MAURITIUS: AN AFRICAN EXPERIENCE IN CAPACITY BUILDING Mauritius has made significant strides in capacity building, The lessons from the Maun'tian experiellce
2. Institution building and strengthening:
Michael Eyquem, Seigneur de Montaigne, nasceu em 28 de fevereiro de 1533, no castelo de sua família, nos arredores de Bordeaux, França, faleceu aos 59 anos, em 13 de setembro de 1592. Ele, indubitavelmente, foi um dos maiores expoentes do humanismo renascentista.
Ramon Eyquen, bisavô de Michael, era de origem burguesa, no entanto, desejava adentrar para a nobreza, para atingir tal fim, adquiriu uma propriedade que concedia ao dono a nobreza nobiliárquica. Ao comprar as terras e o título a elas correspondente, passou a ser conhecido como Seigneur de Montaigne e conquistou, gradativa e rapidamente, ascensão na sociedade de Bordeaux. A ascensão social, econômica e política cresceu com o seu filho Grimon e, posteriormente, com o seu neto Pierre, respectivamente, o avô e o pai de Michael.
Pierre casou-se com Antoinette de Louppes de Villeneuve, em 1528, também oriunda da burguesia renascentista. Desta união, nasceu Michael de Montaigne, criado, antes de mais nada, para ser um nobre. Seus pais, segundo sua análise, não souberam educá-lo para a vida51,
o que julga ser essencial, portanto, não poderia ser negligenciada. Ainda na gestação, foi cingido de mimos e excentricidades, fatores que se agravaram após seu nascimento, por exemplo, ser acordado com música específica, ser educado para o que a sociedade esperava ser um homem da nobreza. Uma educação desencarnada, pois era privado de experienciar a dor e o sofrimento, como se na vida não tivesse que lidar com estes sentimentos e eventos.
No ano de 1565, o bisneto do senhor Ramon, contraiu núpcias com Françoise de la Chassaigne, com quem viveu a contragosto, já que não era feliz no casamento. Desta união, nasceram filhos que, infelizmente, faleceram prematuramente, e uma filha, Leonor, que, não obstante a frágil saúde, sobreviveu.
Michael de Montaigne viveu em um conturbado momento da história francesa, marcado pela guerra religiosa entre católicos e protestantes. Ainda assim, exerceu funções importantes na sociedade local, por duas vezes foi eleito o prefeito de Bourdeaux, função que exerceu por quatro anos. Montaigne era formado em Direito e foi conselheiro do parlamento da referida cidade.
Em 1568, com a morte de seu pai, Michael tornou-se o novo Segneur de Montaigne, e, três anos depois, visando encontrar-se consigo mesmo, refugiou-se no castelo de sua propriedade. Lá, após diversas e diferentes leituras, em que analisou sua existência e história,
51 No Ensaio Da Educação das Crianças, Montaigne reclama do jeito que foi criado. Ele diz não ter sido educado para a vida. Ensaio XXVI, in: Montaigne (2004, p. 147 a 174).
escreveu os chamados Ensaios. A primeira versão desta coletânea de pequenos textos, marcados pela informalidade, foi lançada em 1580.
A liberdade de escrever, sem observar regras e convenções, teve influência do estoicismo, em especial de Plutarco, conforme informa Chauí, ao dizer: “Admirador incondicional dos Opúsculos de Plutarco, [Montaigne] é encorajado por esse [...] estóico a exprimir opiniões sem preocupar-se com o assunto e composição. Nele tinha encontrado um autor pelo qual sentia simpatia fraterna e, portanto, nunca mais o abandonou.” (CHAUÍ, 2004, p. 8). Não desejava escrever para o público em geral, e, segundo ele, nem sabe se o livro poderia interessar a mais alguém, a não ser a ele mesmo, protagonista central de todos os Ensaios.
