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ISSUE: HUMAN RESOURCE DEVELOPMENT

D. The Implementation Process

O pensamento de Marcel é simples e, ao mesmo tempo, complexo. Ele é simples, pois utiliza-se da linguagem extraída do cotidiano, também faz uso de exemplos práticos e certamente conhecidos pela sociedade de sua época: profissões, atividades do cotidiano, fatos da vida concreta. E complexo, pois, ao utilizar uma categoria específica, em geral, não se refere a algo isolado: o seu pensamento é como uma rede de categorias intimamente conectadas e em movimento constante. Os termos dos quais faz uso estão de tal modo interligados que se convertem em um desafio abordá-los sem o risco de repetir a mesma ideia por diversas vezes, desafio a ser enfrentado neste trabalho.

Uma das características do pensamento filosófico de Marcel é a transversalidade, cujo tema central é o homem itinerante e encarnado em sua existência concreta. Em suas ponderações a respeito da questão ontológica, Marcel indaga: o que faz com que o Ser seja? A pergunta revela um novo prisma em relação à ontologia, pois, para Marcel, ela é concreta, já que o ser é um mistério que só pode ser desvelado na concretude da vida. Observa-se que a pergunta habitualmente suscitada na ontologia tradicional é: “quem é o ser?” E a pergunta marceliana é: “o que faz com que o Ser seja?” A diferença é significativa, a pergunta original pressupõe uma ontologia abstrata que acredita na existência do “Ser enquanto ser”, portanto admite-se a existência do ser em si, plausível de ser perscrutado pela razão. Na perspectiva da ontologia concreta, na ótica de Marcel, o ser humano, a princípio, não é, nasce com a possibilidade de ser, e, enquanto existir, terá a tarefa de se tornar: edificar o ser que deseja ser. Daí, não se inquirir o que ele é, mas o que faz com que ele seja, é este o fio condutor que perpassa as categorias marcelianas.

A reflexão a respeito do ser perpassa toda a história da filosofia ocidental, dos pré- socráticos aos dias atuais. As questões ontológicas, como já explicitado, também foram objeto do pensamento de Marcel, em diferentes textos, especialmente no livro Le Mystère de L’Être, no qual se destacam as conferências: A presença como mistério91, O que é o ser? e “Existência

91 O mistério do ser – questões ontológicas, assim denominamos o primeiro capítulo da dissertação, já mencionada na nota 75 . Não temos a intenção de elaborar uma síntese do texto produzido durante o mestrado, mas não seria uma atitude justificável deixar de explorar as categorias importantes nele apresentadas. Em especial, o mistério do ser, a intersubjetividade, a alteridade, as virtudes do amor, da esperança e da fidelidade. Intenciona-se resgatar os temas dos quais não podemos deixar de lado, sob pena de comprometer os resultados da investigação atual.

e ser. Em sua concepção, como já foi aludido, o ser é mistério que não se desvela abstratamente:

só se revela ao longo da vida, na experiência da alteridade, na convivência intersubjetiva. A pergunta “o que é o Ser? ”não encontrará resposta definitiva, na obra marceliana. Nela, Marcel mantém o caráter de busca, de fidelidade à crença, segundo a qual, o homem, o existente, é ser a caminho: itinerante. Assim, ele não é: torna-se, ou constrói-se ao longo da vida. O homem é compreendido como ser inacabado, em construção, o que leva Marcel a preferir a pergunta “O que faz com que um Ser seja? ”. Ora, se o ser não é, porém faz-se ao longo de sua existência, não poderá ser encarcerado em conceitos abstratos92, tampouco em

caráter definitivo. O ser é um mistério, que se desvela, parcialmente, na existência, neste processo, é imprescindível a intersubjetividade.

A intersubjetividade, se verdadeira, exige o Eu (primeira pessoa) na presença, no face- a-face com o outro (Tu-segunda pessoa), em doação e acolhimento da alteridade, sem máscaras. As pessoas, no encontro, devem não só estar na presença, é imperativo serem presença, devem interagir, revelar-se, de tal modo que possam constituir o nós, sem que nenhuma delas seja negada, excluída, objetivada. Devem se doar, reconhecer-se, mutuamente, no entanto, sem perderem suas respectivas identidades.

