Na interpretação de Alex Varela, para compreendermos melhor as razões pelas quais João Manso foi destituído de seu cargo de inspetor da fábrica de Sorocaba, é necessário recorrermos ao histórico que marcou o processo de institucionalização e formalização das atividades de mineração em todo o Império português. Não basta dessa maneira olhar apenas para as impressões pessoais de Antônio Mello Castro para com o químico naturalista.441
Em maio de 1801, por exemplo, José Bonifácio foi nomeado intendente geral das minas e metais do reino de Portugal, e para além das questões burocráticas o cargo exigia bastante conhecimento dos estudos naturais. No século XVIII, no norte europeu, por conta das necessidades ligadas às mudanças industriais, ocorreu um grande incentivo ao estudo do subsolo e a exploração dos minerais. Bonifácio teve a oportunidade de estudar na Saxônia, onde aprimorou seus conhecimentos, e esse foi um dos motivos de sua nomeação como Intendente das Minas442.
Portugal, inspirado pelos seus pares do além-Pirineus, também começou a investir nos estudos do seu solo e nas pesquisas da área de mineração. Em 1802, definiram-se as competências e atribuições do cargo de Intendente Geral, ocupado por Bonifácio. Ele seria o diretor e administrador das minas e ferrarias de Portugal, estando subordinado a essa função todas as pessoas e oficiais que nelas trabalhassem, bem como os indivíduos empregados nas minas e estabelecimentos minerais portugueses, fossem funcionários reais ou companhias particulares de mineração443.
Além do trabalho com a administração das minas, o luso-brasileiro também seria responsável pela direção dos bosques e matas. Afinal, sem madeiras, lenhas, carvão e outros recursos naturais, não era possível construir fábricas de ferro, as quais tinham uma alta demanda energética nas operações dos fornos. Durante o período que ocupou seu cargo, o naturalista fez várias viagens pelo reino português, produziu vários materiais que depois foram publicados na Academia Real das Ciências de Lisboa e veiculadas no espaço colonial.444
No Brasil, como parte desse projeto pragmático que começou a se acentuar no início do século XIX, Martim Francisco, irmão de Bonifácio, foi nomeado para seu cargo em São
441 VARELA, Alex Gonçalves. Op cit, 2009, p.150-1. 442 Ibidem, p.151-2.
443 Ibidem, p.151-2. 444 Ibidem, p.151-2.
Paulo. Nascido em Santos, em 1775, o luso-brasileiro entre 1794-1798 esteve em Portugal, onde estudou na Universidade de Coimbra, completando os cursos de matemática e filosofia natural. De acordo com Varela, “ali, ele e seus dois irmãos José Bonifácio e Antônio Carlos, todos membros da elite colonial, reuniram-se às elites cultas da metrópole, leram as mesmas obras e receberam a mesma formação.”445
Em sua passagem pelo Arco do Cego, Martim Francisco foi responsável por duas traduções, uma na área agrícola e outra na área de mineralogia. A primeira tradução, feita em 1799, foi de um “Manual Mineralógico”. O autor da obra era o sueco, Torben Olof Bergman (1735-1784), que estudou na Universidade de Upsala. O manual trazia um importante método de classificação dos minerais que, com certeza, foi utilizado no Brasil446.
A criação do cargo que de Diretor Geral das Minas de ouro, prata e ferro da Capitania de São Paulo, portanto, faz parte de uma série de medidas implementadas pelo governo português que tinham por objetivo:
(...) modernizar as técnicas empregadas na extração mineral, aperfeiçoar a formação dos mineiros e, ainda, qualificar uma autoridade para instrução e orientação dos trabalhos. Tratados de mineração foram traduzidos e impressos para os trabalhadores e enviaram-se naturalistas a diversas áreas dos ‘sertões’ (interior) para observar a mineração.447
Segundo Pratt, nos últimos anos do século XVIII a exploração dos interiores dos continentes havia se transformado no objeto principal das energias e imaginação expansionistas. A mudança teve significativas consequências para a forma dos relatos de viagem, “exigindo e dando vazão a novas formas de conhecimento e autoconhecimento europeus, novos modelos para os contatos europeus além fronteiras e novas formas de codificação das ambições imperiais europeias.” Nesse período, portanto, muitos “escritores- viajantes” vão abandonar as tradições da literatura de sobrevivência ou aquelas narrativas de navegação para se envolver com o projeto de construção de um conhecimento da história natural448.
