II.3. TROISIÉME ÉTUDE
II.3.2.5 Traitement des données chronométriques et électromyographiques
“A problemática do ethos pede que não se reduza a interpretação dos enunciados a uma simples decodificação. Alguma coisa da ordem da experiência sensível se põe na comunicação verbal. As ‘ideias’ suscitam a adesão por meio de uma maneira de dizer que é também uma maneira de ser” (MAINGUENEAU. In: A
propósito do ethos, 2011a, p. 29).
Seguindo o debate que constitui a cena teórico-conceitual de nossa tese, neste momento nos detemos na discussão sobre o conceito de ethos situado nos estudos linguísticos, e mais especificamente nos estudos discursivos, em diálogo com os estudos culturais. Dada a natureza de nosso objeto, privilegiaremos a visão discursiva de ethos proposta por Maingueneau (2008a)em diálogo com a visão antropológica de Geertz (2008), revisitando alguns conceitos e autores de base das referidas áreas.
Optamos, em um primeiro momento, por dar notícia das bases do termo “ethos” para, depois, tratar deste conceito nos estudos linguísticos, especificamente no âmbito da Análise do Discurso de linha francesa, com foco nos estudos de Maingueneau (2011a). Na sequência, optamos por dar voz, ainda que brevemente, a dois outros teóricos que se debruçaram sobre o tema: Norman Fairclough, na linha de investigação crítica, e Patrick Charaudeau, na linha de investigação semiolinguística.
Logo, com base no disposto, apresentamos nosso conceito de ethos, por nós ressignificado, a partir do qual executaremos a análise dos dados desta pesquisa. Na sequência, apresentamos a proposta de Maingueneau (2008a, 2008b, 2010) sobre a instância do discurso em que se constrói o ethos: a cena enunciativa e suas cenas constituintes (cena englobante, cena genérica e cenografia).
Por fim, ressaltamos que este capítulo concerne à atualização e ao debate do estado da arte a respeito do conceito de ethos (e de cena enunciativa e suas cenas constituintes), revisitando suas bases; concerne também à nossa contribuição a este estado da arte, com o redimensionamento deste conceito-chave na AD, para uma abordagem em perspectiva diacrônica, em face de nosso objeto de pesquisa.
2.2.1 As imagens de si no discurso
Na medida em que tomamos como objeto de pesquisa o conjunto de imagens de si construídas no discurso jornalístico de dois grandes periódicos latino-americanos ao longo de um período histórico, reconhecemos que há uma intrínseca relação entre ethos e tradições culturais, como o são as TD, que há de se levar em conta em termos de fundamentos teórico- analíticos em nossa proposta de investigação e em propostas futuras que tenham interesse na análise diacrônica de fenômenos discursivos.
Podemos dizer que, para Maingueneau (2011a), ethos discursivo é uma importante noção que permite abordar os modos de dizer (e por extensão os modos de ser) em termos enunciativos. Já para Kabatek (2005), no âmbito da Filologia Românica alemã, as tradições discursivas podem ser compreendidas como a repetição de um texto ou de uma forma textual ou de um modo particular de escrever ou falar (um modo de dizer, nos termos de Maingueneau (2011a)), tendo tal repetição valor de signo (grifos nossos).
E é na aproximação entre o conceito de ethos discursivo como modo de dizer (MAINGUENEAU, 2011a) e o conceito de tradições discursivas como tradições culturais que consistem na repetição de um modo particular de escrever15 (KABATEK, 2007) que nos embasamos para a postulação de nossa tese: o conceito de TD pode lançar luz à investigação diacrônica do ethos discursivo mais especificamente, do ethos discursivo (tradicionalmente estudado sob um olhar sincrônico, sem que se levem em conta seus traços de mudança e de permanência), através da análise de suas evidências linguístico-textuais na história, ponto sobre o qual nos deteremos ao longo de nossa cena metodológica (grifos nossos).
Historicamente, o conceito de ethos vem, desde a Filosofia antiga, passando por mudanças significativas, até chegar ao campo dos estudos do discurso, centrando-se fortemente nas pesquisas de Maingueneau (2008a, 2008b, 2010, 2011a, 2011b) e outros teóricos. Segundo Gonçalves (2006), o termo sai do campo da Filosofia com o sentido de “moradia”, “abrigo”, “hospitalidade” e “hábito”, ligado à noção de ética, para deslocar-se ao campo da Antropologia, passando a significar “costumes de um grupo social”, “processo social de identificação de um povo”, ligado à noção de cultura e de relações identitárias (GONÇALVES, 2006, p. 36), visão esta que nos interessa de modo especial, pelas possibilidades de diálogo que estabelece com a noção de ethos discursivo a partir da qual abordamos nosso objeto de pesquisa.