O encontro autêntico, além do que já foi dito, exige a vivência das virtudes ontológicas do amor, da esperança e da fidelidade, o que não será possível no isolamento e na indisponibilidade. Daí se infere a necessidade da disponibilidade, abertura, mútuo reconhecimento e transcendência. As pessoas que desejarem verdadeiramente conhecer a si mesmas, às demais pessoas e o mundo no qual se encontram inseridas, devem sair de si e irem ao encontro da alteridade, devem lembrar que o encontro pressupõe consciência, mútua transcendência e liberdade.

A reflexão a respeito do ser humano, como já foi mencionado, ocupa um lugar de destaque no pensamento marceliano. Marcel preocupa-se em demonstrar o valor do ser, enquanto encarnado, em um contexto no qual este é gradativa e rapidamente desvalorizado.

Suas ponderações foram externadas em meados do século XX, na França do pós-guerra. Sua terra natal, assim como os demais países da Europa, que se envolveram no grande conflito mundial, enfrentava graves crises, nas esferas, política, econômica e social. Ao refletir sobre as causas da crise generalizada, Marcel aponta o seu estopim: a despersonalização e a

Certamente, não iremos fazer uma cópia do texto, mas é inevitável que uma ou outra parte essencial seja novamente resgatada e aprofundada.

92 G. Marcel, na introdução do livro Os homens contra o homem, que, segundo o autor, deveria ter o título “O

universal contra as multidões”, deixa claro a sua aversão à abstração: “[...] toda a minha obra filosófica é um

desvalorização do ser. Em suas palavras: “Nunca será demais acentuá-lo: a crise do homem ocidental é uma crise metafísica. ” (MARCEL, 1951, p. 35). Literalmente, a crise do ser, pois como demonstra em suas obras, no referido período da História, as pessoas estavam priorizando o ter e a técnica em detrimento do ser.

As pessoas não eram vistas ou valorizadas enquanto existentes encarnados, personificados e reais, elas eram identificadas a ideologias ou a grupos aos quais estavam ligadas, ou ainda, a posses e poder de influência econômica e/ou política, dentre outros. Se pertencessem a alguma instituição, por exemplo, política, religiosa, [...], eram incitadas a se converterem na imagem e semelhança da instituição. Esta fixava normas de conduta, princípios éticos, enfim, preestabelecia um padrão a ser observado por seus membros. Neste cenário, o espaço para o existente edificar o seu ser, segundo a sua vocação pessoal, era diminuto ou inexistente. Diante deste fenômeno, Marcel conclama os franceses a revalorizar o homem, a resgatar o verdadeiro sentido da vida e a prioridade do ser em relação ao ter.

Diante da crise, por vezes, instituições, organizações sociais, políticas e religiosas procuravam dar respostas aos problemas identificados por elas, sem nem mesmo permitirem a participação efetiva das pessoas reais, que diziam representar. Ora, as pessoas, no cotidiano de suas vidas, são inquietadas por situações desafiadoras, quando este fenômeno ocorre, elas devem buscar respostas concretas, no âmago de seu ser e na coparticipação, não podem, nem devem delegar a terceiros as respostas a serem proferidas por elas. Não podem fugir do compromisso de edificar a si e ao mundo no qual estão inseridas, sob pena de perderem suas respectivas identidades.

Neste sentido, não são entidades despersonalizadas as mais indicadas para responderem no lugar das pessoas, pois, na perspectiva de Marcel, “Não há pior ilusão do que supor determinada organização social ou institucional bastante para desvanecer uma inquietação que emerge do mais profundo do ser” (MARCEL, 1951, p. 35). As inquietações são suscitadas no interior do homem, cabe a ele buscar respostas, porém, deve se lembrar que não conseguirá fazê-lo sozinho, isolado, mas, sim, na convivência, na coparticipação. Porém, como responder sem ter consciência de quem ele é? Na alienação, é impossível dar respostas reais e concretas.

Novamente se retorna à questão ontológica, a seu tempo, a seu modo, cada existente deverá perguntar: quem sou eu? E, se verdadeiramente desejar responder a esta inquietação, deverá experienciar o encontro intersubjetivo, como já foi dito. Nenhum existente poderá ter uma autêntica autoconsciência se se negar ao encontro, pois é o olhar do outro que faz o existente olhar para o seu interior, e aí, no mais íntimo de seu Eu, contemplar o mistério do seu

ser, uma vez que sem a alteridade, não é possível a ipseidade93. Eis uma questão relevante:

para uma pessoa se doar a outra no encontro interpessoal, deve ter identidade e autoconsciência. O mesmo vale para exercitar a liberdade de modo autêntico: como ela poderá se posicionar, dizer o que pensa, sem saber quem ela é?