A escolha de Montaigne, para representar o humanismo renascentista, justifica-se por vários motivos, conforme já foi mencionado, dentre eles destacam-se a influência do estoicismo e o testemunho de sua vida revelado em suas obras. Em suas palavras: “Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, [...]”. Este livro foi dedicado à sua família e amigos, no dizer do autor: “Votei-o em particular a meus parentes e amigos e isso a fim de que, quando eu não for mais desde mundo, [...], possam encontrar traços de meu caráter e de minhas idéias, [...].” (MONTAIGNE, 2004, p. 31). Neste cenário, vale lembrar que o estoicismo se encontra entre as raízes da árvore existencialista, a vida e a obra de Montaigne revelam alguns aspectos de intercessão com princípios adotados pelos existencialistas contemporâneos.
Nos ensaios, verifica-se similaridade entre alguns princípios do humanismo renascentista e alguns fundamentos do existencialismo contemporâneo. Algumas dessas similitudes são a crença, segundo a qual todo ser humano, desde seu nascimento, caminha para a morte: fato concreto e, até os dias atuais, verdade insofismável; a certeza da morte como fator de valorização da vida; a questão da liberdade; a necessidade de educar para a vida; o estimulo para se questionar os sistemas absolutizados: verdades perenes e indubitáveis; a necessidade do autoconhecimento e a relevância de se olhar para o presente.
Montaigne, ao explicitar a crença na importância de viver a vida presente, como já foi mencionado, revela um dos pontos retomados por muitos, se não todos os existencialistas contemporâneos: o presente é o único tempo, no qual o existente pode fazer escolhas, pois, o passado já não volta e o futuro é incerto. Neste sentido, o renascentista alega que quem deixa de encarar a vida, quem tenta fugir de si mesmo, revela insensatez e recusa a felicidade.
O autor supramencionado,para ilustrar a importância do tempo presente, cita uma frase de Sêneca: “Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz” (apud MONTAIGNE, 2004, p.
39), convite para viver o presente, e não deixar a vida te levar52, mas levar a vida. Nesta
perspectiva, escreve sobre “nossos ódios e afeições”, e rememora uma expressão utilizada por Platão: “Faze aquilo para que és feito e conhece-te a ti mesmo” (apud MONTAIGNE, 2004, p. 39)53. É preciso viver e não apenas passar pela vida, é necessário dar sentido à existência,
aprender a ser e a conviver.
A busca da verdade e da boa convivência é recorrente em seus escritos, como se vê no
Ensaio sobre a mentira, quando atesta que esta deve ser odiada. E ainda, no Ensaio Da Educação das Crianças, quando, por diversas vezes, mostra a importância de pensar por si, de
emitir a própria opinião, sem, contudo, humilhar ou menosprezar as pessoas. A vida deve ser edificada, portanto, não é recomentado viver na ociosidade, pois, segundo Montaigne, “Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá- las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que sejam úteis.” (MONTAIGNE, 2004, 53), nesta reflexão Montaigne refere-se a terras não trabalhadas. Por analogia, pode-se pensar nas pessoas que possuem talentos, habilidades, enfim capacidades que poderiam ser desenvolvidas caso fossem cultivadas, e que, por vezes, por essas pessoas permanecerem no ócio, sem receberem a educação necessária para aprender a edificar o ser que podem vir a ser, passam pela vida sem viver. Também é possível pensar naquelas que desejam realizar algum projeto, entretanto, não agem para que este se torne real, uma vez que vivem na ociosidade. Na perspectiva de Montaigne, é preciso a pessoa superar o ócio, trabalhar a terra, para viabilizar a vida.
A incerteza da vida, sua instabilidade, a dúvida que perpassa as escolhas e os valores, o medo que aflige e perturba a razão, a certeza da morte, embora sem saber quando esta se concretizará, são elementos que devemos admitir e não dissimular, assim é a vida, logo, é necessário aprender a viver.
Se a morte é inevitável, é preciso cultivar a tranquilidade, a imperturbabilidade, sem fugir da existência. “A meta de nossa existência é a morte; é este o nosso objetivo fatal. Se nos apavora, como poderemos dar um passo à frente sem tremer?” (MONTAIGNE, 2004, p. 94). Aceitar e aprender a enxergar esta realidade, com naturalidade, possibilitará uma existência mais salutar e, assim, poder-se-á atenuar a dramaticidade da vida. A não aceitação e o medo diante da morte desencadeiam temor constante e inviabilizam a existência feliz, pois, segundo Montaigne, na referida obra, quem ensina a morrer, certamente ensinará a viver.
