ISSUE: HUMAN RESOURCE DEVELOPMENT
B. The Strategic Issues
Gabriel Marcel, filho único de Henry e Laura, nasceu em Paris no dia 7 de dezembro de 1889 e faleceu no dia 8 de outubro de 1973. Marcel, aos quatro anos experienciou um momento de dor, a morte de sua mãe. Este fato que, seguramente, marcou a sua existência e, consequentemente, a sua obra. Com a morte de Laura, Gabriel foi morar com a sua tia Marguerite78, que se tornou sua madrasta, pois contraiu núpcias com o Henry Marcel.
O seu progenitor, católico, exerceu cargos públicos junto ao governo francês, foi diplomata e conselheiro de Estado. Por um ano e meio, em Estocolmo, foi ministro plenipotenciário da França, também desempenhou outros cargos, dentre os quais se destaca a direção de uma Academia de Belas Artes. O ambiente cultural no qual Marcel foi criado era, pois, de alto nível.
Marcel relata o costume e o gosto em viajar. Este hábito foi acentuado após 1947, fato que lhe permitiu manter contato com diferentes escritores e pensadores, em especial os de origem Anglo-saxónica e germânica. Em suas palavras: “O frequente contato com escritores estrangeiros, principalmente anglo-saxões, sem esquecer os de procedência germânica (por exemplo, Jackob Wassermann) contribuiu essencialmente para conformar a minha vida naquela época.” (MARCEL, 1967, p. 10-11). Aqui aparece veladamente um de seus princípios de vida e de escritor, quer a nível de Teatro, quer na esfera da Filosofia: o valor do encontro com o outro, a alteridade79, é fundamental para que o existente possa conhecer a si e reconhecer o
outro e, neste processo, desvelar o mistério do ser.
É interessante perceber alguns princípios comuns entre Gabriel Marcel e Martin Buber: ambos foram privados da convivência materna, este por ser abandonado e aquele por ficar órfão; nenhum dos dois admitia uma filosofia abstrata, já que para eles a verdadeira filosofia é concreta, é encarnada, nasce da concretude da existência, não de teorias vazias e despersonalizadas; os dois mencionam o amor à filosofia, dizem ter se apaixonado por ela ainda na juventude, como enunciaram foi amor à primeira vista. Buber, como já explicitamos, testemunhou o despertar de sua paixão pela filosofia quando teve contato com as obras de Kant
78 Marguerite foi uma figura importante e enigmática: tia, mãe e madrinha de Gabriel Marcel. De origem judaica, ela se converteu ao protestantismo e educou o sobrinho, afilhado e filho, em um ambiente de rígida disciplina. 79 Conforme nota 75, o tema da Alteridade foi o fundamento da investigação cujo resultado apresentamos na
e Nietzsche; por sua vez, Marcel revela: “[...] quando, [...] pela primeira vez tive ideia do que podia ser a filosofia, compreendi que ela era quem me chamava.” (MARCEL, 1967, p. 7). A paixão do pensador francês pela filosofia não era única, ela também nutria fortes sentimentos pela música e pelo teatro.
Marcel, à semelhança de Agostinho de Hipona, a princípio não era cristão80. A
conversão ao cristianismo marcou e influenciou a forma de conceber a vida e o mundo81 dos
dois pensadores. Um e outro relatam a sua própria conversão: Agostinho por volta dos 32 anos de vida, Marcel por volta dos 40 anos, este foi batizado em 23 de março de 1929. O medieval teve a influência direta de sua mãe: Mônica, e o contemporâneo dos amigos Mauriac e, especialmente, Charles Du Bos.
É importante rememorar alguns dados da História, por serem vitais para compreender melhor o pensamento de G. Marcel. Ele tinha 24 anos quando eclodiu a Primeira Grande Guerra: 1914-1918; o pós-guerra foi marcado por grave crise econômica82, cujo marco foi o
crack da bolsa de Nova York, em 1929. Na ocasião, ele tinha 40 anos, quatro anos depois, testemunhou o início do maior e mais sangrento conflito da história moderna: a Segunda Grande Guerra: de 1933 a 1945. Os dados explicitados permitem inferir que a época na qual viveu o pensador francês foi marcada por conflitos e crises de grandes proporções que, direta ou indiretamente, influenciaram a sua percepção de mundo.
