2.1. Origem dos lotes
Os lotes foram coletados ao largo da costa do Brasil desde 1961 até o ano 2000, principalmente a partir de Comissões Oceanográficas. Essas Comissões foram realizadas através de barcos pesqueiros e navios oceanográficos (NOc) como Akaroa, Almirante Saldanha, Antares, Calypso e Canopus. Além do material proveniente das comissões, há material do Maranhão (MA) cuja origem é Beach drift, representando organismos normalmente deixados na praia pelas marés.
As comissões realizadas foram: Akaroa (Barco Pesqueiro Akaroa); Costa Sul I, Geomar I, II e III, Norte/Nordeste I e II, Pesca Norte I, Pavasas, Recife (NOc Almirante Saldanha); Calypso (NOc Calypso); Canopus (Barco Pesqueiro Canopus); REVIZEE NE I e IV (NOc Antares), Itamaracá (ITA), Recife e Pernambuco (PE). Também há material cuja etiqueta informa apenas: Instituto de Pesquisa da Marinha (IPqM) ou Instituto Oceanográfico e algumas possuem apenas o tipo de draga.
Segundo Kempf (1970), o material referente às Comissões provenientes de Akaroa, Almirante Saldanha, Canopus, e Recife foi coletado nas costas Norte e Nordeste do Brasil (Figura 2).
Figura 2. Locais de coleta das Comissões Almirante Saldanha, Akaroa, Canopus, Recife. Fonte: Kempf
A Expedição Oceanográfica Geologia Marinha (Geomar) foi realizada pelo Departamento de Geofísica da Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil (DHN). A expedição Geomar I ocorreu em 1969 e compreendeu a região da Plataforma Continental Brasileira que se estende da foz do Rio Parnaíba (na divisa dos Estados do Piauí e Maranhão), até a Ilha de Maracá, no litoral do Amapá (DHN, 1972 apud CANTARELLI, 2003). As expedições Geomar II e III ocorreram em 1970 e 1971, respectivamente.
A Comissão Calypso foi realizada entre 1961-1962 ao longo da Costa Atlântica da América do Sul e coletou amostras principalmente da plataforma continental e também algumas amostras da zona intertidal e talude (FOREST, 1966 apud YOUNG, 2000).
A comissão REVIZEE–NE abrangeu desde a foz do Rio Parnaíba até Salvador (Bahia), incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha, o Atol das Rocas e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, durante o período de julho a outubro de 1995 (NE-I) e de setembro a dezembro do ano 2000 (NE-IV).
Kempf (1970) descreve as comissões Akaroa, Canopus, Recife e Saldanha da seguinte forma:
Akaroa: abrangeu 190 estações (8 a 100 m) na região de Plataforma dos Estados de
Alagoas e Sergipe, e da região do Rio São Francisco.
Canopus: 115 estações (45 to 80 m) na Plataforma entre o Estado do Ceará e o Rio
São Francisco, incluindo bancos no Ceará e Rio Grande do Norte.
Recife: 160 estações (7 to 60 m) região da plataforma continental, em uma pequena
área de Recife (cerca de 25 milhas náuticas de extensão), com ênfase na zona costeira.
Saldanha: 185 estações (20 to 100 m) na região da plataforma continental entre o
Cabo Orange e Recife, incluindo os bancos e ilhas da costa Norte.
As amostras provenientes das Comissões Akaroa, do NOc Almirante Saldanha, Canopus, e Recife foram coletadas utilizando-se dragas do tipo retangular. Após separação de uma fração para estudos geológicos, as amostras foram lavadas através de peneiras e os componentes biológicos foram isolados (KEMPF, 1970). Não foi possível obter as informações referentes às demais expedições.
Os lotes já se apresentavam etiquetados contendo a origem do material (Comissão Oceanográfica), em alguns casos a identificação realizada anteriormente, e informações como coordenadas geográficas e profundidade de coleta. Para este trabalho foram acrescentadas as etiquetas com as novas identificações (no caso de mudanças) e com o número de tombo da coleção. Todo o material se encontra conservado em álcool 70%.
2.2. Estudo dos octocorais
Para o estudo taxonômico de octocorais, observam-se caracteres macroscópicos e microscópicos.
A análise macroscópica foi realizada utilizando-se microscópio estereoscópico. As colônias foram mensuradas (altura, largura da colônia, largura dos ramos) utilizando-se régua, paquímetro e algumas vezes a ocular micrométrica do microscópio. Além disso, foram observados: padrão de ramificação, distribuição dos pólipos, presença/ausência e forma de cálices.
