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EXPLOITING NATURAL RESOURCES AND DIVERSIFYING INTO PROCESSING AND MANUFACTURING

INTERNATIONAL ACTION

II.7 EXPLOITING NATURAL RESOURCES AND DIVERSIFYING INTO PROCESSING AND MANUFACTURING

O homem, como já foi citado, nasce com a capacidade de fazer escolhas, o que permite eleger o seu ser, ele é chamado a ser e usa a aptidão que lhe é peculiar, a liberdade para tornar- se. A liberdade constitui a condição humana, não há como negar a possibilidade de as pessoas fazerem escolhas. À medida que exercitam este dom, edificam a si e ao mundo.

O existente é chamado, vocacionado a instituir o seu ser ao longo da existência, contudo sua liberdade é de tal magnitude que poderá escolher não escolher. Em outras palavras, diante do chamado que lhe é dirigido a pessoa poderá dizer sim e assumir a responsabilidade de delinear o seu destino e o seu ser no mundo, mas poderá renunciar ao exercício da liberdade, sem perder a possibilidade de retomar a destreza do livre-arbítrio.

Aqui, vislumbramos o primeiro e inevitável exercício da liberdade: escolher ser ou apenas existir. A escolha primordial não tem como ser recusada, porque a liberdade integra a condição humana; entretanto, a partir desta primeira escolha, o processo e as consequências serão distintos: quem optar pela liberdade continuará a exercitar o livre-arbítrio, agindo para se tornar o ser que escolhe ser. Por sua vez, quem, pseudamente, renuncia à liberdade, escolhe existir, sem verdadeiramente ser.

A liberdade é concebida por Marcel como nexo entre o ser e o existir, desta forma, quem faz opção por ser assumirá a autêntica liberdade, não renunciará à capacidade que lhe é peculiar e, ao longo da jornada da vida, responderá aos chamados que lhe são dirigidos, para edificar o seu ser. Por sua vez, quem não resiste à tentação de se objetivar, não perde a capacidade de viver a liberdade, todavia “abre mão” de dela fazer uso, mesmo que temporariamente, delega o direito de escolha a terceiros, entretanto, a qualquer momento, enquanto existir, poderá se converter e retomar a direção da própria existência.

Não só presentamos a possibilidade de um ser livre “abrir mão” do direito de escolher edificar o seu ser, como também refletimos a respeito do que é um homem livre. Contudo, faz- se necessário conjecturarmos a respeito das liberdades perdidas ou inviabilizadas por fatores externos: outros existentes denominados por Marcel (1951) manipuladores.

Marcel apresenta os Estados totalitários, os governantes e os políticos como os manipuladores, que, além de não garantirem ou promoverem a liberdade educando as pessoas,

muitas vezes trabalham em sentido oposto, evitando ou dificultando a emancipação em sentido kantiano. Os manipuladores ainda utilizam mecanismos de aviltamento e usurpam a liberdade de quem já edificou parcialmente o seu ser, provocam a perda da liberdade e de direitos conquistados. Neste cenário, um homem só é livre na medida em que mantém vínculos com o transcendente, e, ainda, não se deixa ser subjugado pelo Estado, ou demais instituições. Porém, os Estados totalitários, quer de direita, quer de esquerda, procuram suprimir as liberdades individuais em nome dos interesses comuns, do Estado. Ademais, mesmo em Estados nos quais vigore a democracia, em que teoricamente as pessoas sejam livres, Marcel fala da possibilidade de perder a liberdade104.

Coerente com a crença, segundo a qual, o Filósofo deve estar atento aos desafios da existência, buscando respostas concretas para viabilizar ao existente a possibilidade de ser, Marcel chama a atenção para mecanismos e ações, danosas à vivência da liberdade, promovidas por instituições, partidos, governos e, especialmente, pelo Estado. Dentre os alertas registrados em Marcel (1951), destacamos algumas das chamadas técnicas de aviltamento: propaganda com objetivo de alienar; usar os momentos de crises para autopromoção ou conquista de poder; disseminar sentimentos de ódio, insegurança, ressentimento, individualismo, inveja, desavenças e Fake News.

