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No continente europeu, a partir do XI século da era cristã, teve início o que se chama Baixa Idade Média, cujo término se concretizou no século XV, com o fim de um sistema que predominou por cerca de dez séculos.

Alguns fatores impulsionaram a transição da Idade Média para a Idade Moderna, entre eles destacam-se: o reaquecimento das atividades econômicas; o desenvolvimento agrícola; o renascimento do comércio, das atividades artesanais e das cidades; o contato com novas culturas: povos e civilizações. As atividades comerciais também favoreceram o aparecimento e a consolidação dos burgos, trazendo transformações sociais e econômicas. O sistema feudal, gradativamente, era “colocado em cheque”. Nas cidades, em geral, crescia o desejo de liberdade. Este período de desenvolvimento foi do século XI até o século XIII. Porém, os dois séculos que se seguiram foram marcados por graves crises na economia, na política e na religião44.

44 Os dados que ora apresentamos foram extraídos de anotações pessoais realizadas durante os anos nos quais ministramos aulas de História para turmas de Ensino Médio, em escolas de Minas Gerais. Neste período, além das anotações realizadas durante a graduação, foram utilizados diferentes manuais e fontes primárias. E, ainda, estudos relacionados aos fatos históricos, filosóficos, teológicos e eclesiástico, realizados ao longo dos últimos anos.

Na economia, ocorreram diversos fatores que fomentaram a crise econômica: guerras, variações climáticas e inadequado manejo da terra. O conjunto de fatores oriundos da diminuição da produção e o aumento da população provocou fome45 e mortes.

O sistema político que vigorou no período feudal deteriorou-se. Os senhores feudais, suseranos e vassalos, não mais conseguiram manter o sistema, como consequência especial de guerras e mortes dos membros da nobreza46, encarregados de proteger a população sob seus

cuidados.

A crise religiosa, quiçá uma das mais graves da história, em se tratando da ICAR. Aqui, não é correto falar em crise, mais em crises, internas e externas, estas, por sua vez, obrigaram a Igreja Romana a reagir e a se reorganizar. Uma destas crises ficou conhecida como Cisma Ocidental47. O Cisma, concretamente, teve início em 1388, e terminou em 1414, em seu ápice

(1409-1414). Ele provocou uma situação inusitada, a Igreja Católica Romana, cuja crença supõe a unidade representada pela fé e pela autoridade papal, aquela estava dividida em três sedes: Roma, Avinhão e Pisa, e, em cada uma destas, havia um diferente “legitimo” sucessor de Pedro. O início da crise, segundo Matos (1987), remonta ao ano de 1309, quando, por diversos motivos, nem sempre fundamentados em verdadeira convicção religiosa, o papa Clemente V, decidiu transferir a sede da ICAR para Avinhão. Neste local, a princípio, o governo da Igreja Católica permaneceu por aproximadamente 70 anos, o que poderia ser considerado uma decisão comum, no caso da Igreja Romana era um problema sério. Esta denominação religiosa, como já foi dito, pauta-se pela catolicidade: caráter universal da fé e da unidade.

Ora, a cidade de Avinhão ficava muito próxima da corte francesa, e, gradativamente, o monarca francês foi aumentando a influência na Igreja “universal”. Dessa forma, a catolicidade foi ‘colocada em cheque”. Nações, como Alemanha, Inglaterra e “Itália48”, perderam o respeito

e não se sentiam na obrigação de obedecer a um papa subordinado à igreja e ao governo francês. Em 1377, o Papa Gregório XI retornou à sede da ICAR para a cidade de Roma, isso contrariou a Igreja e a Corte francesa. Em 1388, quando da escolha do sucessor do Papa Gregório XI, sob forte pressão dos “italianos”, foi eleito o arcebispo de Bari. Este assumiu o pontificado sob o nome de Urbano VI, contudo, ele foi considerado ilegítimo e, quatro meses

45 Vale lembrar que, durante o século XIV, uma em cada três pessoas do continente europeu morreu vítima da Peste Negra. A população que floresceu durante os séculos anteriores XI – XIII diminuiu consideravelmente. 46 O sistema feudal era estamental, nele, cada estamento tinha uma função específica: uns eram encarregados da

oração, outros, das guerras e outros, do trabalho. O Clero rezava, os nobres organizavam a defesa e as guerras e os servos trabalhavam.

47 As informações foram extraídas do livro Introdução à história da Igreja (MATOS, 1987) e de apontamentos pessoais, e ainda, do trabalho docente quando ministramos aulas e cursos de História do Cristianismo. 48 A Itália não era um Estado unificado. A expressão “Itália” refere-se às cidades italianas fiéis a ICAR, pois, como

depois, os franceses realizaram uma nova eleição para a sede de Avinhão e elegeram Clemente VII. Eis o Cisma Ocidental concretizando-se. A tradição de uma Igreja Universal, com uma sede e um Pastor, um Papa, deixou de ser realidade. Na ocasião, surgiu novo cenário: “uma Igreja”, dois papas e duas sedes. Cada uma delas autoproclamava-se legitima, e, consequentemente, negava a legalidade da outra. Cada uma, quando necessário, realiza nova eleição e escolhia os novos pontífices: o sucessor de Pedro49. A situação era insustentável, mas

como resolvê-la? Uma tentativa frustrada agravou a crise.

