Costuma-se classificar o «apaixonar-se» como uma fonte importante de emoção positiva e um factor de promoção da saúde e satisfação (Fehr, 1988). Num estudo, as pessoas definiram alguns aspectos de amor: saúde, euforia, entusiasmo, afecto, contentamento, riso, etc. No início de uma relação de amor as pessoas estão apaixonadas, mas a intensidade da alegria vai diminuindo com o tempo, mantendo-se sem- pre uma certa quantidade de alegria. Depende da intensidade e frequên- cia das recompensas ligadas à interacção íntima. Esta alegria intensa é provocada pelo amor e pela intimidade, que por sua vez se baseia em relações anteriores com os pais e no desejo de amor com o parceiro amoroso (Hatfield e Rapson, 1993). Em ambos os casos encontra-se a experiência de uma grande alegria que vem da intimidade corporal. Os estilos de vinculação entre adultos apaixonados são semelhantes ao modo como se relacionaram com as suas mães. Estar apaixonado e ser admirado aumenta a satisfação com a vida. Quem está apaixonado forma uma imagem idealizada do outro. O outro aproxima-se dessa imagem a fim de haver menos conflito. Há diferenças na satisfação com a vida entre estas condições diferentes (Murray e Holmes, 1997; Campbell
Há uma relação entre a saúde e a satisfação com a vida que depende das relações entre a pessoa e os estados neuróticos; as pessoas felizes são menos neuróticas e os neuróticos são menos satisfeitos (Headey e Wearing, 1992). A saúde é mais importante para as pessoas mais velhas, sendo um indicador da sua satisfação com a vida ou a felicidade. Parece que a saúde é uma causa para a felicidade. Uma das maneiras de a feli- cidade poder afectar a saúde é através de uma boa relação de amor, podendo activar o sistema imunitário (Argyle, 2001). Os efeitos da felici- dade na saúde subjectiva podem também dever-se a processos cogni- tivos, como encarar a vida e a si próprio de forma diferente.
No que se refere à influência da saúde nas relações de amor, a litera- tura revela que, excepto nos estudos de casos, pouco existe acerca da transição para o amor nos adolescentes com doenças crónicas (Seiffge- -Krenke, 2001). As qualidades das relações românticas neste grupo especial de adolescentes não têm sido abordadas. Elos com as amizades íntimas foram também pouco explorados. Isto é surpreendente visto que vários aspectos da doença crónica podem debilitar o adolescente na sua capacidade de desenvolver ou manter amizades íntimas e rela- ções românticas. Por um lado, as doenças crónicas estão muitas vezes associadas a alterações na aparência física pouco atractivas. Por outro, a gestão da doença crónica afecta o estilo de vida geral do adolescente doente: as actividades de lazer podem ser reduzidas ou as rotinas diárias muitas vezes interrompidas.
Um estudo (Johnson e Aires, 1983) concluiu que de todas as caracterís- ticas examinadas, os problemas sociais com os pares estavam associa- dos de forma consistente à diabetes. O adolescente diabético só pode participar nas actividades típicas da juventude, como comer juntos, expe- rimentar álcool ou fazer férias com amigos, se aceitar riscos para a sua saúde ou tiver precauções especiais. A doença limita assim a possibili- dade de conformidade e o adolescente doente pode sentir-se diferente ou mesmo isolado. Por conseguinte, muitos adolescentes diabéticos receiam ser rejeitados pelos pares (Sullivan, 1953). Os adolescentes acreditam muitas vezes que os seus amigos gostariam mais deles se não tivessem essa doença.
Isto resulta num virar-se para si mesmo que pode afectar as relações com os amigos e namorados. Esta solidão pode prejudicar a capaci- dade de empatia, que é necessária para estabelecer amizades próximas, satisfatórias e íntimas. Dado que a intimidade sentida com um amigo íntimo do mesmo sexo é transferida para (ou serve de modelo para) a intimidade com num parceiro romântico (Furman e Wehner, 1994;
Sullivan, 1953), pode haver efeitos negativos para o desenvolvimento das relações românticas nos adolescentes diabéticos.
