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Tecnoquímicas’s technological capacity

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3. Tecnoquímicas’s technological capacity

Enunciado 1. “Imigrantes dizem sofrer ameaças e extorsão para poder chegar ao Brasil93

Enunciado 2. “Um em cada três imigrantes está em situação irregular na cidade de São Paulo94

Enunciado 3. “Tem gente muito capacitada', diz empresária sobre imigrantes em SP95

Enunciado 4. “Refugiado ou Migrante? O ACNUR incentiva a usar o termo correto”

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Enunciado 1. “Imigrantes dizem sofrer ameaças e extorsão para poder chegar ao Brasil”.

Fragilizados, extorquidos, doentes. É assim que a maioria dos haitianos diz chegar ao Brasil. Guiados por coiotes, a chegada ao Brasil não encerra o sofrimento dos imigrantes. A reportagem fala de todo o processo dos haitianos para se instalar no Brasil, desde a saída do Haiti até a restrita escolha das cidades de destino no Brasil. Eles contam que apesar da crise política e financeira que o Brasil enfrenta, muitos arriscam tudo nessa viagem.

Na ocasião, o então Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo falou do combate aos coiotes. Os imigrantes que chegam ao Brasil pelo Acre estavam temporariamente impedidos de seguir para São Paulo. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, se queixou de não ter sido informado com antecedência a

93 Disponível em: < http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2015/05/imigrantes-dizem-sofrer-ameacas-e-extorsao-para- poder- chegar-ao-brasil.html>. Acesso em: 28 de agosto de 2019.

94Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/01/23/um-em-cada-tres-imigrantes- esta-em- situacao-irregular-na-cidade-de-sao-paulo.htm>. Acesso em: 03 de fevereiro de 2017.

95 Disponível em: < http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/05/tem-gente-muito-capacitada-diz-empresaria- sobre- imigrantes-em-sp.html>. Acesso em: 28 de agosto de 2019.

96 Disponível em: < http://www.acnur.org/portugues/noticias/noticia/refugiado-ou-migrante-o-acnur-incentiva-a-usar- o-termo- correto>. Acesso em: 28 de agosto de 2019.

respeito da vinda dos haitianos e da impossibilidade de receber tantas pessoas sem aviso prévio. Embora o convênio do Acre com São Paulo estivesse temporariamente suspenso se manteve com os demais estados. Tanto o estado do Acre quanto o de São Paulo manifestam sua dificuldade em lidar com a presença desses imigrantes.

Enunciado 2. “Um em cada três imigrantes está em situação irregular na cidade de São Paulo” A relativa facilidade de entrar no Brasil contrasta com a dificuldade para conseguir o visto permanente e assim poder manter-se no país e usufruir dos direitos de cidadão, direito de voto, que mesmo aqueles com visto permanente não têm. A matéria conta a história de um nigeriano que preferiu não ter o nome revelado. Ele chegou a São Paulo, após viajar 7.000 km. O jogador de futebol que veio sozinho de Imo, cidade ao sul do país africano, revela as dificuldades de viver no Brasil como irregular: "É muito difícil viver aqui, sem a família, sem amigos, sem emprego, sem casa [...]”. "Eu quero ficar. Não tenho para onde ir e não posso voltar".

De acordo com o site, na ocasião, a capital paulista possuía 368.188 estrangeiros registrados, número que seria 50% maior que o oficial. A clandestinidade se deveria a diversos fatores, entre eles a legislação em vigor no período, a oferta de outros tipos de visto, como de trabalho e de estudante, ambos com limite máximo de um ano e com possibilidade de renovação somente no país de origem do imigrante.

A mídia, UOL, não só menciona as dificuldades dos imigrantes de uma forma, mas também notícia a dificuldade de um imigrante em especial, o que promove um efeito de sentido de legitimidade.

Enunciado 3. “Tem gente muito capacitada', diz empresária sobre imigrantes em SP”

A reportagem de 23/05/2015 contou como uma empresária do ramo alimentício teve dificuldades para contratar alguns imigrantes para seu restaurante. O problema não foi a falta de qualificação dos candidatos. Além do desejo inicial da contratante de escolher entre os haitianos, ela foi positivamente surpreendida com a qualidade dos entrevistados. Ela revela que precisou deixar de lado a vontade de ajudar haitianos e contratou um camaronês e um nigeriano, já que tinham experiência de trabalho em cozinha. Uma professora e um perito hidráulico foram descartados por não terem afinidade com o trabalho ofertado pela empresária. A matéria ainda menciona outros 30 imigrantes que foram contratados por empresas locais. Alguns contratantes revelam a preferência por profissionais sem experiência em algumas funções justificando que desta maneira é mais fácil moldá-los de acordo com as necessidades de cada negócio.

Enunciado 4. “Refugiado ou Migrante? O ACNUR incentiva a usar o termo correto”.