A autoconsciência só é possível na relação intersubjetiva: no encontro verdadeiro. A título de exemplificação, o processo é o seguinte: o existente cria uma autoimagem, provisória, mas que crê válida, se lhe perguntarem quem ele é, descreverá a imagem que criou, e, por vezes, poderá confundir o ser com a sua profissão ou função que exerce. Na jornada da vida, ao permitir o encontro com outro existente, mediante o olhar do outro, no convívio intersubjetivo, na experiência da alteridade, irá perceber se a autoimagem, previamente criada, sustenta-se ou não. É o olhar do outro que faz com que o existente olhe para o seu interior e enxerque o seu verdadeiro ser, e, assim, ele poderá confirmar, refutar ou ajustar a autoconsciência94.

Eis um enorme paradoxo: para saber quem é, o existente precisa ser disponível para o encontro, o que só pode fazer na liberdade, isso exige consciência, mas esta só é possível mediante a convivência intersubjetiva. A liberdade torna-se um elemento sem o qual não se faz a experiência do Eu-Outro, esta não se restringe à mera coexistência (estar no mesmo espaço), mas exige convivência interativa e comunhão.

A liberdade é outro tema intrigante e desafiador, segundo Marcel (1951). Ela, enquanto prática, não é inata, portanto não tem sentido falar em liberdade em si, pois é vivenciada, ou negada, na concretude da vida. Ela é um elemento constitutivo da condição humana, assim, enquanto possibilidade, é inata, os existentes nascem com a capacidade de fazerem escolhas, portanto de serem livres, mas apenas ao longo da existência assumirão esta condição ou “abrirão mão dela”.

A liberdade, no pensamento de Marcel, pressupõe a autoconsciência, e, o livre-arbítrio para escolher entre ser disponível ou optar pela indisponibilidade; em aceitar o convite, o chamado, a edificar o seu ser ou recusá-lo; em viver ou apenas existir; em eleger ser ou preferir ter; escolher ou se submeter a escolhas de terceiros. Neste cenário, a efetiva vivência da

93 Nas pesquisas realizadas não encontramos este termo nas obras de Marcel, mas, como fala por si mesmo aos pesquisadores de nossos dias, resolvemos dele fazer uso. O sentido da expressão é o que nos interessa, não a sua origem.

94 Somente quem se dispõe à experiência interpessoal poderá desvelar o seu ser: mediante o olhar do outro, e apenas se, e somente se, permitir a comunhão intersubjetiva e olhar para o mais profundo do seu ser encontrará o totalmente Outro: Deus. Nesta perspectiva, invertesse a lógica do cristianismo tradicional, cuja base é tratar bem o outro, por saber que ele é imagem e semelhança de Deus, portanto é preciso cuidar da criatura para agradar o criador. Deus só se revela a quem ama, a quem tem esperança e é fiel, ou seja, a quem na liberdade escolhe ser com os outros.

liberdade presume uma educação apropriada, pois as pessoas precisam aprender a vivê-la, caso contrário, poderão se alienar e “abrir mão” do direito e da capacidade de escolher.

No efetivo exercício da liberdade, achamos por bem retomar a reflexão a respeito dos conceitos e categorias que permeiam o pensamento marceliano. Como já foi mencionado, as categorias que perpassam a filosofia marceliana estão todas interligadas e giram em torno do homem. Recuperemos a questão apresentada por Marcel, ao refletir sobre a ontologia concreta, o homem, quem é? Ou melhor: o que faz com que o homem seja?

A resposta é um paradoxo: o homem, ao nascer, enquanto existente, ao iniciar a jornada da vida, ainda não é, mas é chamado a ser, como já foi acenado. A princípio é um mistério, indescritível, do qual nada se pode afirmar ou negar, entretanto, ao longo da jornada da vida, na medida em que fizer escolhas, usar a liberdade, edificará o seu ser: será o resultado de suas escolhas. Este ser edificado gradativamente, só se revela ao longo do caminho, mesmo que a revelação não seja plena. Contudo, o existente poderá optar por não edificar o seu ser, se assim for, não deixará de existir, mas não viverá o seu ser de maneira autêntica: será o que outros propuserem para ele ser.