52 Trocadilho baseado na música de Zeca Pagodinho Deixe a Vida me Levar.
53 Neste caso, preservamos as frases de Sêneca e Platão, citadas por Montaigne, pois ele faz uso delas para ilustrar o pensamento próprio que está desenvolvendo. Portanto, apenas as mencionamos para preservar o exemplo dado pelo pensador renascentista ao externar suas convicções.
A contribuição do humanista renascentista é ampla, ele escreveu sobre quase todos os aspectos fundamentais da existência humana, mas, neste trabalho destaca-se: para ele “[...] a maior e mais importante dificuldade da ciência humana parece residir no que concerne à instrução e à educação da criança.” (MONTAIGNE, 2004, p. 150). A reflexão a respeito da educação, objeto do Ensaio XXVI, é digna de ser analisada por todo e qualquer educador do mundo, independente de lugar ou época, crença ou instrução. Embora, em sua origem, este ensaio tivesse apenas a intenção de orientar uma mãe a respeito da educação de seu filho, cremos, porém, que vale para todos os que assumem a missão de educar.
A esposa de um amigo, Conde de Foix, esperava o primeiro filho, o herdeiro. A ela, Sr.ª Diana de Foix, condessa de Gurson, Montaigne dedica o Ensaio XXVI, no qual descreve alguns conselhos para que a futura mãe, se assim o desejasse, utilizasse-os na educação de seu filho. Contudo, os conselhos são válidos para todos os que aceitam a missão de auxiliar na educação das pessoas, a despeito da idade que possam ter54.
No século XVI, contexto no qual o Ensaio foi escrito, os professores tinham o direito de bater nos alunos, e, ainda, como será oficializado no final do referido século na Ratio
Studiorum, muitos educadores privilegiavam a arte de memorizar. Também vale lembrar que
a exemplo do próprio Montaigne, por vezes, os pais educavam os filhos para viverem os valores aceitos pela sociedade, por almejarem que estes obtivessem projeção, poder e destaque. Os pais escolhiam a profissão, o estado civil, enfim, os filhos eram objetos destinados à realização de seus progenitores e não senhores de seu próprio destino, deveriam viver sem necessariamente ser.
Os pais, professores, educadores, quem quer que seja que assuma a tarefa de educar, não devem impor a sua autoridade, tampouco doutrinar, entretanto, ensinar a pensar com autonomia. Assim sendo, o educador deve expor o conteúdo ao educando, abordar o assunto por todos os ângulos possíveis, e, concomitantemente, motivá-lo a apresentar sua opinião a respeito do assunto. Nas palavras de Montaigne,
Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na mente, por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresente-se lhe todos em sua diversidade e que ela escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião.(MONTAIGNE, 2004, p. 152).
54 Registramos que, em 1917, publicamos um artigo sobre Michael de Montaigne nos anais do IX Congresso de Pesquisa e Ensino de História da Educação em Minas Gerais: Conselho de Montaigne para educadores. No referido artigo, apresentamos alguns dados históricos e alguns conselhos passiveis de serem utilizados pelos educadores de nosso século. Salientamos que alguns pontos abordados neste texto foram objeto de nossa atenção no texto publicado.
Como já foi mencionado, a dúvida é aprazível a Montaigne, ela é própria da existência humana, uma vez que lembra o princípio existencialista do homem como ser inacabado, chamado a se edificar ao longo de sua jornada, sendo assim, não permite ser sistematizado. A dúvida leva ao questionamento, à busca de novas resposta e viabiliza a liberdade.
No século XVI, Montaigne denominou as escolas tradicionais de latinistas, em sua concepção, estas ministravam doutrinas dogmatizantes e supervalorizavam a memorização, praticas não endossadas por ele. Em seu entendimento, a diversidade de opinião é salutar e o fato de simplesmente armazenar na memória o conhecimento repassado por terceiros não indica que a pessoa alcançou o conhecimento, posto que decorar não é sinônimo de saber.