A própria ONU viu necessidade de diferenciar os termos “Refugiado” e “migrante”. Uma das preocupações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) é salientar que os migrantes “continuam recebendo a proteção do seu governo”.

A argumentação discursiva em torno dos imigrantes, nesses enunciados, remonta a própria natureza da imigração brasileira. A ideia de que os imigrantes são pobres, incapazes, mão de obra excedente em seus países de origem, encontra ecos na história das relações de classes no Brasil. O Brasil foi construído, sobretudo, por braços e mãos estrangeiros. Desde a colonização, caracterizada pela exploração dos colonizados (indígenas), a escravidão dos negros africanos, a imigração dos colonos portugueses a partir de 1530, a chegada dos imigrantes europeus em meados do século XIX, como os italianos, suíços, alemães, seguidos pelos japoneses, que começaram a chegar ao Brasil a partir de 1908, nosso país viu no imigrante a saída para preencher a lacuna da mão de obra deixada pelo escravo.

Os enunciados que abordam o termo migrante/imigrante produzem um efeito de sentido de fragilidade, de vulnerabilidade dessas pessoas. São mencionados como aqueles que estão no limiar da sobrevivência.

Foucault, em seu livro “A Ordem do Discurso” já nos alertava para a problemática da soberania do significante. (FOUCAULT, 1996). As designações empregadas neste breve recenseamento, não tem uma definição transparente. O migrante/imigrante, por exemplo, é uma designação generalizante, que abarca em seu sentido não só aquele que não é nacional, como também desliza para o “ser humano vulnerável”, “subestimado”, “vitimizado”. Sua inferioridade, nos enunciados analisados, é tão consensual que o fato de alguns fugirem a essa regra causa surpresa e ganha notoriedade, como no enunciado 3. “Tem gente muito capacitada', diz empresária sobre imigrantes em SP”. O título da manchete poderia ser algo como: “empresária contrata imigrantes recém-chegados”, no entanto a fala da empresária “Tem gente muito capacitada” é eleita como título. O silenciamento de alguns enunciados e as condições de emergência de outros não são aleatórias, elas respondem a ideologia dominante. Ao afirmar “tem muita gente capacitada”, a empresária deixa pressuposto em sua fala: “imigrantes não tem capacitação”, ou “ é difícil encontrar imigrantes capacitados”. A empresária é fiadora dos imigrantes, pois é preciso que alguém ateste a capacitação

dessas pessoas. Em geral o que se destaca é a fraqueza, as dificuldades desse grupo de pessoas. Falar em capacitação, em qualificação é inusitado. O imigrante é mostrado como alguém “menor”, pessoas que mesmo tendo uma história de vida em seus países de origem, muitas delas de sucesso, ao chegarem ao Brasil são mencionadas apenas por seus flagelos.

O termo migrante é comumente associado às pessoas que migram para alcançar condições de vida melhores que as que desfrutavam em seus países de origem. Sequer consideramos que possam existir outras motivações para esse deslocamento, como a mudança em busca de proximidade com a família, em virtude de um namoro ou matrimonio. O enunciado 4. Destaca a necessidade de compreender a diferença entre os termos refugiado e migrante, justamente pela maior fragilidade da condição do refugiado. Entretanto, o fato é que o termo migrante/ imigrante parece ser menos estigmatizado que o termo refugiado, ao menos quando esse refugiado é oriundo de países de maioria mulçumana, como os sírios. Embora ambos os termos designem pessoas em condições relativamente semelhantes (estrangeiros) o imigrante não é mencionado, ou associado diretamente com o terrorista, assim como é o caso do refugiado. Essa, possivelmente, é uma das razões para uma maior tolerância com o termo migrante /imigrante. Historicamente, o imigrante foi a força de trabalho que alavancou nosso país, essa memória pode ser a responsável por colocar o termo em uma escala de maior prestigio que a de refugiado.

A tabela abaixo sintetiza os termos analisados e os deslizamentos de sentido que pudemos observar nesta breve análise.

TERMOS DESLIZAMENTO DE SENTIDO

GENTÍLICOS Escravos (pessoas exploradas)

REFUGIADOS Terrorista- visto com desconfiança (ameaça a segurança)

ESTRANGEIROS Colonizador- Padrão Idealizado

Para muitos, sair de um país não é apenas abandonar um território, um clima, ou mesmo a presença de membros da família. Muitos deixam para trás as raízes, a cultura, os hábitos, a relação com um lugar familiar e se enveredam por caminhos que nem sempre acolhem as peculiaridades de uma cultura diferente. Embora se faça um esforço para manter a identidade, ela poderá ser confrontada com novas e desafiadoras realidades. Seja qual for a designação usada para definir as pessoas em deslocamento, elas são produto de um imaginário coletivo, e não necessariamente de uma materialidade, uma possível realidade.

3. ACOLHIMENTO E REPULSA: A ENUNCIAÇÃO DOS CHEFES DE ESTADO