Os caracteres microscópicos são as escleritas (elementos calcários presentes na mesogléia), caractere essencial para a identificação de octocorais, cujo tamanho, morfologia e coloração possuem extrema importância taxonômica (BAYER, 1961). Foi utilizado principalmente microscópio óptico, e as escleritas de alguns exemplares foram observadas também em Microscópio Eletrônico de Varredura (MEV).
Para observação de escleritas em microscópio óptico, foram preparadas apenas lâminas temporárias. Para tal, uma porção do tecido do octocoral era retirada e colocada em lâmina escavada contendo Hipoclorito de Sódio, a fim de permitir a dissociação das escleritas. Estas se decantavam no fundo da lâmina e o hipoclorito de sódio era substituído por água destilada até que a amostra estivesse limpa o suficiente para ser observada em microscópio e para que não houvesse formação de cristais resultantes da secagem do hipoclorito. As lâminas eram observadas diretamente no microscópio. As escleritas de cada região analisada foram classificadas e mensuradas com o auxílio de uma ocular micrométrica. As escleritas foram fotografadas e para algumas espécies posteriormente foram realizados desenhos através de decalque, utilizando papel carbono.
Para estudo em MEV, foi retirado um fragmento da região a ser analisada, e este foi embebido em tubo de ensaio contendo hipoclorito até completa dissolução do tecido. O mesmo processo de retirada do hipoclorito e substituição por água destilada foi realizado. Entretanto, neste caso o procedimento foi realizado cerca de cinco vezes para cada amostra, a fim de torná-la ainda mais limpa. Posteriormente, a água destilada foi substituída por álcool 70%.
Imediatamente antes de trabalhar com a amostra, o álcool 70% foi substituído por álcool 100% a fim de desidratá-la. Com o auxílio de uma pipeta, foram retiradas as escleritas decantadas no fundo do tubo de ensaio e estas foram pingadas sobre uma lamínula aderida ao
stub (suporte metálico para análise de amostras em MEV) através da substância Poli-L- Lysina. As escleritas foram arrumadas nas lamínulas com o auxílio de um instrumento que portava um cílio na extremidade (uma agulha poderia arranhar a lamínula), a fim de evitar sobreposição das escleritas. As lamínulas foram secas ao ar livre, porém protegidas de material em suspensão (ex.: poeira). Posteriormente, o material passou por um banho metálico (procedimento realizado por técnicos do laboratório de microscopia eletrônica do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste - CETENE) a fim de encontrar-se apto para análise em MEV.
A Figura 3 mostra alguns tipos de escleritas que serão mencionados ao longo do trabalho.
A identificação dos lotes foi realizada utilizando-se como principais bibliografias: Deichmann (1936), Bayer (1961), Bayer et al. (1983), Castro (1990a), Fabricius & Alderslade (2001), Medeiros (2005), e uma chave de identificação para famílias de Octocorais do mundo, criada e mantida on line pelo Dr. Gary Williams (California Academy of Sciences).
Figura 3. Tipos de escleritas. A, B: Halteres; C, D: Estrela-dupla; E: Borboleta; F: Cabrestante; G, H: Fusos; I:
bastão curvado; J,K,L,M: Bastões; N: Roseta; O: Corbelha; P: Triquilhada; Q: tocha; R: Escafóide. Adaptado de Bayer (1961) e Fabricius & Alderslade (2001). OBS: Tamanhos reais não representados.
A B C D E
J K L M N
F G H I
Alguns lotes puderam ser comparados com lotes do MNRJ e do Laboratório de Biologia de Cnidários do Departamento de Ciencias Marinas da Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina (LABIC).
Para a elaboração da chave de identificação de octocorais do Brasil, baseou-se nos caracteres atribuídos pelo Dr. Gary Williams, na chave de famílias para Octocorais do mundo já elaborada por ele. Optou-se por este procedimento, levando-se em consideração que os caracteres já utilizados pelo pesquisador são de fato, caracteres capazes de diferenciar as famílias. Apesar disso, a chave foi adaptada às famílias existentes no Brasil, modificando-se os caracteres quando conveniente.
2.3. Informatização da coleção
Após conclusão das identificações, cada lote recebeu um número de tombo. Os números de tombo são seqüenciais e a coleção está cadastrada como coleção de Cnidaria (CNI-DOCEAN). A partir daí, os lotes foram informatizados utilizando-se o software de gerenciamento de coleções Harpia, desenvolvido no MNRJ em parceria com o Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ.
Este software permite a entrada de dados como coordenadas geográficas, profundidade, número de exemplares, técnica de coleta, tipo de ambiente, etc. Os dados serão disponibilizados ao Departamento de Oceanografia da UFPE.