Lidar com empreendedorismo se torna especialmente dificultoso para os jornalistas quando identificamos que eles nem sempre possuem formação que leve
em consideração essas formas de trabalho, conforme detalhamos no capítulo 2 baseados em Paulino e Xavier (2015) e Filloux (2017). A maior parte dos projetos que analisamos possui características de independência que tornam necessário que os jornalistas utilizem as habilidades de gestão e administração aprendendo na prática como lidar com recursos humanos, finança e desenvolvimento de produtos. Isso não é à toa: no relato dos informantes fica evidente como a administração do projeto/negócio/entidade é feito como um efeito colateral de não estar mais presente em uma instituição formalizada com uma estrutura para isso.
Barbara é a jornalista, dos entrevistados, que mais possui formação na área de gestão. A experiência talvez tenha colaborado para que ela possa identificar a dificuldade do Talvez Seja isso em precificar o seu trabalho.
“A gente está cobrando muito barato [pelos caderninhos], eu só me dei conta disso depois que a gente já tinha começado a fazer. Esse valor não tem nenhum sentido. Se 16 reais é para receber o que a gente dá, está muito desproporcional, mais pelo tempo de envolvimento que a gente tem, não pelo material que a gente usa. Esse foi um grande aprendizado, tanto que agora a gente vai vender e cada um deles vai custar 16 reais. E agora é 16 reais por mês e a gente manda três de uma vez só. A questão de mensurar o tempo do nosso trabalho dentro do valor que a gente estima das coisas é um aprendizado.” (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral) Roberta salientou o quando fez falta ter experiência com empreendedorismo na gestão do projeto:
“O mercado mudou e a gente está a caminho de uma terceirização ainda maior. Isso a gente não aprende, a gente não tem contato, nem com a perspectiva de me financiar sozinha ou “vou arranjar alguém que entenda de finanças para comunicação, que vai fazer toda essa parte para mim, que vai me ajudar para eu poder fazer o meu trabalho”. Eu acho que isso está muito distante do exercício do jornalista. Então um cenário ideal seria um jornalismo financiado pelas pessoas e que o jornalista não precisasse ficar escrevendo, cansando, preocupado com o anúncio, com o dinheiro que está entrando, em gerir esse tipo de coisa. Só que eu não tenho experiência de freelancer, por exemplo.” (ROBERTA FOFONKA, 2018, informação oral)
Sobre as fontes de financiamento, fica evidente nos discursos de Natália e Barbara a preocupação em diversificar as fontes de renda dos projetos. Marina entende que as campanhas de crowdfunding são importantes para garantir também a independência da iniciativa e engajar os leitores a continuar colaborando. Barbara afirma crer que nenhum empreendimento atualmente deveria ter apenas uma fonte
de financiamento. Já Neto, traz o elemento social para explicar o motivo que o faz crer que depender do público pode ser um problema:
“O meu grande objetivo mesmo é não ficar dependente dos leitores. A Vakinha era uma coisa que eu nem acreditava, mas que funcionou. [...] Eu gostaria muito que alguma grande empresa patrocinasse o trabalho, daí o público poderia ficar apenas como leitor. [...] Eu não precisaria dos leitores, daí. Eu me sinto mal, é uma população que muitas vezes não tem tantas condições assim de contribuir e eu tendo uma empresa que seja amiga da diversidade e que ajude a financiar o trabalho seria mais confortável para todo mundo.” (NETO LUCON, 2018, informação oral)
A realização de investimentos financeiros para a execução do projeto é um ponto que divide os entrevistados. Barbara foi a que pareceu lidar melhor com a ideia de realizar investimentos, o que pode ter relação com a atuação enquanto gestora em Zero Hora e a formação acadêmica na área. O investimento inicial para a criação do primeiro podcast, o Coisas que a Gente Cria, foi considerado grande por ela, algo em torno de R$5 mil para comprar microfones e outros equipamentos de som e veio como resultado da rescisão após a demissão do Grupo RBS. O conforto com a realização de investimentos não é acompanhado do cuidado contábil tradicional que uma empresa exige. Mas isso não é uma exceção. De todos os projetos, apenas a Agência Pública e o Diário do Centro do Mundo estão estabelecidos formalmente enquanto empresas.
