Este tópico apresentará uma análise do termo “estrangeiro”. Assim como nas análises anteriores buscamos, na dispersão, índices de similaridade, efeitos que nos indicassem as derivas de
87 O “11 de setembro de 2001” foi um capítulo trágico da história. Na ocasião um grupo de terroristas da organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda, sequestraram quatro aviões comerciais. Dois deles se chocaram, de maneira proposital, contra as Torres Gêmeas, na cidade de Nova York, um terceiro contra o Pentágono e o quarto caiu após a tentativa dos passageiros tomarem o comando dos terroristas. Não houve sobreviventes nesses voos, e outras tantas pessoas morreram em virtude dos efeitos das colisões dos aviões contra os prédios públicos e o complexo empresarial- por volta de 3.000 pessoas. Os terroristas suicidas que arquitetaram e executaram os ataques eram árabes e sob o comando de Osama bin Laden chocaram todo o planeta.
sentido do vocábulo “estrangeiro”. Abaixo citamos seis enunciados que usamos para ilustrar esses deslizamentos, seguidos pelo contexto de sua emergência e da análise dessa série.
Enunciado 1. “Nove estrangeiros que vivem em SP listam suas impressões sobre a cidade” 88
Enunciado 2. “Atraídos por favela pacificada, estrangeiros decidem morar e trabalhar no Vidigal, no RJ”.89
Enunciado 3. “Cartilha da Fifa para turistas estrangeiros causa polêmica”90
Enunciado 4. “O que mais impressionou os estrangeiros no Brasil”. 91
Enunciado 5. “O que estrangeiros mais buscam no Google sobre o Brasil?”92
O enunciado 1. “Nove estrangeiros que vivem em SP listam suas impressões sobre a cidade” mostrou o que estrangeiros, de diferentes países, acham de “estranho ou peculiar na cidade e nos costumes brasileiros”.
Os entrevistados foram: uma jornalista russa, um economista irlandês, uma terapeuta de dança alemã, uma empresária tailandesa, um modelo francês, uma professora panamenha, um gerente de marketing chinês, uma dona de restaurante camaronesa, uma sócia de restaurante libanesa. Cada entrevistado lista uma série de hábitos brasileiros que diferem daqueles de seu país de origem.
88 Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2014/01/1401763-nove-estrangeiros-que-vivem-em-sp- listam- suas-impressoes-sobre-a-cidade.shtml>. Acesso em: 29 de julho de 2019.
89 Disponível em: < https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/41715/atraidos-por-favela-pacificada- estrangeiros-decidem-morar-e-trabalhar-no-vidigal-no-rj >. Acesso em: 29 de julho de 2019.
90 Disponível em: http://oglobo.globo.com/esportes/copa-2014/cartilha-da-fifa-para-turistas-estrangeiros-causa- polemica- 11956639 >. Acesso em: 29 de julho de 2019.
91 Disponível em: < http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/07/o-que-mais-impressionou-os-estrangeiros- brasil.html>. Acesso em: 29 de julho de 2019.
Parecem estar num “safári humano”, em que os humanos (supostamente os prototípicos) observam os animais em seu habitat natural.
- “Os brasileiros adoram tomar banho”;
- “Aqui as pessoas não respeitam fila. É normal ver alguém passando na frente e ninguém falar nada”;
- “Sempre tem suco de laranja natural nos restaurantes e nas lanchonetes. É a melhor bebida do mundo! ”;
- “Aqui você pode ser convidado para ir à casa de alguém que não te conhece e ser bem recebido”; - “Ver as babás (geralmente negras) vestidas de branco é chocante –é algo que remete à escravidão ou, ao menos, a uma regressão social”;
- “Fico abismada quando vejo quantidades monumentais de comida ou de carne nos almoços de domingo. Por que tanta comida? "Não pode nunca faltar. Pode sobrar, mas faltar jamais!"
Os estrangeiros necessariamente não depreciam nosso país, eles apenas identificam pontos que acham curiosos em nossa cultura. No entanto, a escolha dos profissionais que comentam a respeito de nossas práticas culturais não parece aleatória. Se notarmos, veremos que se tratam de pessoas bem-sucedidas em seus países, e que desenvolvem profissões de algum prestigio social. Essa escolha poderia estar reforçando o imaginário de que estrangeiros são sempre pessoas de alta escolaridade, de grande intelecto, e principalmente bem-sucedidas financeiramente. Enquanto os estrangeiros contam como é viver em São Paulo, a reportagem traz o relato de um brasileiro, um paulistano tatuador, que conta como é morar em Lisboa, Portugal.