445 VARELA, Alex Gonçalves. As atividades científicas do naturalista Martim Francisco Ribeiro de Andrada
na Capitania de São Paulo (1800-1805). In: v.14, n.3, jul.-set. 2007, p.951.
446 Idem, p. 952; VILLALTA, Luiz C. Reformismo Ilustrado,Censura e Prática da Leitura: Usos do livro na
América Portuguesa. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo,
1999. Tese de Doutorado, p.115-123.
447 FIGUEIRÔA, S. F. de M., Silva, PATACA, Ermelinda Moutinho; SILVA, Clarete Paranhos da. op cit, 2004,
p. 39-40 Apud VARELA, Alex Gonçalves. Op cit, 2007, p.953-4.
Instruído por Domenico Vandelli, Martim Francisco, logo que chegou em São Paulo iniciou uma série de viagens pelo território, “pesquisando, e descrevendo pormenorizadamente as produções minerais presentes no solo da capitania.” Segundo Varela, os diários produzidos pelo naturalista demonstram que nas suas viagens ele seguiu as instruções e empregou todo o instrumental teórico e prático adquirido em sua formação. Nesse sentido, as instruções de Vandelli foram fundamentais, pois elas tinham como parâmetro a produção de uma história natural das colônias. Assim, um grande inventário da natureza deveria ser realizado utilizando os métodos de classificação dos seres, baseado principalmente na teoria desenvolvida por Carl Von Lineu (1707-1778)449.
Entre 1803 e 1805, Martim Francisco realizou percorreu muitos locais, todos eles registrados em seus diários.450 Em boa parte dos percursos, seguiu pelas cercanias das margens do rio Tietê, a principal “artéria fluvial” utilizada para o deslocamento em São Paulo, desde a época do bandeirantismo. No entanto, as diligências também percorreram regiões litorâneas, como a faixa entre Santos e Cananéia. Varela, ao analisar boa parte do material produzido pelo naturalista, propõe a seguinte conclusão:
Os diários das viagens de Martim Francisco, verdadeiros e minuciosos inventários, informam sobre minerais e vegetais de cada localidade, habitantes, produção agrícola, belezas naturais, (...) problemas regionais, entre outros aspectos. Não há, porém, indícios de que tenham sido complementados por mapas ou qualquer outra iconografia. Nos diários observamos a preocupação com a descrição detalhada dos elementos do mundo natural, intimamente relacionado à fixação do que era verdadeiramente útil.451
Para Varela, os diários são importantes por um outro motivo, pois neles é possível observarmos as relações de mudança acerca da história natural, quando a mineralogia começou a se caracterizar como uma ciência de campo, parte essencial de sua prática a partir do final do século XVIII. Até então, todas as áreas da história natural, zoologia, botânica e mineralogia eram consideradas como “ciências de gabinete”. Portanto, “é na nova interface entre campo e laboratório que as viagens de Martim se situam.”452 Acrescentamos que a atuação de João Manso também se insere nessa interface, ainda que ele tenha realizado sua formação de maneira autônoma no Brasil.
449VARELA, Alex Gonçalves. Op cit, 2007, p.959-60; SILVA, Clarete Paranhos da. Garimpando memorias: as
ciências mineralógicas e geológicas no Brasil na transição do século XVIII para o XIX. 2004, p.38.
450 Para consultar as referências completas dos diários de Martim Francisco Andrada, ver: VARELA, Alex
Gonçalves. Op cit, 2007.
451VARELA, Alex Gonçalves. Op cit, 2007, p.961.
Em sua primeira viagem pela Capitania de São Paulo, com início em janeiro de 1803, Martim Francisco fez o seguinte itinerário: São Paulo, Barueri, Parnaíba, Pirapora, Monte Serrat, Itu, Salto, Sorocaba, Paiol, Lambari, Votorantim, Porto Feliz e, novamente, Itu. Foi nessa primeira etapa que ele visitou o Morro de Araçoiaba e suas minas de ferro, produzindo um relato cheio de detalhes 453.