15 Nos termos a que nos propomos nesta pesquisa, analisamos tradições discursivas no campo da escrita. Reconhecemos, entretanto, como destaca Kabatek (2005), que as TD referem-se a repetições de formas textuais, de textos e de formas de dizer com valor de signo próprio, no escrever ou no falar.
Se hoje, no campo da AD, remetemos o termo “ethos” às imagens de si, ou seja, às autorrepresentações discursivas que se revelam na voz de um enunciador que se mostra na superfície textual a partir de marcas linguísticas, no campo dos Estudos Culturais de base antropológica, nos trabalhos de Geertz (2008) e outros, o mesmo termo é tratado como os costumes de uma comunidade, de um povo, tomado como argumento para explicar a configuração sócio-histórica do espaço cultural do qual os sujeitos fazem parte, em relação com as questões identitárias dos povos.
Podendo significar o conjunto de traços pelos quais um grupo cultural se caracteriza (suas tradições, seus costumes etc.), singularizando-se frente a outros grupos (GONÇALVES, 2006), a expressão “ethos” figura no Dicionário de Ciências Sociais (VÁZQUES, 1986 apud GONÇALVES, 2006, p. 34) como o termo que diz respeito ao “caráter cultural e social de um grupo ou sociedade”. Significando no grego “hábito” ou “caráter”, estava o termo ligado em suas bases à noção de ética.
No circuito dos referidos estudos antropológico-culturais, são os postulados de Clifford James Geertz, antropólogo estadunidense, que nos interessam de modo especial neste debate pela possibilidade que lançam de abordagem da cultura dos povos através do tom que constitui o que entendemos como ethos. Em A Interpretação das Culturas, Geertz (200816, p. 142) afirma que “o ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete”. Por esta concepção, podemos falar de ethos americano, ethos brasileiro, ethos argentino, ethos latino-americano. Neste mesmo conceito, destacamos pontos de encontro com a compreensão de ethos de Maingueneau (2008a), a respeito das concepções de tom, caráter e estilo.
Em sua proposta, Geertz (2008) relaciona o ethos à prática cultural de todos os povos e à visão de mundo de todos os sujeitos, em uma perspectiva notadamente universal, daí esta proposta ser considerada como possível para a análise de fenômenos sociodiscursivos, como a identidade cultural dos povos através da representação de aspectos da vida social relacionadas à visão de mundo dos sujeitos. Esta visão de ethos bebe, segundo Held (1998), da tradição grega no debate sobre democracia como instituição caracterizadora da totalidade de regras culturais nas tradições do Ocidente.
16 Consultamos a 13ª edição da obra, datada de 2008. A primeira edição é de 1989. A versão a que tivemos acesso encontra-se em: http://identidadesculturas.files.wordpress.com/2011/05/geertz_clifford- _a_interpretac3a7c3a3o_das_culturas.pdf
Ao considerarmos que nesta visão antropológica de ethos estão postos os aspectos morais e estéticos e os elementos valorativos de uma cultura, tomamos como verdadeira a ideia de que a constituição de um ethos frente à visão de mundo dos sujeitos é um fenômeno culturalmente situado, já que a cultura de um povo e o modo como seus sujeitos se relacionam estão postos em uma relação intrinsecamente social. Em pesquisa anterior (IRINEU, 2011, p. 15), ao nos reportarmos à relação entre representações, visões de mundo, sociedade e práticas de linguagem, destacamos que:
O modo como nos vemos e como vemos e somos vistos pelos outros que compõem nosso “infinito particular” condiciona as imagens, as representações que construímos sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca, com seus seres e outros objetos representacionais. E, como se sabe, a dinâmica da modernidade faz com que os limites entre nosso mundo e o mundo do outro sejam repensados a todo instante, entrecruzando-os, interconectando-os. E esta nova maneira não mais essencialmente cartesiana de ver o mundo e seus elementos constitutivos faz com que o universo consensual dos seres humanos ganhe novas feições.
