La reformulation à caractère paraphrastique
1. MARQUEURS AUX VALEURS HÉTÉROGÈNES
1.2. ANCRAGE ET CONTINUATION : LE MARQUEUR “SO”
1.2.2. Une teneur sémantique variable
Aššur-uballit I (1365-1330 a.C.) ocupa diversas regiões do Mittani, aproveitando as campanhas hititas que enfraqueceram este reino, especialmente a de Suppiluliumas I, que venceu e matou o rei mitânio Tušratta. É a partir desse momento que o rei assírio começa a reivindicar o estatuto de “Grande Rei”, šarrum rabūm. A ascensão política da Assíria era vista com desconfiança, principalmente pela Babilónia cassita. Burnaburiaš chegou mesmo a pedir ao faraó satisfações a respeito de embaixadas assírias ao Egipto, vistas por ele como uma ameaça219.
Tukulti-Ninurta I (1244-1208 a.C.) leva o poder assírio até ao Eufrates, onde instala guarnições. Nessa zona de transição para o território dos Hititas, o confronto era inevitável: bate-os logo no primeiro ano de reinado, afirmando capturar 28 800 prisioneiros220. A norte da Assíria, submete também, segundo as suas palavras, 43 reis de Nairi, exigindo-lhes um juramento «pelos grandes deuses do céu e da terra»221, acentuando o seu potencial de ameaça entre os reinos vizinhos. A confirmação desse facto surge quando conquista a Babilónia, derrotando Kaštiliaš IV e instalando aí governadores. A Crónica Babilónica afirma que levou a imagem de Marduk para a Assíria, privando a Babilónia da presença do seu deus tutelar mais importante222.
219 LAPO 13, 9: «Maintenant, en ce qui concerne mes vassaux assyriens, ce n’est pas moi qui te les ai envoyés. Pourquoi de leur propre authorité sont-ils allés dans ton pays?». Apesar de tudo, Burnaburiaš acedeu a uma aproximação à Assíria, concertando o seu casamento com a filha de Aššur-uballit, Muballit- šerua. Este casamento teria surgido com toda a certeza, na sequência de um tratado celebrado entre os dois reis: «...between them made a treaty and together they fixed the boundary (riksāni úrakkis ina biri-
šunu miṣir ahameš úkinnu» (ABC, p. 171). Posteriormente, uma revolta, comandada por um certo Nazibugaš, depõe o sucessor de Burnaburiaš, Karahardaš, neto de Aššur-uballit: a intervenção assíria na Babilónia traz uma época de certa influência dos Assírios.
220 ARAB I, 164, 171. 221 ARAB I, 165.
222 KING, L. W., Records of the Reign of Tukulti-Ninib I, King of Assyria about BC 1275, Londres, 1904, p. 96-105.
59 É este o período da formação daquilo a que podemos chamar o núcleo territorial da Assíria (māt Aššur), que procura delimitar o seu espaço através de fronteiras naturais: a Oeste, o Eufrates; a Norte e Leste, as montanhas do Urartu e os Zagros e, a Noroeste, a linha do rio Khabur.
Após a morte de Tukulti-Ninurta, assassinado num golpe palaciano, a Assíria entra num período de retracção, resultado da recuperação da independência pelos Babilónios e dos efeitos das migrações arameias223. A Assíria faz recuar os seus limites, confinando-se a um espaço pouco maior que o “triângulo assírio”224. Reflexo dessa
retracção é a escassez de inscrições reais dos sucessores de Tukulti-Ninurta: estas regressam com regularidade apenas com Aššur-reš-iši (1133-1116 a.C.). Numa delas, este afirma-se como «vingador da Assíria» (mutir gimil māt Aššur) 225 destacando as suas vitórias contra os Arameus. A esta perturbação geral, tanto na Mesopotâmia como no resto do Próximo Oriente, não estão alheias mudanças climáticas que, ao longo de alguns séculos, entre cerca de 1200 a 900 a.C., foram surtindo os seus efeitos: está atestado para este período um aumento sensível das temperaturas médias em vastas regiões do Mediterrâneo Oriental, incluindo a Europa e a Mesopotâmia226. À escassez de chuva e diminuição dos caudais fluviais, seguia-se a perda de colheitas, com graves consequências para as disponibilidades de recursos das comunidades cuja subsistência se baseava na agricultura, incluindo na Assíria. As tribos de vida nomádica, como os Arameus, viram-se obrigadas a migrar para Norte, em busca do pasto que escasseava em regiões setentrionais mais frescas. No seu caminho encontraram a Assíria. As fontes escritas que se referem a este período estão cheias de referências a desgraças provocadas pela fome e pelos Arameus. Bastará um exemplo escolhido:
«In king Tiglat-Pileser’s thirty-second year, a famine so severe occurred that people ate one another’s flesh; [...] Aramean ‘houses’ [leia-se, tribos] plundered the land, seized the roads and conquered and took many fortified cities of Assyria. Citizens of Assyria fled to the mountains of Habriuri to save their lives; the Arameans took their [...] their money and their property...»227
223 As causas internas, todavia, também são relevantes, sintoma do enfraquecimento do poder real. O assassínio de Tukulti-Ninurta por um dos seus filhos é sinal claro das perturbações internas e lutas pelo poder no interior da Assíria. Cf. KUHRT, A., The Ancient Near East – c. 3000-330 B.C., vol. I, Londres, 1996, p. 358.