A memória histórica83 de Gabriel Marcel foi marcada por sua experiência pessoal
durante a Primeira Guerra Mundial. Nas palavras de Marcel,
[...] a primeira guerra mundial influenciou notadamente minha evolução interna, embora, devido a minha débil constituição, não fui convocado para o combate. Me incorporei ao serviço da Cruz Vermelha, e esta atividade me fez considerar a guerra, não tanto de uma perspectiva política, mais sim de uma perspectiva existencial, em
80 A título de esclarecimento, na época na qual viveu Agostinho, bastava dizer “ele era cristão”, contudo, a religião cristã passou por algumas divisões históricas. Em 1054, houve a divisão entre católicos romanos e ortodoxos: Cisma Oriental. Porém, a partir de 1517, não existem mais apenas cristãos católicos. Com o advento da Reforma religiosa, a religião cristã subdividiu-se em diferentes denominações religiosas, e, em nossos dias, é possível verificar a criação de nossas igrejas. Sob o nome cristianismo encontram-se todas as igrejas que professam a fé na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
81 O cristianismo teve influência marcante na vida e na obra de G. Marcel, que, após a sua conversão, procurou estreitar os laços com filósofos e teólogos tomistas, em especial com Jacques Maritain. O próprio Marcel realça a amizade com certas personalidades concretas que formam o círculo de interno dos dominicanos, destacando o padre Maydieu e Gustave Thibon, que muito contribuíram para o esclarecimento de certos problemas humanos e, ainda, Max Picard, que, a partir de 1947, muito o impressionou.
82 A crise não teve início com a quebra da Bolsa, este fenômeno foi consequência de uma especulação financeira desenfreada, busca de lucro a qualquer preço, desorganização econômica, cujos resultados foram catastróficos: falência de bancos e empresas, desespero, desemprego, ou seja, pesadelo e miséria.
83 Marcel, citando os textos de Clio, explicita a diferença entre história e memoria “A história consiste essencialmente em passar ao lado do acontecimento” é, pois, uma maneira de perder contato com a realidade, ou esquecer o espírito vivenciado, os fenômenos são descritos abstratamente. Por sua vez, “A memória consiste essencialmente, por estar dentro do acontecimento, em não sair dele”. (MARCEL, 1951, p. 36). A memória, mantida na tradição, não permite esquecer, as pessoas reavivam o passado, já que dão testemunho.
seus efeitos sobre a imagem moral dos mesmos, como seres viventes. É quase certo que aqui está a origem remota de tudo o que muito mais tarde, uma vez passada a II guerra mundial, me impulsionou a escrever. (MARCEL, 1967, p. 8-9).
O testemunho de G. Marcel é explicitado por Zilles,
Quando começou a 1ª Guerra Mundial, em 1014, Gabriel Marcel passou a atuar na Cruz Vermelha na procura de soldados desaparecidos. Neste trabalho, entrava em contato com os familiares dos mortos. Despertou para a realidade de um mundo invisível, no qual a presença dos seres amados não desaparece. (ZILLES, 1995, p. 57).
Eis uma experiência vivida na intersubjetividade, Marcel em contato com os familiares dos soldados desaparecidos, experienciou a possibilidade da presença, mesmo na ausência. Os desaparecidos estavam presentes e na presença dos seres que os amavam: eram memória viva na alma dos familiares. Aos 24 anos, o jovem parisiense vivia uma experiência paradoxal: para os governantes e os militares envolvidos na Guerra, os soldados, por vezes, desconhecidos, despersonalizados, eram instrumentos utilizados em táticas e estratégias de guerra. Não levam o nome, mas uma plaqueta de identificação, se fossem mortos, capturados, desaparecidos, eram, na medida do possível, substituídos – enquanto o conflito continuasse. Por sua vez, para os familiares, que buscavam os seus entes amados, estes não eram plaquetas, tinham nomes, famílias, histórias, enfim memória.
Ao término da Primeira Guerra, além de iniciar uma vasta produção, nas áreas de filosofia e teatro, Marcel contraiu núpcias com Jacqueline Boegner. Ela era cristã, mas não católica. Após a conversão de Marcel, em 1929, permaneceu ligada ao protestantismo até 194384, quando, quatro anos antes de falecer, assumiu a profissão de fé da Igreja Católica
Apostólica Romana.
As obras de G. Marcel possuem características especiais, nelas, o autor não escreve sistemas, produz pequenos textos, que, de quando em quando, são agrupados em livros, como, por exemplo, Le Mystère de L’être, publicado em 1951. O livro contém 20 conferências85,
proferidas na Universidade de Aberdeen, entre maio de 1949 e 1950. Elas integram um evento denominado Gifford Lectures: palestras notáveis.