Ao longo deste capítulo, vários aspectos foram salientados a propósito do amor e do significado que pode ter, quando integrado no ciclo de vida dos indivíduos em geral, e dos adolescentes, em particular. No que diz respeito à definição de amor, pudemos constatar a variedade de pers- pectivas e modelos que resultam numa diversidade de significados e também de atitudes em relação ao amor. Em síntese, procurámos, neste terceiro capítulo, apresentar as implicações de constructos de natureza psicológica e de variáveis de índole sociodemográfica no amor dos ado- lescentes. Começámos por fazer uma análise do constructo do amor, das atitudes em relação ao amor e da natureza das relações de intimi- dade no amor.
De acordo com os benefícios associados às relações de intimidade no amor, tal como apresentados neste capítulo, esta experiência é então um factor de bem-estar e de satisfação com a vida, podendo o amor ser entendido como um contexto de vida facilitador e promotor do desenvol- vimento adolescente.
Integrando-se esta tese na área de educação intercultural, interessa- -nos a experiência de vida íntima adolescente, em particular uma análise das atitudes em relação ao amor na adolescência, mais especificamente em adolescentes portugueses e nos adolescentes de famílias imigradas em Portugal pertencentes a seis grupos étnico-culturais diferentes. É assim que, no capítulo seguinte, iremos proceder a uma análise da imigração em Portugal, em termos das suas características no contexto internacional e nacional com enfoque na situação actual. O nosso objec- tivo principal será agora procurar abordar os aspectos relacionados com o contexto da integração do adolescente de famílias imigradas em Portugal, centrando-se essencialmente na escola e na educação inter- cultural. Será feita uma especificação, que considerámos necessária, aos aspectos relacionados com o envolvimento social nos Bairros da Bela Vista e no Casal das Figueiras em Setúbal, onde grande parte da investigação empírica foi realizada. O capítulo está organizado em sete secções: 1) as migrações no contexto internacional, 2) o contexto migra- tório na Europa, 3) políticas de imigração em Portugal, 4) concentração nos centros urbanos, 5) evolução da imigração em Portugal, 6) a imigra- ção e a escola, e 7) a comparação entre grupos e diferenças culturais: contribuição para o estudo da intimidade.
CAPÍTULO IV – IMIGRAÇÃO
«A verdade é que os nossos problemas, os das gerações actuais, apesar de uma autêntica “cavalgada histórica”, não são menores do que os das gerações anteriores. São diferentes. Talvez até mais difíceis de resolver. E nem sequer nos poderá servir de consolação saber que, cada vez mais, os nossos problemas são parecidos com os dos outros países, tanto os vizinhos europeus, de Oeste como de Leste, quanto os dos outros Estados democrá- ticos do mundo».
Barreto, 1996, p. 15
A partir de 1974, Portugal sai do seu isolamento e intensifica a sua polí- tica de participação nas organizações internacionais, aproximando-se do resto da Europa (Convenções da OIT e do Conselho da Europa). Em Portugal, podem-se distinguir dois tipos de imigrações: os mais pobres, vindos dos países africanos e mais recentemente oriundos dos países de Leste, e outros, mais ricos, vindos da Europa. Os primeiros enfren- tam problemas relativos às necessidades básicas como o alojamento, vivem em bairros sociais em subaluguer e muitas vezes em barracas. A grande maioria dos homens trabalha ilegalmente em actividades de risco, como a construção civil, as mulheres em serviços não qualifica- dos, nas limpezas e na prostituição. Os outros são os diplomatas, os quadros superiores, os técnicos e gestores de empresas estrangeiras, com cursos superiores e um nível de vida mais elevado do que o da maioria dos portugueses. Há também que mencionar milhares de pes- soas, sobretudo do Reino Unido e Países-Baixos que aqui se instalaram após a reforma. Face ao panorama da imigração em Portugal e mais especificamente na área metropolitana de Lisboa, o objectivo das expla- nações deste capítulo não é o da construção de uma teoria explicativa das migrações, mas sim algumas chaves de leitura para a compreensão da problemática da migração.
Esta análise da actualidade migratória vai revelar o que se entende por «principal indicador», «a principal estrutura organizadora» e «a principal ferramenta» da mundialização dos fluxos migratórios.
Apresenta-se aqui uma abordagem para interpretar o fenómeno com- plexo das migrações mundiais e dos novos desafios lançados por um mundo cada vez mais globalizado, nomeadamente no que se refere aos jovens adolescentes e à sua intimidade.