Em Portugal, as pessoas são desconfiadas, não interagem. A gente sempre será estrangeiro. Primeira vez em que fui a um banheiro de um bar apertado, escutei do garçom: "Só tomares atenção porque o autoclismo da sanita está avariado, epa!". Entrei no banheiro e procurei algo avariado. Aparentemente, nada quebrado! Puxei a descarga e a água não parava mais de sair. O atendente do bar não poupou "elogios"
Ele relata sua experiência como o estrangeiro em Portugal, fala da desconfiança e do pouco tato que os portugueses teriam com os imigrantes. O próximo enunciado também destaca o uso termo estrangeiro.
O enunciado 2. “Atraídos por favela pacificada, estrangeiros decidem morar e trabalhar no Vidigal, no RJ”, revela que após pacificação do morro do Vidigal, a favela carioca virou um ótimo negócio para os estrangeiros. Muitos deles relatam terem se mudado para o local cativados pela bela
vista que o morro oferece. O custo mais baixo dos aluguéis, a localização privilegiada além do interesse em conhecer o dia a dia de uma favela, também teriam sido fatores determinantes na escolha dos estrangeiros. Os moradores antigos afirmaram que apesar de verem vantagens em receber os estrangeiros, preocupam-se com o custo de vida na região, que segundo eles subiu muito desde a vinda dos novos moradores
Queremos manter a nossa identidade. Existe uma boa interação com os estrangeiros. Eles vieram para somar e são bem-vindos. Muitos deles desenvolvem trabalhos sociais na comunidade. No entanto, as coisas começaram a encarecer: o mercado, o aluguel, os serviços. E o que nos preocupa é que muitas pessoas saíram do Vidigal porque não conseguiram pagar por isso
Enunciado 3. “Cartilha da Fifa para turistas estrangeiros causa polêmica”
A Federação Internacional de Futebol criou uma cartilha para explicar aos estrangeiros o que esperar e o que não esperar dos brasileiros. Entre as dez “lições” se destacam a falta de pontualidade, o comportamento “liberal” do nosso povo, principalmente numa balada, onde o beijo, segundo eles, “é uma forma de comunicação não-verbal e não um convite para algo mais”. O guia ainda cita nosso “jeitinho brasileiro” de furar fila, e nossa falta de educação no trânsito, em que “a lei do veículo maior prevalece”.
Enunciado 4. “O que mais impressionou os estrangeiros no Brasil”
O texto conta as impressões que estrangeiros de diversas nacionalidades, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Suíça tiveram do Brasil. Entre as observações dos estrangeiros, que nos visitaram durante a Copa do Mundo, destacam-se desde a popularidade dos “gringos” com as mulheres até elogios a nossa Constituição, que segundo um dos entrevistados é mais flexível, tem emendas, enquanto a americana “é muito antiga e foi modificada poucas vezes”.
Enunciado 5. “O que estrangeiros mais buscam no Google sobre o Brasil?
Como o próprio enunciado indica a reportagem enumera 10 perguntas que os estrangeiros fazem a respeito dos brasileiros no Google. Tais como: qual é a nossa língua, qual é o nosso clima, entre outros.
Nos enunciados acima observamos certas recorrências. Os hábitos dos brasileiros, nossa cultura de maneira geral, aparentam servir de entretenimento para os estrangeiros. Usando de
metáfora: apresentamos nosso “menu” para que o público o conheça, mas o que evidenciamos não é, necessariamente nossos melhores pratos. Não destacamos nossos melhores temperos, não ofertamos nossa cortesia, mas sim aquelas que consideramos nossas mazelas, nossas características mais constrangedoras, como por exemplo o “jeitinho brasileiro” (enunciado 3). A “Cartilha da Fifa ilustra bem o que alguns autores chamaram de complexo de “vira-lata”, expressão cunhada por Nelson Rodrigues para se referir aos jogadores da Seleção Brasileira de futebol de 1958, que segundo ele, depois de perder a Copa do Mundo de 1950, continuou a perder no futebol, como se tivesse medo de se impor perante os adversários.
Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. (Byington, 2013, p. 71)
O conceito migrou do campo futebolístico para se referir não somente ao comportamento dos brasileiros no futebol, mas em outras questões, sobretudo na relação de subserviência que o brasileiro teria diante de alguns grupos de estrangeiros. Apesar de muito difundido entre os intelectuais, interpretes do Brasil, Jessé Souza (2018), critica a máxima de vira-lata do brasileiro. A ideia de que haveria sociedades majoritariamente guiadas pela emoção (disfórica) e outras pela razão (eufórica), corpo (disfórico) versus mente (eufórico), nações em que o Estado seria isento de corrupção, e berço da verdadeira ciência onde os países da Europa e Estados Unidos seriam decididamente detentores do conhecimento, enquanto o Brasil, por exemplo seria o país do “afetuoso”, do ‘homem cordial, é rechaçada pelo sociólogo (SOUZA, 2018).
Os textos revelam que esse estrangeiro é visto como alguém que pode exercer julgamento sobre nós. O colonizador e o colonizado, o dominador e o dominado, embates que resumem nossa história. Nosso comportamento é colocado como uma variação esdrúxula do padrão (padrão que supostamente seria o do estrangeiro). A luta silenciosa daquele que se curva, por reconhecer no ‘outro’ o direito legítimo de governar, um poder silencioso que atravessa os tempos e continua domesticando nossas práticas. A mídia ao criar pautas para seus leitores a respeito do termo estrangeiro, rememora e reproduz discursos que ao longo da história se atualizam, mas que demonstram uma subserviência histórica. Ao se posicionar e aderir à máxima de superioridade do estrangeiro, seja por criar ou reproduzir matérias que enalteçam os estrangeiros, as mídias destacadas denunciam a formação discursiva a qual se filiam. Preferem engrossar o coro de uma ideologia dominante, caracterizada por uma quase idolatria a países ditos de primeiro mundo, que ajudar a desconstruir as marcas de um passado de exploração promovido pelos mesmos países aos quais dedicam uma quase adoração.
A prática de se colocar como objeto de observação para o estrangeiro demonstra uma inquestionável subserviência. Outra questão bem importante, e em certa medida até paradoxal, embora não inédita, é o fato de que embora servis, sejamos também interessados/interesseiros, o que significa dizer que nossa servidão não é gratuita. As relações são atravessadas por uma especie de toma lá dá cá que se sustenta por uma postura servil, mas não desinteressada. Assim como mostra o enunciado 2. Atraídos por favela pacificada, estrangeiros decidem morar e trabalhar no Vidigal, no RJ” a troca de interesses/ favores, media as relações entre nacional e estrangeiro. Relações historicamente marcadas por desigualdades e exploração. Notamos no enunciado 2, uma tolerância parcial. Os moradores toleram os estrangeiros justamente porque esses trazem benefícios para o Vidigal.
O estrangeiro, no entanto, não se refere a todo aquele de outra nacionalidade. Nos textos eles são colocados como pessoas bem sucedidas e exercem um fascínio nos brasileiros. Muitos dos estrangeiros que aparecem na reportagem vivem no Brasil. Eles vêm da Rússia, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, China, Irlanda e Suíça. Países de maioria branca. Os brancos, historicamente, se sobrepuseram aos negros. Muitos homens, cujo simples desejo, exerceu poder de vida e morte para aqueles sob seu domínio. Essas relações não são facilmente apagadas, elas fazem parte de uma memória coletiva, da memória brasileira. É a ação da memória discursiva. O deslumbre pelo estrangeiro, a idealização de uma raça, de um credo, de um modelo de civilização a ser copiado resgata o processo de colonização. O acontecimento se curva à memória. Estrangeiro funciona como um hiperônimo, um termo que abarca em sua definição muitos outros. Palavras normalmente associadas a homens brancos e bem-sucedidos de outras nações: gringos, turistas. Na maioria das vezes a condição jurídica, as peculiaridades da definição não são consideradas. O estrangeiro é acolhido, mas não qualquer estrangeiro, apenas aqueles com o “perfil de colonizadores”. Parece haver um consenso que afirma e reafirma o exemplo de saber viver dessas pessoas, portanto elas não nos furtam nada, nenhum direito, só agregam com sua superioridade de colonizador. Segundo os relatos, somos hospitaleiros com essas pessoas. Como mostra o trecho da carta de Ribeiro Couto a Alfonso Reyes, escrita em outrora, mas que ainda reflete a postura da maioria dos brasileiros
“Como é bom, nos pueblos e aldeias da nossa América, no seu México como no meu Brasil, mandar entrar o caixeiro-viajante francês que vende peças de linho, ou o engenheiro alemão que está estudando a geologia local, e convidá-lo para almoçar! A gente grita logo lá para dentro: - Ó fulana, manda matar uma galinha!”...