Vale relembrar o que foi mencionado em relação à crise do homem contemporâneo, em meados do século XX: crise metafísica, ontológica, do ser relegado e subjugado pelo ter. Marcel, ao refletir sobre a história francesa, em especial o período pós-guerra, constata crises: econômica, política e social. Ele conclui que a principal causa da crise era a desumanização, a supressão da liberdade, a incapacidade de viver o amor, a esperança e a fidelidade. Ora, o homem existe para se tornar, ser o que faz de si ao longo da jornada da vida. Quando recusa cumprir esta missão, recusa viver e conforma-se ao existir. Neste contexto, é importante destacar que, no período histórico no qual estamos inseridos, vale um alerta dado por Marcel há aproximadamente setenta anos: cuidado com as crises, principalmente, as fomentadas artificialmente, pois podem suscitar pessoas com interesses políticos partidários, que visam apenas a interesses pessoais de posse e de poder: estas procuram tirar proveito da situação, por isso apresentam-se como “a solução”. São pessoas que fazem interpretações tendenciosas, visando vender ilusões. Nas palavras de Marcel: “[...] visando o poder, vendem ilusões: “[...] hoje [meados do século XX], infelizmente a preocupação política pode falsear todas as

104 No texto Liberdades perdidas, segundo capítulo do livro Os homens contra o homem, Marcel (1951) , ao falar em perda das liberdades, deixa implícita a identificação deste fenômeno com a perda de direitos, por mecanismos utilizados pelo Estado.

discussões, todas as análises. ” (MARCEL, 1951, p. 35). Muitos dos alertas supracitados podem ser constatados nos dias atuais, por essa razão, é importante estar atento aos sinais dos tempos. A liberdade supõe autoconhecimento, consciência da alteridade e ciência da realidade, pois a pessoa só pode verdadeiramente escolher nestas condições. Ora, se políticos falsearem a realidade dos fatos, mascararem os acontecimentos, alienarem as pessoas, não lhes permitirão decidir conscientemente, portanto, manipuladas perderão a liberdade.

Marcel realça uma situação do passado, que pode ter semelhança com o presente neste cenário. Vale lembrar a relevância de se fazer memória do passado, pois se o reavivarmos, poderemos retirar lições importantes para melhor vivermos o presente. Marcel fez o supracitado alerta em referência às atividades de políticos nazifascistas ou de regimes totalitários, enfatizando as ações para tirarem vantagens das crises, principalmente das fomentadas artificialmente. Ele destaca o fato dos políticos manipuladores não se preocuparem em solucionar os problemas que afligiam as pessoas, por vezes, ao contrário, para benefício próprio, provocavam a insegurança, a fome, o desemprego, de modo efetivo ou por via de notícias falsas105.

A insegurança é um instrumento eficaz para quem deseja iludir, e, assim, chegar ao poder, ou nele se manter, para tanto, basta vender a imagem que é capaz de solucionar as questões pendentes e garantir a segurança, se conseguir associá-las a necessidades vitais, melhor ainda, para garantir a sobrevivência, as pessoas tornam-se mais suscetíveis ao fanatismo, ou deixam-se guiar com mais facilidade. Cientes desses fenômenos, as pessoas, ou melhor, os indivíduos inescrupulosos, oferecem garantias e segurança, sem nem mesmo pensar na possibilidade de efetivamente resolver tal questão.

Nos exemplos citados, sem exceção, apresentamos as consequências nefastas que, a nosso ver, em concordância com G. Marcel, assolam a França ou qualquer outro local se forem implementadas.

A supressão da liberdade também pode ser conquistada por meio de disseminação de ressentimentos, individualismo, inveja, desavenças, enfim, ações que dificultam ou inviabilizam o encontro. Os partidos, que assumem o governo, por vezes, usam este expediente e, por meio de propagandas, instituições de ensino, mídia e outros meios de comunicação e de “ensino “manipulam a massa, desta forma, fazem uma pessoa ver o seu semelhante como rival, concorrente a ameaçar o seu emprego, os seus sonhos e projetos. Tal expediente suscita o ódio

e o rancor entre pessoas, associações, comunidades, nações e países. Ora, estas medidas caminham em direção contrária ao estilo de vida proposto por Marcel.

Vejamos um exemplo dos dias atuais, analisado à luz do pensamento marceliano. A proposta de Reforma da Previdência, cujo anúncio e defesa pauta-se na garantia de recebimento futuro e promoção da igualdade. Na homepage da Secretaria Geral da Presidência, é possível ler “mudança nas regras vai garantir um País melhor, com serviços públicos melhores”, e. ainda,

O Governo do Brasil propõe a reforma da Previdência, que busca mais igualdade entre os brasileiros e fazer que políticos, juízes, e altos funcionários do serviço público passem a seguir regras semelhantes às dos trabalhadores da iniciativa privada. A nova lei para a aposentadoria não retira direitos, pelo contrário: ela promove a igualdade”. (BRASI, 1917?, homepage).

