Nos últimos 50 anos tem vindo a ser acumulado uma matriz de investigação sobre RS, baseada em estudos descritivos e concetuais, que incidem sobre a representação popular de vários objetos sociais, sejam eles reais ou imaginários. Este corpus de investigação dá- nos o cenário impressivo da topografia mental de várias sociedades e culturas (Wagner, 1994). O denominador comum de tais investigações é a de que o conhecimento é um conjunto de crenças, imagens, metáforas e símbolos coletivamente partilhados pelo grupo, comunidade, sociedade ou cultura, como expressa a definição de RS por Jodelet:
Social representations are images that condense manifold meanings that allow people to interpret what is happening: categories which serve to classify circumstances, phenomena and individuals with whom we deal, theories which permit us to establish facts about them. When we consider social representations embedded in the concrete reality of our social life, they are all above together.
(Denise Jodelet, 1991)
Para Abric (1993), as RS são “construções sociocognitivas”, com componentes cognitivas e sociais, cujo significado é determinado pelo discurso e pelo contexto social. Flament (1994) define as RS como um conjunto organizado de cognições relativas a um objeto, compartilhadas pelos membros de uma população homogénea relativamente a esse objeto. Este autor partilha da conceção bipartida e estruturada de Abric: sistema central e sistema periférico. As RS são organizadas por múltiplas relações que podem ser orientadas, por implicação, causalidade e hierarquia, ou sistemáticas, por similitude, equivalência ou antagonismo. De acordo com Doise (1990) as RS são “realidades vivas”, são princípios geradores de tomada de posição, concretizadas através dos processos comunicacionais quando as pessoas estão perante objetos relevantes para o contexto da sua interação, e que estão ligados a inserções específicas de um conjunto de relações sociais.
Efetivamente, nem todas as investigações têm o mesmo entendimento sobre o termo “RS”: uns autores apresentam o conceito sob o ponto de vista pragmático, usando a
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representação para significar conjuntos de estruturados de opiniões e atitudes em geral, outros investigadores assumiram um ponto de vista mais teórico.
Esta diversidade decorre do caracter multidimensional do próprio conceito de RS: por um lado, a RS é concebida como um processo social de comunicação e de discurso, por outro lado, a RS é vista como atributos individuais, individualmente alcançados, ainda que partilhem as estruturas de conhecimento. Esta perspetiva dual do conceito torna-o versátil e dá aso a várias interpretações e usos que nem sempre são compatíveis entre si. Jahoda (1988) refere que esta abertura pode ser vista como uma séria desvantagem, porque a TRS não é clara, é inconsistente (Potter, 1996), fragmentada (McKinley e Potter, 1987) e confusa (Billig, 1988), ou que a sua investigação é demasiado divergente (Fife-Shaw, 1997). Efetivamente, não é intuito da TRS produzir explicações generalizáveis, uma vez que se constrói em contextos sociais, históricos e culturais que são únicos na síntese espaço- tempo.
Inversamente, Moscovici (1988) e Farr (1993) consideram que estas características podem ser uma precondição para futuros desenvolvimentos e elaborações, “There is no royal road to the study of a social representation” (Farr, 1993, 3). Não obstante, é importante que os métodos de pesquisa sobre as RS sejam compatíveis com a teoria; a teoria não é prescritiva no sentido de usar apenas um método em particular, até porque não podemos esperar que um fenómeno social volte a acontecer do mesmo modo, não sendo, por isso, possível replicar um estudo, pelo que existe uma forte potencialidade nos métodos de pesquisa pela flexibilidade que ela permite:
“las representaciones sociales de una sociedad en un momento determinado ofrecen la posibilidad de hacer comparaciones de rasgos, ritmos y procesos sobre fenómenos específicos que cuentan con el potencial de aportar información valiosa para esa sociedad y para otras en otros momentos”
(Gaudiano, 2012: 1055).
Wagner entende o conceito de RS sob dois pontos de vista: a partir do que se pode chamar a visão distributiva (Harré, 1984), a RS pode ser vista enquanto uma estrutura mental - i.e., cognitiva, avaliativa, efetiva e simbólica- de conteúdo sobre um fenómeno socialmente relevante, o qual toma a forma de imagens ou metáforas, e o qual é conscientemente
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partilhado com outros membros do grupo social. E na perspetiva coletiva, a RS é vista como um processo público de criação, elaboração, difusão e mudança do conhecimento partilhado no discurso quotidiano dos grupos sociais (Doise, 1990; Jodelet, 1989; Moscovici, 1984, 1988; Wagner, 1994; Vala, 2013); ou seja, “social representation is defined as the elaborating of a social object by the community” (Moscovici, 1963:251). Quanto aos critérios para definir a RS, não existe unanimidade sobre quantos são suficientes, no entanto, Wagner (1994) apresenta um conjunto de atributos/requisitos, tais como: a sua estrutura de aparência teórica de proposições hierarquicamente organizadas, formando um core central e um conjunto de elementos periféricos; a sua forma metafórica enquanto esquema figurativo; a sua função de ancoragem de novas experiências, e o facto de serem coletivamente partilhados.
Partindo da premissa da sociogénese das RS, Wagner (1994) considera que as RS são muito mais do que a partilha coletiva e a definição de uma estrutura interna, pelo que identifica cinco critérios30: consenso funcional, que não é necessariamente um consenso numérico, mas “funcional” pela necessidade de manter a existência da unidade social reflexiva bem com a durabilidade do grupo; a relevância31 dos objetos ou dos assuntos define-se se o modelo de comportamento dos indivíduos, ou dos grupos, mudar perante a presença de tais objetos; prática, refere-se ao facto de que só se pode considerar uma nova RS num grupo se este passar a agir na prática em conformidade com a mesma; função analítica, primeiro, se a RS implica ação/prática relativamente ao objeto representado, ele deverá conter elementos de conhecimento para todos os potenciais co-atores, i.e., cada indivíduo que possui uma certa representação também terá uma ideia do comportamento “normal” (i.e., adotado no dia a dia), partilhado por potenciais parceiros numa dada situação, que evocam uma representação específica e, segundo, se essas RS que fizerem parte da identidade social tiverem sempre informação sobre o seu grupo de referência; e, por fim,
30 Nota: nem todos estes critérios foram investigados empiricamente; eles são, simultaneamente, gerais e aplicáveis nos três campos de investigação das RS definidos por Wagner, e que serão apresentados no Ponto 3 deste capítulo.
31 As dicotomias de conceitos no uso quotidiano também podem dar pistas sobre o que é considerado relevante (emprego/desemprego, saúde/doença, guerra/paz…).
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a afiliação, é o lado objetivo do critério analítico e permite-nos chegar com exatidão a uma meta-informação holomórfica da representação.
Jaspers e Fraser (1984) relacionam a RS e a atitude, distinguindo que esta é a resposta individual baseada em disposições ou representações coletivas, é a resposta subjetiva individual ao seu mundo social, e a RS é a realidade social partilhada, a qual pode influenciar o comportamento individual. As RS são “sociais” porque são partilhadas por muitos indivíduos e, como resultado, elas tornam-se parte da realidade social.
Fraser (1994) discutiu as relações entre atitudes e RS e propôs as RS enquanto um conjunto estruturado de atitudes sociais; as RS são perspetivas do mundo e são usadas para estudar conceções semelhantes do mundo amplamente partilhadas num grupo (aferidas por metodologias qualitativas), enquanto que as atitudes medem as diferenças entre os indivíduos (aferidas por metodologias quantitativas).
De acordo com Rouquette e Flament (2003 apud Pivetti, 2005) a dimensão “social” é descrita mediante opiniões, atitudes, representações e ideologias. Indivíduos que mostram diferentes atitudes perante um objeto social podem partilhar a mesma representação social; do mesmo modo, indivíduos que mostram diferentes RS podem referir-se ao mesmo quadro ideológico (sendo este um conceito mais integrador).
No que concerne à relação entre RS e Práticas Sociais, esta tem sido controversa. Moscovici (1988) esclarece que as reações emocionais aos eventos externos não são a resposta direta a esses eventos; é a representação do evento que determina a compreensão e contribui para a explicação da resposta a esse evento. Neste sentido, a RS pode formatar a compreensão do seu objeto e pode induzir a certos comportamentos. Wagner (1993) discute uma ligação possível entre a representação e o comportamento e rejeita a função explicativa da RS; a RS apenas pode ajudar a descrever o comportamento individual, mas não pode explicá-lo. Wagner (1995) retoma a questão anterior e evidencia que o conceito de RS pode ser usado de acordo com os interesses do investigador e da metodologia preferida. O estudo de Jodelet (1989) sobre a representação da loucura é um dos raros estudos que revela este nível de avaliação. A um nível de avaliação social na qual o
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investigador está interessado na visão coletiva da RS, enquanto partilhada por um amplo grupo social, as mudanças na condição de vida podem mudar a representação relevante.
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