Além de Geertz (2008), outros estudiosos da Antropologia Cultural se dedicaram ao debate sobre ethos e cultura. Neste campo, queremos destacar ainda as posições teóricas de Vaz (2002) e Caniello (2003), pelo modo como relacionam o conceito de ethos às noções de tempo histórico e de tradição/ modernidade.
Para o primeiro dos referidos estudiosos, “a cultura é o domínio em que o ethos se explicita formalmente na linguagem das normas e valores e se constitui como tradição”, assegurando ao indivíduo “a passagem a esse horizonte de universalidade no qual é possível formular o projeto de sua autorrealização” (VAZ, 2002, p. 25), destacando a conjugação das dimensões individual (subjetividades) e coletiva (sociabilidades) propostas na visão de ethos defendida pela Antropologia.
Se ao falar de cultura referimo-nos, direta ou indiretamente, aos movimentos de tradição/atualização que caracterizam os povos e seus signos identitários nas relações de tempo em que estão inscritos, tal como propõe Vaz (2002), destacamos nossa visão de TD como uma das muitas tradições culturais dos povos, tal como propõe Koch (1997), em suas (re) configurações linguístico-textuais no plano da diacronia e no berço de uma cultura (KABATEK, 2007).
Por sua vez, Caniello (2003), em estudo sobre algumas representações culturais de uma pequena cidade de Minas Gerais em face do que o autor nomeia como “ethos sanjoanense”, destaca que ethos pode ser compreendido como um fenômeno que se realiza como “a matriz e a moeda dos processos sociais, pois é a resultante de uma dupla dialética entre a estrutura (que conforma a tradição de um povo) e a agência (dos sujeitos), entre a
tradição e a mudança” (CANIELLO, 2003, p. 32), destacando que de fato há duas dimensões, uma individual e uma social, postas na configuração do ethos de um povo (e que, portanto, as imagens de si dos enunciadores no discurso estão ancoradas na cultura e na história, ou seja, nas representações sociais que constroem do mundo e de seus elementos constituintes). Ainda segundo Caniello (2003, p. 51):
O “estilo” ou o “jeito de ser” de um povo — vale dizer, o signo e a essência da tradição cultural que define o indivíduo e sua sociedade — reage ao fluxo histórico, equilibrando-se em uma dialética que, embora explicite mudanças, ressalta, sobretudo, permanências. [...] A principal conclusão a que se chega a este respeito é que o ethos entendido como um fato sociológico e histórico sintético explicita, sobretudo, a preeminência do “espírito de um povo” (Volsksgeist) — ou seja, o âmago da tradição que o constitui — sobre o “espírito do tempo” (Zeitgeist) — ou seja, a conjuntura que o pressiona.
A partir da visão de ethos como “um fato sociológico e histórico” (CANIELLO, 2003, p. 51), tiramos como proveito dos postulados dos antropólogos mencionados a visão de que o ethos pode se relacionar aos signos identitários da cultura de um povo, o que nos permite conjugar, em termos conceituais, os aspectos discursivos e culturais envolvidos no processo de construção de imagens de si, uma vez que, como afirma Amossy (2008b, p. 126), as referidas imagens estão ancoradas em um “arsenal de representações sociais coletivas que determinam, parcialmente, a apresentação de si (dos enunciadores) e sua eficácia em determinada cultura”.
Desde os estudos culturais de base antropológica, muito do que hoje compreendemos como ethos nos estudos linguísticos tem suas bases assentadas no passado. De modo mais direto, é na Retórica de Aristóteles que encontramos os desdobramentos iniciais do termo de que temos notícia nos estudos da linguagem. Na obra aristotélica, ethos remete-se ao caráter que o orador revela de si ao auditório. Estava ligado, por assim dizer, aos textos orais argumentativos, nos quais se preservava a ideia de persuasão. Por outro lado, nos estudos literários, o termo surge para fazer referência ao contexto da obra literária, com ares de imprecisão conceitual (GONÇALVES, 2006).
Em termos linguístico-discursivos, é nos estudos pragmáticos de Oswald Ducrot, linguista francês, que encontramos as bases conceituais do que hoje entendemos como ethos. Para Ducrot17 (1987), ao enunciar, o sujeito real (concebido como locutor-), ativa em seu dizer uma instância enunciativa compreendida como locutor-L (o locutor que é a fonte da
17 O pensamento de Oswald Ducrot sobre enunciação e discurso foi basilar para o redimensionamento das questões pragmáticas nos estudos linguísticos, principalmente no que se refere aos atos de fala e à teoria de preservação de faces (GRICE, 1982).
enunciação), que se mostra no discurso, a quem estaria associada uma “voz” (MAINGUENEAU, 2011a) pela qual constrói as imagens de si.