Marcel havia alertado para o fato, segundo o qual, os governantes difundirem o ressentimento, o espirito de competição, desavença e inveja. Se o fizerem com êxito, as pessoas poderão se alegrar com a perda de direito de outras pessoas, ficando felizes, não por conquistarem algum benefício, mas, por seus concorrentes perderem. O exemplo hipotético a seguir ilustra este pensamento: Maria Emília conquistou um cargo ambicionado por Júlia em uma grande empresa. Esta, por imaginar ou ser induzida a crer que a vaga seria sua, se não fosse “roubada” por Maria Emília, alegrar-se-á se aquela vier a ser demitida, mesmo que não consiga assumir o seu posto de trabalho.

No caso da Previdência, a proposta amplia a idade mínima para as mulheres se aposentarem, praticamente inviabiliza a aposentadoria por tempo de serviço, não concede nenhum direito à maioria dos trabalhadores assalariados, porém dizem-lhes que querem dar- lhes garantia de, no futuro, receberem suas aposentadorias. Falam-lhes para apoiarem a reforma, afirmando que não estão tirando os direitos dos trabalhadores, mas promovendo a igualdade, pois os outros terão direitos parecidos com os seus. Podemos notar que esta promoção de igualdade não é baseada na concessão de direitos, mas no rebaixamento de direitos de terceiros, sem que haja garantias que, de fato, os dados, apresentados para justificar a Reforma, sejam confiáveis.

A reflexão a respeito da proposta de Reforma da Previdência revela a atualidade do pensamento de Marcel, registrado em meados do século XX. A supressão da liberdade e de direitos requerida por partidos que apoiam o governo, justifica-se em nome de uma pseudo promoção de igualdade:

[...] os partidos que governam, convencidos com ou sem razão, de conduzir o país pela via do “progresso”, julgam que muitas liberdades perdidas, pelos abusos inerentes ou pela contrapartida de desigualdades injustificáveis, devem abandonar-se definitivamente, por corresponderem uma fase de organização (ou desorganização) felizmente ultrapassada. (MARCEL, 1951, p. 26).

Em nome do progresso, com a falsa promessa de igualdade, os partidos que governam, segundo Marcel (1951), conseguem o apoio das massas, doutrinadas via propaganda de caráter acentuadamente ideológico. As pessoas, sem receberem a educação que deveriam receber por direito, são moldadas para utilizar o prisma fornecido às massas pelo Estado, de tal maneira que possam pensar apenas em si, vivendo o individualismo, sem se importarem com a dor alheia, sendo necessário, no mais das vezes, lutar apenas para a própria sobrevivência. Neste contexto, é possível inferir que quem deseja alienar os indivíduos, deve impedi-los de se converterem em pessoas e subsumirem-nas na massa. Desta monta, a liberdade será negada e, consequentemente, o aviltamento concretizado: a pessoa será rebaixada, diminuída em um processo de despersonalização parcial ou total.

Segundo Marcel (1951), os partidos, ou governos, que desejam despersonalizar a população, via propaganda, convencem as pessoas, em especial as mais necessitadas, que as medidas adotadas, conferem-lhes benefícios, mas, na verdade, isto não é real. A ilusão faz com que se sintam agraciadas e felizes com a supressão de direitos (liberdades) das demais pessoas.

Ao se analisar a França do pós-guerra, Marcel diz que a proposta dos governantes de promover a igualdade ilusória tinha o objetivo de mascarar o regime de burocracia e opressão, pois os benefícios eram “[...] da ordem da imaginação e da afectividade mais vil; é a satisfação que posso ter, quando sujeito a pressões e a vexames, ou simplesmente se estou na miséria, em ver que o meu vizinho se encontra em situação igual. ” Este processo é aviltante e cruel, pois, “[...] a preocupação do nivelamento “por baixo”, isto é, a mais baixa forma de igualar, e também a mais fácil, afirma-se em todas as disposições legais que pesam na nossa vida cotidiana. ” (MARCEL, 1951, p. 28.). A esse respeito, alertamos que qualquer semelhança com o cenário político, econômico e social brasileiro de nossos dias não deve ser mera coincidência.

A reflexão, realizada por Marcel, refere-se à liberdade e à perda de direitos, promovidas sob o falso argumento de garantir a igualdade, em um contexto político, econômico e social específico. Todavia, poderíamos indagar: qual é o sentido desta exposição, em um texto que se pretende refletir sobre liberdade e aviltamento na esfera do Ensino Médio? A resposta parece- nos evidente. Este processo é fundamentado na massificação, via propaganda e “educação” das massas, que, como já foi dito, entretanto, não se educava para a liberdade e autonomia, mas doutrinavam-se, manipulavam-se e alienavam-se as pessoas, isto é, massificava-se para facilitar a dominação. Neste cenário, as ‘pessoas’ aceitavam as “coisas” como lhes eram apresentadas, sem perceberem as verdadeiras intenções explicitas ou implícitas dos líderes políticos, o que,

indubitavelmente, facilitava a obediência ao Estado. Este processo é uma das tantas formas que Marcel classificou como técnicas de aviltamento106.

Gabriel Marcel, ao utilizar a expressão técnicas de aviltamento, diz

[...] entendo por técnicas de aviltamento processos intencionais para atacar e destruir em indivíduos de categoria determinada o respeito de si mesmos, transformando-os pouco a pouco em resíduo que se considera tal e só pode desesperar não só intelectualmente mas até vitalmente, de si próprio. (MARCEL, 1951, p. 39). Diante do exposto, ao afirmar que uma pessoa foi aviltada, implica alegar que não foi respeitada enquanto pessoa, foi diminuída, desvalorizada, despersonalizada, rebaixada ao nível de “coisa insignificante”. Consequentemente, acarreta aduzir que teve sua liberdade suprimida, negada. Se a pessoa não é reconhecida em sua identidade e sua dignidade, não será convidada para um encontro autêntico, portanto será objetivada.

Quando os governantes, sejam eles quais forem, utilizam técnicas de aviltamento, dificultam ou inviabilizam a prática da verdadeira cidadania. A prática de tais técnicas pode desencadear efeitos semelhantes, como se fossem um elemento contagioso. Neste sentido, Marcel apresenta alguns procedimentos adotados na França e outros pelo nazismo nos campos de concentração. A angústia que assola Marcel é compreender os motivos que levaram os franceses a aceitarem ser privados de sua liberdade.

Após perscrutar os supracitados motivos, Marcel (1951) alega que a insegurança e a auto sobrevivência podem ser práticas de aviltamento. Se a propaganda do governo for bem desenvolvida, ele converterá as situações adversas para a população a seu favor. As pessoas que lutam para sobreviver têm a subsistência como valor norteador de suas ações. As situações que ameaçam a sobrevivência pessoal e/ou familiar suscitam medo e insegurança nas pessoas. Se o governo conseguir passar a imagem de que resolverá as situações e garantir, mesmo que de modo ilusório, a segurança e a manutenção da vida, poderá obter, de modo ilegítimo, o consentimento de subtrair a liberdade daqueles que nele confiam.

Outro fator motivador da supressão da liberdade é a disseminação do ódio partidário. Este processo pode motivar a insegurança, e, consequentemente, suprimir as liberdades e os direitos fundamentais em qualquer sociedade. Cabe lembrar que o pensamento marceliano supõe o encontro, a comunhão, a mútua doação como condição de ser e permitir ao outro ser. Ora, em ambiente onde não se pode dizer o que se pensa, ou sente, sem correr o risco de

106 Marcel utilizou a expressão técnicas de aviltamento, para se referir a uma série de ações adotadas pelos nazistas nos campos de concentração, especialmente aplicadas aos judeus. Contudo, ao manter o termo, ampliamos o seu alcance, por analogia.

retaliação gratuita, o diálogo é inviabilizado ou dificultado, o nós é substituído por nós versus eles. O projeto de fidelidade é direta ou indiretamente afetado.

Neste viés, a propaganda que naturaliza o que é artificialmente produzido faz com que situações humilhantes, qualificadas por Marcel (1951) como monstruosas, sejam aceitas como normais. Difundem as informações para que a massa compreenda que é assim, sem pensar se deveria ser necessariamente assim. O grande perigo desta técnica consiste em desenvolver hábitos, que podem ser perenizados: pois quem foi submetido a esta técnica, se tiver oportunidade, irá reproduzi-la em algum momento. Este pensamento foi corroborado por Paulo Freire (1987), na obra Pedagogia do oprimido, especialmente, quando explicita que todo oprimido tem o sonho de ser opressor e, se ele não receber uma educação libertadora, tentará tornar o sonho realidade, pois todo oprimido traz em si a imagem do opressor107. No dizer de

Marcel “[...] é manifesto que, com o tempo, há grande probabilidade da contaminação das próprias vítimas, e, se o jogo das vicissitudes históricas puser um dia à sua discrição os perseguidores da véspera, elas serão tentadas a tratá-los como tinham sido tratadas. ” (MARCEL, 1951, p. 45). Por sua vez, o ser livre poderá interromper este processo. No dizer de Marcel (1951, p. 45), “Talvez em nenhum caso a acção da graça seja tão claramente discernível como no acto de um ser livre, que decide interromper esta espécie de círculo infernal de represálias e contra represálias. ” E aqui também é possível verificar a importância da consciência oriunda da educação: “[...] um ser com um mínio de consciência do seu valor é capaz de ações se não perigosas, pelo menos incómodas. ” (MARCEL, 1951, p. 44).

As técnicas de aviltamento pressupõem antagonismo entre a vítima e o manipulador, a vítima precisa, para êxito de seus carrascos, sentir-se diminuída, humilhada, aviltada, por sua vez, o perseguidor, tem necessidade de se sentir superior, e, de algum modo, justificar as suas ações. Para ilustrar o seu pensamento, Marcel alega ter copiosos testemunhos e propôs-se a narrar ao menos dois: o da M.me Jacqueline Richet e Madame Lewinska.

M.me Richet, diz: “Os alemães, [...], tentavam envilecer-nos, por todos os meios. Exploravam todas as cobardias, excitavam todas as invejas, suscitavam todos os ódios. Só um esforço de cada dia mantinha a integridade moral.” (MARCEL, 1951, p. 39-40). Neste cenário,

107 A pessoa, que desenvolver a capacidade natural de ser livre, poderá e deverá romper este ciclo monstruoso e desumanizante. Consciente de si e do outro, acredita na força criadora do encontro autêntico e evita negar a outra pessoa. Aqui, novamente, aparece o sentido e a força proveniente da educação. O pensamento desenvolvido por Marcel é muito similar ao que disse Paulo Freire na obra Pedagogia do Oprimido. Assim, ao se admitir que todo oprimido traga em seu ser a imagem de seu opressor, e, se não se libertar, poderá perpetuar a opressão, reproduzindo o que sofreu, é coerente aceitar que educar para a liberdade é um meio eficaz de interromper o mencionado e nefasto processo, pois poder-se-á contribuir para a libertação da vítima de aviltamento.

é preciso a luta diária para não se corromper e se desumanizar. As pessoas eram obrigadas, por meios diversos, a falarem e a fazerem o que não escolheram e não concordavam, até mesmo se entregar à prostituição. Indiretamente, o relato mostra a importância da educação: onde ela não se fazia presente: “A educação não é amparo e diante da fome há desmoronamentos lamentáveis” (MARCEL, 1951, p. 40). Não obstante, Marcel alerta que, quanto mais tempo, perduram e generalizam-se as técnicas de aviltamento, mais difícil fica o processo de liberdade.

O segundo testemunho da M.me Lawinska é ainda mais forte. Ela diz, ao comentar o sentimento do povo judeu nos campos de concentração e a intenção dos alemães, ao aplicarem as técnicas de aviltamento, “tinham querido rebaixar, humilhar em nós a dignidade humana, calcar-nos até o nível de animal feroz, inspirar-nos horror e desprezo de nós mesmos e de quantos nos cercavam”. E conclui que “Os alemães compreendiam-no; sabiam que não poderíamos olhar uns para os outros sem repugnância. ” (MARCEL, 1951, p. 40). O que fizeram para conseguir fazer as pessoas se sentirem atolados em excrementos e lama, segundo o mesmo depoimento? Efetivamente, utilizavam mecanismos para desmoralizar as pessoas física e psiquicamente:

Não se tratava, portanto, para os carrascos apenas de mergulhar as vítimas em condições materiais tão abjectas que as levariam muitas vezes a contrair hábitos bestiais; tratava-se mais subtilmente de degradá-las, animando a espionagem recíproca, fomentando o ressentimento, a suspeita mutua; de envenenar as relações humanas desde a origem, para que aquele que devia ser par o outro um camarada, um irmão fosse um inimigo um demônio um incubo. (MARCEL, 1951, p. 41).

Na perspectiva de Marcel, conforme já citado, a edificação do humano não está dissociada da edificação dos homens. Na comunidade, todos são responsáveis para agir com base em projetos conscientemente gestados e assumidos por seus membros. Ora, se os manipuladores permitirem o encontro, facilitarão a parceria dentre os que são explorados e,