7 Bringing Up Adjacencies
7.5 The graph of adjacencies
É importante fugir da tendência de fazer julgamentos de valor a respeito das formas de trabalho que as pessoas assumem. Obviamente, poderíamos ser objetivos e comparar se os jornalistas estão tendo mais ou menos direitos trabalhistas
respeitados e condições dignas de trabalho do que antes das modificações recentes no mercado. Mas ao mesmo tempo, estes não são os únicos fatores que dizem respeito à sensação de estar em uma situação precarizada. Nos casos analisados neste estudo, procuramos não julgar as formas de trabalho dos jornalistas, evitando perguntas que classificassem de forma preconceituosa escolhas conscientes de como exercer a profissão. Isso por que não compreendemos o cenário anterior como um mundo ideal, em que repórteres e editores conseguissem boas remunerações e trabalhassem em completa segurança com frequência, por exemplo. Ao mesmo tempo, conforme apresentado no capítulo 2, compreendemos que há um movimento global de individualização das relações trabalhistas e de perda das garantias que durante bastante tempo estiveram no imaginário social como elementos de estabilidade de carreira. Acreditamos que há uma diferença entre o trabalhador optar por abrir mão de uma realidade que não o satisfaz, seja nos campos ideológicos ou financeiros, e ser obrigado a lidar com a falta de recursos para seu sustento por não conseguir se encaixar no mercado. O relato de Roberta vai ao encontro dessa visão:
“Eu acho que para o futuro tem uma perspectiva de terceirização nas redações, inclusive. [Depois de] todas as reformas previdenciárias que vão vir, eu acredito que os jornalistas vão trabalhar por nota fiscal, vão ser prestadores de serviço e, é claro, também vão perder vários direitos; esse vínculo empregatício vai passar por uma terceirização, eu acho. Mas eu vejo [como algo que pode ser] positivo para quem tem uma expertise de grana, de saber mover sua grana e programar sua grana, precificar seu trabalho... Eu acho que ser freelancer é um caminho interessante.” (ROBERTA FOFONKA, 2018, informação oral)
Nos casos analisados neste estudo, essas realidades se misturaram. Em alguns momentos, os jornalistas fizeram a opção consciente de se desvencilhar de estruturas que não representavam seus valores ou se movimentaram em outras direções que não a tradicional de começar ou continuar trabalhando em veículos da grande imprensa. Os relatos de Carla Ruas e Marina Dias vão nessa direção. Carla chegou a experimentar essas configurações de trabalho que estão bastante habituais no momento, como o trabalho por freelancer e a formação de uma carreira com produções para veículos distintos formando um portfolio, mas seu relato mostrou o direcionamento para realizar projetos de crowdfunding como uma possibilidade de financiar o trabalho de forma independente, sem estar reagindo a uma situação limítrofe, como uma demissão. Marina também experimentou um direcionamento
semelhante, optando pela carreira em assessoria de imprensa e utilizando o financiamento coletivo como uma das formas de sustento da Agência Pública.
Nos relatos de Barbara e Kiko, há sinais de que as demissões dos empregos anteriores ocuparam papeis importantes no surgimento dos novos empreendimentos que eles construíram. Já no de Neto e Roberta é marcante como eles percebem os efeitos diretos da precarização das relações de trabalho sem ter escolhido por isso.
“Eu acho que o salário te distancia disso [da instabilidade]. [...] Eu já sei que vou ganhar isso no fim do mês, porém, se eu fizesse tudo o que eu faço e da maneira que eu faço, em condições de freelancer, eu acho que ganharia mais. E um salário resolve um problema que... Tá, as pessoas se matam, querem fazer o melhor, querem fazer um trabalho muito bom, e no fim o mês elas ganham a mesma coisa. Então a gente se distancia dessa “se eu fizer mais, vou ganhar mais, aí vou pegar isso, isso e isso e oferecer isso, isso e isso”.” (ROBERTA FOFONKA, informação oral)
Neto percebe a atuação com o público de travestis e transexuais como um dos elementos que o fez não ser contratado em alguns veículos de comunicação:
“A partir do momento em que eu comecei a focar no público de travestis e transexuais, começou a ser negada minha participação nos veículos tradicionais justamente por eu começar a ser reconhecido como um jornalista que fala sobre a população trans. Eu comecei a não ter nenhum tipo de renda, nenhum tipo de apoio, nenhum tipo de ajuda de custo sobre todo o trabalho que eu estava realizando. Ao mesmo tempo que tinha uma cobrança, um pedido, uma vontade para que eu continuasse, inclusive da própria militância trans.” (NETO LUCON, 2018, informação oral)
Carla chama atenção para a questão de que o tempo gasto para montar os projetos de crowdfunding poderia estar sendo utilizado para a realização de algum trabalho freelancer renderia frutos mais imediatos. Ela também contribui com a percepção de que os colegas que trabalham com as mesmas práticas que ela, financiamento coletivo, submissão para editais de fundações e atuação freelancer, percebem uma instabilidade muito grande na sustentabilidade financeira.