Quem recebe a missão de ensinar, deve estar ciente da diversidade de espíritos que lhes são confiados. As pessoas não possuem a mesma dinâmica, nem têm o mesmo tipo de inteligência ou de temperamento, daí se infere que não se pode ensinar com proveito, utilizando o mesmo método para todas as turmas e indivíduos. De onde se deduz que os educadores devem, sempre que possível, utilizarem-se de metodologias de ensino diversificadas, com o intuito de contemplar os espíritos diferentes, para viabilizar ou facilitar o processo cognitivo de todos. Aqui, registra-se que os pensadores existencialistas contemporâneos comungam desta mesma concepção, o que revela a atualidade desta perspectiva já discutida no século XVI.
Quem trabalha com a arte de educar, se adotar os conselhos de Montaigne, deve lembrar- se de que não se educam os filhos, ou alunos, para atender aos projetos, desejos e sonhos dos preceptores ou dos pais, educa-se, pois, para a vida. A criança deve aprender a enfrentar os desafios da existência, saber lidar com o medo, a angústia, a incerteza, as intempéries, assim como com os momentos mais favoráveis, aquela deve aprender a viver e conviver, portanto, a atenção e o respeito ao outro também deverão nortear a educação das crianças. Salienta-se que este princípio também está em sintonia com as propostas de Buber, Marcel e Mounier.
Neste viés, as pessoas não devem ter receio de mudar de opinião, em especial quando encontrarem razões para tal, quer por própria reflexão, quer diante de argumentos e fatos que a façam ver as coisas de modo diverso do que até então as concebiam. Portanto, quem instrui deve ensinar “[...] a ceder e sustar a discussão ante a verdade, logo que a enxerque, surja ela dos argumentos do adversário ou de sua própria reflexão, [...].” (MONTAIGNE, 2004, p. 155). Neste sentido, vale lembrar que apenas o louco, na expressão usada pelo referido autor, tem plena ou absoluta certeza, por ser incapaz de mudar de opinião. A pessoa, se bem-educada, deverá ser capaz de enxergar os próprios erros, sem receio de buscar corrigi-los e, assim, aperfeiçoar o seu discernimento. Eis outro fundamento comum entre o pensador renascentista e os existencialistas supracitados.
A questão da Filosofia é outro tema importante. Ela deve ser praticada e ensinada em todas as etapas da vida; em todos os lugares e épocas, quem educa deve motivar o educando a pensar de maneira livre e consciente, assim sendo, ensinará o estudante a filosofar. A Filosofia, na concepção ocidental, nasceu nos espaços públicos, em praças nas quais se discutia a vida, portanto, não deve ser convertida em coisa chata e à margem da vida: “O homem sabe não ser possível escapar de si mesmo e não pode fugir da vida.” (CHAUÍ, 2004, p. 15). O existente não pode, ou melhor, não deve ignorar a si mesmo, tampouco o que está a sua volta, pois, na vida, tudo o que existe deve ser objeto de reflexão.
Em seus conselhos, Montaigne alerta para a necessidade de corrigir os próprios erros. Diz ele: “Que se contente com corrigir-se a si próprio e não pareça censurar aos outros o que deixa de fazer; [...]. Que evite essas atitudes indelicadas de dono do mundo, a ambição pueril de querer parecer ser mais fino por ser diferente, [...].” (MONTAIGNE, 2004, p. 154-155). Em seus conselhos, ele ensina que é possível ser sábio, sem se tornar arrogante, e revela este pensamento ao citar Sêneca, por quem também nutre simpatia. Enfim, não é necessário rebaixar as pessoas que pensam diferente, nem humilhar os semelhantes para aparentar superioridade.
A humanização deve nortear o processo de ensino aprendizado, assim, na percepção de Montaigne, é preciso auxiliar as pessoas a serem melhores e mais conscientes, antes de se lhes ensinar as disciplinas convencionalmente ministradas. Em suas palavras: “Depois que lhe tiverem dito o que convém para o tornar mais avisado e melhor, falar-lhe-ão da Lógica, da Física, da Geometria, da Retórica, e como já terá a inteligência formada, logo aprenderá a ciência que escolher.” (MONTAIGNE, 2004, p. 159). Neste cenário, vale lembrar que o preceptor deverá, como já foi declarado, utilizar diferentes metodologias e diversos materiais didáticos para atender às particularidades dos educandos.
