. 93-94. 321 WIED-NIEUWIED, 1958, p. 469. 322 HABSBURGO, 1982, p. 86. 323
se limitam à ida à igreja, às visitas de cerimônia, aos eventuais bailes. Os passeios públicos são pouco frequentados, as reuniões sociais são insossas, com excessiva separação entre os sexos, um rapaz solteiro não devendo ousar conversar com uma moça a que não foi apresentado (AUGEL, 1980, p. 220- 221).
Essa aversão à rua era transmitida inclusive às crianças: “menino de sobrado que brincasse na rua corria o risco de degradar-se em muleque; [...] o lugar do menino brincar era o sítio ou quintal; a rua do muleque”324
. Escondia-se, portanto, praticamente a família inteira do olhar dos curiosos, atrás dos muros e paredes dos sobrados.
Desta forma, viviam...
[...] as mulheres, brancas ou escravas, jovens ou mais velhas, [...] em casa, com o cabeção transparente e caindo aos ombros, o seio quase à mostra, sem meias e sem roupa interna. Quando saem para a missa ou para a festa, vestem-se de sedas, veludos, fitas e jóias. As donzelas convivem com os moleques de recado, a menina diafanamente vestida de branco e de rendas e bordados, o rapazola, nu, em irrefletida promiscuidade (TSCHUDI, 1863 apud AUGEL, 1980, p. 221).
Traçando um quadro da mulher branca brasileira, Expilly chegaria a afirmar que...
[...] no meio do quadro esplendido que um sol ardente e uma vegetação luxuriante compõem nos campos tropicais, a branca perde todas as vantagens que desfruta na Europa. Sua beleza delicada esvai-se em ondas de luz. Seu talhe diminui diante da criação; ela parece, enfim, mesquinha, miuda, miseravel, angustiada (EXPILLY, 1935, p. 134-135).
Desta forma, a...
[...] desconfiança, a inveja e a opressão resultantes prejudicavam todos os direitos e toda a graça da mulher, que não era, para dizer a verdade, senão a maior escrava do seu lar. Os bordados, os doces, a conversa com as negras, o
cafuné, o manejo do chicote, e aos domingos uma visita à igreja, eram todas as
324
distrações que o despotismo paternal e a politica conjugal permitiam às moças e às inquietas esposas (EXPILLY, 1935, p. 400-401).
Em função deste costume antigo de reclusão, encontra-se talvez a explicação para a surpresa inicial de James Wetherell, que em meados do século XIX (1857), mostrava-se “admiradíssimo vendo como são pouco frequentados pelos habitantes”325
os passeios públicos, apesar de serem estes “muito agradáveis”.
A partir de meados do século XIX, porém, outros viajantes estrangeiros dão a entender que a reclusão das mulheres já não era tão severa assim326. Em alguns casos, eles próprios envolviam-se em conversas com as mulheres “da casa”, mas tomando o cuidado de não parecer muito gentil com elas, de forma a não ofender seus anfitriões327. Nas festas e nos salões de bailes baianos, as mulheres, quase na segunda metade do século (1845), podiam ser vistas aderindo a novas danças e ritmos europeus, evidenciando o início de uma nova era para a sociedade baiana do século XIX:
[...] a polca, a dança da moda, espalha-se pela cidade, faz girar as pernas dos fidalgos da Côrte; seu ritmo rodopiante anima as festas e os primeiros bailes e ela veio invadir os salões da Bahia. A polca é a sensação trazida pelos jornais e visitantes estrangeiros desembarcados da Europa... a polca dos oitocentos invadiu tudo: casas, famílias, festas, bailes, redação dos jornais (RENAULT, 1969 apud VERGER, 1981, p. 144).