• Aucun résultat trouvé

4.6 Implémentation du modèle multi-milieux

4.6.5 Traitement des échanges gazeux

Lidar com a tarefa de construir uma panorâmica representativa das apreensões da adolescência no interior da RBEP, entre 1944 e 1959, implica em lidar, em primeiro lugar, com o problema das nomenclaturas.

Sem pretensões de realizar uma análise lexicográfica, indica-se, em linhas gerais, a freqüência e uso das nomenclaturas adotadas pelos autores dos discursos analisados ao se referirem aos sujeitos entre 12-20 anos que eram objetos das discussões sobre educação secundária. A análise feita considerou a perspectiva de Cardoso e Vainfas (1997, 377) de que todo “conteúdo histórico que se pretende resgatar depende muito da forma” do texto em termos de vocabulário utilizado, enunciados, tempos verbais [...]” .

Aborda-se, também, o problema dos sentidos com que as nomenclaturas adolescência e juventude foram empregadas nos discursos analisados, por considerar que:

[...] as condições de produção de um discurso têm a ver com o ideológico, com os valores sociais da sociedade que o produz, ao passo que as “condições de reconhecimento” dependem do poder, isto é, das instâncias capazes de legitimar ou não sua aceitação na sociedade (CARDOSO; VAINFAS, 1997, p. 378).

Nessa perspectiva, a freqüência das nomenclaturas em uso ganha destaque por revelar a permanência e a mudança nas representações das idades da vida em função das alianças entre saberes e práticas de diferentes naturezas, mais ou menos valoradas na época focalizada. À medida que a psicologia ganha valor, o sentido psicológico será agregado a termos que, antes, não tinham conotações psicológicas, como o próprio termo “adolescer”. A RBEP, através dos discursos educativos de diferentes naturezas, permite mapear os muitos sentidos, inclusive os psicológicos com que a nomenclatura adolescência foi utilizada, entre 1944 e 1959. Como adolescência e juventude são nomenclaturas que persistem na longa duração em discursos de diferentes ordens – educacionais, jurídicas, religiosas, morais – entre outros, importa esclarecer os sentidos conferidos aos mesmos nos períodos da história em foco, apesar de Skinner (1997) afirmar que:

[...] os conceitos ou as idéias não se esgotam, uma vez (re)conhecido o seu significado, é necessário saber quem os maneja e com quais objetivos, o que só é possível através do (re)conhecimento dos vocabulários políticos e sociais da respectiva época ou período histórico, a fim de que seja possível situar os “textos” no seu campo específico de “ação” ou de atividade intelectual(SKINNER, 1997, apud FALCON, p. 96).

Essa ponderação de Skinner corrobora a tarefa efetuada na pesquisa que consistiu em selecionar, dos oitenta e dois artigos analisados, todas as referências às idades da vida situadas entre infância e vida adulta, que foram alvo de proposições educacionais, buscando identificar a presença das nomenclaturas adolescência, mocidade e juventude ou outras, em circulação no campo educacional naquele momento histórico. Na década de 40, em um total de 36 artigos, houve

prevalência da nomenclatura jovem para referir-se aos sujeitos situados de 12/13 a 17 anos, em um total de 244 citações para 190 citações da nomenclatura adolescência/adolescente e, ainda, 37 citações do termo moço(a).

Os anos de 47 e 48 são exceções por sinalizarem o maior uso da categoria adolescência em relação à juventude – um total de 141 citações de adolescência contra um total de 99 citações de juventude, tendo sido detectada, na análise dos artigos, maior presença, nesses dois anos, de referências a autores e teorizações da psicologia do desenvolvimento adolescente. Chama a atenção, também, na análise quantitativa, o aumento da categoria “moços”, em 1945 – de 03 citações, em 1944, sobe para 32, em 1945, com decréscimo acentuado nos anos posteriores – 01 citação até 1949.