Acreditamos que esta concepção de “voz” destacada por Maingueneau (2011a) tem suas bases assentadas nos estudos bakhtinianos sobre plurilinguismo no gênero romance, especialmente na obra Questões de Literatura e Estética: a teoria do romance18, e constitui, a nosso ver, uma das mais significativas ressonâncias do pensamento bakhtiniano nos estudos sobre ethos na Análise do Discurso.
Em Questões de Literatura e Estética, lançando mão da clássica metáfora estabelecida entre a linguagem e a orquestração musical, Bakhtin (2002 [1975]) fala de “entonação” como uma instância discursiva com contornos sociais que se apresenta na enunciação estabelecendo relação entre os enunciadores, os coenunciadores e os objetos do enunciado, em um movimento dialógico de entrecruzar de vozes na enunciação.
E é exatamente neste “entrecruzar de vozes” que reside o caráter polifônico que alicerça a concepção de linguagem de Bakhtin (2002 [1975]). Na obra do pensador russo, as vozes representam posições éticas e/ou ideológicas que se constituem no plano da enunciação. Segundo Bubnova (2011, p. 271), “em Bakhtin, o enunciado é a metáfora da oralidade codificada por escrito, é uma unidade mínima de sentido que pode ser respondida no processo de comunicação dialógica”.
Reconhecemos que o mundo que nos rodeia se constitui como um “coral de vozes sociais” cuja significação ecoa na história, no tempo, no espaço. As vozes são fontes de sentidos, pois cada uma delas “possui sua cronotopia – sua raiz espaço-temporal – que a situa como única, e sua ideologia, que a identifica como entidade social” (BUBNOVA, 2011, p. 276). Assim, as vozes se constituem em um entrecruzar de posicionamentos pelos quais os enunciadores se representam no e pelo discurso.
Nesta dinâmica de posicionamentos e representações discursivas, constitui-se o plurilinguismo observado por Bakhtin (2002 [1975]) na abordagem do gênero romance. Segundo o teórico (BAKHTIN, 2002 [1975], p. 113):
A fala de outrem, narrada, arremedada, apresentada numa certa interpretação, ora disposta em massas compactas, ora espalhada ao acaso, impessoal na maioria das vezes (‘opinião pública’, linguagens de uma profissão, de um gênero), nunca está nitidamente separada do discurso do autor: as fronteiras são intencionalmente frágeis e ambíguas. [...] É justamente o caráter plurilíngue, e não a unidade de uma linguagem comum normativa, que representa a base do estilo.
18 Consultamos a versão de 2002, que se encontra disponível em: http://pt.scribd.com/doc/58069225/1/o- discurso-no-romance
Por se ancorar nos postulados bakhtinianos sobre as vozes sociais, como as posições éticas e/ou ideológicas que se constituem no plano da enunciação, concordamos que “a mais completa renovação do conceito de ethos, a partir de maiores ampliações e reformulações conceituais, nos estudos discursivos, ficou a cargo de Dominique Maingueneau” (GONÇALVES, 2006, p. 61), cabendo ao referido teórico não só a construção de uma base teórica para a compreensão da noção de ethos, mas também, e principalmente, a sistematização de um arcabouço metodológico pelo qual fosse possível a análise das imagens de si em textos orais e escritos (em complemento ao que propunha Aristóteles, que se centrava na análise dos gêneros orais da argumentação), abrindo caminhos inclusive para a análise de textos multimodais.
Para Maingueneau (2011a), ao falar, um locutor ativa em seus destinatários uma autorrepresentação discursiva procurando, de certo modo, controlá-la (em termos de estratégias de textualização, cremos). Neste tocante, concordamos com o pressuposto de que, em certa medida, o ethos se mostra na enunciação através do que é dito no enunciado19. Com base neste postulado, redimensionamos o conceito de ethos frente a nosso objeto de pesquisa diacrônico, uma vez que “não é possível estabilizar definitivamente uma noção deste tipo, que parece melhor apreendermos como um nó gerador de múltiplos desenvolvimentos possíveis” (MAINGUENEAU, 2011a, p. 13).