224 POSTGATE, WA 23/3 (1992), p. 249. 225 AKA, p. 20 = ARAB I, 209.
226 Sobre este assunto, um trabalho importante é o de NEUMANN, J. e PARPOLA, S., “Climatic Change and the Eleventh-Tenth-Century Eclipse of Assyria and Babylonia” JNES 46/3 (1987), pp. 161-182, que inclui diversa bibliografia sobre a questão.
60 1.3 Os primeiros reis neo-assírios.
Após o colapso do “sistema internacional” de Amarna e do período de declínio que se lhe seguiu, na viragem para o I milénio, as campanhas assírias voltam a incidir nas regiões adjacentes ao seu núcleo territorial. E isto não apenas para repelir as populações hostis das montanhas e as tribos arameias, mas também para retomar a marcha para o Eufrates, com o fim de aí recuperar uma mais eficaz linha de defesa e obter o tributo de pequenos potentados, dominados por via indirecta através da subordinação ao rei assírio.
Soberanos como Aššur-dan II e Adad-nirāri II228 justificavam adequadamente as suas iniciativas militares desta época por meio de uma retórica que as apresentava como uma recuperação legítima de territórios pertencentes à Assíria em épocas anteriores229. Os seus sucessores, Tukulti-Ninurta II e Aššurnasirpal II230, darão um maior impulso às tendências expansionistas: é cada vez mais visível a presença assíria, ou pelo menos a vigência do seu controlo, em regiões exteriores à “terra de Aššur”, sobretudo em territórios ocupados pelos recém-formados estados arameus.
Tukulti-Ninurta II, por exemplo, informa-nos de uma campanha que efectuou contra Amme-ba´al, soberano de Bit Zamani, região montanhosa perto da Anatólia. Este foi derrotado, mas o rei assírio “perdoou-o”, permitindo que se mantivesse no trono. Exigiu-lhe, todavia, um juramento que o comprometesse a fornecer cavalos exclusivamente à Assíria: «I had him take an oath by Aššur, my lord, before the statue of...: “If you give horses to my enemies and foes, may the god Adad strike your land with terrible lightning».231
Por volta de 885 a.C. empreende uma campanha que assume a forma de um périplo pelos limites dos seus domínios232. Nos seus anais, descreve-nos com detalhe o seu itinerário, que segue para sul até à Babilónia (Dur-Kurigalzu e Sippar), inflectindo
228
Aššur-dan II: 934-912; Adad-nirâri II: 911-891 a.C.
229 Este recurso ao passado e à memória como fonte de justificação para renovar um poder que havia sido apanágio dos antigos reis assírios é reforçado pela continuidade notável de certas instituições, desde o período antigo, entre as quais se destaca a própria monarquia, por via de uma sucessão dinástica apresentada como ininterrupta desde o séc. XVI a.C., como procura afirmar a Lista de Reis assíria; e mesmo o sistema de eponimato (limmu), mantido desde essa época até ao fim da Assíria. Sobre este assunto, consultar KUHRT, op. cit., pp. 348-349 e 478-481. Acerca da Lista de Reis assíria, as suas versões e caracteres ideológicos, consultar YAMADA, ZA 84 (1994), pp.11-37.
230 Tukulti-ninurta II: 890-884; Aššurnasirpal II: 883-859 a.C.
231 RIMA 2, I, p. 172. É clara a intenção de assegurar um afluxo regular de cavalos para a Assíria, privando deles, ao mesmo tempo, os seus inimigos.
232 RIMA 2, I, pp. 173-178. Para o itinerário desta campanha, consultar ainda SCHEIL, V., Les Analles de Tukulti Ninip II, Roi d’Assyrie 889-884, Paris, 1909, 6, pp. 15-25; 55-57.
