Como de costume, “cabia à cultura portuguesa o papel dominante”270 na sociedade baiana do século XIX. “Ela representava o poder. Ela conformava o tipo de vida. Papel dominante, por certo, porém de maneira alguma exclusivo”271
. À minoria branca continuavam então entregues os principais cargos públicos, o grande comércio ou mesmo a produção do açúcar, que perderia, ao longo do século XIX, uma grande parte de sua importância econômica em função de uma série de fatores, internos e externos. Segundo Kátia Mattoso, o período entre 1860 e 1887...
[...] foi marcado por uma profunda depressão que deu início a um declínio sem retorno. As causas foram muitas, internas e externas. As exportações de diamantes entraram em crise, por força da concorrência dos diamantes do Cabo [...]. As exportações de algodão, que tinham crescido sensivelmente durante a Guerra da Secessão, caíram a níveis muito baixos. Por fim, a produção açucareira, a despeito de um esforço constante para aumentar a produção, viu- se prejudicada pela deterioração dos preços do produto no mercado externo. Na década de 1870, a cana-de-açúcar foi afetada por doenças e parte da produção foi perdida. Por outro lado, os produtores de açúcar, sem meios de crédito disponíveis, mostravam-se desanimados, avessos a inovações, e permitiram que continuasse o êxodo de escravos para outros centros produtores de açúcar, em outras províncias. A depressão econômica que se instalou na Europa a partir de 1873 veio tornar dramático um quadro já sombrio (MATTOSO, 1992, p. 572-573).
Muitos, porém, sobreviviam dos modestos ganhos de seus escravos, que então passavam os dias percorrendo a cidade atrás de clientes interessados nos seus serviços (carregadores, carpinteiros, barbeiros, aguadeiros etc.) ou produtos (alimentos e miudezas em geral). Ficavam então os “senhores” e “senhoras” reclusos em casa, sem ter muito a fazer, atentos ao serviço dos escravos domésticos, descansando nas varandas e alpendres, rezando o terço em frente aos pequenos nichos e imagens
270
MATTOSO, 1988, p. 37.
271
religiosas tão comuns dentro das casas272 etc. Como afirmava Tollenare, “o Brasil oferece o que a Europa recusa geralmente, quero dizer, a possibilidade de viver ocioso”273, uma vez que “com alguns negros, um pouco de horticultura, criação de aves
e de gado”, é possível “satisfazer a votos modestos e sólidos”274 de subsistência.
Existiam também, obviamente, os brancos pobres, mas estes faziam o possível para aparentar um nível de vida bem acima de suas reais condições financeiras.
Explica-se, desta forma, a contradição na maneira de portar-se de muitos baianos remediados. Em casa, hábitos simples e frugais275; na rua, apenas as melhores roupas e jóias. Os homens, em casa, “despiam-se imediatamente de todos os atavios tão logo entravam na residência [...]. O permancer tão à vontade em casa era matéria de admiração para os estrangeiros”276. Nas ruas de Salvador, porém, “não existe mais a
mínima diferença entre o modo de vestir dos habitantes das cidades do país e os dos europeus; o luxo e a elegância reinam em alto grau por tôda parte”277. No “Brasil
escravocrata tinham este ar importante até mesmo os...
[...] barbeiros, os ferreiros, os carpinteiros, os pintores de paredes, todos donos de escravos que lhes carregavam as ferramentas e lhes preparavam as tintas: os senhores quase não sujavam os dedos; andavam de chapéus de três bicos e sobrecasaca (FREYRE, 1968, p. 35).
272
Ao mesmo tempo em que preconizava-se o ócio como símbolo maior de prestígio e aceitava-se a escravidão como fato normal, havia na população em geral uma enorme religiosidade, externada das mais variadas formas. Podia-se afirmar efetivamente que “durante os dois séculos que correram entre o tempo do rei João III e o de Pombal, Portugal era, provavelmente, o país mais dominado pelo clero em toda a cristandade” (BOXER, 2000, p. 158). No século XIX, segundo Pierre Verger, “não houve senhor branco, por mais indolente, que se furtasse ao sagrado esforço de rezar ajoelhado diante dos nichos: às vezes rezas quase sem fim tiradas por negros e mulatos. O terço, a coroa de Cristo, as ladainhas. Saltava-se das redes para rezar nos oratórios: era obrigação. [...] Dentro de casa rezava-se de manhã, à hora das refeições, ao meio-dia e de noite, no quarto dos santos - os escravos acompanhavam os brancos no terço e na salve-rainha. [...] Ao jantar, diz-nos um cronista que o patriarca benzia a mesa e cada qual deitava a farinha no prato em forma de cruz. Outros benziam a água ou o vinho fazendo antes, no ar, uma cruz com o copo. No fim davam-se graças em latim [...]” (VERGER, 1981, p. 63).
273
TOLLENARE, 1956, p. 226.
274
TOLLENARE, 1956, p. 227.
275 Segundo Leila Algranti, o interior das casas era geralmente muito “primitivo”, com poucos móveis, e
estes geralmente “toscos” (ALGRANTI, 1997, p. 107).