Nestes termos, o locutor (que aqui, em fidelidade às bases epistêmicas da AD, trataremos como enunciador), ao enunciar e, portanto, ao dar início à construção de um ethos (entidade discursiva intimamente ligada à enunciação), é interpelado pelo coenunciador antes mesmo antes de se pronunciar nos textos que produz. Os coenunciadores, no mais das vezes baseados no tipo de discurso e nos gêneros postos em cena na enunciação, constroem representações do ethos do enunciador antes mesmo que ele fale. Trata-se do ethos prévio (AMOSSY, 2008b), que pode influenciar as estratégias pelas quais os enunciadores constroem as imagens de si, sem necessariamente se mostrar no enunciado por índices linguístico-discursivos20.
19 Ducrot (1987) afirma que a seleção lexical, a recorrência de argumentos, entre outros, são exemplos de operações (estratégias de textualização) de evidência do ethos nos textos. São operações como estas (“caracteres”, nos termos do autor) que tomamos como exemplos para a proposição dos elementos dêiticos e lexicais como categorias de análise em nossa proposta de investigação.
20 Haddad (2008) destaca que o fenômeno passível de análise, em termos linguísticos, não é a existência e/ou a construção do ethos pré-discursivo, mas sim o ethos discursivo em termos de sua relação com o ethos prévio, nos termos de Amossy (2008).
Ao contrário do ethos prévio, o ethos discursivo “se elabora, assim, por meio de uma percepção complexa, mobilizadora da afetividade do intérprete, que tira suas informações do material linguístico e do ambiente” (MAINGUENEAU, 2011a, p. 16). Queremos ressaltar que optamos, em termos metodológicos, por relacionar a análise das imagens de si às suas evidências no material linguístico (através do exame de índices linguístico-textuais, os dêiticos discursivos e os elementos lexicais) e às suas evidências no ambiente discursivo (através das cenas enunciativas) por concordamos com as premissas de que o ethos é uma noção: (i) discursiva (por se tratar de um fenômeno que se constrói no e pelo discurso); (ii) híbrida (pois, além de discursiva, é essencialmente sociocultural); e (iii) integrada a uma conjuntura sócio-histórica (MAINGUENEAU, 1997) que se mostra na cadeia enunciativa.
Levando em conta a proposta de Maingueneau (2008a, 2008b, 2010), reconhecemos que tratar de ethos como a imagem portadora de uma “voz” (ou o tom, para ser mais preciso) da enunciação significa necessariamente tratar de sua realização nos gêneros discursivos, os orais e os escritos (e é ao tratar sistematicamente da construção do ethos nos gêneros escritos que Maingueneau avança em sua proposta com relação à abordagem retórica), tanto os de configuração sócio-retórica mais complexa, ligados às situações de comunicação mais fortemente institucionalizadas, quanto os de configuração sócio-retórica mais simples, ligados às situações cotidianas de comunicação (os gêneros secundários e primários, segundo Bakhtin21 (1997 [1953])).
Deste modo, é nestes gêneros instituídos que os enunciadores executam uma ação socioenunciativa de adesão ao discurso, na medida em que enunciar significa, dentre outros, “ganhar um público”, envolvê-lo no discurso. Este processo de adesão embasa a ideia de que os textos possuem uma vocalidade, manifesta numa multiplicidade de tons. Estes tons, por sua vez, caracterizam um fiador, instância enunciativa legitimadora do dizer construída pelo destinatário (que aqui trataremos como coenunciador) através de índices liberados na enunciação (grifos nossos para, de início, destacar expressões teóricas caras ao conceito de ethos).
21 As mais recentes pesquisas sobre ethos, no campo da AD, têm tomado como material de análise enunciados advindos de gêneros diversos, os primários e os secundários, os orais e os escritos, tais como: anúncios de sites de relacionamento (MAINGUENEAU, 2010), parábolas bíblicas (GONÇALVES, 2006), charges jornalísticas (ARAGÃO, 2013), canções regionais (MENDES, 2013), dentre muitos outros, o que evidencia, no cenário das pesquisas acadêmicas, a profícua relação estabelecida entre os gêneros e a construção de ethos discursivo, como assinala Maingueneau (2008c).
Assim, entender o ethos como a imagem, a voz, o tom da cena de enunciação, retoma a concepção encarnada de ethos (AUCHLIN, 2001), pois concordamos com o pressuposto de que a este tom o coenunciador confere a imagem de um fiador, a quem são