A interiorização do tráfico é a expansão dos mercados para o interior do estado, em cidades de menor porte, motivados pelo aumento do número de consumidores, pela possibilidade de lucro e pela precariedade das instituições de segurança pública para repressão. A ausência de políticas públicas para o empoderamento de jovens nesses locais e a precariedade das opções para a entrada no mercado formal de trabalho fazem com que os mercados de drogas se tornem atraentes para os jovens. (WAISELFISZ, 2014)
O que se observou é que houve um aumento das taxas de homicídios por arma de fogo, resultantes de conflitos relacionados ao tráfico de drogas. Então, a questão é se isso é resultante da expansão dos mercados ou se é um avanço do modelo empresarial, em áreas
onde predominava o modelo de empreendedor individual. Nesse sentido, a entrevista a seguir, realizada com um gerente de uma cidade de pequeno porte do interior da Bahia, ajuda a compreender essa mudança.
Eu disse pra eles [representantes dos donos das firmas principais], doutora, aqui é pequeno, aqui é uma cidade muito pequena, não cabe duas facções, porque aí é muita coisa. Mas eles não querem saber, eles chegam pra saber com quem a gente vai fechar [quem vai ser o fornecedor]. Eles sabem que eu já tenho o meu chefe, ele tem o fornecedor. Já fecho com eles, já conheço, mas eles ficam em cima. Aí, um desses que não tem nada entra pra fazer o que eles querem, aí mata um pra ter poder. Porque eles prometem dinheiro, arma, poder, mas a gente não conhece eles bem. Os de cá eu conheço. (RÔMULO, 28 anos, gerente do tráfico, cidade de pequeno porte do interior)
Trata-se de um caso em que o rapaz era gerente do tráfico em uma cidade pequena, onde antes existia o modelo de empreendedor individual, que foi substituído por um modelo de empresa criminal, que vêm em franca disputa pelo monopólio da cidade. O entrevistado, que representa o dono das bocas, relata a pressão que eles sofrem e o risco de morte por traição dos companheiros, diante das promessas atraentes do outro grupo. (LESSING, 2008)
Esses conflitos foram abordados por Lima (2013), em seu estudo sobre o tráfico de drogas em um bairro da região metropolitana de Salvador, em que o vendedor individual foi substituído pelas empresas criminais que buscavam centralizar o comércio de drogas no bairro, em um processo nem sempre pacífico e uniforme. Alguns aderiram e outros resistiram e foram mortos, deflagrando uma guerra que teve o modelo empresarial como vencedor. (LESSING, 2008; LIMA, 2013)
Essas mudanças implicam profundas transformações nas cidades, tendo em vista que os moradores passam a viver com a sensação de insegurança e medo. Segundo diversas fontes, é uma tendência crescente, tal como se observa nos roubos a bancos. (OLIVEIRA, 2007)
Aqui não era assim não. Meu sobrinho foi preso com muita arma e munição, tinha 40 mil pra pagar a polícia. Se fosse a civil daqui ele ia ser solto, porque eles aceitam, mas foi a outra (militar). Levaram ele e vai descer pra Salvador. A mãe dele tá rezando e agradecendo ele tá vivo, porque iam matar ele. Não mataram porque a família toda viu a hora que eles chegaram. Hoje faz medo andar na rua, a gente não tem sossego, porque os traficantes matam mesmo e os outros, tudo novinho, faz qualquer coisa pra conseguir droga. Eu moro em cima dele [em uma casa de vários andares; a entrevistada mora no andar acima], já tentei mudar, alugar minha casa. Quem vai querer? Ele não muda não, já tentei conversar com ele, dar conselho, mas é muito dinheiro, doutora, muito... E muita gente, toda hora carro entrando, saindo, muito jovem envolvido e eles matam sem pena. Meu filho não sai nem na janela, ninguém fica na rua não. A rua é deles, porque aí, se alguém vê o que não devia? Se chegarem atirando nele, e a gente tiver chegando, ou saindo? (JOSELINA, 45 anos, tia de um dono de boca de uma cidade do interior do Estado).
O relato permite identificar o modo estruturado de comercialização, característico das empresas criminais, bem como a presença de armas de grande porte, o acúmulo de capital e os usos da violência letal, presentes nesse modelo de organização.
Outro ponto importante são os prejuízos para os não envolvidos, que residem no entorno, como a utilização reduzida dos espaços públicos, a desvalorização imobiliária e o medo constante de serem atingidos direta ou indiretamente por alguma retaliação, cujo alvo principal é o operador do tráfico. Nesses locais, a população passa a conviver com altos índices e diversos tipos de violência e, evidentemente, a ser afetada psicológica e fisicamente pelo estresse contínuo causado por esses eventos.
Os relatos de ameaça de morte relacionadas ao tráfico de drogas são cada vez mais frequentes, e os pedidos de intervenção pelo poder público, por parte das famílias dos jovens envolvidos também são frequentes. Nas cidades de menor porte, a rede social é menor, e as instituições de saúde estão muito capilarizadas, inseridas nos bairros populares e têm uma ligação mais estreita com as instituições de justiça, como juizado de menores e a promotoria, o que permite intervir de modo a evitar algumas mortes, principalmente de usuários- vendedores, que é o grupo de onde vem a maior parte das demandas.
Eu já fiz de tudo, doutora, pra ele sair, eu pedi pra internar ele, mas disse que não tem lugar. Pra ele sair daqui, porque família não quer e ele é viciado, ele vende e eu tô vendo a hora de matarem ele. Ele diz que não, mas já mataram dois lá perto e foi por dívida. Não tarda e ele tá morto, eu não quero perder mais esse filho. O outro mataram, não sei por quê. Eu quero salvar esse aqui. Aqui não era assim, mas mudou tudo, eles vêm cobrar na porta, anda de bando, de arma pra todo mundo ver. (CREUZA, mãe de Benito, de 19 anos, vendedor de drogas em uma cidade próxima de Salvador)
Trata-se da mãe de um rapaz que começou a vender drogas e era usuário contumaz. Consumiu a droga que deveria vender e ficou endividado. Ela fala da mudança do vendedor individual para o de empresas criminais, em que os operadores adotam o controle territorial e modos mais expressivos de uso de violência, cobranças de débito e riscos de vitimização de familiares.
A mãe solicitou intervenção da promotoria para afastá-lo da cidade e colocá-lo em um serviço para dependência química. A grande dificuldade é a escassez ou inexistência de serviços públicos para proteção e tratamento, ficando esse grupo à mercê de instituições de cunho religioso, sem regulamentação e fiscalização adequadas. Os relatos sobre a permanência nesses serviços são muito frequentes, período em que se sentem protegidos e representam um sossego para as famílias, sendo que, às vezes, a tramitação para a entrada num serviço desse tipo demora, e a pessoa pode ser morta antes de mesmo de conseguir vaga.