A quem se destina a prática e o ensino da filosofia? Ela se direciona a toda e qualquer pessoa que deseje aprender, quer seja jovem, quer seja idosa, nenhuma pessoa tem o direito de esquivar-se de sua prática, pois o ser humano é ser que caminha para a morte, aprender a morrer implica em aprender a viver. Que se faça, portanto, o que solicita Epicuro, segundo registro de Montaigne (2004): que ninguém se canse de filosofar, não se canse da vida.
No Brasil, neste final da segunda década do século XXI, retoma-se a discussão sobre a obrigatoriedade do ensino de Filosofia para os estudantes do Ensino Médio, também ocorrem debates para verificar se ela deve ou não ser ministrada a crianças. Montaigne, no século XVI, já dizia que ela deve ser ensinada para as crianças, pois estas são terreno apropriado para se lançar e desenvolver as sementes da Filosofia. Em suas palavras: “Visto que a filosofia é a ciência que nos ensina a viver e que a infância como as outras idades dela pode tirar
ensinamentos, por que motivo não lha comunicaremos?” (MONTAIGNE, 2004, p. 162), mas também os jovens e os velhos devem buscá-la, pois poderá ajudá-los a renovar suas forças e traçar objetivos para a sua existência.
Michael de Montaigne faleceu na última década do século XVI, precisamente em 1592, porém, a maioria das reflexões que deixou a respeito de como educar as crianças não prosperaram. Nos anos subsequentes, diversas teorias foram gestadas, com o objetivo de buscar analisar ou propor novas formas de organizar a sociedade, a educação, em especial, em como educar ou instruir as novas gerações.
O desafio de educar ou de instruir as novas gerações perpassa todas as etapas da história humana, da antiguidade aos dias atuais. Questões relevantes para os educadores do século XXI, como, por exemplo, o valor da pessoa humana, a importância do diálogo e do respeito, [...], já estavam presentes na Grécia Clássica, ao menos na concepção socrática, pois, conforme já explicitamos, Sócrates valorizava o diálogo e o reconhecimento do outro, sem fazer acepção de pessoas. O pensador grego legou às gerações futuras o valor da alteridade e do engajamento no processo de ensino-aprendizagem.
O diálogo, compreendido como meio de acessar a verdade, também foi adotado por Santo Agostinho. O princípio da dignidade da pessoa foi acolhido e reafirmado pelo pensador medieval, a nosso ver de forma radical, já que este lhe conferiu um caráter sacro: o ser humano, independente do gênero é Imago Dei. Além da sacralidade, Agostinho realça o valor da liberdade humana, e, ainda, enfatiza a importância da comunidade, nela, todos devem assumir a responsabilidade de edificar uma sociedade na qual valha a pena viver.
Sócrates, Agostinho e Montaigne comungam do princípio, segundo o qual o conhecimento não deve ser inculcado, mas acessado pelo próprio aprendiz. Em outras palavras, o educador não deve transmitir um saber pronto e dogmatizado, mas apontar os caminhos para que o educando possa trilhá-los, e, assim, por si mesmo, conhecer. Nesse sentido, quem tem a tarefa de educar, recusa a função de meramente instruir, uma vez que assume o compromisso de auxiliar o caminhar do aprendiz, que por sua vez, precisa aprender a dizer o que pensa, instruir-se na arte de ser: viver e conviver.
Neste cenário, é importante lembrar que estes e outros princípios vivenciados por Sócrates, Agostinho e Montaigne não ficaram esquecidos ou restritos a um passado distante, todavia chegaram à contemporaneidade, pois, como será demostrado ao longo deste trabalho, muitos dos eixos vivenciados pela tríade de pensadores supracitados foram retomados por expoentes da Fenomenologia e do Existencialismo contemporâneos.
3 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DO EXISTENCIALISMO JUDAÍCO-CRISTÃO: