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Definitions of commonly used terms

1 Introduction

1.2 Definitions of commonly used terms

Outro ponto que se confirmou nas entrevistas foi a necessidade de formar comunidades em torno dos projetos, conforme argumentava Belleflame (2011), Valiati, (2013), Galuszka e Bystrov (2014), Felinto (2012), Jenkins (2009) e Aitamurto (2011). A formação de comunidades não colabora somente na possibilidade de o projeto bater sua meta de doações, mas é uma necessidade que acaba surgindo pela demanda do público em estabelecer contato e opinar no andamento das ações.

A Agência Pública afirmou na página do Reportagem Pública no Catarse que o projeto é “uma maneira de construirmos uma comunidade que se mobiliza e nos incentiva” (CATARSE, 2017, s.p.). Ou seja, a execução bianual da ação não serve

apenas para executar a atividade fim da campanha, mas por que o grupo acha importante que se mantenham pessoas por perto (mesmo que virtualmente) dando suporte, opinando e à disposição para estabelecer contato quando necessário. De fato, isso fica evidente ao comparar com os relatos de Marina quando explicou o contato constante com leitores no grupo do Facebook em citação anterior.

Castells (2003), quando afirma que os processos de sociabilidade se reconfiguram nos suportes digitais, percebe que as comunidades se configuram enquanto redes de apoio em que o compartilhamento de valores, interesses e identidades são relevantes na formação delas. Isso ficou evidente quando questionamos aos jornalistas se eles se sentiam parte da comunidade formada e quase todos os entrevistados responderam afirmativamente.

Esse ponto em específico da formação de comunidades é importante por se conectar às reflexões que fizemos anteriormente sobre as quebras das lógicas hierárquicas que nos habituamos a seguir na produção jornalística. O jornalista, nesta configuração, não está localizado apenas como um ente à parte, que tem o público como uma visão abstrata de quem seria o consumidor do material, como quando pensamos em “público-alvo”, “target” e outros termos que descrevem a idealização de quem irá comprar o produto desenvolvido. É claro que, ao mesmo tempo, o conteúdo produzido não é direcionado apenas àquelas pessoas que pagaram por ele. Os doadores não “compram” os direitos pela produção do profissional, ela ainda está disponível para outras pessoas consumirem gratuitamente. Portanto, não se pode excluir que ainda exista uma visão mais global de quem poderia ser o público consumidor, mas ela já não é mais baseada apenas numa montagem com base em características genéricas. A audiência mais próxima, nos casos analisados, possui nome e sobrenome.

“Eu percebi que era uma comunidade quando aquilo não precisava da gente. Não é um lugar em que eu e a Mari, a gente precise postar conteúdo, não é uma ferramenta de divulgação nossa.” (NICKEL)

Como argumenta Palmer (2015), a relação de comunidade em torno de um projeto é um tipo mais íntimo de relação do que apenas uma relação comercial. E faz parte das relações que algumas sejam rompidas ou reestruturadas ao longo do tempo. Isso é uma questão central nesta análise: os doadores não são apenas pagadores do trabalho do jornalista, como um anunciante clássico, mas são membros de um grupo

que acredita no trabalho e o querem ver acontecendo. Os campos de negociação nessa configuração de relações são mais complexos do que “se você não fizer o que eu quero, tiro seu dinheiro”. Até por que se formos levar em consideração a média de doação aos projetos exposta no capítulo anterior, não é tanto dinheiro assim. Em uma situação de ruptura eventual, talvez a perda maior seja a do colaborador enquanto um “embaixador” do projeto junto ao seu grupo social, algo que realmente faz diferença, conforme percebemos nas experiências relatadas por Marina ao se quando falam da participação das famílias na campanha.

“A gente tem uma estratégia de acionar essas pessoas que são próximas logo no começo. Tem umas dicas que o Catarse dá e uma delas é que é importante que o projeto largue bem; que vá muito bem nos primeiros dias, e cai 10% nos dois primeiros dias. E a gente conseguiu fazer isso nos dois últimos. E isso passa também de você mandar mensagem no WhatsApp da família e falar “ó, pessoal, quem se compromete com a causa, estamos aí... quem acha o trabalho que a gente faz importante, favor, faça a sua doação” e isso colou bem” (MARINA DIAS, 2017, informação oral)

A participação dos primeiros círculos de contato é algo que Agrawal (2011) reconhece como relevante principalmente por potencializar projetos inovadores e que o próprio Catarse coloca em seus manuais de procedimentos a se observar. De acordo com o site, é importante que no começo do projeto se ative grupos de familiares, apoiadores da causa, colegas de trabalho, de universidade ou vizinhos para que se organizem e colaborem nos primeiros dias. Isso daria força para que o projeto continuasse evoluindo com o tempo. Essa tendência, entretanto, não foi observada por todos. Kiko, por exemplo, entende que as colaborações vêm justo dessa comunidade de leitores que acreditam no trabalho e esperam algo bom sendo criado após a doação, dando o dinheiro por prazer graças à crença na causa defendida.

“Cara, não, isso é papo furado. Você tem quantas pessoas na sua família? [...]. A gente já está nisso há um tempo, e hoje a gente vê que, primeiro, a família não dá porra nenhuma. Os amigos, pior ainda, então a gente depende dessa comunidade sobre a qual você está falando. [...]. Só que, no estágio em que a gente está, a gente coloca no ar e a sorte está lançada, Deus é Pai, Sangue de Jesus tem poder e vamos ver o que acontece.” (KIKO NOGUEIRA, 2017, informação oral)

O aumento da pressão em relação à entrega do conteúdo final é algo que apareceu em diversos projetos. O que não deixa de ser algo levemente contraditório,

já que os profissionais declararam ir em busca de independência ao realizar os projetos de crowdfunding. Há duas formas de pressão que se sobressaíram nos relatos. A primeira é uma pressão que diz respeito ao jornalista com ele mesmo, no sentido de querer entregar o melhor conteúdo possível, já que, como percebemos anteriormente, a relação é mais pessoalizada e dependendo da situação você sabe exatamente quem deu o dinheiro para que o projeto seja executado. Ao mesmo tempo, fica evidente que o fato de uma pessoa abrir mão dos próprios recursos para entregar ao jornalista gera uma sensação de débito com quem colaborou. Mas do ponto de vista da relação dos autores com o público, o que fica mais evidente é uma preocupação em realizar o trabalho com extrema qualidade para não decepcionar o doador. Apesar de ter sido raro relatos de episódios em que o público reclamou da qualidade do conteúdo (e talvez nem fosse se expor dessa forma para um pesquisador), fica uma sensação de que é necessário entregar um trabalho com qualidade ímpar. Os relatos de Kiko, Roberta e Neto sintetizam um pouco isso:

A gente fica apreensivo de entregar. As pessoas querem, é uma obrigação nossa. A gente não brinca em serviço. Você imagina você dá do seu coração 100 reais porque acredita que a gente vai fazer um bom trabalho, e a gente entrega um negócio meia-boca. Aí acabou. Aí fecha. Então é uma pressão, sim. (NOGUEIRA, 2017, informação oral)

Para Kiko, a responsabilidade é completamente depositada no jornalista: “Primeiro, a responsabilidade recai toda sobre você. Você não está em uma estrutura em que você pode falar “ah, seu chefe não cobrou” e, também, a satisfação é maior. Eu estou falando do meu caso específico.” (NOGUEIRA, 2017, informação oral)

Para Roberta, o principal interesse é poder sincronizar a linha editorial e o compromisso com os leitores:

“O leitor é o nosso patrão, então a gente está preocupado com a opinião pública e mais nada. Não interessa se vai quebrar o pau lá na secretaria, porque a gente tem compromisso com os nossos leitores. Não haveria uma entidade maior para nós dize “não, não vai por aí, não pode, aí é delicado”. (ROBERTA FOFONKA, 2018, informação oral)

“O que me deixou preocupado desde o início é que a população trans não gostasse, sabe. De interpretarem errado, sabe. [...] Então as vezes eu procuro dar justificativas pra essa população. [...] Na primeira campanha eu pedi dinheiro para comprar equipamento e fazer trabalho em vídeo. O pessoal reclamou muito do áudio, daí eu tive que comprar equipamento de áudio. Todo o meu trabalho está sendo visto diariamente. [...] Eu acho que se eu não atendesse as expectativas das pessoas que colaboraram haveria

um questionamento muito forte. Mas o pessoal entende que está sendo investido pra página.” (NETO LUCON, 2018, informação oral)

Um segundo tipo de pressão é a relativa ao público querer interferir no conteúdo que está sendo produzido, mas ele nem sempre é experimentado ou em alguns momentos é superestimado. Havia uma expectativa de que o público se interessasse mais em participar da produção do conteúdo em alguns projetos, entretanto a participação dele fica mais restrita às sugestões de pauta. Mesmo no Contributoria, em que se poderia ter uma possibilidade maior de sugestões nos textos do repórter, isso não aconteceu, conforme citado anteriormente. Jenkins (2009) percebe que o público e os produtores de conteúdo na internet precisam conviver em uma relação menos hierarquizada e com transito maior entre as plataformas de mídia.

O primeiro podcast que Barbara desenvolveu, por exemplo, não virou um projeto de financiamento coletivo por que ela temia que o público quisesse fazer sugestões editoriais, como sugerir entrevistas e que seria difícil não ceder às pressões do público. O Coisas que a Gente Cria era um projeto que significava a realização de uma vontade pessoal e não estava aberto a interferências externas. Essa impressão acabou se desmanchando quando Barbara realizou o Talvez Seja Isso. Por mais articulado que as mulheres que fazem parte do grupo no Facebook e acompanham o podcast estejam, elas sempre tiveram baixíssima demanda de participação nas decisões. Um dos relatos da jornalista foi de que em certo momento não conseguiu cumprir o prazo para entregar os caderninhos que serviam de recompensa às doadoras. Ela pensou que o público ficaria decepcionado e achando que haveria uma falta de comprometimento. Mas na verdade, o público não se incomodou com os atrasos, desejou força, foi compreensivo e elogiou o trabalho.

“A reação delas foi muito generosa, foi muito “a gente nem conseguiu ouvir todos até agora”, “não te estressa, a vida é assim”, “fica tranquila, está tudo bem, vai dar tudo certo”, “eu estou ansiosa, mas eu vou esperar”, “vou ouvir de novo”. Elas foram todas muito assertivas, então eu não sei se eu que não sei que todas as pessoas do mundo são assim tão legais, ou se realmente a gente tem uma comunidade de mulheres que são muito legais. Elas são muito acolhedoras umas com as outras e com a gente.” (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral)

Essa relação exposta pelo caso pode encontrar conexão com a ideia de que no capitalismo cognitivo há uma relação bastante intensa não apenas com o produto, mas emocional com a ideia do que está sendo vendido e gerado (COCCO; VILARIM, 2009; CORSANI, 2003; PETERS; BULUT, 2011). Por isso, talvez, a formação de uma

comunidade em torno do projeto seja tão importante. Já não basta oferecer um produto, no caso a reportagem feita, precisa-se oferecer também uma ideologia em torno dele para que seja adotada pelo público. Em grupos pequenos, que são a maioria nesta análise, isso fica mais evidente já que o convencimento precisa ser bastante emocional.

Aitamurto (2015), ao analisar as campanhas de financiamento coletivo, percebeu que a relação emocional toma um campo tão importante que em certos momentos a colaboração do doador acaba se focando mais em um elemento de caridade do que em um interesse real pela aquisição do produto gerado. Mas isso seria propriamente um problema do jornalismo financiado por crowdfunding? Neste trabalho, tendemos a pensar que não. Afinal, quantas vezes já compramos ou assinamos um jornal pela motivação de nos mantermos informados, mas não necessariamente demos importância para tudo o que foi publicado? Quando Reginato (2016) resume as diferentes funções do jornalismo e cita que algumas delas tem a ver com um campo mais subjetivo, como interpretar a realidade e apresentar a pluralidade da sociedade, podemos compreender que os meios de comunicação e o jornalismo não servem apenas para informar, mas para estabelecer conexões sociais e emocionais entre as pessoas.