O naturalista chegou em Sorocaba no dia onze de fevereiro de 1803, e dizia que a Vila não tinha “regularidade alguma, suas casas, bem mais altas do que as de Itu, estão semeadas aqui e acolá, de sorte que não se observa alinhamento algum em ruas.” O comércio do local reduzia-se “à venda das tropas de gado, vindas do sul.” Em relação aos cultivos, na Vila e nos seus contornos persistia a plantação de “milho, feijão, algodão, pouco café, e alguma cana de açúcar; já conta doze fábricas de açúcar, e outras de águas ardentes.” 454
Nos dias seguintes, entre doze e quinze de fevereiro, Martim Francisco expediu várias ordens para se “abrirem os caminhos pelos quais possa dar princípio aos meus exames no morro de Araçoiaba.”455 O pedido nos indica que o local, além de distante de Sorocaba, não era tão frequentado, pois não tinha ao menos um caminho regular aberto. Mesmo após tantas tentativas de exploração das minas nenhum percurso se consolidou, e possivelmente as únicas opções eram através de pequenas trilhas que cortavam as matas, estas talvez antigas rotas indígenas.
No dia dezesseis de fevereiro, Martim Francisco iniciou seu deslocamento até as minas. Contando o tempo de viagem mais a sua estadia no Araçoiaba, no total foram transcorridos dezesseis dias no morro. No trajeto entre a Vila até o Araçoiaba, descrições minuciosas foram feitas sobre o terreno, os rios e a qualidade da vegetação. No entanto, os detalhes sobre os tipos de minerais sempre ocuparam a maior parte do diário. O morro tinha em sua extensão maior “duas léguas”, aproximadamente, foi denominado pelos lavradores do local a partir da divisão de “três cabeças” principais456.
Todo ele é coberto de matas, exceto no lugar das furnas; grande vale central [que] domina por todos os jugos, que formaram este monte. Ele se divide em três grandes [cabeças], denominados pelos do país Morro de ferro, Morro vermelho, e Morro de Araçoiaba propriamente dito, além de outros menores, os quais todos são cortados por diferentes vales.457
453 Jornais das viagens pela Capitania de São Paulo por diferentes vilas até Sorocaba, principiada a 26 de janeiro
de 1803. In: ROTEIROS e notícias de São Paulo colonial, 1751-1804. Coautoria de Marcellino Pereira Cleto et al. [s.l.: [s.n.], 1977.
454 Idem, p.156. 455 Ibidem, p.156-7. 456 Ibidem, p.159. 457 Ibidem, p.159.
A fim de “descrever extensamente o mineral de ferro, sua riqueza, e abundância, em marcar o lugar em que se devem levantar as ferrarias” e “ dar uma noção sobre a abundância das águas, matas, fundente, e todos os demais misteres necessários para um estabelecimento”, Martim Francisco produziu uma memória a parte. A experiência realizada no governo de D. Luiz Antônio de Sousa novamente foi rememorada, a intenção era “fazer ver os erros, e por consequência os prejuízos, que tiveram os que empreenderam trabalhá-la” nessa tentativa.458
Segundo o naturalista, apesar das riquezas minerais das minas de Ipanema, por conta dos “particulares que empreenderam sua extração” e não tiraram lucro algum, outras pessoas da Capitania não se sentiram persuadidas para retomar o negócio, pois achavam que uma “empresa desta natureza seria sempre danosa ao estado.” As asserções, na opinião de Martim Francisco, eram proferidas principalmente pelas pessoas que possuíam terras no Araçoiaba e seus arredores, pois não queriam ser incomodadas. Outro motivo, seria a “incapacidade de conhecer os defeitos do método utilizada na antiga fábrica.”459
A memória, bastante extensa, está dividida em vários temas. O primeiro deles trata sobre o método utilizado pelo mestre João de Oliveira e seus ajudantes. Segundo Martim Francisco, eles “estratificavam o carvão e o mineral depois de ustulado e pilado, sem ajuntar fundente, entretinham o fogo por dois foles, e depois de um dado tempo achavam o ferro reunido em uma massa, que levavam aos malhos.”460
Segundo Alfagali, havia duas divisões entre os “artesãos do ferro e fogo”: primeiro, aqueles que fundiam o metal; depois, quem dava forma ao material, aquecendo e martelando- o. Ambas as tarefas poderiam contar com vários assistentes461. João de Oliveira, foi contratado para trabalhar como mestre para coordenar as construções necessários e fundir o minério das minas de Ipanema. Mas, como vimos, ele não conseguiu realizar tal tarefa, controlar o equilíbrio e a quantidade de ar insuflado no forno pelos foles não era algo fácil. No entanto, quando aquele sujeito escravizado teve a oportunidade de operar o forno ao seu modo, pode provavelmente mostrar as habilidades técnicas que possuía para manter o equilíbrio da temperatura e realizar a fundição do ferro. Já o velho ferreiro de Sorocaba, que apresentamos no início deste capítulo, certamente trabalhou tanto nas tarefas da fundição do minério como nas de ferreiro, dando forma aos objetos.