84 Em relação à data, na qual Jacqueline se converteu ao catolicismo, registra-se um desencontro de informações, segundo Arcolo, o fato ocorreu em 1943, porém, Zilles (1995) atesta que foi em 1944.
85 Em Aberdeen, Edinburgh, Glasgow e St. Andrens, realizavam-se anualmente as chamadas palestras notáveis. Destaca-se que as palestras de Gifford constituíam a mais prestigiada honra da academia da Escócia. Eram apresentadas ao longo do ano letivo e, posteriormente, editadas e publicadas em forma de livro. Um exemplo é a obra marceliana Le mystére de l’Être. Ela é composta de 20 conferências, 10 proferidas em maio de 1949, 10 em maio de 1950, publicadas em dois volumes, em 1951. Contudo, a edição em espanhol traz as 20 colocações em volume único.
Os textos escritos por Marcel possuem duas peculiaridades: são curtos, como já foi dito, e redigidos em linguagem personificada, pois, segundo ele: “É propósito do autor manter o caráter que poderíamos chamar falando86”. Ele justifica a escolha, afirmando que destaca
melhor o caráter de busca que distingue a obra87, e ainda, de modo mais específico, realça o
fato de dirigir-se a seres individuais: pessoas concretas e não a inteligências abstratas e anônimas. G. Marcel deseja despertar “[....] uma via de profunda reflexão mediante uma verdadeira anamnese no sentido socrático da palavra”. (MARCEL, 1953, p. 9).
Os primeiros textos, produzidos por Marcel, foram redigidos ao término da Primeira Grande Guerra, entre 1919 e 1927. São deste período as peças teatrais, Un homme de Dieu; La
Chapelle Ardente; Le Coeur dês autres, e a obra Journal Métaphysique88. Eis mais alguns
exemplos do legado intelectual e humano do pensador francês, Être et Avoir, 1935; Du Refus
à Invocation89, 1940, Homo Viator90, 1944, Le Mystère de L’être, 1951, Les Hommes contre
l’Humain, 1951.
Alguns princípios fundamentais perpassam o pensamento marceliano, por exemplo, só admite como verdadeira filosofia a que for concreta, portanto, rejeita o puro uso da razão desencarnada, ele não aceita a abstração. E ainda, prefere utilizar a expressão “meu pensamento filosófico” em relação à expressão “minha doutrina” (MARCEL, 1951, p. 05). O fato é relevante, pois Marcel parte do princípio, consoante o qual, nenhuma pessoa é “dona da verdade”, ninguém tem a posse da verdade, portanto, não é possível verdadeiramente dizer “minha filosofia”. Na concepção marceliana, a expressão “minha filosofia” refere-se a algo sistematizado, fixo, diz respeito a verdades definitivas, enquanto o termo “meu pensamento” indica um constante movimento. Zilles (1995), ao abordar o tema, utiliza a expressão pensamento pensado, o que implica em reflexão constante na busca de respostas. O legado de Marcel é amplo e diversificado, em geral, as suas reflexões foram registradas em pequenos
86 Tradução do pesquisador, no que diz respeito à citação literal e na paráfrase das ideias. Conforme o texto em espanhol: “Es propósito del autor mantener ese carácter que podríamos llamar “hablado”. Considera que de ese modo se destaca mejor no solamente el carácter de búsqueda que distingue a la obra, sino también y más especialmente el hecho de dirigirse, no a una inteligencia abstracta y anónima, sino a seres individuales en los que trata de despertar cierta vía profunda de reflexión por una verdadera anamnesis en el sentido socrático de la palabra” (MARCEL, 1953, p. 9). Prefácio escrito em 10 de janeiro de 1951.
87 As informações constam no prefácio do livro El mistério do Ser, versão em espanhol da obra original de 1951. Ela reproduz as palavras do próprio Marcel, ao apresentar as conferências de Gifford. Contudo, ao analisar as suas obras, é possível inferir a validade do que foi dito a respeito desta obra, para as demais: isto é característica do autor.
88 Os textos da obra publicada em 1927 trazem registros a partir de janeiro de 1914. Porém, Marcel, em 1951, menciona escritos inéditos escritos em 1911 e 1912.
89 A obra Du Refus à l’Invocation, de 1940, foi relançada segundo Zilles, em 1967, com o título Essai de
Philosophie Concrète.
90 Esta obra é constituída de vários artigos, escritos, se não todos, na sua grande maioria, durante a ocupação nazista da França. A esperança de libertação perpassa o pensamento de Marcel.
textos, dentre os quais é possível averiguar as categorias apresentadas na sequência deste trabalho.