Na década de 50, em um total de 46 artigos, persiste maior freqüência da nomenclatura juventude com 159 citações para 121 de adolescência e 24 de mocidade; a nomenclatura juventude apresenta maior freqüência no ano de 59, com 92 presenças decorrentes do artigo A juventude em face do mundo atual, de Vitorino Veronese.

Essas cifras precisam ser entendidas em função das variáveis que entram na construção e circulação de múltiplas nomenclaturas, para referir-se às novas gerações em diferentes tempos históricos. Como foi afirmado no capitulo 1 desta tese, as teorizações sobre as idades da vida, entre elas as teorizações das ciências, quando colocadas em circulação por determinados grupos parecem afetar o uso/desuso de nomenclaturas específicas. À medida que certas teorizações psicológicas sobre uma idade da vida são colocadas em circulação, por grupos com poder e autoridade, socialmente reconhecidos, a idade-alvo parece ganhar novos contornos, levando-se em conta que as significações que as ciências engendram

sobre os fenômenos tendem a ser consideradas como saberes dotados de maior legitimidade pelos leitores.

A construção de novos sentidos para um velho termo – no sentido de um léxico – aparece de forma exemplar em adolescere, oriundo do latim e que aparece significado em dicionários de língua inglesa, francesa e portuguesa, como crescer, desenvolver-se, atingir a adolescência. Se essa nomenclatura fazia parte das taxonomias dos séculos XIV e XV e essas, por sua vez, eram herdeiras das taxonomias da Antiguidade, conforme Pastoureau (1996), isso significa que o sentido de adolescência como transição, ou seja, como estado de passagem rumo à condição adulta, é secular. Porém, as possibilidades de classificação dos sujeitos situados entre a infância e idade adulta sempre foram muitas e estão ligadas a um vocabulário “rico e flutuante, tanto no latim como nas línguas vernáculas” há muitos séculos, o que se revela na variedade de expressões: impubes, pubes,

adulescentulus(a), adulescens imberbis, puella, puer iam juventutis aetatem contingens, virguncula, virgo, juvenculus (a). Esses termos eram empregados e

articulados de diferentes modos, por autores diversos e essa variação continuará a ocorrer na dependência direta da época, região, religião, códigos de direito ligados aos costumes e à moral, classes sociais, hierarquias e ciências, o que é revelador das relações entre semântica, cultura e história.

Importa ressaltar que a circulação do termo adolescente, no Brasil, é anterior a 1940. No corpo do discurso anteriormente referido, proferido por ocasião do Congresso Brasileiro de Instrução Superior e Secundária, em 1922, pelo Ministro do Interior, Ferreira Chaves, a nomenclatura adolescente está presente, intercalada com a nomenclatura jovem na mesma proporção e, aparentemente, na mesma acepção, ou seja, sem a conotação psicológica. Essa conotação só entraria em

cena, de forma significativa, nos anos 40 e 50, mas demoraria a ser incorporada aos dicionários de língua portuguesa, como o levantamento feito revelou. Nos dicionários de língua portuguesa da década de 194075, adolescente/adolescência aparecem significadas, respectivamente, como “moço, mancebo, período que na idade do homem sucede ao da puerícia e que abrange desde os 14 até os 25 anos, pessoa que está na adolescência, que está no começo, que não atingiu ainda todo o vigor”. Nas décadas de 50 e 60, persistem os mesmos sinônimos para somente, na década de 70, além da significação usual dos períodos anteriores, o termo adolescência ganhar novo significado:

[...] período que se estende da terceira infância até a idade adulta, caracterizado, psicologicamente, por intensos processos conflituosos e persistentes esforços de auto-afirmação. Corresponde à fase de absorção dos valores sociais e à elaboração de projetos que impliquem plena integração social (FERREIRA, 1975, p. 39).

Essa nova significação, incorporada ao dicionário, é reveladora da apropriação de discursos da psicologia pelos linguistas, evidenciando como essa ciência ganhara presença na cultura brasileira.