458Descrição do morro, do mineral de ferro, sua riqueza método usado na antiga fábrica, seus defeitos. In:
Publicação oficial de documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.95, p.77-81.
459 Ibidem, p.77-81. 460 Ibidem, p.77-81.
Contudo, para Martim Francisco, parte do insucesso das fundições no período de D. Luiz Antônio de Sousa também seria o tamanho dos fornos, que tinham “cinco palmos de altura”. Para o naturalista, o uso do pequeno forno “só podia caber na mente de homens ignorantes do ofício o que parece que procuravam por gosto a sua ruína.”462
Se tomarmos como parâmetro essas conclusões pragmáticas, ao tratarmos sobre a história da exploração das minas de Ipanema, incorremos na prática comum de excluirmos as dimensões centro-africanas. E, assim, naturalizamos a noção de que outras formas de aproveitar o minério de ferro que não pelos altos fornos industriais são primitivas. Como vimos, muito ferro produzido em Angola, na “Casa de Fundição dos Pretos”, foi enviado ao Brasil, inclusive, para a Capitania de São Paulo. E como ele foi produzido? Através do método dos Ambundos, utilizando pequenos fornos.
Aqui, novamente, é necessário um parêntese para explicarmos alguns detalhes técnicos do processo de fundição. De acordo com Alfagali, nos altos fornos industriais, o produto das fundições é o chamado “ferro gusa líquido”, o qual tem um teor de ferro de 95%, e pode ser utilizado em distintos moldes, como, por exemplo, na produção de armas, objetivo bastante almejado pelos portugueses. Nas fundições africanas, presentes nas fontes sobre Nova Oeiras consultadas pela autora, o ferro era adquirido em estado sólido por meio de um método conhecido como “redução direta”. Em termos químicos, o processo se dava “pela redução dos óxidos de ferro em ferro metálico em temperaturas abaixo do ponto de fusão.” O combustível utilizado era o carvão vegetal que fornece energia, calor, que quando combinado com o oxigênio, ao longo do processo de combustão, produz o monóxido de carbono. O monóxido de carbono é fundamental, pois ele permite a criação de uma atmosfera de redução para o minério de ferro. Nesse sentido, o equilíbrio da quantidade de ar, insuflado por meio dos foles, é fundamental, pois ele cria uma maior área de redução e, portanto, maior área de trabalho nos fornos 463.
Em resumo, segundo Alfagali, “a quantidade maior ou menor de moléculas de carbono combinadas com o ferro resulta em metais com diferentes propriedades”. Assim, o ferro com menor taxa de carbono é mais maleável, já o aço é o ferro com um moderado conteúdo de carbono, mais durável e resistente. E o ferro fundido com alta concentração de carbono poderia ser pouco tenaz e difícil de forjar. Esse é o caso da maior parte do ferro fundido nas tentativas de João de Oliveira e seus ajudantes. Contudo, nem todo o ferro produzido por eles
462 Descrição do morro, do mineral de ferro, sua riqueza método usado na antiga fábrica, seus defeitos. In:
Publicação oficial de documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.95, p.77-81.
no pequeno forno de “cinco palmos de altura” era imprestável, e os próprios capitães mores em 1784, ao proferirem o pedido para retomada do estabelecimento, reconheciam que vários objetos, forjados nas minas de Ipanema, estavam espalhados pela Capitania464.