Na verdade, eu fico pensando que [é] legal que a pessoa queira nos dar dinheiro. Ela quer contribuir para o que a gente está fazendo. E [tem] as que dizem “vai acabar o livro e o próximo que vocês fizerem depois, eu vou continuar apoiando, podem dizer o que vocês quiserem”. [...] Uma das apoiadoras disse: “eu gosto muito do trabalho de vocês, eu ouço várias vezes os podcasts, eu quero ajudar vocês, eu vou apoiar e vocês não precisam me mandar os caderninhos, porque eu só quero apoiar vocês [...] Tem um grupo que realmente ouve o podcast e é muito fã e quer que a gente continue fazendo, mas eu acho que tem um grupo que quer os caderninhos e talvez elas não ouçam o podcast. Tem uma que não conseguiu apoiar e disse “gurias, quando é que a lojinha de vocês vai estar funcionando? Eu quero comprar. Elas entram no grupo e perguntam “como é que eu compro?”, então eu acho que tem umas que querem que o podcast exista, tem umas que querem os caderninhos, tem umas que querem as duas coisas, mas nem todas querem as duas coisas, eu acho. (BARBARA NICKEL, 2017, informação oral)

Salaverría e Negredo (2008) já percebiam que no atendimento a uma comunidade mais específica e mais especializada em um assunto, a fiscalização do conteúdo pode ser maior, portanto o jornalista precisa cuidar mais do que faz. Ao mesmo tempo, não se pode esquecer que com a possibilidade de quebra de

hierarquias, o público também pode participar da criação, o que nos leva a crer que a preocupação excessiva com a opinião do público possa não estar conectada com a realidade das expectativas. O caso de Barbara ilustra a percepção de Palmer (2015), de que o público pode ser bem compreensivo desde que haja um esforço de fazer parte da comunidade. É importante salientar, aliás, que todos os informantes responderam afirmativamente quando perguntado se eles se sentiam parte da comunidade que foi formada, com exceção de Carla, que não percebeu uma comunidade se formando dada as características específicas do Contributoria.

A formação de comunidades se mostrou como um dos principais fatores para que motivam a mudança da lógica do como gatekeeper, que Bruns (2005) entende como parte da modificação das formas atuais de fazer jornalismo e Jenkins (2009) como câmbio nas formas de consumir informação na cultura da convergência. Em um ambiente de participação constante e estimulada, como os grupos do Facebook criados pelo Talvez Seja Isso e pela Agência Pública, a sugestão de pauta não tem apenas um papel secundário, mas ajuda a montar linha editorial do projeto. E se levarmos em consideração que temos tempo limitado e acabamos dando atenção apenas aos conteúdos mais importantes, como resultado do excesso de conteúdo a que temos acesso (BECK; DAVENPORT, 2002), ter o público orientando a definição das pautas pode tornar todo o processo mais engajador para os leitores.

É verdade, porém, que a pressão por parte dos doadores, em certos momentos, precisa ser administrada levando em consideração pedidos bastante objetivos. Roberta relata que aconteceu algumas vezes de pessoas tentarem dar sugestões e ordenarem o grupo investigar questões que não estavam no escopo do projeto. Ela conta que se estabeleceu uma linha editorial e que não houve receio em avisar ao colaborador de que a sugestão dele não se encaixava. Neto também teve situações semelhantes:

“Professores de universidade, artistas, muita gente ligada ao meio, jornalista, pessoas mais da nossa área... Então rolou [participação do primeiro círculo]. Enquanto o projeto estava acontecendo, rolava bastante da comunidade artística nos procurar: “ah, seguinte, isso, isso e isso”, “aconteceu isso, isso e isso”, “mandaram um e-mail assim, um absurdo”. A gente ia lá, acompanhava, fazia cobertura, nos davam um furo. E algumas cobranças, também, que não tinham nada a ver com o nosso projeto: “faz alguma coisa, esse absurdo acontecendo”. E a gente ficava em um dilema editorial “o que a gente faz agora?”. A gente jogou a isca, agora as pessoas querem. Só que aí a gente teve esse posicionamento de seguir fiel ao

nosso tema, daqui a pouco a gente vai começar a fazer tudo sobre tudo.” (ROBERTA FOFONKA, 2018, informação oral)

Neto percebe também que o público pode faze confusões sobre o que significa a doação:

“Tem algumas pessoas que acham que por ter contribuído com a página eu vou fazer uma entrevista com ela. Acontece isso. Ou que eles vão indicar alguma coisa e eu vou fazer na hora. Na verdade não, né. Eu posso acatar a pauta independentemente da Vakinha ou do financiamento. Não é uma compra de matéria, sabe. O retorno é o trabalho que eu já desenvolvo. [...] Eu acho normal, eu gosto que as pessoas queiram participar, dar palpite. Principalmente aquelas que realmente dão apoio, não acho que seja negativo ou não. Às vezes eu só faço algumas reclamações quando aparecem algumas pessoas que não são trans e reclamam que eu escrevo sobre o assunto. [...] Mas quando eu jogo pra população trans o que eu estou fazendo sempre tenho retorno positivo.” (NETO LUCON, 2018, informação oral).

Trazemos estes episódios para dimensionar o peso da pressão do público. Nos casos analisados, fica demonstrado que a pressão maior é do jornalista com ele próprio e menos do público com o projeto.

No campo das pressões e das interferências dos financiadores nos projetos, poderíamos fazer um paralelo em relação ao que acontece nos veículos da mídia tradicional. Avaliamos que é diferente um anunciante grande, como uma rede de supermercados, por exemplo, por meio do seu departamento de marketing, ligar para uma redação e falar sobre uma cobertura desagradável ou fazer um pedido. Pode-se imaginar que o jornalista na redação talvez não dê muita atenção ou até mesmo sequer seja o destinatário do pedido, mas a mesma coisa não é tão certa em relação aos impactos que isso geraria nos gestores da empresa de mídia. Será que correr o risco de perder uma conta grande de anunciante no fim das contas é tão tranquilo assim? Como comentado anteriormente, no caso do doador, descontentar uma pessoa numa disputa dessa significaria, na parte financeira, abrir mão de uma quantia muito pequena. É claro que há uma sorte de outros elementos que importam na hora de manter o público, mas no fim das contas, caso ele queira ir embora, uma pessoa, além da sua própria audiência e de sua rede, não impactaria tanto no orçamento da iniciativa. Ficou evidente que fica mais fácil dizer não quando é para apenas uma pessoa. Fica o questionamento se o doador tivesse optado por um valor muito maior, como mil reais, por exemplo, se o profissional continuaria tão empoderado da sua função de jornalista. Ou se os doadores tivessem se agrupado para manifestar algum

descontentamento, se receberiam outro tipo de atenção. Mas estes não foram episódios ocorridos nos projetos analisados e qualquer inferência sobre a questão não seria baseada em dados de realidade.

De toda forma, poderíamos nos questionar se o jornalismo financiado coletivamente, ao estreitar as relações entre o jornalista e o público não geraria um tipo de pressão fazendo com que o trabalho feito com crowdfunding não possa ser considerado jornalismo, se visto com a ótica de que, ao perseguir a objetividade e imparcialidade, o jornalista deveria estar alheio à opinião do público. Nessa perspectiva, relembro que Reginato (2016), ao fazer um levantamento de quais seriam as funções do jornalismo apresentado na teoria nos últimos séculos percebeu que algumas das visões sobre o tema poderiam colocar em cheque a visão sobre a imparcialidade no jornalismo. Em especial quando compreendemos que algumas das funções podem ser selecionar o que é relevante, registrar a história, construir a memória, relatar o mundo contemporâneo, integrar e mobilizar as pessoas e apresentar a pluralidade da sociedade. Poderíamos entender que o trabalho feito, mesmo que em algum momento defenda os interesses de um grupo específico possa ser considerado jornalismo de qualidade.

Nesta perspectiva, invocamos o conceito de “jornalismos” múltiplos (assim, no plural), que Deuze e Witschge (2016) apresentam como uma possível compreensão da prática, numa perspectiva de que não existe apenas uma forma de fazer jornalismo e que ela deve se configurar de forma menos fechada e mais adaptável ao contexto. Ao levarmos em consideração as visões de Castells (2011), Lévy (2010) e Jenkins (2009) sobre a internet como um espaço aberto para dar visibilidade ao conteúdo de contracultura, passamos a compreender que se torna comum surgirem outras vozes e outras configurações do jornalismo que não as mais difundidas na grande imprensa. Ainda mais quando se sabe que em um ambiente off-line, como era anteriormente,