Em 1409, em Pisa, Itália, segundo Matos (1987), realizou-se um concílio cuja validade foi questionada por romanos e avinhonenses, todavia, apesar dos protestos, foi eleito para o pontificado, o então arcebispo de Milão, que, após a eleição, adotou o nome de Alexandre V. A ideia era simples: Ele seria “o papa” e os outros dois deixariam “o poder”. Isso foi um triste engano, pois, como foi dito, Roma e Avinhão não consideraram a escolha legitima, e o resultado foi “uma fé”, “uma Igreja”, três sedes: Roma, Avinhão e Pisa e “três sucessores de Pedro”: Gregório XII, Bento VIII e Alexandre V, respectivamente.

A crise teve fim apenas em 1414, quando da realização do Concílio de Constança. Neste ano, em Avinhão estava “o papa” Bento VIII, em Roma “o papa” Gregório XII e, em Pisa, “o papa” João XXII, sucessor de Alexandre V. Em 1414, o Imperador Sigismundo de Luxemburgo conseguiu propiciar o fim do Cisma Ocidental. A missão de restaurar a unidade teve início em 1410, era necessário deixar a sede vacante para se realizar um conclave válido e sem o risco de aumentar o número de pontífices. Assim, Gregório, voluntariamente, abdicou do poder, João XXII renunciou, após uma “leve pressão” e, finalmente, Bento VIII foi forçado a abandonar, após perder o apoio de fiéis e membros do clero. Como já mencionado, em 1414, durante o Concilio de Constança foi realizado um novo conclave no qual foi eleito Martinho V, finalmente a unidade da ICAR foi restaurada. Desta forma, chegou ao fim o Cisma Ocidental, após 26 anos. Entretanto, as crises pelas quais a ICAR passava, e, ainda, as que viriam, estavam longe de terminar, em razão disto, deveria “se reinventar” e, para isto, teria que enfrentar muitos desafios.

As crises da Igreja observadas no transcorrer da baixa Idade Média, gradativamente, fragilizaram o sistema feudal, o que possibilitou o desenvolvimento das condições para o nascimento e fortalecimento do chamado Estado Moderno, fundamentado na unificação

49 Esta situação é praticamente impossível de ser explicada, em especial, por ser inimaginável que, ao mesmo tempo, admitia-se a existência de dois sucessores de Pedro. Segundo a tradição da ICAR, a pessoa escolhida para suceder o Bispo de Roma, a cátedra de Pedro, torna-se o primeiro entre iguais e recebe a missão de conduzir a Igreja de Cristo, visto que ele é sinal da unidade e deve preservar os princípios fundamentais da fé. Como vivenciar esta tradição em uma Igreja dividida em duas.

territorial e concentração de poder nas mãos do rei, conhecido como Estado Nacional Absolutista. Entre os novos Estados unificados, pode-se citar Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Este fenômeno provocou transformações em várias partes do mundo, incluindo a conquista de novos territórios, até então desconhecidos.

Em 1473, com a queda do Império Romano no Oriente, oficialmente, teve fim a chamada Idade Média e ocorreu o início da Idade Moderna, que perdurou até a Revolução Francesa, em 1778. Contudo, nos primeiros anos desta nova era, ocorreram eventos de tanta relevância que os historiadores dedicam a esta atenção especial, uma vez que ela adquiriu tanta notoriedade que muita gente a consideram como uma espécie de quinto50 período da História:

o Renascimento. Este foi um movimento cultural e intelectual que marcou o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Em linhas gerais, pode-se afirmar que esse movimento desejava retomar os valores norteadores da cultura greco-romana, entre as principais características do Renascimento, encontra-se o humanismo e o racionalismo, consequentemente o antropocentrismo em contraposição ao teocentrismo, característico do período medieval.

Os primeiros dois séculos da Era Moderna foram marcados por grandes mudanças: descobertas, aperfeiçoamento da imprensa, grandes navegações, reforma religiosa, a nível externo e interno e pela busca da independência das ciências da tutela da religião. Enfim, propostas de renovação na educação.

Segundo Gadotti (2003) ocorreu um renascimento pedagógico, dentre as diversas e diferentes propostas pedagógicas da época, encontra-se a de Vittorino de Feltre, humanista cristão, falecido em 1446. Ele defendia “uma educação individualizada, o autogoverno dos alunos, a emulação. Essa proposta teria sido a primeira ‘Escola Nova’, [...].” (GADOTTI, 2013, p. 62). Houve ainda a contribuição de Erasmo de Roterdã (1467-1536), as sugestões de Martinho Lutero (1483-1546) e a proposta dos padres Jesuítas, em especial, a denominada Ratio

Studiorum, uma espécie de manual com plano de estudo, orientações e métodos de

procedimentos em relação à educação.

Entre este vasto celeiro, encontra-se um francês, Michael de Montaigne, cujos textos contêm, indubitavelmente, elementos com características do humanismo renascentista, mas também princípios adotados e defendidos, conscientemente ou não, por existencialistas e personalistas contemporâneos.

50 Tradicionalmente, a História é dividida em quatro períodos: Idade Antiga (termina em 476), Idade Média (476- 1453), Idade Moderna (1453-1789), Idade Contemporânea (1789 - ...). Historicamente, o Renascimento está incluso na Idade Moderna, contudo, possui destaque especial, como se fosse um período à parte.