Em outras palavras, o homem primeiro existe, na existência é chamado a ser; diante da convocação, poderá aceitar o convite para ser ou recusá-lo. Se optar em ser, edificará a si, e, consequentemente, assumirá a coparticipação na edificação do mundo no qual estiver inserido. Porém, não é condicionado e tampouco obrigado a dizer sim ao chamado que recebe, poderá rejeitá-lo. Neste caso, não vivenciará o ser, passará pela vida, existindo sem ser. Isto posto, alienar-se-á, ou será alienado, vivendo o projeto de terceiros. Em conformidade com o que diz Luckesi: “Quem não pensa é pensado por outros! ” (LUCKESI, 1994, p. 25). Diante do exposto, vale realçar o valor da educação, conforme o viés que lhe conferirem, auxiliará ou dificultará o efetivo exercício da liberdade, propiciará o desenvolvimento do livre pensar ou contribuirá para alienar.

É importante ressaltar que a liberdade não poderá ser negada de fora, só o sujeito poderá abdicar do uso desta capacidade a qual fundamenta a sua condição humana. A liberdade não pode ser totalmente negada, por mais que forças externas tentem cerceá-la, utilizem mecanismos que dificultem a sua prática. Em última instância, não podem deletá-la ou aniquilá- la, sempre haverá possibilidade de escolha, enquanto perdurar a existência.

Retomando o percurso, o homem é mistério; é ser itinerante; é inacabado, chamado a edificar o seu ser ao longo da sua existência; é livre: tão livre que pode inclusive “abrir mão” de escolher ser, deixando de viver na condição humana para existir enquanto objeto, coisa, máquina ou instrumento. Quem optar por aceitar o chamado a ser, edificar a si, tornar-se o que

escolhe ser, deverá ter consciência de si e dos demais existentes: pessoas. Não deverá se refugiar na caverna do solipsismo, do egoísmo, do isolamento, precisará viver a transcendência: sair de si, ir ao encontro do outro, que, por sua vez, assumirá a mesma atitude. Ora, se assim for, vivenciarão o encontro intersubjetivo, irão experienciar o mistério da mútua revelação, que comporta vários outros mistérios: a fusão de seus respectivos seres, sem, contudo, perderem as suas identidades, o que implica em presença autêntica e recíproca, e, ainda, a vivência da amizade, do amor, da esperança, da fidelidade, enfim da comunhão de almas.

E a pessoa, no uso de sua liberdade, que se recusa a dizer sim à missão de edificar o seu próprio ser? Ela poderá hipertrofiar a autoimagem abstratamente criada, portanto, ilusória e, assim, ignorar os demais existentes, ou deixar-se moldar por instituições, atrofiando o seu ser. Neste caso, a pessoa escolherá não escolher, o que não anula o uso inicial da liberdade, contudo, se radicalizar esta escolha, estará delegando o direito e o dever de ser a terceiros: associações, instituições civis, religiosas ou políticas. O existente que faz essa opção costuma “abrir mão” de ser, adotando funções, desenvolvendo um pseudo ser: o indivíduo, no refúgio de seu ego hipertrofiado, não enxerga senão a ele mesmo e, portanto, torna-se egocêntrico. Ora, o egocêntrico fecha-se à experiência da relação intersubjetiva, não é capaz de uma autoconsciência autêntica, pois vive na alienação de seu próprio ser, portanto, não poderá ser com os outros.

A partir do pensamento marceliano, atestamos que, no mais das vezes, a pessoa que atrofia ou hipertrofia o seu ser, recusa-se a viver verdadeiramente, substitui o ser pelo ter. Ora, sob a regência do ter, não precisa olhar para o seu íntimo, ouvir o chamado interior, tampouco olhar para os demais existentes. Não precisa ser, basta parecer que é, executar funções, convertendo o ser em mercadoria a ser vendida ou alugada.

Um exemplo, fictício, todavia baseado em fatos reais, observados ao longo dos anos a serviço da educação, em instituições públicas e privadas. Juliana está terminando o Ensino Médio, deseja cursar Filosofia, contudo, seus professores, pais, e amigos lhe dizem: “Mas isto não dá dinheiro”; ou ainda, no caso da aluna conquistar uma nota que lhe possibilitasse cursar medicina, ou outra área concorrida e de prestigio social e/ou financeiro, ela poderia ouvir: “Uma nota dessas, cursar filosofia é um desperdício”. Vejamos, em nenhum dos dois “conselhos” a Juliana foi consultada sobre o que de fato desejava se tornar profissionalmente. Neste caso, se depender de seus professores e de seus pais, poderá ingressar em um curso que lhe dê dinheiro ou status, sem levar em conta o que de fato deseja e quer.

Imaginemos que Juliana, ingresse no curso de medicina, conclua com louvor a sua graduação, e, após cumprir todas as etapas de residência e demais exigências legais, assuma um

cargo em um hospital. Poderá ocorrer, se ela, no mais íntimo de seu ser, não se identificar com o exercício da medicina, não ser médica, mas apenas estar na função de médica. Poderá conquistar status, poder, fama, mas não será uma pessoa realizada. É bem provável que durante a sua vida enfrente crise existencial, uma vez que se recusou a exercer a missão de edificar o seu ser. Ela tornou-se o que o mercado, as instituições ou outras pessoas decidiram, recusou ser para viver o ter: viver o estar.

As pessoas que, não apenas orginalmente, mas, ao longo da vida, dizem sim à liberdade, assumem a tarefa de se constituírem, como uma obra inacabada em permanente estado de construção, conscientes da importância da alteridade. Diante do chamado a ser, proferem o seu sim diariamente, cientes que não estão sós, valorizam os outros existentes e esforçam-se para ver e aceitar os seus semelhantes como estes se revelam: sem exigências, sem condições. Este jeito de viver e conviver, a nosso ver, favorece a inclusão e auxilia no combate ao preconceito.

Os existentes que se disponibilizam a viver o encontro, experienciar a alteridade, devem viver as virtudes ontológicas: amor, esperança e fidelidade, conforme já aludido. Estas são também compreendidas como exigências ontológicas, pois não podem ser vividas no isolamento, no egoísmo, na solidão, na indiferença: exigem mútua e incondicional doação e acolhida.

O amor, na perspectiva marceliana, segundo Zilles (1995), é condição de transcendência e comunhão, qualidades sem as quais o encontro intersubjetivo não se realiza: somente aquele que ama é capaz de se abrir incondicionalmente ao outro, ou seja, tornar-se disponível. Enfim, “O amor é um apelo, um convite à outra pessoa, nunca um objeto, [...]” é um convite para que ser presença; “No amor, o eu não se dirige à natureza do outro, mas para aquilo que se poderia chamar núcleo pessoa, para aquilo que não é objetivável, [...].” (ZILLES, 1995, p. 69). Ora, se o amor é um convite, um chamado dirigido a outra pessoa para que ela possa vir ao seu encontro, é uma exigência ontológica, espera uma resposta-convite, para que também possa ser presença diante da pessoa que lhe disser sim.

Novamente nos deparamos com a questão do olhar do outro como condição de autoconhecimento, porém, a novidade da virtude do amor como chave que permite um ser (Eu) revelar-se ao outro (Tu). Quem não ama torna-se indisponível, não transcende, vive o egocentrismo e nem se “dá conta” de estar alienado: não só da realidade, mas também do seu próprio Eu.

No pensamento marceliano, conforme Zilles (1995), é o amor que possibilita ao existente reconhecer a sua ipseidade: reconhecer-se Eu, na presença e no olhar do outro, em

relação de reciprocidade, é um apelo que liberta a pessoa do solipsismo e a leva à comunhão, é uma experiência de plenitude, uma força criadora.

O amor não é sentimento de posse: é gratuidade, é relação entre o amado e o amante95.

Ele é uma experiência de intimidade e reciprocidade: o amante doa-se ao amado que deve acolhê-lo em seu ser, e concomitantemente, a ele doar-se e ser acolhido, sem constrangimento, sem estabelecer ou impor condições. Esta virtude exige a presença96, supera distâncias, não se

limita ao tempo e ao espaço.

Quem ama verdadeiramente não priva o amado da liberdade, não o subjuga, não o converte em objeto. Objetivar o amado é impossível, pois, segundo Marcel, “o ser que eu amo não pode ser um terceiro para mim”; a vivência recíproca do amor promove a união e a comunhão, quebra barreiras, permite o conhecimento mútuo, o ser que eu amo “[...] me descobre a mim-mesmo; minhas defesas exteriores caem ao mesmo tempo em que as barreiras que me separam do outro97 ” (MARCEL, 1999, p. 54). Marcel destaca a primeira pessoa, amante

(Eu que amo), desvelada e acolhida pelo ser amado, segunda pessoa (Outro). No entanto, como já foi demonstrado, o amante convida o amado para o encontro intersubjetivo, porém, ao receber