A gente contabiliza, para considerar hoje que a gente não está pagando para trabalhar, a gente diluiu esse custo de servidor, o custo da ferramenta de publicação, o custo do domínio, e daí as coisas que são as impressões, todos os materiais, os envios pelo correio, todas essas coisas são contabilizadas para a gente considerar o que a gente fizer. Acho que a gente não faz a contabilidade assim como seria em uma empresa, porque, por exemplo, eu vou de Uber até a casa da Mari, estou levando meus equipamentos e não vou de ônibus: eu não conto esse Uber na nossa conta, mas todas as outras coisas, sim. (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral)
Diversos projetos manifestaram desconforto com o valor pago como comissão ao Catarse pelo uso da plataforma. Foram os casos de Neto, Kiko e Roberta. Barbara compreende que a mediação da plataforma para receber os recursos é essencial. É fato que nenhum afirmou que o trabalho da plataforma não é importante, muito pelo contrário, todos fizeram questão de afirmar o quanto julgam de qualidade o trabalho da empresa. A questão que ficou evidente, porém, é que em alguns projetos que
pedem valores pequenos, uma comissão de 13% resulta em uma quantidade de esforço muito grande despendida sem poder usar os recursos.
“No começo, era através do Catarse, só que o Catarse fica com 13% e eles vendem – eu não estou falando mal do Catarse, eles são um negócio honesto e bem feito... Mas quem é responsável pelo sucesso do crowdfunding não é o Catarse e a suposta rede Catarse, e a capacidade de articulação do Catarse. É o próprio DCM.” (NOGUEIRA, 2017, informação oral)
O Diário do Centro do Mundo, aliás, descontente com a quantidade paga em comissão ao Catarse resolveu investir em uma plataforma prória de financiamento coletivo. Com isso, não é necessário pagar a comissão e surgiu a possibilidade de transformar a própria ferramenta em um produto oferecido a outros projetos. De acordo com Kiko, eles cobram um valor menor do que o Catarse de comissão. Carla também procurou desenvolver algum produto advindo do projeto financiado pelo Contrituboria. De acordo com ela, a plataforma não colocava limitações para que os repórteres publicassem o conteúdo em outros locais (inclusive estimulavam isso). Com essa liberdade e a grande quantidade de texto que tinha sido gerado, em parceria com a Agência Fronteira, Carla transformou as duas reportagens em e-books lançados na loja da Amazon.
A geração de produtos é um elemento importante por estar conectada à necessidade de pensar a sustentabilidade dos negócios. O financiamento coletivo é visto como uma fonte de renda principal para o projeto de Barbara e Kiko. A Agência Pública possui financiamento de fundações internacionais e os projetos de Carla e Roberta tem características pontuais, portanto não geram uma situação comparável. Neto procura no crowdfunding alguma possibilidade de cobertura dos custos, mas relata que os valores arrecadados não cobrem todos eles e que não há abertura por parte de empresas para apoiar o projeto por causa do estigma relacionado à população de travestis e transexuais.
“Cara, depende do mês. Quando faz o crowdfunding, quando ele é bem- sucedido, ele pode ser metade da receita do site. Até mais. É que a gente não faz todo mês.” (KIKO NOGUEIRA, 2017, informação oral)
Neto também percebe a dificuldade de arrecadação nos meios publicitários tradicionais:
“Eu já procurei empresas que colocam essa população [de travestis e transexuais] dentro de comerciais e elas falam que não tem interesse, que
não veem especificamente essa população como consumidora. Elas nunca querem associar o nome da marca com a população trans, porque é uma população que está cheia de estigma.” (NETO LUCON, 2018, informação oral).
Barbara parece ter dificuldade de ver o seu trabalho com podcasts como uma forma de sustento. Ela afirmou que acompanha um grupo sobre podcasts no Facebook e que em certo momento uma pessoa estava comemorando que entre os vinte podcasts que mais recebia dinheiro de financiamento coletivo estava um brasileiro. Ela ficou curiosa e perguntou como que ele fez o levantamento e o rapaz explicou que entrou em diversos sites de crowdfunding e fez o levantamento. Ao abrir o conteúdo dele e ver a lista, o podcast recebia R$ 20 mil por mês.