“Essa questão do tempo que tu investes, ainda mais quando é freela, que tu poderia estar fazendo um free que está te pagando. E a questão do financiamento é que eles nunca vão te bancar totalmente, como te pagar aquela matéria, te pagar dois meses de trabalho, ou um ano. Eu conversei com pessoas que vivem disso, de pedir financiamento e eles dizem: “o máximo que eu já fiquei tranquilo foi um ano, sabendo que eu ia poder pagar contas”. Então é uma vida muito incerta.” (CARLA RUAS, 2017, informação oral)
Chama atenção a utilização das palavras “o tempo máximo que eu já fiquei tranquilo” por que demonstra a pressão que há para conseguir financiamento nesses modelos alternativos de trabalho. O contrário de “estar tranquilo” parece ser ter que ficar em constante situação de alerta buscando oportunidades de trabalho. Esse tipo de movimentação pode causar sérios efeitos na saúde emocional do trabalhador. Neto deixa evidente o quanto a instabilidade pode ser prejudicial principalmente para os aspectos psicológicos do profissional:
“Toda essa trajetória que eu te contei, teve momentos em que eu fiquei muito bem, teve momentos em que eu fiquei muito mal. Eu adquiri uma depressão de lá para cá, tanto pela falta de oportunidades [...], uma própria desilusão com os veículos mais tradicionais, e nos veículos mais segmentados que eu achei que teria mais abertura para falar sobre essa população e não havia. E de um tempo para cá o assunto se popularizou, teve veículos que me demitiram por causa disso [do trabalho com a população trans] e começaram a pautar o assunto agora... Então rolam sentimentos variados em relação a esse processo. Em relação às Vakinhas, rola uma ansiedade muito grande de saber se eu vou conseguir ou não, de entender como as pessoas vão lidar com isso. É... (pausa longa) e algumas vezes as pessoas acabam contribuindo mais pro final... (pausa) e acho que é isso. É uma coisa que me deixa muito estressado, que prejudica muito a questão da depressão, mas ainda é o caminho que eu encontrei para realmente conseguir fazer o meu trabalho e aquilo que eu acredito da maneira como eu acho que seria o correto de trabalhar com essa população. Então me estressa, mas é o que me mantém enquanto profissional e pessoa. [...] O problema é que eu não tenho como saber todo mês se eu vou ter dinheiro. Não tem esse conforto. [...] É uma insegurança, a página [NLucon] pode acabar em fevereiro, sabe.” (NETO LUCON, 2018, informação oral)
Nesta questão também se encaixa o pensar sobre o futuro de seus postos, que o International Center For Journalists (2017) identifica como algo que não acontece com frequência nos trabalhadores de redações. Barbara fala sobre essa sensação de instabilidade, mas provoca uma reflexão relativizando o quanto a forma de trabalho do jornalista está centrada na redação, enquanto outras profissões já se habituaram a atuar de forma autônoma.
“Eu tenho plano de aposentadoria da RBS que eu já tinha e eu não parei de pagar.[...] Às vezes, eu penso “ta, mas agora eu não tenho mais o dinheiro da rescisão, agora eu estou vivendo mês a mês de novo e não vou ter FGTS, não vou ter no trabalho décimo terceiro, não vou ter um monte de coisa”. [...] Enquanto eu estava na Zero Hora, eu ficava sofrendo às vezes com o trabalho e falando “ah, mas ter carteira assinada é tão bom” e um dia eu falei “como as pessoas podem não ter carteira assinada?”. E daí a minha analista falou “mas Barbara, eu não tenho carteira assinada,
muitas pessoas vivem com relação diferente com o dinheiro, com trabalho... Se eu quiser sair de férias, eu não vou atender as pessoas, eu não vou receber nesse período. É uma profissão que trabalha com outra relação, não tem uma segurança no trabalho” e eu fiquei “é verdade”. Esse não é o único tipo de relação que a gente pode ter com o trabalho. No meu caso, está sendo legal não ter.” (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral) Kiko também enxerga positivos no trabalho de forma mais independente, mas reconhece que precisa ficar em alerta durante mais tempo ao longo do dia e afirma que costuma se organizar para respeitar as necessidades físicas e psicológicas, mas que mesmo assim é uma carga de trabalho maior do que nos trabalhos anteriores.
“Estou muito mais feliz, muito mais realizado do que com qualquer coisa que eu fiz na Editora Abril. Eu estou trabalhando 50 vezes mais, eu tenho uma rotina pesada, mas sou eu que faço a minha rotina. Se eu quiser me matar de trabalhar, eu me mato. Como eu não sou idiota, eu não faço isso, mas eu trabalho para caramba, trabalho eventualmente até de madrugada. Na manhã seguinte, eu combino com o Joaquim de Carvalho, que é o meu segundo aqui, de pegar às seis da manhã, eu faço a minha corrida, eu faço meditação, eu leio meu livro, eu vejo a minha série... Eu aprendi a administrar o meu tempo de maneira também a não morrer trabalhando, mas trabalho muito mais aqui e sou muito mais realizado aqui do que jamais na Editora Abril.” (KIKO NOGUEIRA, 2017, informação oral)