276
ARAÚJO, E., 1997, p. 120.
277
Estes hábitos, porém, custavam caro278, muitas vezes levando as famílias baianas à ruína. Os últimos senhores de engenho, por exemplo, em meio à crise do açúcar,
[...] tem chegado a maior parte deles a tal estado que para comerem carne de vaca duas vezes por semana e terem um cavalo de estrebaria, se faz necessário que morram 200 pessoas de fome, que são os escravos do Engenho, a quem lhes dão unicamente o sábado livre para com seu produto sustentarem-se e trabalharem o resto da semana para seus senhores. (BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil), 1920 apud FREYRE, 1968, p. 264).
Em situações extremas, no passado (século XVII), as autoridades locais recorriam ao Rei em Portugal para que proibisse tais extravagâncias,
[...] por entendermos que a principal causa das impossibilidades e ruína desta República nasce da facilidade com que os moradores fiam sua fazenda, de qualquer pessoa, aceitando-as por preços excessivos, sendo os que lhes levam fiados homens pobres, filhos e famílias, e órfãos, e menores, que não tem de seu com que pagar, do que se origina depois faltarem com o pagamento e serem executados com aperto em seus bens, [...] com o que ficam metidos em maiores necessidades (PMS, 1953, p. 05).
Porém, certamente exigências deste tipo dificilmente seriam postas em prática, uma vez que a sociedade brasileira, por muito tempo, basearia suas divisões sociais em aparências; na demonstração exterior de riqueza e na discriminação do trabalho manual ou mecânico. Ainda mais levando-se em conta que até quase meados do século XIX (1842),
[...] toda a pessoa de qualquer sexo, ou idade, que fôr encontrada vadia, ou como tal reconhecida, sem ocupação honesta, e suficiente para sua subsistência, será multada em dez mil réis, e sofrerá oito dias de cadeia, sendo posta em custódia até decisão do auto, e depois remetida ao Chefe de Polícia para lhe dar destino (FGM: Posturas – 1829 a 1859. Estante 08. Número de ordem 119.5 - Folha 41).
278
Vale ressaltar, no entanto, que esta determinação não valia de forma alguma para as classes mais favorecidas, onde a “enervante ociosidade”279 era o símbolo máximo de
poder e prestígio. Apenas os pobres, portanto, corriam o risco de serem tomados por “vadios”, obrigando-se a exercer (ou aparentar exercer) alguma ocupação que lhes desse algum tipo de “reconhecimento entre seus pares: reconhecimento da vizinhança, os mais humildes e numerosos; de prestígio junto aos grandes, os que logravam
ascenção econômica”280
.
É curioso notar como determinações e perseguições deste tipo (que encontravam eco em outras províncias brasileiras281) contrastam diretamente com o padrão de vida aceito e adotado pelas elites brasileiras durante o período escravista, no qual o trabalho torna- se símbolo de dependência e pobreza, e o ócio torna-se o símbolo maior de poder e prestígio social. Para estes brasileiros, “vadio era o sem-ofício, o vagabundo sem morada certa, a prostituta, o mendigo, o desclassificado”282
. Nesse contexto,
[...] mesmo o pobre que nada fizesse de produtivo mas possuísse pelo menos um escravo que lhe garantisse a sobrevivência desfrutava de alguma consideração; podia nada fazer por si, mas jamais ninguém o chamaria de preguiçoso por isso. Ao contrário, o indivíduo desajustado nesse meio ou compelido à mendicância, esse sim, era o vadio, o preguiçoso, o desclassificado que pesava à coletividade. Tinham, por conseguinte, de ser reprimidos ou controlados, pois escapavam às normas de convivência, de sobrevivência e de conveniência minimamente aceitáveis por uma sociedade que só admitia o parasitismo que fosse considerado honesto, distinto e até nobre (ARAÚJO, E., 1997, p. 174).
Na verdade, era considerado mesmo vergonhoso “o exercer determinadas profissões ‘mecânicas’ e até o carregar pelas ruas qualquer coisa com as próprias mãos”283
. O resultado desta situação é que...
279 LINDLEY, 1969, p. 180. 280 ARAÚJO, E., 1997, p. 150. 281 Ibid., cap. 04. 282 Ibid., p. 180. 283 ARAÚJO, E., 1997, p. 95.
[...] muitos, nascidos ricos, chegavam à velhice melancolicamente pobres. Mas sempre desdenhosos de ofícios mecânicos que abandonavam a europeus e a escravos. Daí o violento contraste entre europeus que aqui chegavam pobres e morriam ricos e brasileiros nascidos ricos que envelheciam e morriam pobres” (FREYRE, 1968, v. 1, p. 264-265).
Desta forma,
[...] a ostentação, cuidadosamente praticada, de opulência ou só de bem-estar devia ser perseguida com tenacidade por quem não quisesse passar por pobre [...] e, na dura dinâmica colonial, sujeitar-se a um número ainda maior de restrições imposto em sua vida pública, fosse qual fosse a profissão exercida (ARAÚJO, E., 1997, p. 95).