“Eu fiquei pensando “sério que o podcast que mais arrecada dinheiro no Brasil e que a gente está supostamente celebrando ganha 20 mil reais por mês?”. Isso não é sustentado as famílias, considerando que essas pessoas viveriam disso e pegariam parte desse dinheiro para criar suas aposentadorias, seus décimos terceiros, suas férias e todas as coisas que a gente não tem com direitos trabalhistas e coisas assim.” (NICKEL) Barbara afirma que os caderninhos chegaram a um momento em que elas já não tem mais condições de produzi-los e definiram um teto de até quantos poderiam entregar. Elas disponibilizaram os arquivos das artes dos caderninhos em PDF para que as pessoas possam baixar. Pela vontade de desenvolver um produto que fosse mais escalável, elas criaram o Planejamento Selvagem, que é uma oficina online de planejamento pessoal a partir do que está sendo aprendido no livro que originou o podcast. Mensalmente, elas mandarão um e-mail com um check list para as pessoas que estão participando poderem avaliar se estão cumprindo os objetivos. Serão feitas também reuniões de 1h por mês para que se fale sobre o processo. Ao todo, possuem cerca de 37 vagas, divididas em 11 para um grupo menor e 26 para um grupo maior. Ao todo foram vendidas 18 vagas, sendo que as do grupo menor já acabaram.
A ideia é que o crowdfunding, mais uma série de produtos lançados possam gerar uma possibilidade de sustento a médio prazo. “Nenhum negócio deveria contar com apenas uma fonte de receita”, afirma Nickel.
“Se a gente chegar em um tamanho legal – não acho impossível -, vou ter que ter alguém para fazer isso, porque eu não quero que isso seja o meu trabalho, eu quero poder continuar lidando com o conteúdo, que é a parte que hoje eu acho legal. Mas enquanto não tem dinheiro para contratar uma pessoa, e, aliás, a gente queria contratar uma pessoa para nos ajudar, não
deu certo, a gente contratou por dois meses, mas se sente.” (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral).
Barbara relata que o sonho dela é poder chegar em um momento em que se contrata uma pessoa para cuidar da parte administrativa do negócio. É interessante como esse é um valor que apareceu outras vezes nas entrevistas.
Deuze e Witschge (2016) discutem a necessidade que os veículos de comunicação precisam ter, ao pensar no negócio, de prever a realização de parcerias com outros veículos de comunicação. Essa prática se estabeleceu principalmente no campo da distribuição do conteúdo nos projetos analisados. A maior parte deles procura garantir que o conteúdo produzido alcance um público maior, como é o caso da Pública e das reportagens produzidas no Contributoria. Já Neto e Roberta demonstraram orgulho ao perceber que suas reportagens pautam outros veículos de comunicação locais ou nacionais.
“Eu acho que o jornalismo independente é super importante, interessante, mas ao mesmo tempo a gente sente falta daquele público do jornalismo dos veículos tradicionais. Nós não temos esse público e o ideal seria meio que combinar os dois mundos: ganhar o financiamento, fazer a matéria que tu queres fazer e depois publicar em um grande veículo. Mas essa combinação dos dois mundos não é tão fácil, mas a gente está tentando.” (CARLA RUAS, 2017, informação oral)
Isso não significa, claro, que os veículos possam ficar restritos ao público que é gerado. Tanto a Agência Pública, quanto o NLucon e o Dossiê Palcos Públicos percebem a importância do seu trabalho para pautar a mídia de massa a falar sobre os assuntos que investigam. A Pública, inclusive, mantém um acordo com veículos de comunicação e chega a negociar a exclusividade dos seus conteúdos. Pariser (2011), ao notar que as redes sociais acabam se configurando em formato de bolhas, entende que é necessário fazer esforços constantes para atingir públicos diversificados ideologicamente na internet e esse movimento dos projetos vai nessa direção.
5.6 INSTABILIDADE CONSTANTE E PRECARIEDADE NAS RELAÇÕES DE