Como já demonstramos anteriormente, por muitos anos acreditou-se que nos fornos baixos, também chamados de bloomery, não era possível atingir altas temperaturas. Como vários ilustrados, inclusive Martim Francisco, acreditavam, apenas nos altos fornos seria possível atingir o ponto de fusão do minério de ferro. No caso centro-africano, explica Alfagali, o objetivo dos fundidores não era apenas atingir altas temperaturas. A intenção era manter a temperatura controlada em torno de 1200°C e 1300°C. Dessa maneira, a atmosfera de redução do forno seria suficiente para criar um ferro fundido com baixo teor de carbono, e, portanto, um material que poderia ser forjado pelos ferreiros em distintos objetos465.
Martim Francisco, ao proferir essas deduções, de maneira indireta reforça um olhar colonial a respeito dos povos africanos, considerando-os pessoas desprovidas de capacidades para utilizar seus recursos naturais. E, mais uma vez, acoberta a importância da história centro- africana para os planos ilustrados portugueses e suas relações com as explorações das minas de Ipanema no Araçoiaba. Por isso, é importante conhecermos essa outra face da história da mineralogia, das ciências, dos saberes, que não é apenas europeia.
Depois das considerações sobre os métodos utilizados por João de Oliveira e seus ajudantes, Martim Francisco se ateve as condições necessárias para instalação de uma “máquina grande” no Araçoiaba. Uma delas seria realocar os cerca de cento e sessenta moradores que estavam no morro. As instruções para as autoridades coloniais era para que eles fossem proibidos de derrubar matas virgens e “capoeiras altas”, poderiam fazer plantações em “capoeiras baixas” até o início do estabelecimento, depois deveriam ser retirados do terreno. Como já demonstramos, desde a época de João Manso, a ideia era comprar uma sesmaria para realojar esses moradores. Porém, apenas aqueles com título de posse teriam direito a indenização466.
O objetivo de manter os moradores longe das matas virgens era proteger a produção de carvão, fundamental para o funcionamento dos fornos. Martim Francisco afirmava que havia lenhas de qualidade para a fábrica. Ele confirmou tal informação com os ferreiros de Sorocaba a partir de uma experiência por ele realizada, ao fundir um pouco do minério de ferro no próprio
464 Ibidem, p.267-9. 465 Ibidem, p.267-9.
466 Descrição do morro, do mineral de ferro, sua riqueza método usado na antiga fábrica, seus defeitos. In:
local. No entanto, insistia que era necessário ensinar aos “carvoeiros do país o modo de fazer usado em Suécia, França e Alemanha.” A intenção era que o carvão fosse feito nas matas do “Distrito Mineiro”, próximas ao local onde a fábrica seria construída, assim haveria pouco custo com o carreto. Como a demanda por carvão seria alta, Martim Francisco instruiu que os moradores do termo da Vila de Sorocaba não vendessem “as lenhas para fora, pois delas pode vir a carecer a fábrica.” Como “as margens do rio Sorocaba são muito abundantes de arvoredos, o carvão que ali se fizer, pode ser transportado por ele abaixo, e dali pelo Ipanema acima em canoas.”467
Desde o final do século XVI, as tentativas de se estabelecer uma fábrica se restringiram ao local do chamado “vale das furnas”. Foi nesse lugar, inclusive, que foram feitas as escavações arqueológicas, datando e identificando alguns materiais e o tipo de forno utilizado nas primeiras explorações. Todavia, na memória descrita por Martim Francisco, as ferrarias deveriam ser estabelecidas nas margens do rio Ipanema. Primeiro, porque o local tinha abundância de água, essencial ao funcionamento das máquinas hidráulicas como os foles e malhos. Depois, o lugar estava aos pés do morro, funcionando como centro das minas e das matas. Além de tudo, o terreno era uma planície contínua, onde o naturalista julgava ser a melhor localidade para os edifícios. Sendo o local plano, os materiais seriam facilmente transportados, tanto por terra como pelo rio Ipanema. Um dos materiais a serem conduzido, por exemplo, além do minério eram os fundentes.468
As experiências de João Manso, já haviam mostrado a necessidade de um fundente para a fundição do minério. O fundente seria um agente químico que quando misturado com o