61 depois para Noroeste, subindo o Eufrates até ao Khabur. No caminho, vai recebendo o tributo dos pequenos estados eufráticos. A sua descrição dessa campanha tem muito poucos episódios bélicos: além de algumas razias contra populações pastoris (Itu’eus, Muški), o rei assírio informa-nos, de forma algo monótona, que “na cidade x passou a noite; e de x partiu”, etc., enumerando o tributo que ia recebendo ao longo do caminho.233 Kuhrt nota, com razão, que esta campanha mais parecia uma “procissão militar” com o intuito de não só recolher tributo e inspeccionar estados submetidos, mas também de mostrar que o poder assírio continuava forte e presente234. É notória, pela
observação desse itinerário, a intenção de percorrer toda a linha fronteiriça fundamental da Assíria, entrando mesmo, pacificamente, em território babilónico. Este relato mostra como a intenção de levar a presença física do rei ao longo das fronteiras tinha o propósito, não apenas de mostrar o poder assírio, mas de materializar a presença real, para além da mera afirmação simbólica de poder.
Aššurnasirpal II fornece também exemplos eloquentes da amplitude do seu domínio. Alcançando o Mediterrâneo, lava, num acto simbólico cheio de significado, as suas armas no mar (ina tamdi rabīte kakkē-ja lūllil)235e oferece sacrifícios aos deuses, enquanto recebia o tributo de várias cidades da Fenícia. Este acto, se por si só é já significativo, amplifica o seu valor pelo facto de o rei ter sido visto a fazê-lo. O rei, em pessoa, esteve no local com os seus exércitos, onde honrou os deuses e de onde regressou indemne, o que constituía um sinal insofismável do favor divino. A estela que nessa ocasião mandou erguer no Monte Amanus236 é um testemunho físico do longo alcance do seu poder, que se manteria no local após a sua partida. A Assíria tende, cada vez mais, para extravasar os limites do seu espaço territorial, procurando exercer influência sobre áreas cada vez mais vastas, que incluíam o Norte da Síria, opção estratégica essencial para o acesso aos portos fenícios237.
233 ARAB I, 407-417.
234
KUHRT, op. cit., p. 483.
235 AKA, p. 199. Salmanasar III, o seu sucessor, também se arroga do mesmo feito, de ter chegado às costas do “Mar do Sol Poente”, além de ter colocado uma sua imagem real no monte Lallar, ARAB I, 558. Salmanasar também lavou as suas armas na nascente do rio Tigre, depois da sua campanha contra Til- Abne, no seu sétimo ano de reinado. Da mesma forma, no local instalou uma imagem sua e inscreveu nela os seus feitos (ARAB I, 564).
236 ARAB I, 479.
237 Além de ter percorrido o mundo até ao Mediterrâneo, trouxe, contudo, também um pouco do mundo com ele para a Assíria: através de uma prática com um enorme valor simbólico, religioso e político, comum nas monarquias do Oriente, levou para o seu palácio, em Kalhu, inúmeros animais exóticos, entre os quais elefantes, panteras, leões e aves exóticas, para que o «povo da sua terra os pudesse contemplar» (ARAB I, 519). Metáfora perfeita, portanto, para o controlo sobre o mundo, pacificamente integrado num microcosmo ordeiro, que entrava com cada vez maior força nos horizontes políticos da Assíria.
62 A construção, por Aššurnasirpal II, de um palácio em Tushhan (actual Kurkh), no limite norte do Khabur,238 e Dūr-Aššur, fortaleza que servia de ponto de apoio ao
controle assírio no sopé dos Zagros,239 é também significativa deste ponto de vista.
Aššurnasirpal dá continuidade a uma estratégia que visava controlar esses territórios de facto, com a presença assíria. Ao fazê-lo por via da construção de palácios e pelo erigir de estelas – marcas de poder com óbvia conotação ideológica, estreitamente ligadas à pessoa do rei – e não apenas pela construção de fortes e postos de controlo e abastecimento (halṣu, birtu) nas regiões fronteiriças, como era bem visível no Eufrates, Aššurnasirpal aprofunda a tendência para tornar permanente a presença assíria. O facto de se procurar reforçar a presença de um poder que, doravante, se queria tornar inamovível de um dado local, por meio de dispositivos simbólicos e performativos, não apenas com os meios que julgaríamos mais práticos e eficazes, pode parecer paradoxal. Mas a verdade é que esta forma de instituir in loco expressões ideológicas de poder, como estelas (narū), “imagens reais” (ṣalme šarrutim), relevos em paredes rochosas, ou mesmo a instalação de palácios, com todo o investimento simbólico e material que implicavam, era considerada um meio tão eficaz de implantação como o estabelecimento de guarnições.